poesia norte-americana, tradução

Angelina Weld Grimké, por Mariana Correia Santos

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Angelina Weld Grimké foi poeta, dramaturga, jornalista e professora, nasceu em Boston, Massachusetts (EUA), em 1880, numa família miscigenada e influente no movimento abolicionista: suas tias-avós eram Angelina e Sarah Grimké, famosas sufragistas; seu pai era Archibald Grimké, segundo negro a se formar na Universidade Harvard e vice-presidente da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor).

É mais conhecida por seu trabalho poético e pela peça anti-racista “Rachel” (1916), cuja montagem a colocou entre os primeiros dramaturgos estadunidenses negros a terem peças performadas publicamente. Em poesia, Grimké é descrita como uma autora sentimental, mais voltada às experiências subjetivas – em temas como o amor perdido, o desejo frustrado –, se comparada aos demais escritores negros contemporâneos a ela. No entanto, alguns de seus poemas parecem se abrir para experiências daqui e de lá em encontro. Seus ensaios, contos e peças concentram sua produção mais expressamente social, ao abordar com destaque o linchamento e o racismo institucional.

Foi um nome importante para o Harlem Renaissance. Seus poemas apareceram em antologias editadas por Langston Hughes e Countee Cullen, e em periódicos da época. Publicou pouco em vida. Teve parte de seu trabalho editado postumamente pela Oxford University Press no volume The Selected Works of Angelina Weld Grimké (1991). Deixou diários e cartas, que indicam que era lésbica. Morreu na cidade de Nova Iorque, em 1958.

Mariana Correia Santos

*

Your Hands

I love your hands:
They are big hands, firm hands, gentle hands;
Hair grows on the back near the wrist……
I have seen the nails broken and stained
From hard work.
And yet, when you touch me,
I grow small ………and quiet………
………And happy………
If I might only grow small enough
To curl up into the hollow of your palm,
Your left palm,
Curl up, lie close and cling,
So that I might know myself always there,
………Even if you forgot.


As suas mãos

Amo suas mãos:
São mãos grandes, mãos firmes, mãos gentis;
Pelos crescem atrás, próximos ao pulso……
Conheço suas unhas quebradas e manchadas
Do trabalho duro.
Ainda assim, quando me toca,
Me apequeno…………. e me aquieto………..
……………….E me alegro……………………..
Se eu pudesse apenas ficar pequena o bastante
Para me encaixar no vão da sua palma,
Sua palma esquerda,
Me encaixar, deitar rente e me apegar,
Para que eu me encontre sempre lá,
………………Ainda que você me esqueça.

§

The Black Child

I saw a little black child
Sitting in a gold circle of sunlight;
And in his little black hand,
He had a little black stick,
And he was beating, beating,
With his little black stick,
The sunlight all about him,
           And laughing, laughing. 

And he was so fat,
There were dimples at his tiny, wriggling toes,
            And at his knees,
           And at his elbows,
          And at his fingers,
        And in his cheeks,
       And in his little chin. 

And his black hair was plaited
          Into innumerable, little braids,
                    All over his little head;
        Very even, very fine, very cunning,
                 They were. 

And his skin was ebon, beautiful,
With a bloom, a shining gleam upon it.
O! he was all black,
          Save for his tiny white teeth
         And the whites of his eyes,
        And the white cloth about his little middle.

And he sat in the gold circle of sunlight
        Kicking with his little feet,
        And wriggling his little toes,
       And beating, beating
      The sunlight all about him,
     With his little black stick,
     And laughing, laughing. 

And the circle of gold slipped tip-toeing away,
          Tiptoeing away from the little black child.
          And a little black hand slid into the shadows,
                     Into black shadows,
        And a little black leg,
       And a little black foot,
      And the half of a little black braided head,
      And a little black shoulder,
     And a little black beating stick,
     And a little black beating hand,
    And all that was left,
   At the edge of the circle of gold,
   Was a little black kicking foot
               And little black wriggling toes
              Wriggling – wriggling – gone! 

A little black child
            Sat in the black shadows,
            Kicking with his little feet,
           And wriggling his little toes,
          And beating, beating
         The shadows all about him,
         With his little black stick,
         And laughing, laughing.

A criança negra

Vi uma pequena criança negra
Sentada em um círculo dourado de sol;
E em sua mãozinha negra
Ela tinha um pequeno galho preto,
E ela batia e batia
Com seu pequeno galho preto,
A luz do sol sobre ela toda,
E ela rindo, rindo.

E era tão gorda,
Com dobrinhas em seus agitados dedinhos do pé,
E em seus joelhos,
E em seus cotovelos,
E em seus dedos das mãos,
E em suas bochechas,
E em seu pequeno queixo.

E seu cabelo negro estava entrançado
Em inumeráveis trancinhas,
Por toda a sua cabecinha;
Bem-feitas, bem bonitas, bem engenhosas,
Elas eram.

E sua pele era retinta, linda,
Com certo florescer sobre ela, um brilho luminoso.
Ah! era toda negra,
Exceto os seus dentinhos brancos,
E o branco de seus olhos,
E o tecido branco sobre seu corpinho.

E sentava-se em um círculo dourado de sol
Chutando com seus pezinhos,
E contorcendo seus dedinhos,
E batendo e batendo
A luz do sol sobre ela toda
E seu pequeno galho preto,
E ela rindo, rindo.

E o círculo de ouro foi embora de fininho,
De fininho para longe da pequena criança negra.
E uma mãozinha negra escorregou para as sombras,
Para as negras sombras,
E uma perninha negra,
E um pezinho negro,
E parte de uma cabecinha negra trançada,
E um ombrinho negro,
E um pequeno galho preto batendo,
E uma mãozinha negra batendo,
E tudo o que restou,
Nas margens do círculo de ouro,
Foi um pezinho negro chutando
E dedinhos negros contorcendo-se
Contorcendo-se – contorcendo-se – findos!

Uma pequena criança negra
Sentada em sombras negras,
Chutando com seus pezinhos,
E contorcendo seus dedinhos,
E batendo e batendo
As sombras sobre ela toda
E seu pequeno galho preto,
E ela rindo, rindo.

§

Tenebris

There is a tree, by day,
That, at night,
Has a shadow,
A hand huge and black,
With fingers long and black.
        All through the dark,
Against the white man’s house,
        In the little wind,
The black hand plucks and plucks
       At the bricks.
The bricks are the color of blood and very small.
        Is it a black hand,
       Or is it a shadow?

Tenebris

Há uma árvore, na manhã,
Que, à noite,
Forma uma sombra,
Uma mão enorme e negra,
De dedos longos e negros.
Por todo o negrume,
Contra a casa do branco,
Ao menor vento,
A mão negra cutuca e cutuca
Os tijolos.
Os tijolos são da cor de sangue e bem pequenos.
É ela uma mão negra
Ou é uma sombra?

§

Fragment

I am the woman with the black black skin
I am the laughing woman with the black black face
I am living in the cellars and in every crowded place
     I am toiling just to eat
  In the cold and in the heat
     And I laugh
I am the laughing woman who’s forgotten how to weep
I am the laughing woman who’s afraid to go to sleep

Fragmento

Sou a mulher da preta preta pele
Sou a mulher que ri de preto preto rosto
Vivo nos porões e em lugares lotados
Trabalho só para comer
No frio e no calor
E rio
Sou a mulher que ri que esqueceu como chorar
Sou a mulher que ri que teme ir deitar

§

El Beso

Twilight – and you,
Quiet – the stars;
Snare of the shine of your teeth,
Your provocative laughter,
The gloom of your hair;
Lure of you, eye and lip;
Yearning, yearning,
Languor, surrender;
           Your mouth,
And madness, madness,
Tremulous, breathless, flaming,
The space of a sigh;
Then awakening – remembrance,
Pain, regret – your sobbing;
And again quiet – the stars,
Twilight – and you.

El beso

O crepúsculo – e você,
Quieta – a estrela;
A armadilha do brilho de seus dentes,
Sua risada provocativa,
A melancolia em seus cabelos;
Seu ardil, olhos e lábios;
Ansiando, ansiando,
Languidez, entrega;
Sua boca,
E insanidade, insanidade,
Trêmula, arfante, ardente,
O espaço de um suspiro;
Então acordar – lembrança,
Dor, arrependimento – os seus soluços;
E quieta, novamente – a estrela,
O crepúsculo – e você.

§

A Winter Twilight

A silence slipping around like death,
Yet chased by a whisper, a sigh, a breath;
One group of trees, lean, naked and cold,
Inking their cress ‘gainst a sky green-gold; 

One path that knows where the corn flowers were;
Lonely, apart, unyielding, one fir;
And over it softly leaning down,
One star that I loved ere the fields went brown

Um crepúsculo de inverno
Um silêncio ao redor como a morte desliza,
Ainda que seguido por um sussurro, um suspiro, um respirar;
Um grupo de árvores magras, nuas e frias,
Tingindo contra um céu verde e dourado as suas copas;

Um caminho que sabe onde ficam as flores do milho;
Solitárias, afastadas, inabaláveis, um abeto;
E inclinando-se suavemente sobre elas, por mim amada
Antes dos campos tornarem-se marrons, uma estrela.

§

Mariana Correia Santos (1996) é poeta, escritora, tradutora e assistente editorial. Nasceu em Guarujá, na Baixada Santista. Vive em São Paulo e cursa graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP), na qual se concentra em estudos de poesia, tradução e sociedade. Participou do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE) da Casa das Rosas. Publicou poemas na Revista Lavoura e no projeto Sutura, e traduções na revista catalã sèrieAlfa e nas Notícias de outras ilhas, da Revista Cult. É autora da plaquete independente de poesia espaços íntimos (2019). marianacorreiasantos.com.

*

Padrão
poesia norte-americana, tradução

Nikki Giovanni, por Danieli Corrêa

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Nikki Giovanni, nascida Yolande Cornelia Giovanni. Jr, em Knoxville, Tennessee em 1943, é uma grande poeta norte americana, embora pouco conhecida no Brasil. Tem uma escrita que nos soa familiar: fala sobre si, o que vive e sente, sobre suas experiências. Dentro desse espectro, aborda temas como amor, amizade, rejeição, raiva, frustração. De certa forma, organiza o que sentimos em palavras de forma natural, parecendo simples, porém com uma consistência que não tem nada de ingênua. Além de poeta, Nikki é professora, ativista e além de escreve literatura infantil e de não-ficção.

Para traduzir, passei por muitas versões de laudos e manuais para, finalmente, tentar me guiar por caminhos mais contemplativos, ainda que sem perder a firmeza. Assim como na vida, me deixei levar pela poesia buscando amaciar corações enrijecidos, além do meu próprio, e tenho prosperado. Esperando que cada pessoa, ao ler um poema, sinta o calor que dele emana em tempos cada vez mais frios.

Danieli Corrêa 

*

I would not be different

Every now and then
We all fall in love
With a totally inappropriate
Person

And I would not be different

You sort of see someone
And you don’t want to notice
That ring on his finger
Nor really that sort of happy
Look in his eyes

You do however know
Immediately
How wonderful it would be
To fall into those arms
To nuzzle the hairs
Of his underarms
To rub your cold feet
Against those thighs

You do want to know
What the water would feel like
As it caresses you two
In a rainbow shower
The soapy suds swirling around
As you kiss and kiss and kiss

You do want to know
How he takes his eggs
Whether his toast should be buttered

On both sides
If he drinks decaf or regular

But he is a totally inappropriate person
And all the world knows
This cannot work

Yet all the world would think
If they could see him
“I want to be in love with that”

And I would not be different

Comigo não seria diferente

De vez em quando
Todos nós nos apaixonamos
Por uma pessoa completamente
inapropriada

E comigo não seria diferente

Você meio que vê alguém
E não quer perceber
Aquele anel em seu dedo
Muito menos aquele olhar de felicidade
em seus olhos

Você, no entanto, sabe
Imediatamente
Como seria maravilhoso
Cair em seu braços
Acariciar os pelos
de suas axilas
Esfregar seus pés gelados
Em suas coxas

Você quer saber
Como seria sentir a água
A acariciar vocês
Em um banho de arco-íris
As bolhas de sabão borbulhando
Enquanto vocês se beijam e beijam e beijam
Você quer saber sim
Como prepara seus ovos
Se passa manteiga nas torradas

Dos dois lados
Se o café é normal ou descafeinado

Mas é uma pessoa totalmente inapropriada
E o mundo todo sabe
Que isso não pode dar certo

Mesmo assim, o mundo pensaria
Se vissem essa pessoa
“Eu quero me apaixonar”

E comigo não seria diferente

§

Bicycles

Midnight poems are bicycles
Taking us on safer journeys
Than jets
Quicker journeys
Than walking
But never as beautiful
A journey
As my back
Touching you under the quilt

