tradução

1 poema de Anne Boyer por Isabella Martino

Anne Boyer

Anne Boyer (nascida em 1973) já apareceu aqui antes na escamandro, em tradução de Rafael Mantovani (clique aqui). O poema abaixo pertence a um de seus principais livros: “Garments Against Women” (2015), uma obra híbrida que passa pelo ensaio poético, poemas em prosa e narrativos. Uma poeta que encara o problema filosófico e material de escrever e, em extensão, de sobreviver nesse mundo contemporâneo, em uma entrevista para a Poetry Foundation, ela declara: “Eu gostaria de descobrir algum jeito de viver que fosse mais do que só informação. Eu gostaria de descobrir algum jeito de escrever aquilo que necessitamos sem que se transformasse em pornografia ou algo muito particular. Gostaria de escrever que estamos alienados, inseguros, que o nosso próximo mês é tão regularmente pior do mês vigente. Há muitas coisas em comum para muitos de nós, são essas coisas difíceis e comuns da vida que nenhuma exibição algorítmica de afeto pode suavizar.”

Isabella Martino nasceu em São Paulo, 1988, é poeta, pesquisadora e tradutora.

* * *

Não estou escrevendo
Quando não estou escrevendo eu não estou escrevendo um romance chamado 1994 sobre uma jovem
mulher de uma cidade provinciana que tem um emprego em um centro empresarial recortando e
colando o tempo. Não estou escrevendo um romance chamado Nero sobre a
artista-estrela no espaço. Não estou escrevendo um livro chamado A Melancolia de Kansas City. Não estou escrevendo a continuação de A Melancolia de Kansas City chamada Maldoror das Putas. Não estou
escrevendo um livro de filosofia política chamado Questões para Poetas. Não estou
escrevendo memórias escandalosas. Não estou escrevendo um livro de memórias patético. Não estou
escrevendo memórias sobre poesia ou amor. Não estou escrevendo memórias de
pobreza, cobrança de dívidas ou bancarrota. Não estou escrevendo sobre a vara
de família. Eu não estou escrevendo memórias porque memórias são para os proprietários
e nem estou escrevendo memórias sobre proibições de memórias.

Quando não estou escrevendo memórias eu também não estou escrevendo poesia de qualquer tipo
nem poemas contemporâneos em prosa ou de outra forma, nem poemas em fragmentos,
nem poemas apertados ou compactos, nem afrouxados ou conversacionais,
nem poemas conceituais, nem poemas virtuosísticos empregando muitos tipos diferentes
de dispositivos eufônicos, nem poemas com epifanias e nem
poemas sem epifanias, nem poemas documentais sobre os últimos momentos políticos,
nem poemas carregados de alusões à teoria crítica e música popular.

Eu não estou escrevendo “Estação Atocha” por Anne Boyer e certamente
não estou escrevendo “Nadja” por Anne Boyer, no entanto, gostaria de escrever “Dívida”
por Anne Boyer, no entanto, eu também não estou escrevendo “A Ideologia Alemã” por
Anne Boyer e nem escrevendo um roteiro chamado “Espartaquistas”.

Não estou escrevendo considerações a meu respeito mais miseráveis que as de Rousseau.
Não estou escrevendo considerações mais inocentes que as de Blake.

Não estou escrevendo poesia épica apesar de gostar do que Milton disse sobre poetas líricos
beberem vinho enquanto poetas épicos devessem beber água em uma tigela de madeira.
Eu gostaria de beber vinho em uma tigela de madeira, ou beber água
direto de uma garrafa vazia de vinho.

Eu não estou escrevendo um livro sobre compras, o que é uma mulher fazendo compras.
Eu não estou escrevendo relatos de sonhos meus ou de qualquer outra pessoa.
Eu não estou escrevendo reconstituições históricas de nenhuma literatura duracional.

Eu não estou escrevendo coisa alguma que alguém me tenha pedido ou que esteja esperando,
nem um ensaio poético ou qualquer tipo de ensaio, nem uma resposta de mesa redonda,
nem respostas de entrevistas, nem escrevendo motes para que escritores mais jovens desenvolvam,
nem meus pensamentos sobre crítica literária ou canções populares.

Eu não estou escrevendo uma nova constituição para a república de nenhuma história.
Eu não estou escrevendo um testamento ou um boletim médico.

