poesia, tradução

As Folhas Mortas em diálogos e ecos, por Lilian Escorel

fd1c8dd04ae282b65ef48b4ddc2e5ab1

“O quebra-cabeças do amor com todos os seus pedaços”

Os textos a seguir formam um círculo de vozes em diálogo, cujo epicentro, “Les Feuilles Mortes”, esconde-se no título “La Chanson de Prévert” e se insinua no primeiro verso “Oh, je voudrais tant que tu te souviennes”.

Quem conhece Jacques Prévert identifica de imediato o diálogo. Quem não conhece, descobre-o no corpo desta canção de Serge Gainsbourg, que incorpora o título “Les Feuilles Mortes” à letra da música.

As folhas mortas são, de fato, o leitmotiv dos textos, duas canções francesas, por mim traduzidas, e um poema, releitura das canções, que se embalam, e se embaralham, na melodia preferida da amada. Com seu poder encantatório, a música enleva e evoca os dias felizes do idílio. As folhas do outono recordam a separação, a tristeza e a frieza do esquecimento, contra o qual o amante combate com o verso: “Ah! eu queria tanto que você se lembrasse.”

A canção é composta primeiro, sem letra, por Joseph Kosma para “Le Rendez-vous”, balé do coreógrafo francês Roland Petit, em 1945, que contou também com a participação de importantes artistas modernos, como Picasso na cortina, o fotógrafo George Brassaï no cenário e Prévert no argumento. A letra da música veio depois. Foi Jacques Prévert quem a escreveu por encomenda de Marcel Carné para que figurasse como a canção-tema da trilha sonora de Les Portes de la Nuit, filme desse cineasta francês em 1946 e para o qual o poeta também escrevera os diálogos. A parceria Carné-Prévert estendeu-se a uma série de filmes, que contribuiu para a estética do realismo poético, em que ganhou lugar de destaque Les Enfants du Paradis.

Mas “Les Feuilles Mortes” não teve uma carreira de sucesso na França. A canção só repercutiu quatro anos depois de seu lançamento no filme, cuja história transcorria na Paris pós-ocupação, num quadro noturno e sombrio, interpretado, em trechos, pela dupla romântica Yves Montand e Nathalie Nattier, protagonistas que substituíram os atores chamados inicialmente: Marlene Dietrich e Jean Gabin. A atriz alemã declinara do papel por questões políticas.

A primeira gravação de “Les Feuilles Mortes” data de 1947, em registro de voz da francesa Cora Vaucaire. Yves Montand só a gravou em 1949. O sucesso da canção francesa, porém, não viria da voz dos intérpretes franceses. Chegou em nova roupagem: “Autumn Leaves”.

Conta-se que a carreira norte-americana de “Les Feuilles Mortes” deve-se a Janine e Jacques Enoch, editores de Kosma, que a negociaram com Joseph Goldstein, então em busca de uma canção de amor para a ruptura de Sinatra e Ava Gardner. Jonhy Mercer, letrista do intérprete de My way, foi quem escreveu em 1949 o texto em inglês, uma adaptação do original.

Apesar de gravada por destacados músicos do jazz como Stan Kenton e Artie Shaw, foi só em 1955 que “Autumn Leaves” ganhou projeção internacional. A versão inglesa alcançou a primeira posição na Billboard Top 100, durante quatro semanas, com um arranjo feito para piano por Roger Williams – conforme se lê em C’est une chanson – biographie de Joseph Kosma, de Françoise Miran.

Perto de 700 interpretações dessa música foram gravadas. Muitas delas ganharam fama e multiplicaram-se em filmes. “Autumn Leaves”, dirigido por Robert Aldrich e estrelado por Joan Crawford em 1956, foi o primeiro de uma série a assimilar a canção.

“Les Feuilles Mortes”, conforme a história mostra, eternizou-se em diferentes arranjos musicais e línguas. No inglês, ficaram célebres as versões na voz de Nat King Cole e Frank Sinatra. Mas depois deles, seguiu-se uma fila: Eric Clapton, o dueto Chick Corea/Bob MacFerrin, Joan Baez e Bob Dylan, que a apresentou recentemente em recepção do prêmio Nobel de literatura em Estocolmo. Na língua francesa, destacaram-se as gravações de Yves Montand, da musa do existencialismo Juliette Greco, de Edith Piaf, que incluiu também a versão em inglês na sua interpretação, e do tenor italiano Andrea Bocelli. Marlene Dietrich tentou vocalizar sua versão, mas Prévert não a autorizou. Não pôde perdoá-la pela recusa do papel no filme que desencadeara sua canção.