Midnight poems
Sing a sweet song
Saying everything
Is all right

Everything
Is
Here for us

I reach out
To catch the laughter

The dog thinks
I need a kiss

Bicycles move
With the flow
Of the earth

Like a cloud
So quiet
In the October sky
Like licking ice cream
From a cone
Like knowing you
Will always
Be there

All day long I wait
For the sunset
The first star
The moon rise

I move
To a midnight
Poem
Called
You
Propping
Against
The dangers

Bicicletas

Poemas da madrugada são bicicletas
Nos levando a caminhos mais seguros
Do que aviões
Mais rápidas
Do que caminhar
Mas nunca um caminho
Tão bonito
Quanto as minhas costas
Te tocando embaixo do edredom

Poemas da madrugada
Cantam uma doce canção
Dizendo que
está tudo bem

Está
Tudo
aqui por nós

Me estico
Para alcançar a risada

O cachorro pensa
Preciso de um beijo

Bicicletas se movem
com a brisa
da Terra

Como uma nuvem
Tão quieta
No céu de outubro
Como lamber um sorvete
No cone
Como saber que você
Estará
Sempre lá

Espero o dia todo
Pelo pôr do sol
Pela primeira estrela
Pela lua

Me movo
Para o poema
Da madrugada
Chamado
Você
Se apoiando
Nos perigos

§

No translations

the smells of a pot roast from the oven
turnips garlic onions
potatoes celery parsnips
tomatillo yucca root

Jack Frost painting
the windows

my cold feet
your warm back
“It started in New Orleans
but now its everywhere . . .” Pure Jazz on your dial

chocolates coffee
a good red wine
18 degrees and falling
high winds
maybe a power loss

giggles laughter
sweatpants jeans

I speak to you
in the language
of love

no translations
necessary

Nenhuma tradução

o cheiro de um assado no forno
nabos alho cebolas
batatas salsão mandioquinha
tomatillo¹ mandioca

quadro do Jack Frost
as janelas

meus pés gelados
em suas costas quentes
“Começou em New Orleans
mas agora está em todo lugar. . .” Pure Jazz no rádio

chocolates café
um bom vinho tinto
18 graus e caindo
ventos fortes
talvez uma queda de energia

risinhos risada
moletom jeans

Converso com você
no idioma
do amor

nenhuma tradução
se faz necessária

§

Mercy

She asked me to kill the spider
Instead, I got the most
peaceful weapons I can find

I take a cup and a napkin.
I catch the spider, put it outside
and allow it to walk away

If I am ever caught in the wrong place
at the wrong place, just being alive
and not bothering anyone,

I hope I am greeted
with the same kind
of mercy.

Misericórdia

Ela me pediu para matar a aranha
Ao invés disso, peguei as armas
mais pacíficas que pude encontrar

Peguei um copo e um guardanapo.
Capturei a aranha, levei-a para fora
deixei que fosse embora

Se eu for pega no lugar errado
no local errado, apenas vivendo
sem incomodar ninguém,

espero ser acolhida
com a mesma
misericórdia.

§

I wrote a good omelette

I wrote a good omelet… and ate
a hot poem… after loving you
Buttoned my car… and drove my
coat home… in the rain…
after loving you
I goed on red… and stopped on
green… floating somewhere in between…
being here and being there…
after loving you
I rolled my bed… turned down
my hair… slightly
confused but… I don’t care…
Laid out my teeth… and gargled my
gown… then I stood
… and laid me down…
To sleep…
after loving you

Escrevi um bom omelete

Escrevi um bom omelete e comi um poema quente…
depois de te amar
Abotoei meu carro… e dirigi meu casaco
para casa… na chuva…
depois de te amar
Segui no vermelho… e parei no verde… flutuando por aí…
aqui e ali…
depois de te amar
Enrolei minha cama… soltei meu cabelo…
um pouco confusa, mas… não me importo…
Vesti meus dentes… fiz um gargarejo na camisola…
então fiquei de pé… e me deitei…
Para dormir…
depois de te amar

§

Danieli Corrêa, tradutora e revisora de textos. Nasci, cresci e me formei no interior, moro agora em São Paulo, cidade que é um caso de amor e ódio (no meu caso, mais amor do que ódio, sempre bom dosar), trabalho regularmente como revisora em uma agência.

*

Padrão
poesia, tradução

Danez Smith, por André Capilé

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Danez Smith é poeta & performer, não-binário & soropositivo, nascido em St. Paul, Minnesota. Publicou Homie (Gaywolf Press, 2020), Don’t Call Us Dead (Graywolf Press, 2017) & [insert] boy (YesYes Books, 2014). Com publicação prevista no Brasil, ainda este ano [2020] do livro Não Digam que Estamos Mortos [Don’t Call Us Dead], pela Bazar do Tempo, Danez aportará no país na próxima edição da FLIP. O conjunto de poemas na presente obra trata, em direto, de temas como a violência que acomete jovens negros estadunidenses, bem como a dinâmica dos relacionamentos e experiências homoafetivas, também tocando em aspectos das vivências das pessoas com hiv/aids.

Contundentes e necessários, os poemas de Danez conversam de modo muito próximo à realidade brasileira em vários de seus fulcros. Em um breve exercício de contextualização, assumindo a triste rotina de não apagar, de vez, a existência dos nossos mortos, se se trocassem os nomes arrolados em “dear white america” por João Pedro, Marcos Vinícius, Miguel, os mortos na Candelária, os 12 jovens mortos na chacina do Cabula, e seria possível continuar a interminável a contagem dos cadáveres, estaria disposta a sinistra simetria da necropolítica que assombra esses corpos.

“dinosaurs in the hood”, que começa como espécie de peça de comédia, rapidamente gira sobre os próprios saltos e estabelece incômodos ao mudar o enfoque da graça para os sentidos graves da reflexão sobre protagonismo negro, sequestros de imaginário por via dos cenários de composição da maquinaria audiovisual e as possibilidades de um sujeito preto, desde a infância, em manter-se vivo. Importa dizer que Danez joga sempre com muita perícia no manejo do verso e das referências, o que tentei responder o melhor possível e contribuir para o campo — no caso desse poema, em especial, devo atribuir a Sergio Maciel a solução do título; embora eu soubesse a fonte da referência, “boyz n the hood” [os donos da rua, no Brasil], foi com ele que cheguei [ele soprou] “os dinos”.

“dear white america”, bem como “dinosaurs in the hood”, são dois dos poemas de Não Digam que Estamos Mortos. “Alternate Names for a Black Boys” comparece aqui como bônus track. Todos os textos estão acompanhados de vídeos que trazem Danez em ação. Não deixe de assistir, mesmo.

Cabe o registro de agradecimento à Ana Cecília Impellizieri Martins, editora da Bazar do Tempo, pela cessão dos poemas ora aqui publicados. Também à Maria Graciema de Andrade & Catarina Lins pelo cuidado com a edição do livro no Brasil.

Agradeço, ainda, e nunca tarde, às generosas conversas travadas com Guilherme Gontijo Flores ao longo do processo de tradução do livro, com quem mantive interlocução frequente. Também ao sempre presente Paulo Henriques Britto, meu professor, meu mestre maior.  

* * *    

dear white america

i’ve left Earth in search of darker planets, a solar system revolving too near a black hole. i’ve left in search of a new God. i do not trust the God you have given us. my grandmother’s hallelujah is only outdone by the fear she nurses every time the bloodfat summer swallows another child who used to sing in the choir. take your God back. though his songs are beautiful, his miracles are inconsistent. i want the fate of Lazarus for Renisha, want Chucky, Bo, Meech, Trayvon, Sean & Jonylah risen three days after their entombing, their ghost re-gifted flesh & blood, their flesh & blood re-gifted their children. i’ve left Earth, i am equal parts sick of your go back to Africa & i just don’t see race. neither did the poplar tree. we did not build your boats (though we did leave a trail of kin to guide us home). we did not build your prisons (though we did & we fill them too). we did not ask to be part of your America (though are we not America? her joints brittle & dragging a ripped gown through Oakland?). i can’t stand your ground. i’m sick of calling your recklessness the law. each night, i count my brothers. & in the morning, when some do not survive to be counted, i count the holes they leave. i reach for black folks & touch only air. your master magic trick, America. now he’s breathing, now he don’t. abra-cadaver. white bread voodoo. sorcery you claim not to practice, hand my cousin a pistol to do your work. i tried, white people. i tried to love you, but you spent my brother’s funeral making plans for brunch, talking too loud next to his bones. you took one look at the river, plump with the body of boy after girl after sweet boi & ask why does it always have to be about race? because you made it that way! because you put an asterisk on my sister’s gorgeous face! call her pretty (for a black girl)! because black girls go missing without so much as a whisper of where?! because there are no amber alerts for amber-skinned girls! because Jordan boomed. because Emmett whistled. because Huey P. spoke. because Martin preached. because black boys can always be too loud to live. because it’s taken my papa’s & my grandma’s time, my father’s time, my mother’s time, my aunt’s time, my uncle’s time, my brother’s & my sister’s time . . . how much time do you want for your progress? i’ve left Earth to find a place where my kin can be safe, where black people ain’t but people the same color as the good, wet earth, until that means something, until then i bid you well, i bid you war, i bid you our lives to gamble with no more. i’ve left Earth & i am touching everything you beg your telescopes to show you. i’m giving the stars their right names. & this life, this new story & history you cannot steal or sell or cast overboard or hang or beat or drown or own or redline or shackle or silence or cheat or choke or cover up or jail or shoot or jail or shoot or jail or shoot or ruin

                                                        this, if only this one, is ours.

 

cara américa branca

deixei a Terra em busca de planetas mais escuros, um sistema solar rodando bem perto de um buraco negro. parti em busca de um novo Deus. eu não confio no Deus que nos foi dado. o aleluia de vovó só é superado pelo temor que ela nutre toda vez que o verão sangueseboso engole outra criança que costumava cantar no coral. leva seu Deus daqui. embora suas canções sejam lindas, seus milagres são inconsistentes. eu quero a fortuna de Lázaro para Renisha, quero que Chucky, Bo, Meech, Trayvon, Sean & Jonylah ressuscitem três dias após seus sepultamentos, seus fantasmas re-ofertados carne & sangue, carne & sangue re-ofertados a suas crias. deixei a Terra, tô tão de saco cheio do seu volta pra África, quanto do seu não enxergo raça. tampouco os álamos. não construímos seus barcos (embora deixássemos uma trilha de ancestrais pra nos guiar pra casa). não construímos suas prisões (embora sim, as construíssemos & também as lotássemos). não pedimos pra fazer parte da sua América (não somos a América, apesar de? seus frágeis nós, arrastando um vestido esfarrapado por Oakland?). firme não suporto o chão dos seus fundamentos. tô de saco cheio de chamar tua imprudência de lei. cada noite conto meus irmãos. & pela manhã, quando alguns não sobrevivem pra serem contados, conto as covas que deixaram. Estendo a mão ao povo preto & toco apenas o ar. seu truque de mestre, América. ora ele respira, ora não. abra-cadáver. macumba pra turista, feitiço que alega não praticar. dá logo uma pistola ao meu primo pra fazer o trampo por vocês. eu tentei, branquelos. tentei amá-los, mas passaram o funeral do meu mano fazendo planos prum cafezinho, falando alto demais ao lado de seus ossos. vocês deram uma olhada no rio inchado do corpo do menino depois da menina & depois da bofinha & pergunta: por que é que é sempre uma questão de raça? porque vocês insistem que seja sempre assim?! porque você marcou um asterisco no rosto lindo da minha irmã! chamou-a de bonita (pra uma garota negra)! porque cargas d’água meninas negras desaparecem sem nem um sussurro?! porque não há amber alerts pra meninas de pele âmbar! porque Jordan explodiu. porque Emmett assobiou. porque Huey P. falou. porque Martin pregou. porque meninos negros sempre podem ser espalhafatosos demais pra viver. porque tomaram o tempo do meu avô e da minha avó, o tempo do meu pai, o tempo da minha mãe, o tempo da minha tia, o tempo do meu tio, o tempo do meu irmão e da minha irmã . . . quanto tempo você quer pra alcançar seu progresso? eu deixei a Terra pra encontrar um lugar onde os da minha cepa possam estar a salvo, onde os negros não são senão pessoas da mesma cor que a terra boa e úmida, até que isso exprima alguma coisa, eu desejo a vocês, bem, desejo guerra a vocês, dou-lhes nossas vidas pra apostar nada mais. deixei a Terra & toco em tudo que pedem a seus telescópios pra lhes mostrar. estou dando às estrelas o nome certo. & esta vida & esta nova história, esta história que não podem nos roubar, nem vender ou lançar ao mar, nem enforcar, espancar ou afogar, nem adonar ou balizar, nem berrar, silenciar ou enganar, nem asfixiar ou disfarçar, nem prender ou atirar, prender ou atirar, prender ou atirar, nem arruinar

                                                  isso, ainda que apenas isso, é nosso.