Não estou escrevendo posts no Facebook. Não estou escrevendo notas de agradecimento ou de desculpas.
Não estou escrevendo anais de conferência. Não estou escrevendo
resenhas de livros. Não estou escrevendo sinopses.

Eu não estou escrevendo sobre arte contemporânea. Eu não estou escrevendo relatos das
minhas viagens. Eu não estou escrevendo resenhas para a “The New Inquiry” e nem
artigos para a “Triple Canopy” e nem escrevendo para a “Fence”. Não estou
escrevendo anotações diárias das minhas leituras, atividades e ideias. Não estou
escrevendo ficções científicas sobre o problema da ideia de autonomia
na arte e nem ficções científicas problematizando uma sociedade
com apenas uma lei que é o consentimento. Eu não estou escrevendo histórias baseadas

nas ideias de histórias não escritas por Nathaniel Hawthorne. Não estou escrevendo perfis
para sites de relacionamento. Não estou escrevendo comunicados anônimos. Não estou escrevendo
livros didáticos.

Eu não estou escrevendo a história desses tempos ou dos tempos passados ou de tempo futuro algum
e nem mesmo a história dessas visões que estão comigo os dias todos
e as noites todas.

§

 

Not Writing

When I am not writing I am not writing a novel called 1994 about a young
woman in an office park in a provincial town who has a job cutting and
pasting time. I am not writing a novel called Nero about the world’s richest
art star in space. I am not writing a book called Kansas City Spleen. I am
not writing a sequel to Kansas City Spleen called Bitch’s Maldoror. I am not
writing a book of political philosophy called Questions for Poets. I am not
writing a scandalous memoir. I am not writing a pathetic memoir. I am not
writing a memoir about poetry or love. I am not writing a memoir about
poverty, debt collection, or bankruptcy. I am not writing about family
court. I am not writing a memoir because memoirs are for property owners
and not writing a memoir about prohibitions of memoirs.

When I am not writing a memoir I am also not writing any kind of poetry,
not prose poems contemporary or otherwise, not poems made of frag-
ments, not tightened and compressed poems, not loosened and conversa-
tional poems, not conceptual poems, not virtuosic poems employing many
different types of euphonious devices, not poems with epiphanies and not
poems without, not documentary poems about recent political moments,
not poems heavy with allusions to critical theory and popular song.

I am not writing “Leaving the Atocha Station” by Anne Boyer and certain-
ly not writing “Nadja” by Anne Boyer though would like to write “Debt”
by Anne Boyer though am not writing also “The German Ideology” by
Anne Boyer and not writing a screenplay called “Sparticists.”

I am not writing an account of myself more miserable than Rousseau.
I am not writing an account of myself more innocent than Blake.

I am not writing epic poetry although I like what Milton said about lyric
poets drinking wine while epic poets should drink water from a wooden
bowl. I would like to drink wine from a wooden bowl or to drink water
from an emptied bottle of wine.

I am not writing a book about shopping, which is a woman shopping.
I am not writing accounts of dreams, not my own or anyone else’s.
I am not writing historical re-enactments of any durational literature.

I am not writing anything that anyone has requested of me or is waiting
on, not a poetics essay or any other sort of essay, not a roundtable re-
sponse, not interview responses, not writing prompts for younger writers,
not my thoughts about critical theory or popular songs.

I am not writing a new constitution for the republic of no history.
I am not writing a will or a medical report.

I am not writing Facebook status updates. I am not writing thank-you
notes or apologies. I am not writing conference papers. I am not writing
book reviews. I am not writing blurbs.

I am not writing about contemporary art. I am not writing accounts of
my travels. I am not writing reviews for The New Inquiry and not writ-
ing pieces for Triple Canopy and not writing anything for Fence. I am not
writing a daily accounting of my reading, activities, and ideas. I am not
writing science fiction novels about the problem of the idea of the au-
tonomy of art and science fiction novels about the problem of a society
with only one law which is consent. I am not writing stories based on

Nathaniel Hawthorne’s unwritten story ideas. I am not writing online dat-
ing profiles. I am not writing anonymous communiqués. I am not writing
textbooks.

I am not writing a history of these times or of past times or of any future
times and not even the history of these visions which are with me all day
and all of the night.

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