Em português, guardamos raridades desta música, que parece ter chegado ao Brasil pela versão do italiano Teddy Reno, registrada em 1950. Ao que se reporta, o primeiro brasileiro a gravá-la, no original francês e em um vozeirão clássico à época, 1952, foi o cantor, compositor e ator brasileiro Ivon Cury. Depois dele, sucederam-se mais de uma dezena de versões, variando entre a canção francesa e a adaptação inglesa e incluindo também a elaboração de duas versões, nelas baseadas, para a língua portuguesa do Brasil. “Folhas Mortas”, redigida por Clímaco César e gravada por Zezé Gonzaga em 1955, deriva de “Les Feuilles Mortes”. “Folhas de Outono”, escrita por Juvenal Fernandes, e interpretada por Carlos Galhardo em 1956, revela “Autumn Leaves” na sua base (possível conferir clicando aqui).

Contamos, por fim, com uma pérola inédita e duas preciosas gravações instrumentais: Hector Costita no sax em 1962 e Dick Farney ao piano em 1975. A pérola é a voz de Maysa que deixa sua marca registrada dessa canção no álbum Maysa sings songs before dawn, gravado nos Estados Unidos em 1961 e depois, registrado na Espanha, na língua desse país, para difusão na América Latina. Maysa sings songs before dawn não foi publicado aqui. Tornou-se um mito no Brasil.

No mesmo ano de 1961, o músico francês Serge Gainsbourg lança seu terceiro álbum L’étonnant Serge Gainsbourg, que expõe seu amor à poesia francesa. Nele, ao lado de “La Chanson de Maglia”, a evocar e citar o poeta romântico Victor Hugo, está “La Chanson de Prévert”.

Serge Gainsbourg, intérprete e músico, multiartista inconformado e inquieto, que inicia a carreira na pintura e depois a renega, é herdeiro das propostas das vanguardas artísticas. Gainsbourg não gravou mais uma versão de “Les Feuilles Mortes” em tributo à sua admiração por Joseph Kosma, músico caído no limbo, e pelo poeta que se popularizou na França. Usou de procedimento moderno, fazendo uma releitura da criação de Prévert. Bebeu, assimilou e recriou a canção do poeta popular francês que se valera de igual procedimento em sua obra poética, indo mesmo além, como bem ilustra o poema “Bibliofolie”, em Imaginaires (1970). “Bibliofolie” expressa a ideia de um livro feito de todos os livros, aberto e sem ponto final, sempre a se recriar. No lugar de bibliophilie, culto ou idolatria pelos livros, Prévert prefere o neologismo bibliofolie, em que se destaca a palavra folie. É, de fato, na ordem da loucura, aliada à liberdade, que Prévert propõe sua construção poética. A remissão a obras de escritores ou artistas com os quais sua poesia dialoga e a referência à própria obra constituem seu processo criativo.

Uma das maiores contribuições das vanguardas modernas foi promover o diálogo e a colaboração entre as artes e trazer para o primeiro plano a reflexão e o debate sobre o fazer artístico. Rompem-se as fronteiras entre os gêneros literários e as diversas artes, que passam a se intercomunicar. Na literatura, na música, nas artes plásticas, os artistas tornam-se críticos de si mesmos e expõem os bastidores da criação, publicando seus manuscritos, suas cartas e outros documentos de ordem privada, ligados ao processo criativo.

A noção de originalidade é posta em xeque: quem terá sido o autor da ideia plasmada naquela forma? Os artistas passam, assim, a revelar suas fontes, leituras e apropriações. Um poeta, um músico ou um pintor não se fazem sozinhos. O conceito de obra única e definitiva, tão caro ao período romântico, é desestabilizado. As diferentes versões de um original quebram a hierarquia do valor estético do primeiro. A obra original não é necessariamente a melhor. A citação, a paródia, a imitação, o pastiche, a colagem são procedimentos naturalizados, e mesmo valorizados, no fazer artístico.