 

 

§

dinosaurs in the hood

let’s make a movie called Dinosaurs in the Hood.
Jurassic Park meets Friday meets The Pursuit of Happyness.
there should be a scene where a little black boy is playing
with a toy dinosaur on the bus, then looks out the window
& sees the T. rex, because there has to be a T. rex.

don’t let Tarantino direct this. in his version, the boy plays
with a gun, the metaphor: black boys toy with their own lives
the foreshadow to his end, the spitting image of his father.
nah, the kid has a plastic brontosaurus or triceratops
& this is his proof of magic or God or Santa. i want a scene

where a cop car gets pooped on by a pterodactyl, a scene
where the corner store turns into a battleground. don’t let
the Wayans brothers in this movie. i don’t want any racist shit
about Asian people or overused Latino stereotypes.
this movie is about a neighborhood of royal folks —

children of slaves & immigrants & addicts & exile — saving their town
from real ass dinosaurs. i don’t want some cheesy, yet progressive
Hmong sexy hot dude hero with a funny, yet strong, commanding
Black girl buddy-cop film. this is not a vehicle for Will Smith
& Sofia Vergara. i want grandmas on the front porch taking out raptors

with guns they hid in walls & under mattresses. i want those little spitty
screamy dinosaurs. i want Cecily Tyson to make a speech, maybe two.
i want Viola Davis to save the city in the last scene with a black fist afro pick
through the last dinosaur’s long, cold-blood neck. But this can’t be
a black movie. this can’t be a black movie. this movie can’t be dismissed

because of its cast or its audience. this movie can’t be metaphor
for black people & extinction. This movie can’t be about race.
this movie can’t be about black pain or cause black pain.
this movie can’t be about a long history of having a long history with hurt.
this movie can’t be about race. nobody can say nigga in this movie

who can’t say it to my face in public. no chicken jokes in this movie.
no bullet holes in the heroes. & no one kills the black boy. & no one kills
the black boy. & no one kills the black boy. besides, the only reason
i want to make this is for the first scene anyway: little black boy
on the bus with his toy dinosaur, his eyes wide & endless

his dreams possible, pulsing, & right there.

 

os dinos da rua

vamos fazer um filme chamado Os Dinos da Rua.
um passeio pelo Parque dos Dinossauros Sexta-Feira em Apuros à Procura da Felicidade.
tem de haver uma cena em que um menininho negro brinca
com um Dino Papa Tudo no ônibus, depois olha pela janela
& vê o T. rex, porque tem que aparecer um T. rex.

não deixa o Tarantino dirigir isso. na versão dele, o menino brinca
com uma arma, a metáfora: meninos negros jogam com suas próprias vidas
o prenúncio de seu fim, a imagem cuspida e escarrada de seu pai.
bah, a criança tem um brontossauro ou triceratope de plástico
& esta é a prova de sua mágica ou de Deus ou de Papai Noel. quero uma cena

onde um pterodátilo caga no carro dos canas, uma cena
em que a loja da esquina se transforma num campo de batalha. não deixa
os irmãos Wayans neste filme. não quero nada dessa merda racista
sobre sujeitos asiáticos ou estereótipos exagerados de latinos.
este filme é sobre um bairro de nobres cidadãos —

filhos de escravos & imigrantes & drogados & exílio — salvando sua cidade
de dinossauros reais pacaralho. não quero um filme policial cafona mas progressista
com um herói Hmong, sexy e fodão, que tem uma parceira negra engraçada,
porém forte e imponente, fazendo o tira bom na fita. só que não vai ser estrelado
por Will Smith & Sofia Vergara. eu quero vovós de infantaria na varanda derrubando pterossauros

com as armas delas ocultas nas paredes & sob os colchões. eu quero dinossaurinhos
que babam histericamente. eu quero que Cecily Tyson faça um discurso, talvez dois.
eu quero que Viola Davis salve a cidade na cena final com um golpe de afropunho
atravessando o longo pescoço do último dinossauro de sangue frio. mas isso  não pode ser
cinema negro. isso não pode ser cinema negro. este filme não pode ser desprezado

por conta de seu elenco ou público. este filme não pode ser uma metáfora
pra pessoas negras & extinção. este filme não pode ser sobre raça.
este filme não pode ser sobre a dor do negro ou causar dor ao negro.
este filme não pode ser sobre uma longa história de haver uma longa história de mágoa.
este filme não pode ser sobre raça. ninguém pode dizer negão neste filme

se não pode dizer isso na minha cara em público.  sem piadas de frango neste filme.
sem buracos de bala nos heróis. & ninguém mata o menino negro. & ninguém mata o
menino negro. & ninguém mata o menino negro. além disso, a única razão
de eu querer fazer isso reside na primeira cena, de qualquer maneira: o menininho negro
no ônibus com seu Dino Papa Tudo, os olhos arregalados & no infinito

                             os seus sonhos possíveis, pulsando & bem ali.

 

 

§

bônus track

Tupac said,

“Did you hear about the rose
that grew from a crack in the concrete.
Proving nature’s law is wrong.
It learned to walk is wrong.
It learned to walk without having feet.
Funny it seems but by keeping its dreams
it learned to breath fresh air.
Long live the rose that grew from concrete
when no one else ever cared.”

Langston Hughes declared,
“I am the darker brother
Hold fast to dreams.
Black like me.
I am black.
I lie down in the shadows,
Black like me.
I to sing America,
My dark hands.
I am the darker brother.”

Alternative Names for Black Boys
or what we are sometimes called . . .

1. smoke above the burning bush
2. archnemesis of summer night
3. first son of soil
4. coal awaiting spark & wind
5. guilty until proven dead
6. oil heavy starlight
7. monster until proven ghost
8. gone
9. phoenix who forgets to un-ash
10. going, going, gone
11. gods of shovels & black veils
12. what once passed for kindling
13. fireworks at dawn
14. brilliant, shadow hued coral
15. (I thought to leave this blank
but who am I to name us nothing?)
16. prayer who learned to bite & sprint
17. a mother’s joy & clutched breath

And counting . . .

Will I be allowed
to hold fast to my dreams?
Will everyone smile along with me?
Bear deep into my eyes
and envision the great manancial
that I have the potential to be . . .
Or will you only see blackness
in whole of me?
Do you see me?

 

Tupac falou,

“Me escuta esta história da rosa
que brotou de um buraco no concreto.
Que só prova que as leis naturais se enganaram.
Aprendeu a caminhar neste engano.
Aprendeu a caminhar sem ter pés.
Até parece onda, mas mantendo seus sonhos
aprendeu a respirar ar puro.
Viva a rosa que brotou do concreto
quando ninguém mais dava importância.”

Langston Hughes declarou,
“Eu sou o irmão mais escuro
Agarre-se firme aos sonhos.
Negro como eu.
Eu sou negro.
Eu me assento nas sombras,
negras como eu.
Eu canto a América,
Minhas mãos escuras.
Eu sou o irmão mais escuro.”

Nomes Alternativos pra Meninos Negros
ou como chamam a gente de vez em quando…

1. fumaça sobre o arbusto em brasa
2. arquêmese da noite de verão
3. primogênito do terreno
4. hulha à espera de centelha & vento
5. culpado até que o provem morto
6. estelume a peso de petróleo
7. monstro até que o provem espectro
8. sumido
9. fênix a avoada nas cinzas
10. indo, indo, sumido
11. deuses das pás & negro manto
12. o que uma vez passou por ignição
13. fogos de artifício na alvorada
14. brilhante, sombreado coral
15. (Até pensei em deixar isso em branco
       mas quem sou eu pra nomear nós nada?)
16. reza que aprendeu morde & vaza
17. uma alegria de mãe & respiração ofegante.

E contando . . .

Me será permitido
agarrar firme meus sonhos?
Será que geral vai sorrir junto comigo?
Encara no fundo dos meus olhos
e vislumbra o belo manancial
que eu tenho potencial pra ser…
Ou será que tu só vê negritude
em todo meu corpo?
Você me vê?

 

 

Padrão
poesia norte-americana, tradução

John Ashbery, por Júlia Manacorda

ashbery sala de estar

Valentine e Comoção dos Pássaros

Algumas coisas sempre foram ditas e serão ditas sobre John Ashbery, como por exemplo, foi um poeta estadunidense, nascido no estado de Nova York, especificamente, em Rochester, cresceu em Sodus, onde seu pai, Chester, mantinha um fazenda de laranjas, se tornou a quiz kid de sua cidade aos 14, ou que foi casado com David Kermani por 38 anos, e que desde que se conheceram todos os livros de Ashbery – com algumas exceções – são dedicados a David, inclusive o último, Commotion of the Birds, onde-se pode ler: “For David, Again”. Na verdade, tudo o que foi dito sobre John Ashbery está destinado a se repetir, como se esta repetição fosse em si um comentário sobre a obra de John, afinal, Ashbery notou aos 16 anos que todos os seus poemas eram iguais, e ele estava ok com isso. Dito isso, repetirei algumas coisas que já foram ditas sobre Ashbery ou coisas que ele disse sobre si enquanto comentava outros ou si mesmo, por exemplo, “o poema é um hino à possibilidade, uma celebração do fato de que o mundo existe, de que coisas acontecem.” disse John Ashbery ao falar de Gertrude Stein, ou ainda as linhas de Stein são um mundo, e um mundo habitado por pessoas, e como pessoas, às vezes, são agradáveis ou irritantes, ou brilhantes ou tediosas, e tal como pessoas, raramente, fazem sentido, de novo, assim como pessoas, não existe real escapatória delas, das linhas de Stein. De certa forma, o que John está dizendo é que possivelmente encontraremos as meditações de Madame Stein no mundo. Você pode esbarrar com elas, como se fossem uma surpresa agradável. Melhor parar por aqui, não quero me prolongar, pois como Lerner diz: poemas de Ashbery são sempre poemas sobre o tempo, ou o sentido do tempo e que isto se dá porque a experiência que se tem acesso ao ler John é a própria experiência de se ler John Ashbery, assim, é a partir dessa experiência da experiência que Ash formula seu comentário sobre o tempo, e deliberadamente, performa um efeito de imediaticidade e incompreensão – tal como se dá nossa relação com o mundo, o que acontece, obviamente, porque o poeta John Ashbery está no mundo, e também o seu leitor. Me faltou falar que os pronomes, que a aparente inconstância com que lida com eles é uma forma de promover alteridade. E poderia ainda dizer como Ashbery mobiliza clichés como se estes nos fossem estranhos, ou como faz da novidade algo familiar, é, simplesmente, assim, elencando oxímoros que ele consegue que nós, leitores, nos reconheçamos em sua poesia, bem, mas isso já foi dito, como todos os poemas de Ashbery são iguais, quase todos sobre Amor, ou, ao menos, sobre Aspiração que, alguns dizem ser o mesmo que Amor.

Muitas muitas pessoas passaram os olhos nesses poemas, agradeço a todas e peço perdão pelo incômodo.

* * *

VALENTINE (1977)

Como uma serpente entre rosas, como uma víbora
entre figueiras do diabo, me enrosco até
e para você. O nome do castelo é você
EL Rey. É uma parada para caminhoneiros
onde se oferece o melhor café e hambúrguer de Utah.
É ainda mais belo e noturno à luz do dia.
Sete camadas: ágata-musgo, coral, aventurina,
Cornalina, lápis lazúli, obsidiana – talvez outras.
Você sabe, isto tem a forma de um quarteto
De cordas. As diferentes partes sobrepondo-se umas às outras,
Provocando umas às outras, atravessando-se umas às outras
para então, recuarem habilmente ao final, deixando – o que?
Um novo tipo de vazio, talvez banhado em frescor,
talvez não. Talvez somente um novo de tipo de vazio.

Você é esperto mas o tempo de hoje surpreende e zomba de você. Você sai em pedaços. Sempre te perseguiu a consciência de que eu estou ali incapaz de retornar, incapaz de te confrontar com sua alteridade. Esta é a outra das minhas casas, a de Hampstead, a de tijolos no meio do quarteirão que você nunca viu embora tenha passado por aquela rua inúmeras vezes, às vezes na primavera com uma fina garoa lhe desviando o olhar, às vezes sob o peso do verão onde a grandiosidade da ideia das árvores inunda suas ideias sobre tudo, assim você nunca viu minha casa. Era perto de onde Arthur Rackam viveu. Eu mal posso me lembrar o nome da rua – alguma inscrição parcialmente legível em uma urna Vitoriana: E, e depois MEL(E?), talvez uma exortação latina sobre maçãs ou heroísmo, e abaixo no trecho mais apagado um nome como “Rossiter”, mas isso está muito mais embaixo. Escute, eu nunca quis que você não estivesse em minha casa. Mas você jamais poderia pois você era a minha casa.

Nesta seção reflito sobre a dificuldade e surpresa de ser você. Talvez isso nunca se escreva. Certas coisas são simultaneamente muito entediantes e muito excitantes para se escrever sobre. Esta deve ser uma delas. Algum dia, quando estivermos chapados… enquanto isso, escreve para mim. Eu realmente aprecio suas ligações, mas é bom receber postais e cartas de vez em quando – então, continue mandando!

Através do crepúsculo desgrenhado eu escuto coisas como “Agora veja isso, meu jovem” ou “Henry Groggins, seu velho degenerado!” ou “Por uma hora Lester tem encarado as planilhas, sem fazer nenhum progresso.” Eu sei essas coisas são, o que elas são. À noite, há poucas coisas, que deslizam para dar lugar a outras. Vista através de uma moldura oval, uma das paredes da sala de estar. O papel de parede é de um padrão convencional, quiabos fatiados e anis-estrelado, mantidos juntos vulgarmente colados por elos grosseiros de papéis coloridos, entre os quais o roxo predomina, estampado sobre um fundo grisalha com pastoras e cães urinando sobre os hidrantes. Refletir sobre a habilidade virtuosa com a qual o artista pintou as gotas que respingavam do hidrante e se acumulavam sobre a brilhante poça amarelo sol entre o meio-fio é uma sóbria experiência. Apenas a prateleira da lareira é exibida. Em cada extremidade, acomodados sobre pedestais ligeiramente afastados, duas figuras aristocráticas de biscuit, o menino em um delicado tom cereja e a menina em azul centáurea. Suas sombras se unem em uma silhueta grotesca. No centro, um antigo relógio cujos cliques atuam como metrônomo para o som de suas vozes agudas. No momento, as figuras abrem e fecham suas bocas, no ritmo de uma conversa ordinária.

Pensei que
remaria até você esta tarde,
Minha Irina! Sempre redigindo seus amados artigos,
Estou vendo. Topei com um deles há pouco numa das
revistas mais progressistas
Brilhantemente escrito, foi isso que me pareceu, mas não são suas ideias
um pouco
radicais para as discussões mais recentes? Claro, há muita
verdade
no que você diz, mas você não sente que às vezes é oferecido ao público
mais verdades
do que ele pode tolerar? Não estou dizendo que você deva…
bem, “fabular”,
Talvez, assim, eh, tempere o vento sobre as ovelhas tosquiadas
Um pouco. Hein? O que você me diz, meu velho?
Ou você está tão apaixonado por suas ideias “radicais” que qualquer
outra coisa
lhe parecerá um velho chapéu, incluindo minha conversa, sem dúvida?
Neste
caso eu deveria partir. Meu Deus, tenho um compromisso para às 4h30
e já passam das cinco. O que você fez com meu chapéu?

Essas coisas eu escrevo para você e somente para você.
Por favor, não as julgue severamente. tempere o vento,
como ele ia dizendo. trate-as como recém nascidos
que venham a crescer e se tornem crianças, talvez – quem sabe –
adultos algum dia, mas agora elas existem apenas na cegueira
de seu amor por mim e são provas dele.
Você não pode pensar nelas por muito tempo
sem querer derrubá-las. Sua casa é um castelo de cartas,
O jeito antiquado de jogar cartas, erguendo torres
até onde olho não possa mais ver, até às nuvens, e também é construída
sobre areia movediça, sua base submerge a perder de vista. Eu sou
o habitável.
minhas costas são portas para você, agora as abra, agora as feche
e seus beijos são como sonhos, ou um elixir,
ou radium, ou flores de algum tipo.
Lembre-se sobre o que lhe disse.

 

Valentine (1977)

Like a serpent among roses, like an asp
Among withered thornapples I coil to
And at you. The name of the castle is you,
El Rey. It is an all-night truck-stop
Offering the best coffee and hamburgers in Utah.
It is most beautiful and nocturnal by daylight.
Seven layers: moss-agate, coral, aventurine,
Carnelian, Swiss lapis, obsidian—maybe others.
You know that it has the form of a string
Quartet. The different parts are always meddling with each other,
Pestering each other, getting in each other’s way
So as to withdraw skillfully at the end, leaving—what?
A new kind of emptiness, maybe bathed in freshness,
Maybe not. Maybe just a new kind of emptiness.

You are smart but the weather of this day startles and japes at you. You come out of it in pieces. Always pursuing you is the knowledge that I am there unable to turn around, unable to confront you with your otherness. This is another one of my houses, the one in Hampstead, the brick one in the middle of the block that you never saw though you passed along that street many times, sometimes in spring with a light drizzle blowing that made you avert your gaze, sometimes at the height of summer where the grandeur of the ideas of the trees swamped your ideas about everything, so you never saw my house. It was near where Arthur Rackham lived. I can’t quite remember the name of the street—some partly legible inscription on a Victorian urn: E and then MEL(E?), perhaps a Latin exhortation to apples or heroism, and down in the dim part a name like “Rossiter,” but that is too far down. Listen, I never meant for you not to be in my house. But you couldn’t because you were it.

In this part I reflect on the difficulty and surprise of being you. It may never get written. Some things are simultaneously too boring and too exciting to write about. This has to be one of Them. Some day, when we’re stoned…Meanwhile, write to me. I enjoy and appreciate your phone calls, but it’s nice to get cards and letters too—so keep ‘em comin’!

Through bearded twilight I hear things like “Now see here, young man!” or “Henry Groggins, you old reprobate!” or “For an hour Lester has been staring at budget figures, making no progress.” I know these things are, that they are. At night there are a few things, and they slide along to make room for others. Seen through an oval frame, one of the walls of a parlor. The wallpaper is a conventionalized pattern, the sliced okra and star-anise one, held together with crudely gummed links of different colored paper, among which purple predominates, stamped over a flocked background of grisaille shepherdesses and dogs urinating against fire hydrants. To reflect on the consummate skill with which the artist has rendered the drops as they bounce off the hydrant and collect in a gleaming sun-yellow pool below the curb is a sobering experience. Only the shelf of the mantelpiece shows. At each end, seated on pedestals turned slightly away from one another, two aristocratic bisque figures, a boy in delicate cerise and a girl in cornflower blue. Their shadows join in a grotesque silhouette. In the center, an ancient clock whose tick acts as the metronome for the sound of their high voices. Presently the mouths of the figures open and shut, after the mode of ordinary conversation.

Thought I’d
Row across to you this afternoon,
My Irina! Always writing your beloved articles,
I see. Happened on one recently in one of the more
progressive journals.
Brilliantly written, or so it seemed, but isn’t your thought a
bit too
Advanced by present-day standards? Of course, there was
much truth
In what you said, but don’t you feel the public sometimes has
more truth
Than it can cope with? I don’t mean that you should…
well, “fib,””
But perhaps, well, heh heh, temper the wind to the shorn
lamb
A bit. Eh? How about it, old boy?
Or are you so in love with your “advanced” thinking that
everything else
Seems old hat to you, including my conversation no doubt?
In that
Case I ought to be getting on. Goodness, I’ve a four-thirty
appointment and it’s
Already five after. What have you done with my hat?

These things I write for you and you only.
Do not judge them too harshly. Temper the wind,
As he was saying. They are infant things
That may grow up to be children, perhaps—who knows?—
Even adults some day, but now they exist only in the blindness
Of your love for me and are the proof of it.
You can’t think about them too long
Without knocking them over. Your castle is a house of cards,
The old-fashioned kind of playing cards, towering farther
Than the eye can see into the clouds, and it is also built on
Shifting sands, its base slurps out of sight too. I am the
inhabitable one.
But my back is as a door to you, now open, now shut,
And your kisses are as dreams, or an elixir
Of radium, or flowers of some kind.
Remember about what I told you.

 

ashbery homens pelados

Comoção dos Pássaros (2016)
Nós estamos nos movendo sem hesitação pelo século XVII
o momento tardio é ok, muito mais moderno
que seu início. Agora temos a Comédia da Restauração.
Webster e Shakespeare e Corneille são ok
para o seu tempo mas não modernos o suficiente,
embora uma melhora diante do século XVI
de Henrique VIII, Lasso e Petrus Christus, que, paradoxalmente,
pareciam mais modernos que seus sucessores imediatos,
Tyndale, Moroni, e Luca Marenzio entre eles.
Muitas vezes é mais uma questão de parecer do que ser moderno.
Parecer é quase tão bom quanto ser, às vezes,
e ocasionalmente tão bom quanto. Ou se é melhor
esta é uma questão deixada para os filósofos
e outros de sua classe, que sabem coisas
de um modo que outros não, apesar das coisas
serem frequentemente quase as mesmas que sabemos.
Sabemos, por instância, como Carissimi influenciou Charpentier,
as proposições medidas com um loop ao final delas
o que traz as coisas de volta ao início, só um pouco
mais altas. O loop é Italiano,
importado da corte de França e logo desprezado,
e então aceito sem o reconhecimento de seu lugar
de origem, como os Franceses costumam fazer.
Talvez alguém o reconheça
em seu novo disfarce – o que pode ser adiado
até outro século, quando historiadores
clamarão que tudo aconteceu normalmente, como resultado da história.
(O barroco tem um jeito de tombar sobre nós
quando pensávamos que tinha sido guardado em segurança.
O clássico o ignora, ou não se importa muito.
Ele tem outras coisas em mente, de menor importância,
acontece) Ainda, estamos certos de crescer com isso,
ansiando impacientemente pelo modernismo, quando
tudo se resolverá melhor, de algum modo.
Até lá é melhor satisfazer nossos gostos
da maneira que soe certo para eles: este sapato,
esta correia, parecerão úteis um dia
quando a cuidadosa presença do modernismo estiver instalada
por todos os lados, como os restos de um projeto de construção.
É bom ser moderno se você pode sustentá-lo.
É como ser deixado na chuva, e levado
a entender que você sempre foi assim: moderno,
úmido, abandonado, porém com essa intuição especial
que o permite compreender que você não está destinado a ser
outra pessoa, por quem os criadores
do modernismo suportariam uma inspeção
enquanto murcham e desbotam sob o fulgor de hoje

 

Commotion of the birds

We’re moving right along through the seventeenth century.
The latter part is fine, much more modern
than the earlier part. Now we have Restoration Comedy.
Webster and Shakespeare and Corneille were fine
for their time but not modern enough,
though an improvement over the sixteenth century
of Henry VIII, Lassaus and Petrus Christus, who, paradoxically,
seem more modern than their immediate successors,
Tyndale, Moroni, and Luca Marenzio among them.
Often it’s a question of seeming rather than being modern.
Seeming is almost as good as being, sometimes,
and occasionally just as good. Whether it can ever be better
is a question best left to philosophers
and others of their ilk, who know things
in a way others cannot, even though the things
are often almost the same as the things we know.
We know, for instance, how Carissimi influenced Charpentier,
measured propositions with a loop at the end of them
that bring things back to the beginning, only a little
higher up. The loop is Italian,
imported to the court of France and first despised,
then accepted without any acknowledgment of where
it came from, as the French are wont to do.
It may be that some recognize it
in its new guise – that can be put off
till another century, when historians
will claim it all happened normally, as result of history.
(The baroque has a way of tumbling out at us
when we thought it had been safely stowed away.
The classical ignores it, or doesn’t mind too much.
It has other things on its mind, of lesser import,
it turns out.) Still, we are right to grow with it,
looking forward impatiently to modernism, when
everything will work out for better, somehow.
Until then it’s better to indulge our tastes
in whatever feels right for them: this show,
that strap, will come to seem useful one day
when modernism’s thoughtful presence is installed
all around, like the remnants of a construction project.
It’s good to be modern if you can stand it.
It’s like being left out in the rain, and coming
to understand that you were always this way: modern,
wet, abandoned, though with that special intuition
that makes you realize you weren’t meant to be
somebody else, for whom the makers
of modernism will stand inspection
even as they wither and fade today’s glare.

§

júlia manacorda, 1991, Niterói, traduz e pesquisa John Ashbery. seu primeiro livro, No ano de Blade Runner: a crise constitucional foi publicado pela Garupa em 2019.

Padrão
poesia, tradução

Lucille Clifton, por Lubi Prates

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Lucille Clifton (1936, Nova Iorque, EUA) foi uma poeta, escritora e professora negra. Publicou diversos livros de poesia e infantis. Seu livro de estreia, Good Times, de 1969, foi considerado um dos melhores livros de poesia do ano, nos Estados Unidos. Com Good Woman: Poems and a Memoir: 1969–1980, e Next: New Poems, ambos de 1987, concorreu ao Prêmio Pulitzer. Com Blessing The Boats: New and Collected Poems 1988–2000, de 2000, ganhou o National Book Award. Seus poemas tratam da condição da mulher negra na diáspora, valorizando a herança africana presente em nós (Lucille descendia da República do Benin). Lucille faleceu em 2010. Sua obra segue inédita no Brasil. Os poemas abaixo foram traduzidos por mim e contaram com o olhar atento do Manu Quadros, a quem agradeço.