Jacques Prévert, poeta no rol dos autores seletos de Gainsbourg, foi um artista de talento igualmente múltiplo: iniciou-se na dramaturgia, passou à redação de roteiros de cinema, enveredou para a poesia e a letra de canções, foi autor infantil, pintou colagens e retratos. Escreveu livros em parceria com diversos artistas. Picasso, de quem era amigo, brincava que Prévert era um grande pintor, mesmo sem saber pintar.

O surrealismo orientou suas ideias estéticas. Foi, segundo ele, a escola onde fez seu curso de humanidades (“Ce fut au surrèalisme où j’ai fait mes humanités“) . O primeiro contato com o movimento aconteceu no fim de 1924, quando conhece a revista La Révolution Surréaliste e se impacta com uma literatura surrealista avant la lettre. No início de 1925, encontra André Breton, passando então a frequentar o grupo surrealista e a participar de suas atividades, como a escrita automática, o sono hipnótico, a narrativa de sonhos e jogos que envolviam a linguagem. O célebre jogo surrealista Cadavre exquis teve no título a coautoria de Prévert. Durante esse período, porém, que vai até 1930, quando rompe com o líder do movimento, o poeta em formação publicou seus textos poéticos apenas em periódicos. Foi só em 1945 que saiu Paroles, livro de estreia marcado pela experiência e pelas matrizes surrealistas. Depois dele, suas experimentações poéticas e com outras linguagens artísticas ampliaram-se em Histoires (1946), Grand bal du printemps (1951), La pluie et le beau temps (1955), Fatras (1966), livro marcado pela presença de graffiti e colagens, Imaginaires (1970), Choses et autres (1972).

Um Vinícius de Moraes francês, como já se disse por aqui, Prévert é, porém, pouco conhecido no Brasil. Sua poesia, vertida para o português, saiu apenas, salvo engano, em Poemas, seleção e tradução de Silviano Santiago, em edição bilíngue pela Editora Nova Fronteira (2000) e Dia de folga, dezesseis poemas selecionados pelo ilustrador Wim Hoffman e traduzidos por Carlito Azevedo, em edição da Cosac Naify (2004).

Entrelaçados, então, nessa rede de leituras e no diálogo entre as artes, as traduções e o poema acima decorrem de canções que se correspondem e se repetem numa relação amorosa de tributo e de reinvenção. De mãos dadas com a poesia e a música, apresentam-se feito amantes. No espelho destes, a imagem que se reflete é o reverso de Narciso: Eco. Eco de amor, eco de dor, eco de vida, eco de morte. Eco da memória do idílio numa roda de canções que tange a corda do coração ad infinitum, movida por uma tensão própria à linguagem dos amantes.

Aquela que Gainsbourg plasmou também em outra canção, esta, sim, famosa em francês e que provocou forte abalo à época de seu lançamento. Eram então tempos de revolução no amor, na política e na vida social. “Je t’aime, moi non plus” (1967). Minha canção.

Ou aquela outra, por fim, que Jacques Prévert fixou nas areias movediças do belo poema de amor Sables Mouvants, em tradução de Adriano Scandolara:

Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
E você
Como uma alga no lento afago do
vento
Sonha na areia do teu leito em movimento
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Mas ao ver de perto os teus olhos entreabertos
Duas ondinhas ficam entre os amantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
Duas ondinhas para me afogar em instantes.

Imagem, entre tantas outras, desencadeada por esse assunto que teve um papel fundamental na filosofia dos surrealistas. A de resgatar no adulto a imaginação criadora, livre e desimpedida, da infância. Porque, conforme apontou um crítico francês, para os poetas desse movimento as palavras devem “fazer amor”:

E rolando como bola de fogo os lençóis ao pé da cama
Sorrindo pro mundo todo descobre
O quebra-cabeças do amor com todos os seus pedaços
Por Picasso escolhidos escolhidos todos os pedaços
Um amante e a amada e umas pernas em um pescoço
E os olhos nas bundas as mãos por todo lado
Pés levantados pro céu e os seios de cabeça pra baixo
Dois corpos enlaçados trocados acariciados
O amor decapitado liberto na cama extasiado

(tradução minha)

* * *

 

AS FOLHAS MORTAS
Jacques Prévert
Ah! eu queria tanto que você se lembrasse
dos dias felizes em que éramos amigos
Naqueles dias a vida era mais bela
e o sol mais ardente do que hoje
As folhas mortas recolhem-se com a pá
As lembranças e os lamentos também
E o vento do norte os leva ainda além
na noite fria do esquecimento
Ah! você está vendo, eu não esqueci
a canção que você cantava pra mim