*

listen children

listen children
keep this in the place
you have for keeping
always
keep it all ways

we have never hated black

listen
we have been ashamed
hopeless tired mad
but always
all ways
we loved us

we have always loved each other
children all ways

pass it on

ouçam, crianças

ouçam, crianças
guardem isso onde
vocês possam guardar
para sempre
guardem isso de todas as maneiras

nós nunca odiamos preto

ouçam
nós estivemos envergonhados
desesperançosos cansados com raiva
mas sempre
de todas as maneiras
nós nos amamos

nós sempre nos amamos
crianças, de todas as maneiras

passem isso adiante.

§

blessing the boats

(at St. Mary’s)

may the tide
that is entering even now
the lip of our understanding
carry you out
beyond the face of fear
may you kiss
the wind then turn from it
certain that it will
love your back may you
open your eyes to water
water waving forever
and may you in your innocence
sail through this to that

abençoando os navios

que a maré
que agora mesmo adentra
o lábio do nosso entendimento
te carregue
para além da face do medo
que você beije
o vento e lhe dê as costas
com a certeza de que ele
te amará de volta que você
abra seus olhos para a água
água ondulando para sempre
e que você com sua inocência
consiga navegar através dela

§

won’t you celebrate with me

won’t you celebrate with me
what i have shaped into
a kind of life? i had no model.
born in babylon
both nonwhite and woman
what did i see to be except myself?
i made it up
here on this bridge between
starshine and clay,
my one hand holding tight
my other hand; come celebrate
with me that everyday
something has tried to kill me
and has failed.

você não vai celebrar comigo?

você não vai celebrar comigo
isto que eu moldei como
um tipo de vida? eu não tive nenhum modelo.
nascida na babilônia
não branca e mulher.
o que eu imaginei ser além de mim mesma?
eu forjei isso.
aqui nesta ponte entre
a luz da estrela e a argila,
minha mão segurando firme
minha outra mão; venha celebrar
comigo, que todos os dias
alguma coisa tenta me matar
e falha.

§

sisters

me and you be sisters.
we be the same.

me and you
coming from the same place.

me and you
be greasing our legs
touching up our edges.

me and you
be scared of rats
be stepping on roaches.

me and you
come running high down purdy street one time
and mama laugh and shake her head at
me and you.

me and you
got babies
got thirty-five
got black
let our hair go back
be loving ourselves
be loving ourselves
be sisters.

only where you sing,
I poet.

irmãs

você e eu somos irmãs.
somos iguais.

você e eu
vindas do mesmo lugar.

você e eu
passando óleo nas pernas
retocando nossas raízes.

você e eu
com medo de ratos
pisando nas baratas.

você e eu
descendo alegres correndo a rua purdy aquela vez
e a mãe rindo e balançando a cabeça para

você e eu.

você e eu
tivemos bebês

fizemos trinta e cinco
enegrecemos
deixamos nossos cabelos voltarem
amando nós mesmas

amando nós mesmas
somos irmãs.

apenas onde você canta,
eu sou poeta.

§

the lost women

i need to know their names
those women i would have walked with
jauntily the way men go in groups
swinging their arms, and the ones
those sweating women whom i would have joined
after a hard game to chew the fat
what would we have called each other laughing
joking into our beer? where are my gangs,
my teams, my mislaid sisters?
all the women who could have known me,
where in the world are their names?

as mulheres perdidas

eu preciso saber os nomes
daquelas mulheres com quem eu teria caminhado
alegremente como fazem os homens em grupo
balançando os braços, e daquelas mulheres
suadas com quem eu teria me juntado
depois de uma partida difícil para jogar conversa fora.
do que teríamos chamado umas às outras rindo
brincando na nossa cerveja? onde está minha gangue,
meu time, minhas irmãs extraviadas?
todas as mulheres que poderiam ter me conhecido,
onde nesse mundo estão seus nomes?

§

telling our stories

the fox came every evening to my door
asking for nothing. my fear
trapped me inside, hoping to dismiss her
but she sat till morning, waiting.

at dawn we would, each of us,
rise from our haunches, look through the glass
then walk away.

did she gather her village around her
and sing of the hairless moon face,
the trembling snout, the ignorant eyes?

child, i tell you now it was not
the animal blood i was hiding from,
it was the poet in her, the poet and
the terrible stories she could tell.

contando nossas histórias

 a raposa vinha todas as noites para a minha porta
sem pedir nada. meu medo
me prendia lá dentro, na esperança de dispersá-la,
mas ela sentava até a manhã, aguardando.

ao amanhecer, nós duas
nos erguíamos de nossos lombos, olhávamos através do vidro,
e saíamos andando.

será que ela reuniu as outras raposas ao seu redor
e cantou sobre a face redonda e sem pelos,
o focinho trêmulo, os olhos ignorantes?

criança, eu te digo agora que não era
do sangue animal que eu estava me escondendo,
era da poeta nela, a poeta e
as terríveis histórias que ela poderia contar.

§

Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) é poeta, tradutora, editora e curadora de Literatura. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). um corpo negro foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ter sido finalista do 61º Prêmio Jabuti e do 4º Prêmio Rio de Literatura. Tem diversas publicações em plaquetes, antologias e revistas nacionais e internacionais. Co-organizou junto com outras mulheres os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

*

Padrão
poesia, tradução

Ilya Kaminsky (1977-), por Rubens Akira Kuana

ilya-kaminsky-2

Ilya Kaminsky nasceu em 1977 em Odessa, antiga União Soviética, atual Ucrânia. Ele perdeu a maior parte de sua audição aos quatro anos de idade, quando um médico diagnosticou erroneamente caxumba como um resfriado. Sua família recebeu asilo político nos Estados Unidos em 1993, estabelecendo-se em Rochester, Nova Iorque. Após a morte de seu pai em 1994, Kaminsky começou a escrever poemas em inglês. O poeta relata o evento em uma entrevista: “Eu escolhi o inglês porque ninguém da minha família ou dos meus amigos sabia inglês – ninguém com quem conversava podia ler o que eu escrevia. Eu mesmo não dominava a língua. Era uma realidade paralela, uma liberdade insanamente bela. Ainda é”.

Kaminsky é bacharel em ciência política pela Georgetown University. É autor dos livros Dancing in Odessa (Tupelo Press) e Deaf Republic (Graywolf Press). Este último, lançado em 2019 nos EUA, foi criticamente aclamado, nomeado como um dos melhores livros de poesia do ano passado. Os poemas aqui apresentados fazem parte deste livro. Como se trata de um livro que explora o formato clássico da epopeia – com personagens fixos e cenários recorrentes – a seleção dos poemas baseou-se na coerência narrativa: isto é, evitar grandes spoilers e, ao mesmo tempo, manter um paralelo à integridade do livro. Portanto, a ordem dos poemas abaixo é a mesma ordem em que se encontram no livro. Sugere-se que essa pequena seleção seja lida como um trailer ou fotografias de um álbum de família incompleto.

* * *

 

Question

What is a man?
A quiet between two bombardments.

Questão

O que é um homem?
Uma quietude entre dois bombardeios.

§

Nós vivemos felizes durante a guerra

E quando eles bombardearam a casa das outras pessoas,
nós

protestamos
mas não o suficiente, nos opusemos a eles mas não

o suficiente, eu estava
na minha cama, ao redor da minha cama a América

caía: casa invisível após casa invisível após
casa invisível.

Eu levei uma cadeira para fora e assisti ao sol.

No sexto mês
de um desastroso reino na casa da grana

na rua da grana na cidade da grana no país da grana,
nosso grande país da grana, nós (perdoem-nos)

vivemos felizes durante a guerra.

We Lived Happily during the War

And when they bombed other people’s houses, we
Protested

but not enough, we opposed them but not
enough. I was

in my bed, around my bed America
was falling: invisible house by invisible house by invisible house—

I took a chair outside and watched the sun.

In the sixth month
of a disastrous reign in the house of money

in the street of money in the city of money in the country of money,
our great country of money, we (forgive us)

lived happily during the war.

§

 

Soldados Miram em Nós

Eles atiram
enquanto o bando de mulheres foge dentro das narinas dos holofotes

—que Deus tenha uma foto disso —

no ar brilhante da praça, soldados arrastam o corpo de Petya e sua cabeça
bate nas escadas. Eu

sinto através da camisa da minha esposa o formato
da nossa filha.

Soldados arrastam Petya escada acima e os cães sem teto, magros como filósofos,
compreendem tudo e latem e latem.

Eu, agora na ponte, sem a camuflagem da fala, um corpo
envolvendo o corpo da minha esposa grávida—

Esta noite
nós não morremos e não morremos,

a terra está fixa,
um helicóptero encara minha esposa—

Na terra
um homem não pode mostrar o dedo para o céu

porque cada homem já é
um dedo virado para o céu.

Soldiers Aim at Us

They fire
as the crowd of women flees inside the nostrils of searchlights

—may God have a photograph of this—

in the piazza’s bright air, soldiers drag Petya’s body and his head
bangs the stairs. I

feel through my wife’s shirt the shape
of our child.

Soldiers drag Petya up the stairs and homeless dogs, thin as philosophers,
understand everything and bark and bark.

I, now on the bridge, with no camouflage of speech, a body
wrapping the body of my pregnant wife—

Tonight
we don’t die and don’t die,

the earth is still,
a helicopter eyeballs my wife—

On earth
a man cannot flip a finger at the sky

because each man is already
a finger flipped at the sky.

§

 

O que são Dias

Como homens de meia idade,
os dias de maio
caminham até prisões.
Como homens jovens eles caminham até prisões,
sobretudos
jogados por cima de seus pijamas.

What Are Days

Like middle-aged men,
the days of May
walk to prisons.
Like young men they walk to prisons,
overcoats
thrown over their pajamas.

§

 

Em um Tempo de Paz

Habitante da terra por quarenta e poucos anos
certa vez me encontrei em um país pacato. Eu vejo os vizinhos abrirem

seus celulares para ver
um policial exigindo a carteira de motorista de um homem. Quando o homem alcança sua carteira, o policial
atira. Na janela do carro. Atira.

É um país pacato.

Colocamos nossos celulares no bolso e vamos.
Ao dentista,
buscar as crianças na escola,
comprar xampu
e manjericão.

O nosso país é um país em que um menino assassinado pela polícia fica na calçada
por horas.

Nós vemos em sua boca aberta
a nudez
de toda nação.

Nós vemos. Vemos
outros verem.

O corpo do menino fica na calçada exatamente como o corpo de um menino—
É um país pacato.

E isto corta os corpos dos nossos cidadãos
sem esforço, do jeito que a esposa do Presidente apara suas unhas do pé.

Todos nós
ainda temos que fazer o desgastante trabalho de consultas no dentista,
de lembrar-se de fazer
uma salada de verão: manjericão, tomates, é uma alegria, tomates, um pouco de sal.

Este é um tempo de paz.

Eu não escuto tiros,
contudo vejo os pássaros se refrescando nos quintais dos subúrbios. Quão claro
é o céu
conforme a avenida gira em seu eixo.
Quão claro é o céu (perdoem-me) quão claro.

In a Time of Peace

Inhabitant of earth for fortysomething years
I once found myself in a peaceful country. I watch neighbors open

their phones to watch
a cop demanding a man’s driver’s license. When the man reaches for his wallet, the cop
shoots. Into the car window. Shoots.

It is a peaceful country.

We pocket our phones and go.
To the dentist,
to pick up the kids from school,
to buy shampoo
and basil.

Ours is a country in which a boy shot by police lies on the pavement
for hours.

We see in his open mouth
the nakedness
of the whole nation.

We watch. Watch
others watch.

The body of a boy lies on the pavement exactly like the body of a boy—
It is a peaceful country.

And it clips our citizens’ bodies
effortlessly, the way the President’s wife trims her toenails.

All of us
still have to do the hard work of dentist appointments,
of remembering to make
a summer salad: basil, tomatoes, it is a joy, tomatoes, add a little salt.

This is a time of peace.

I do not hear gunshots,
but watch birds splash over the backyards of the suburbs. How bright is the sky
as the avenue spins on its axis.
How bright is the sky (forgive me) how bright.

Padrão
poesia, tradução

Maya Angelou, por Lubi Prates

Recentemente, escutei algo como “os aniversários são para sempre”. Não sei quem me disse isso, se li ou ouvi, e nem o contexto. Mas quando penso sobre hoje, aniversário de Maya Angelou, só consigo concluir que, sim, é uma data para ser sempre celebrada.

Maya (Marguerite Annie Johnson) foi uma poeta, escritora, condutora de bondes (a primeira negra contratada para a função), atriz, cantora, dançarina, diretora de cinema, ativista pelos direitos dos negros, ou seja, teve uma vida recheada de histórias – que ela gostava de contar e repetir, e que lhe renderam 7 autobiografias, sucessos mundiais.

Com a poesia, Maya conquistou o Pulitzer (com o livro “Apenas me dê um copo de água gelada antes que eu morraaa) e 3 Grammy com álbuns de poesia falada,  e essa era uma relação especial porque foi através da poesia que Maya conseguiu romper com um trauma vivido na infância. Quando tinha 7 anos, Maya foi estuprada pelo namorado de sua mãe. Ela compartilhou o acontecido com seu irmão, Bailey, que contou para o resto da família – dias depois, o estuprador foi encontrado morto. Com isso, Maya acreditou que sua voz tinha matado aquele homem e que, portanto, poderia matar qualquer um, por isso, parou de falar e esse mutismo durou anos, sendo quebrado pela provocação feita por uma amiga da família, a senhora Flowers, com quem Maya passava algumas tardes. A senhora Flowers lia para Maya uma infinidade de poetas (Shakespeare, Dickens, Poe) que, depois, se tornaram referências para ela. “Maya, você não gosta de poesia… Você nunca vai gostar até que a recite, até sentí-la rolar pela sua língua, sobre os dentes, através de seus lábios. Você nunca vai gostar”. Diante disso, 5 anos depois que decidiu parar de falar, Maya tentou recitar um poema. Essa relação que criou com a poesia, Maya explicava como “a prova de que algo bom pode nascer de uma situação ruim”.

Desse momento em diante, mesmo com diversas atividades, Maya sempre enxergou a poesia como seu trabalho e algo de extrema importância.

Publicou 5 livros de poesia: Apenas me dê um copo de água gelada antes que eu morraaa; Oh, reze para que minhas asas me caiam bem; E ainda assim eu me levanto; Shaker, por que você não canta? e Eu não serei levada, além de diversos poemas avulsos, que foram traduzidos e publicados no Brasil, em março.  Seus poemas falam sobre a condição da mulher negra estadunidense, que ama, que viaja, que trabalha, que tem fé, que resiste e luta – como dizia: “afiando a ponta da caneta nas cicatrizes que existiam no seu próprio corpo”. Com a chegada desta publicação ao país, é possível, ainda, se tratando de uma existência particular, encontrar diversas relações entre a vida da Maya e as vidas de tantas mulheres negro-brasileiras.

Abaixo, poemas de Maya e suas traduções, um bocado de cada livro. Que com eles, que com a vida que existe neles, possamos celebrar a existência dessa mulher fenomenal – como ela mesma se enxergava.

Lubi Prates

* * *

Quando penso sobre mim mesma

Quando penso sobre mim mesma,
Gargalho até quase morrer,
Minha vida tem sido uma grande piada,
Uma dança que se anda,
Uma canção que se fala,
Gargalho tanto que quase perco o ar,
Quando penso sobre mim mesma.

Sessenta anos no mundo dessa gente,
A criança para quem trabalho me chama de garota,
Eu respondo “Sim, senhora” por causa do emprego.
Muito orgulhosa para me curvar,
Muito pobre para me quebrar,
Gargalho até meu estômago doer,
Quando penso sobre mim mesma.

Meus pais podem me fazer cair na gargalhada,
Rir tanto até quase morrer,
As histórias que eles contam soam como mentiras,
Eles cultivam a fruta,
Mas só comem a casca,
Gargalho até começar a chorar,
Quando penso sobre meus pais.

When I think about myself

When I think about myself,
I almost laugh myself to death,
My life has been one great big joke,
A dance that’s walked,
A song that’s spoke,
I laugh so hard I almost choke,
When I think about myself.


Sixty years in these folks’ world,
The child I works for calls me girl,
I say “Yes ma’am” for working’s sake.
Too proud to bend,
Too poor to break,
I laugh until my stomach ache,
When I think about myself.


My folks can make me split my side,
I laughed so hard I nearly died,
The tales they tell sound just like lying,
They grow the fruit,
But eat the rind,
I laugh until I start to crying,
When I think about my folks.


Para assistir a Maya declamando esse poema: https://youtu.be/k9ywTJvBwTc

§

Minha culpa

Minha culpa são “as correntes da escravidão”, por muito tempo
o barulho do ferro caindo ao longo dos anos.
Este irmão vendido, esta irmã que se foi,
tornam-se uma cera amarga tapando os meus ouvidos.
Minha culpa fez música com as lágrimas.

Meu crime são “os heróis mortos e esquecidos”,
Vesey, Turner, Gabriel, mortos,
Malcolm, Marcus, Martin King, mortos.
Eles lutaram pesado e amaram bem.
Meu crime é estar viva para contar.

Meu pecado é “estar pendurada numa árvore”,
Eu não grito, isso me deixa orgulhosa.
Decidi morrer como um homem.
Faço isso para impressionar a multidão.
Meu pecado é não gritar mais alto.

My guilt

My guilt is “slavery’s chains,” too long
the clang of iron falls down the years.
This brother’s sold, this sister’s gone,
is bitter wax, lining my ears.
My guilt made music with the tears.


My crime is “heroes, dead and gone,”
dead Vesey, Turner, Gabriel*,
dead Malcolm, Marcus, Martin King.
They fought too hard, they loved too well.
My crime is I’m alive to tell.


My sin is “hanging from a tree,”
I do not scream, it makes me proud.
I take to dying like a man.
I do it to impress the crowd.
My sin lies in not screaming loud.


*Nota: Vesey, Turner e Gabriel, assim como os também citados (e mais conhecidos) Malcolm X, Marcus Garvey e Martin Luther King, foram lutadores pela liberdade dos negros.

§

Um brinde à recomposição

Eu fui numa festa
lá em Hollywood.
A atmosfera era péssima
mas as bebidas estavam boas
e foi onde ouvi você rir.

Então, eu fiz um cruzeiro
num velho navio grego.
A tripulação era divertida
mas os convidados não eram descolados,
foi aí que encontrei suas mãos.

Numa caravana
para o Saara,
O sol acertava como uma flecha
mas as noites eram grandiosas,
e foi assim que eu encontrei seu peito.

Numa tarde no Congo
onde o Congo termina,
Eu me encontrei sozinha, ah
mas eu fiz alguns amigos,
e foi onde eu vi seu rosto.

Eu tenho dedicado
todo meu tempo para reunir
partes suas que flutuam
ainda descoladas.

E você não vai se recompor
Para
Mim
N E N H U M A V E Z?

Here’s to Adhering

I went to a party
out in Hollywood,
The atmosphere was shoddy
but the drinks were good,
and that’s where I heard you laugh.


I then went cruising
on an old Greek ship,
The crew was amusing
but the guests weren’t hip,
that’s where I found your hands.

On to the Sahara
in a caravan,
The sun struck like an arrow
but the nights were grand,
and that’s how I found your chest.

An evening in the Congo
where the Congo ends,
I found myself alone, oh
but I made some friends,
that’s where I saw your face.

I have been devoting
all my time to get
Parts of you out floating
still unglued as yet.
Won’t you pull yourself together
For
Me
O N C E.

§

Trabalho de mulher

Eu tenho crianças para cuidar
As roupas para remendar
O chão para esfregar
A comida para comprar
Depois, o frango para fritar
O bebê para secar
Eu tenho as visitas para alimentar
O jardim para aparar
Eu tenho camisetas para passar
O bebê para vestir
A cana para cortar
Eu tenho que limpar essa cabana
Depois, cuidar dos doentes
E colher o algodão.

Brilhe sobre mim, luz do sol
Chova sobre mim, chuva
Caiam suavemente, gotas de orvalho
E refresquem minha testa novamente.

Tempestade, me sopre daqui
Com seus ventos violentos
Me deixe flutuar através do céu
Até que eu possa descansar novamente.

Caiam gentilmente, flocos de neve
Me cubram de beijos
Brancos e gelados e
Me deixem descansar esta noite.

Sol, chuva, céu turvo
Montanha, oceanos, folhas e pedras
Luz das estrelas, brilho da lua
Vocês são tudo que posso chamar de meu.

Woman Work
I’ve got the children to tend
The clothes to mend
The floor to mop
The food to shop
Then the chicken to fry
The baby to dry
I got company to feed
The garden to weed
I’ve got the shirts to press
The tots to dress
The cane to be cut
I gotta clean up this hut
Then see about the sick
And the cotton to pick.

Shine on me, sunshine
Rain on me, rain
Fall softly, dewdrops
And cool my brow again.

Storm, blow me from here
With your fiercest wind
Let me float across the sky
Till I can rest again.

Fall gently, snowflakes
Cover me with white
Cold icy kisses and
Let me rest tonight.

Sun, rain, curving sky
Mountain, oceans, leaf and stone
Star shine, moon glow
You’re all that I can call my own.

§

Mais uma rodada

Não há pagamento mais doce sob o sol
Do que o descanso depois de um trabalho bem feito.
Eu nasci para trabalhar até morrer
Mas eu não nasci
Para ser escrava.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

Papai molda o aço e Mamãe mantinha a guarda,
Nunca os ouvi reclamando porque o trabalho era pesado.
Nasceram para trabalhar até morrer
Mas não nasceram
Para morrer escravos.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

Irmãos e irmãs sabem as tarefas diárias,
O trabalho não fez com que perdessem a cabeça.
Eles nasceram para trabalhar até morrer
Mas não nasceram
Para morrer escravos.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

E agora vou contar qual é minha Regra de Ouro,
Eu nasci para trabalhar, mas não sou nenhuma mula.
Eu nasci para trabalhar até morrer
Mas não nasci
Para morrer escrava.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

One more round

There ain’t no pay beneath the sun
As sweet as rest when a job’s well done.
I was born to work up to my grave
But I was not born
To be a slave.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

Papa drove steel and Momma stood guard,
I never heard them holler ’cause the work was hard.
They were born to work up to their graves
But they were not born
To be worked-out slaves.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

Brothers and sisters know the daily grind,
It was not labor made them lose their minds.
They were born to work up to their graves
But they were not born
To be worked-out slaves.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

And now I’ll tell you my Golden Rule,
I was born to work but I ain’t no mule.
I was born to work up to my grave
But I was not born
To be a slave.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

§

Despertando em Nova York

Cortinas se forçam
contra o vento,
as crianças dormem,
trocando sonhos com
os anjos. A cidade
se força a acordar nas
vias do metrô; e
eu, alarmada, acordo como
um rumor de guerra,
me espreguiçando pelo amanhecer,
indesejado e ignorado.

Awaking in New York

Curtains forcing their will
against the wind,
children sleep,
exchanging dreams with
seraphim. The city
drags itself awake on
subway straps; and
I, an alarm, awake as
a rumor of war,
lie stretching into dawn,
unasked and unheeded.

§

Por que eles estão felizes?

Arreganhe seus dentes, maldito seja,
agite seus ouvidos,
sorria enquanto os anos
correm
do seu rosto.

Levante as bochechas, garoto negro,
enrugue seu nariz,
sorria enquanto os seus dedos
cavam
o seu túmulo.

Revire esses olhos grandes, garota negra,
emborrache seus joelhos,
sorria quando as árvores
se curvarem
com seus parentes.

Why are they happy people?

Skin back your teeth, damn you,
wiggle your ears,
laugh while the years
race
down your face.

Pull up your cheeks, black boy,
wrinkle your nose,
grin as your toes
spade
up your grave.

Roll those big eyes, black gal,
rubber your knees,
smile when the trees
bend
with your kin.

* * *

Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) é poeta, tradutora, editora e curadora. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). “um corpo negro” foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação, em 2020, na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ser finalista do Prêmio Rio de Literatura e do 61º Prêmio Jabuti. Tem diversas publicações em antologias e revistas nacionais e internacionais. Organizou os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

Padrão
poesia, tradução

Yusef Komunyakaa, por Viviane Nogueira

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Yusef Komunyakaa é um poeta e professor estadunidense nascido em Bogalusa, Louisiana, em 1947. Durante os anos de 1969 e 1970 Komunyakaa serviu na Guerra do Vietnã como correspondente, e posteriormente como editor, do jornal militar The Southern Cross.  Após o serviço militar estudou na Universidade do Colorado, Colorado Springs. Komunyakaa obteve seu Master in Arts em Escrita pela Colorado State University (1978) e um Master in Fine Arts em Escrita Criativa pela Universidade da Califórnia (1980). Ensinou poesia no sistema escolar público de Nova Orleans e escrita criativa na Universidade de Nova Orleans, na Universidade de Indiana. Em 1997 se tornou professor de inglês na Universidade de Princeton. Yusef Komunyakaa é professor do Programa de Escrita Criativa da Universidade de Nova York.

Em seus poemas trabalha através de uma narrativa autobiográfica temas como raça, guerra e jazz. Recebeu em 1994 o Pullitzer pelo livro Neon Vernacular: New and Selected Poems (1994), e entre outros prêmios, o Ruth Lilly Poetry Prize (2001), o Shelley Memorial Award da Poetry Society of America (2004), e o Wallace Stevens Award da Academy of American Poets (2011). Entre suas obras estão os livros: Dedications & Other Darkhorses (1977); Lost in the Bonewheel Factory (1979);  I Apologize for the Eyes in My Head (1986); Dien Cai Dau (1988), Warhorses (2008); Taboo: The Wishbone Trilogy, Part 1 (2006); Pleasure Dome: New & Collected Poems, 1975-1999(2001); Talking Dirty to the Gods (2000); and Thieves of Paradise (1998). Suas coletâneas de poesia mais recentes incluem The Chameleon Couch (2011);  Testimony: A Tribute to Charlie Parker (2013) e Emperor of Water Clocks (2015).