É uma canção que se parece com a gente
Você me amava e eu te amava
e nós vivíamos juntos os dois
você que me amava e eu que te amava
mas a vida separa aqueles que se amam
assim bem de mansinho, sem fazer ruído
e o mar apaga na areia
os passos dos amantes desunidos

As folhas mortas recolhem-se com a pá
As lembranças e os lamentos também
Mas meu amor silencioso e fiel
à vida agradece e sempre sorri
Eu te amava tanto e você era tão linda
Como pode querer que eu te esqueça?
Naqueles dias a vida era mais bela
e o sol mais ardente do que hoje
você era a minha doce amiga
mas nada posso fazer senão lamentar
e a canção que você cantava
eu sempre sempre vou escutar

Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux ou nous étions amis
En ce temps-la la vie était plus belle,
Et le soleil plus brulant qu’aujourd’hui
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle
Tu vois, je n’ai pas oublié…
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l’oubli.
Tu vois, je n’ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

C’est une chanson qui nous ressemble
Toi, tu m’aimais et je t’aimais
Et nous vivions tous deux ensemble
Toi qui m’aimais, moi qui t’aimais
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie
Je t’aimais tant, tu étais si jolie,
Comment veux-tu que je t’oublie?
En ce temps-la, la vie était plus belle
Et le soleil plus brulant qu’aujourd’hui
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n’ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais
Toujours, toujours je l’entendrai!

§

 

A CANÇÃO DE PRÉVERT
Serge Gainsbourg

Ah ! eu queria tanto que você se lembrasse
esta era a sua canção
era a sua preferida
a do Prévert e Kosma

E toda vez “As Folhas Mortas”
me fazem lembrar de você
todo dia os amores mortos
não acabam nunca de morrer
Eu também fico com outras
a elas me entrego sim
mas é monótona a canção delas
e pouco a pouco eu vou ficando indiferente
contra isso não tem o que fazer

Porque toda vez “As Folhas Mortas”
me fazem lembrar de você
todo dia os amores mortos
não acabam nunca de morrer

Será que um dia saberemos onde começa
e quando termina a indiferença?
Ah! que o outono passe e o inverno chegue
e a canção de Prévert “As Folhas Mortas”
esta canção se apague de vez da minha lembrança
Nesse dia, nesse dia enfim, meus amores mortos
terão morrido em mim

Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Cette chanson était la tienne
C’était ta préférée, je crois
Qu’elle est de Prévert et Kosma

Et chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour, les amours mortes
N’en finissent pas de mourir

Avec d’autres bien sûr je m’abandonne
Mais leur chanson est monotone
Et peu à peu je m’indiffère
À cela il n’est rien à faire

Car chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour, les amours mortes
N’en finissent pas de mourir

Peut-on jamais savoir par où commence
Et quand finit l’indifférence
Passe l’automne, vienne l’hiver
Et que la chanson de Prévert

Cette chanson, les feuilles mortes
S’efface de mon souvenir
Et ce jour là, mes amours mortes
En auront fini de mourir

Et ce jour là, mes amours mortes
En auront fini de mourir

§

 

TE AMO, EU TAMBÉM NÃO
Lilian Escorel

Ah! eu queria tanto que você se lembrasse
essa era a nossa canção
não a do Prévert
a nossa era a do Gainsbourg

Naqueles dias nós éramos tão felizes
brincávamos naquela praia
nas noites quentes de verão
você era a minha onda
eu era a sua ilha nua
você ia e vinha no meu ventre
e eu te acolhia
você ia e vinha
e a onda crescia
você ia e vinha
e eu me retinha
você ia e vinha

até que exaustos
quebrávamos
na areia
fazendo muita espuma

os corpos
estendidos
juntos
bem unidos

Mas pouco a pouco
o tempo da dor chegou
e assim bem de mansinho
sem fazer ruído
o mar levou
nossos passos

Foi numa tarde fria de outono
que o nosso amor acabou

As folhas mortas recolhem-se com a pá
as lembranças e os lamentos também
foi assim que Jacques Prévert cantou

Sim, é certo,
as folhas mortas recolhem-se com a pá
mas nossa canção não
“Je t’aime, moi non plus”
sussurro dos amantes delirantes
irresolutos
essa canção de Gainsbourg
vai sempre ecoar
tocar a corda do meu coração

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s