Agradeço a Ana Rusche, Francesca Cricellli e Maíra Mendes Galvão pelas revisões e pelo incentivo.

Viviane Nogueira

*

We Never Know

He danced with tall grass
for a moment, like he was swaying
with a woman. Our gun barrels
glowed white-hot.
When I got to him,
a blue halo
of flies had already claimed him.
I pulled the crumbed photograph
from his fingers.
There’s no other way
to say this: I fell in love.
The morning cleared again,
except for a distant mortar
& somewhere choppers taking off.
I slid the wallet into his pocket
& turned him over, so he wouldn’t be
kissing the ground

Nunca sabemos

Ele dançou com o capim alto
por um momento, como se bailasse
com uma mulher. O cano de nossas armas
brilhou incandescente.
Quando o encontrei,
uma auréola azul
de moscas já lhe reivindicava.
Puxei a fotografia amarrotada
de seus dedos.
Não há outro jeito
de dizer isso: me apaixonei.
A manhã clareou novamente,
exceto por um morteiro distante
& helicópteros alçando voo em algum lugar.
Deslizei a carteira para dentro de seu bolso
& o virei para cima, para que não
beijasse mais o chão.

§

 

You And I Are Disappearing–Bjorn Hakansson

The cry I bring down from the hills
belongs to a girl still burning
inside my head. At daybreak

she burns like a piece of paper.

She burns like foxfire
in a thigh-shaped valley.
A skirt of flames
dances around her
at dusk.

We stand with our hands

hanging at our sides,
while she burns
like a sack of dry ice.

She burns like oil on water.
She burns like a cattail torch
dipped in gasoline.
She glows like the fat tip
of a banker’s cigar,

silent as quicksilver.

A tiger under a rainbow
    at nightfall.
She burns like a shot glass of vodka.
She burns like a field of poppies
at the edge of a rain forest.
She rises like dragonsmoke
    to my nostrils.
She burns like a burning bush
driven by a godawful wind.

Você e eu estamos desaparecendo

O lamento que eu trago das colinas
pertence a uma garota que ainda queima
em minha cabeça. No romper do dia

ela queima como um pedaço de papel

queima fogo-fátuo
num vale em forma de coxa
Uma saia de chamas
dança ao seu redor
no cair da noite.

Ficamos com as mãos

soltas ao lado do corpo
enquanto ela queima
como um saco de gelo seco.

Queima como óleo na água.
Queima como uma tocha de taboa
mergulhada em gasolina.
Ela brilha como a ponta grossa
do charuto de um banqueiro,

silenciosa como mercúrio.
Um tigre sob o arco-íris
no anoitecer.
Ela queima como um shot de vodka.
Queima como um campo de papoulas
na borda de uma floresta tropical.
Se ergue como fumaça de dragão
até minhas narinas.
Ela queima como sarça ardente
movida por um vento de merda

§

Believing In Iron

The hills my brothers & I created
never balanced, & it took years
To discover how the world worked.
We could look at a tree of blackbirds
& tell you how many were there,
But with the scrap dealer
Our math was always off.
Weeks of lifting & grunting
Never added up to much,
But we couldn’t stop
Believing in iron.
Abandoned trucks & cars
Were held to the ground
By thick, nostalgic fingers of vines
Strong as a dozen sharecroppers.
We’d return with our wheelbarrow
Groaning under a new load,
Yet tiger lilies lived better
In their languid, August domain.
Among paper & Coke bottles
Foundry smoke erased sunsets,
& we couldn’t believe iron
Left men bent so close to the earth

As if the ore under their breath
Weighed down the gray sky.
Sometimes I dreamt how our hills
Washed into a sea of metal,
How it all became an anchor
For a warship or bomber
Out over trees with blooms
Too red to look at.

Acreditar no Ferro

Os montes que meus irmãos & eu criamos
Nunca fecharam as contas & foram anos
para descobrir como o mundo funciona.
Podíamos olhar para uma árvore de melros-pretos
& lhe dizer quantos estavam lá,
Mas com o homem do ferro velho
Nossas contas estavam sempre erradas.
Semanas levantando & grunhindo
Nunca rendiam muito,
Mas não podíamos parar de
Acreditar no ferro.
Caminhões & carros abandonados
Depostos no chão
Por dedos grossos e nostálgicos de trepadeiras
Fortes como uma dúzia de meeiros.
Voltávamos com nosso carrinho de mão
Gemendo debaixo de uma nova carga,
Ainda que os lírios vivessem melhor
Em seu lânguido domínio de agosto.
Entre papel & garrafas de Coca-cola
A névoa das chaminés apagava poentes,
& não podíamos crer que o ferro
deixava os homens tão perto do chão
Como se o minério em seu fôlego
Rebaixasse o céu cinzento.
Às vezes sonhava com nossos montes
Desaguando um mar de metal,
Como tudo isso se fez âncora
Para um navio de guerra ou bombardeiro
Por cima de árvores em flor
Rubras demais para serem olhadas.

§

Instructions for Building Straw Huts         

First you must have
unbelievable faith in water,
in women dancing like hands playing harps
for straw to grow stalks of fire.
You must understand the year
that begins with your hands tied
behind your back,
worship of dark totems
weighed down with night birds that shift their weight
& leave holes in the sky. You must know
what’s behind the shadow of a treadmill—
its window the moon’s reflection
& silent season reaching
into red sunlight hills.
You must know the hard science
of building walls that sway with summer storms.
Locking arms to a frame of air, frame of oak
rooted to ancient ground
where the door’s constructed last,
just wide enough for two lovers
to enter on hands & knees.
You must dance
the weaverbird’s song
for mending water & light
with straw, earth, mind, bright loom of grain
untortured by bushels of thorns.

Instruções para Construir Cabanas de Palha

Há de se ter
uma fé inabalável na água,
nas mulheres que dançam como mãos tocam harpas
para que da palha cresçam hastes de fogo.
Há de se entender o ano
que começa com tuas mãos presas
às costas,
adoração de entidades sombrias
sobrecarregadas com aves noturnas que mudam de peso
& deixam buracos no céu. Há de se saber
o que está atrás da sombra de uma moenda —
sua janela o reflexo da lua
& a estação silenciosa alcançando
as colinas do sol vermelho.
Há de se saber a ciência exata
de construir paredes que balançam com as tempestades de  verão.
Encerrar os braços numa moldura de ar, de madeira
enraizada em solo antigo
onde a porta é construída por último,
com a largura exata para que dois amantes
entrem de joelhos & mãos.
Há de se dançar
o canto dos tecelões
para remendar água & luz
com palha, terra, mente, tear brilhante de grãos
sem a tormenta de alqueires de espinho.

§

Viviane Nogueira tem 24 anos, é poeta, bacharela em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco e autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, com ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

*

 

Padrão
poesia, tradução

Três poemas uterinos de Anne Sexton, por Mariana Basílio

anne sexton

Anne Sexton (1928 – 1974) é uma das mais celebradas poetas estadunidenses do século XX. Autora de mais de 10 livros de poesia e prosa, venceu o Prêmio Pulitzer de Poesia em 1967. A vida de Sexton foi marcada por sua luta contra a depressão. Ela começou a escrever na década de 1950, incentivada pelo seu analista. Os temas de seus poemas incluem sua longa batalha contra a depressão e as tentativas de suicídio, detalhes de sua vida pessoal, filhos, temas feministas e intimistas – como a questão uterina para vida da mulher, o aborto, a masturbação. Anne também colaborou com músicos, formando um grupo de jazz chamado Her Kind (título de um dos seus poemas), que adicionava música à sua poesia. Em prosa, sua peça teatral Mercy Street foi produzida em 1969, e inspirou uma canção homônima de Peter Gabriel.

Ela decidiu morrer em 4 de outubro de 1974, após um almoço ao lado da amiga Maxine Kumin, quando revisavam o manuscrito de The Awful Rowing Toward God, que seria publicado em março de 1975.

Sua obra também inclui livros como:  To Bedlam and Part Way Back (1960), All My Pretty Ones (1962), Live or Die (1966), Love Poems (1969), Mercy Street (1969), Transformations (1971), The Book of Folly (1972), The Death Notebooks (1974).

Para minha tradução da poesia completa de Anne Sexton, trabalho iniciado em 2017,  procuro sempre um equilíbrio entre seus versos livres, observando a força dos seus vocábulos e metáforas, e quesitos como métrica e ritmo, focando sobretudo no sentido de sua poesia, na fluidez e densidade dessa poesia confessional, procurando manter as surpresas e as sutilezas dos seus versos na língua portuguesa, acompanhando a essência de Sexton: uma poesia híbrida, moderna, fluente, densa, intimista, potente – repleta de reflexões sociais e  pessoais – em movimentos que ultrapassam seu tempo, e que a tornaram uma das vozes mais ilustres da poesia americana do século XX.

Para esta colaboração, apresento uma tríade de poemas inéditos na escamandro, os famosos poemas The abortion, Menstruation at forty, e In Celebration of My Uterus. Um tema que é contínuo em seus livros, uma unidade importante da poesia de Sexton, é a reflexão das dimensões da mulher em seu papel gerativo, na vida que ela escolhe e não escolhe viver, estar e representar, e se emancipar.

Anteriormente, a autora apareceu pela primeira vez no escamandro em 2014, em apresentação de Adriano Scandolara para uma tradução de Bernardo Beledeli Perin, e reapareceu neste blog anos mais tarde em outros três poemas traduzidos por Beatriz Regina Guimarães Barboza, escolhidos do final de sua trajetória.

Espero assim, com esta nova contribuição, colaborar para o aumento do seu reconhecimento pelo público lusófono e brasileiro.

Mariana Basílio

*

O aborto

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

Assim como a terra sua boca enrugou,
cada botão inchado de seu nó,
eu troquei meus sapatos, e dirigi para o sul.

Passando pelas Montanhas Blue, vê-se a
Pensilvânia se curvando infinitamente,
vestindo, como um gato de giz de cera, seu pelo verde,

suas estradas afundadas como uma tábua de lavar cinzenta;
onde, na verdade, o chão racha malignamente,
uma tomada escura de onde o carvão foi se vertendo,

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

a grama como uma cebolinha eriçada e robusta,
e eu me perguntando quando o chão se quebraria,
e eu me perguntando como algo frágil perdura;

lá na Pensilvânia, eu conheci um homem pequenino,
não Rumpelstiltskin, mesmo, mesmo…
ele tomou a plenitude que o amor deu início.

Voltando ao norte, até o céu se tornou tão fino
como uma alta janela olhando para lugar nenhum.
A estrada era tão plana, como um papel alumínio.

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

Sim, mulher, tal lógica irá levar
à perda sem morte. Ou diga o que você quis dizer,
sua covarde… esse bebê a me sangrar.

 

The abortion

Somebody who should have been born
is gone.

Just as the earth puckered its mouth,
each bud puffing out from its knot,
I changed my shoes, and then drove south.

Up past the Blue Mountains, where
Pennsylvania humps on endlessly,
wearing, like a crayoned cat, its green hair,

its roads sunken in like a gray washboard;
where, in truth, the ground cracks evilly,
a dark socket from which the coal has poured,

Somebody who should have been born
is gone.

the grass as bristly and stout as chives,
and me wondering when the ground would break,
and me wondering how anything fragile survives;

up in Pennsylvania, I met a little man,
not Rumpelstiltskin, at all, at all…
he took the fullness that love began.

Returning north, even the sky grew thin
like a high window looking nowhere.
The road was as flat as a sheet of tin.

Somebody who should have been born
is gone.

Yes, woman, such logic will lead
to loss without death. Or say what you meant,
you coward… this baby that I bleed.

§
Menstruação aos quarenta

Eu estava pensando num filho.
O ventre não é um relógio
nem um sino tocando,
mas no décimo primeiro mês de vida
eu sinto o novembro
do corpo, bem como o do calendário.
Em dois dias será o meu aniversário
e como sempre a terra terminou a sua colheita.
Desta vez eu caço a morte,
a noite a que eu me inclino,
a noite que eu desejo.
Bem, então –
fale disso!
Ele estava no ventre este tempo todo.

Eu estava pensando num filho…
Você! O nunca conseguido,
o nunca semeado ou desatado,
você, dos genitais que eu temia,
o talo e o fôlego do filhotinho.
Eu te darei os meus olhos ou os dele?
Você será o David ou a Susan?
(Esses dois nomes eu escolhi escutando).
Você pode ser o homem que seus pais são –
os músculos das pernas de Michelangelo,
mãos da Iugoslávia
em algum lugar o camponês, Eslavo e determinado,
em algum lugar o sobrevivente, cheio de vida –
e seria ainda possível
tudo isso com os olhos de Susan?

Tudo isso sem você –
dois dias passados em sangue.
Eu mesma morrerei sem batismo,
uma terceira filha com que não se importaram.
A minha morte virá no dia do meu santo.
O que há de errado com o dia do meu santo?
É só um anjo do sol.
Mulher,
tecendo uma teia sobre você mesma,
um veneno fino e emaranhado.
Escorpião,
má aranha –
morra!

A minha morte pelos pulsos,
dois crachás,
sangue vestido como flor de corpete,
para florescer,
uma à esquerda e outra à direita –
É um quarto morno,
o lugar do sangue.
Deixe a porta aberta nas dobradiças!

Dois dias para a sua morte
e dois dias até a minha.

Amor! Essa rubra doença –
ano após ano, David, você me deixaria louca!
David, Susan, David, David!
plena e desgrenhada, sibilando pela noite,
sem nunca envelhecer,
esperando sempre por você na varanda…
ano após ano,
minha cenoura, meu repolho,
eu teria te possuído antes de todas as mulheres,
chamando seu nome,
chamando-te meu.

 

Menstruation at forty

I was thinking of a son.
The womb is not a clock
nor a bell tolling,
but in the eleventh month of its life
I feel the November
of the body as well as of the calendar.
In two days it will be my birthday
and as always the earth is done with its harvest.
This time I hunt for death,
the night I lean toward,
the night I want.
Well then –
speak of it!
It was in the womb all along.

I was thinking of a son…
You! The never acquired,
the never seeded or unfastened,
you of the genitals I feared,
the stalk and the puppy’s breath.
Will I give you my eyes or his?
Will you be the David or the Susan?
(Those two names I picked and listened for.)
Can you be the man your fathers are –
the leg muscles from Michelangelo,
hands from Yugoslavia
somewhere the peasant, Slavic and determined,
somewhere the survivor bulging with life –
and could it still be possible,
all this with Susan’s eyes?

All this without you –
two days gone in blood.
I myself will die without baptism,
a third daughter they didn’t bother.
My death will come on my name day.
What’s wrong with the name day?
It’s only an angel of the sun.
Woman,
weaving a web over your own,
a thin and tangled poison.
Scorpio,
bad spider –
die!

My death from the wrists,
two name tags,
blood worn like a corsage
to bloom
one on the left and one on the right –
It’s a warm room,
the place of the blood.
Leave the door open on its hinges!

Two days for your death
and two days until mine.

Love! That red disease –
year after year, David, you would make me wild!
David! Susan! David! David!
full and disheveled, hissing into the night,
never growing old,
waiting always for you on the porch…
year after year,
my carrot, my cabbage,
I would have possessed you before all women,
calling your name,
calling you mine.

§

Celebração do Meu Útero

Cada um em mim é um pássaro.
Estou batendo todas as minhas asas.
Eles queriam te arrancar
mas eles não irão.
Eles disseram que você estava imensuravelmente vazio
mas você não está.
Eles disseram que você estava prestes a morrer
mas eles estavam errados.
Você canta como uma estudante.
Você não está rasgado.

Doce peso,
na celebração da mulher que eu sou
e da alma dessa mulher que eu sou
e da criatura central e de seu deleite,
eu canto para você. Eu ouso viver.
Olá, alma. Olá, taça.
Ata, cobre. Tampa que contém.
Olá à terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.

Cada célula tem uma vida.
Aqui há o bastante para satisfazer uma nação.
É bastante que o povo possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer comunidade diria disso,
“Está tudo tão bem neste ano que poderemos plantar de novo
e esperar uma colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.”
Muitas mulheres unidas estão cantando sobre isso:
uma amaldiçoando a máquina na fábrica de sapatos,
uma cuidando de uma foca no aquário,
uma aborrecida nas rodas do seu Ford,
uma cobrando no guichê do pedágio,
uma enlaçando um bezerro no Arizona,
uma montando no seu violoncelo na Rússia,
uma mexendo as panelas do fogão no Egito,
uma pintando da cor da lua as paredes do seu quarto,
uma morrendo, mas recordando de um café da manhã,
uma estirando-se na sua esteira na Tailândia,
uma limpando o bumbum do seu filho,
uma olhando pela janela do trem
no meio de Wyoming e uma está
em algum lugar e algumas estão por todo lado e todas
parecem estar cantando, ainda que algumas não saibam
cantar nota alguma.

Doce peso,
em celebração da mulher que eu sou
deixe-me levar uma echarpe de três metros,
deixe-me batucar pelas de dezenove anos,
deixe-me levar as tigelas para as oferendas
(se for o caso).
Deixe-me analisar o tecido cardiovascular,
deixe-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixe-me chupar os caules das flores
(se for o caso).
Deixe-me fazer certas figuras tribais
(se for o caso).
Por esta coisa que o corpo necessita
deixe-me cantar
para a ceia,
para os beijos,
para o certeiro
sim.

 

In Celebration of My Uterus

Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.

§

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015), Sombras & Luzes (2016), e Tríptico Vital (Patuá, 2018. Prêmio ProAC 2017, Finalista Residência Literária Sesc 2018, Finalista Prêmio Guarulhos 2019). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. É também autora das plaquetes de poemas, As Três Mal-Amadas (Kizumba Edições, 2018), e As Mãos que Ressoam o Absurdo (edição artesanal, 2019). Com patrocínio do prêmio ProAC 2019, do Governo de São Paulo, publicará em 2020 seu quarto livro de poesia, Mácula (Patuá). Mantém o site http://www.marianabasilio.com.br.

*

 

Padrão
poesia, tradução

“A”-19 de Louis Zukofsky, um trecho por Beethoven Alvarez

Louis Zukofsky (1904 – 1978) foi um poeta americano, filho de imigrantes russos judeus, que carregou o peso de ter vindo depois de T.S. Eliot, Ezra Pound e William Carlos Williams. E não sou eu que digo isso, foi o próprio Pound que escreveu isso numa carta pro L.Z. (numa das quase 600 que trocaram ao longo da vida, que dá pra ler nesse volume).

Entre 1927 (quando L.Z. tinha 23 e Pound, 42) e 1933, foram mais de 300 cartas, até finalmente se encontrarem pessoalmente na Itália. A história dessa amizade e filiação poética vai muito além disso (e inclui muito mais afeto e desilusão), mas, dessa época, um fato importante foi que Pound convenceu Harriet Monroe, editora da Poetry, a deixar L.Z. editar uma edição especial em 1931, que ele intitulou de Objectivists’ 1931.

Zukofsky tinha começado a escrever ainda na década de 1920, muito influenciado por Pound e William Carlos Williams, mas, foi na década de 1930, depois da publicação dessa edição da Poetry, que fica conhecido como uma espécie de líder de um grupo de poetas que intitulou de “objetivistas” (embora nunca se tenha falado de um “objetivismo” como movimento).

Para L.Z. e os objetivistas o poema deveria ser entendido como um objeto, sincero e inteligente, que permitisse ao poeta enxergar e fazer enxergar o mundo, como um espelho. Ver o poema como esse objeto exigia chamar a atenção para o próprio poema, o que podia ser feito com a fragmentação sintática deliberada e pelas quebras de linha que perturbam o ritmo normal da fala. Essas ideias L.Z. desenvolveu continuamente. 

Porém, embora tenha feito certo sucesso, sua poesia era tida como obscura, experimental e intelecual demais (era?). L.Z. acabou ficando um tanto eclipsado pela popularidade de Eliot, Yeats e outros poetas americanos de influências simbolistas. Zukofsky continuou trabalhando, produziu algumas antologias, um profundo estudo sobre Shakespeare (antes já tinha sido o primeiro a publicar uma análise sobre os Cantos, de E.P.) e uma tradução integral da poesia de Catulo num método, no mínimo, controverso. Além de se manter escrevendo poemas.

Sua obra mais marcante, com certeza, é poema épico “A”. É seu magnum opus (e bota magnum nisso), que L.Z. começou a escrever ainda em 1927 e terminou 40 anos depois, em 1968. Composto por 24 cantos, equivalentes às 24 horas do dia, o poema tem 803 páginas (sem considerar os índices; se considerarmos os índices do final, o livro tem 826 páginas e começa exatamente com a letra A e termina com a palavra Zion).

Um conhecido crítico, Hugh Kenner, chamou “A” de o “mais hermético poema em inglês, um poema que os estudiosos vão estar ainda tentando elucidar no século 22”. (Isso quem diz foi Barry Ahearn, um dos maiores conhecedores da obra de L.Z., na Introdução da edição de 2011 de “A”.)

E é um trecho do canto “A”-19 que apresento agora traduzido. E já digo: se você não entender muita coisa de início, eu juro, a culpa não é só minha. É necessário fazer um esforço hermenêutico grave pra penetrar o intricado jogo de sentidos e de falta deles, de ritmos, de melodias (a poesia de Zukofsky é altamente musical), de vozes, de alusões, citações, referências e o escambau. Mas o próprio L.Z. dá a chave de leitura, ou, melhor, de apreciação desse canto: aqui será uma espécie de tributo a Mallarmé. 

É preciso dizer que L.Z. empregou aqui e em várias passagens de “A”, como fez com Catulo, a chamada “tradução homofônica”, que acaba por criar um texo como uma imagem sonora do outro, em que a semântica está fortemente subordinada ao sistema fônico. Busquei fazer o mesmo, mas além de transpor o texto em inglês para o português homofonicamente, em várias passagens, que vão parecer ter pouca correspondência, eu fiz isso direto com o texto em francês (de poemas de Mallarmé). Dá uma olhada em algumas notas sobre isso aqui.

Do ponto de vista formal e descritivo, Kenneth Cox, exatamente num estudo chamado “Tribute to Mallarmé” (2001), explica que o “A”-19 é composto por um prelúdio de 8 quartetos + 72 estrofes de 13 versos cada (a última possui 12 linhas).

Todos os versos são formados por duas palavras, exceto o verso final de cada estrofe, que tem três (embora haja irregularidades aqui ou ali).

São então 2³ (= 8) quartetos de 2³ (= 8) palavras cada no prelúdio, e 2³ x 3² (= 72) estrofes de 3³ (= 27) palavras cada no corpo do poema. A estrofe final possui 2² x 3 (= 12) versos e 2³ x 3 (= 24) palavras.

Aqui vai a tradução do prelúdio + 9 estrofes (que é uma parte 1 do poema) + 4 estrofes da parte final (incluindo a última), ou seja, o prelúdio + 13 estrofes (achei o número alvissareiro, L.Z. acha que 13 é um número da sorte).

Ponha um Bach pra tocar e ouça um trechinho dessa canção.

Beethoven Alvarez é professor de Língua e Literatura Latina da UFF em Niterói. Traduz Plauto. O “A”-21 de L.Z. é uma tradução de Plauto.

* * *

“A”-19

Mais uma
canção – você
quer outra
encóre eu

ouço la-
tente atrás
tarde
do assistente

sua lua
sofrendo de
luzes . lúmens
cuidado pinheiros

e na
porta flocos
de neve
flutuam acima

através e
passa torna
sobre sobe
em espuma

pinhas essas
gelam melhor
qualquer sol
no amanhã

sons tocados
em dedos
luz cai
tocados corações

mais umas
palmas – fama
cobram um
outro cartãozinho.

Azar não
se colagem
inanis vacua
crina remenda
azul juba
flagelo frio
rótas rôtas
cacos a
perversa triste
em orgulho
que odeia
infortúnio Apraz
fútil e range

menos discreto
que ela
lábios raiam
na xícara
primeiro beijo
bento dia
os lábios
não beberam
inda onde
o tardar
é sopro:
arme vem
de mártir rir-se

será se
pode ser
alma posse
por tempo
ilumina-se mesmo
príncipe eleito
paixão saúde
crina seda
ou quimera
ao bálsamo
dos tempos
uma anti-matéria
à sua vista

um ave
duma vez
só ouviu
viu-o longe
nua jubilação
tua história
cinza separa
o fogo
heroi fracote
parece ofensa:
puxasse uma
infante sopa
com irmã corta

pro seu
marido sapateiro
que recriaria
sapatos (se
pés vocês
valem) reviver
amizades monótonas
sua vida
olho separa
ele de
suas roupas
e como
deus vá nu

canção de
sua floresta
a verdade
de sua
face do
seu hino
obra paciência
atlas ervas
ciência ritual
quando insensível
autoridade turva
era humilhado
sem nenhum motivo

seus impalpáveis
conscientes duplos
quando não
olhará alucinado
ar com
divisões sábio
ramo de
litígio que
provoca mas
até que
flores crescem
tão grandes
por suas razões

cruel aspereza
sem símbolos
literalmente Dom
Quixote com
formas nos
pés retornando:
(Duas vidas
desconhecidas uma
da outra
declaram com
e sem
festa um
futuro à parte

do acaso
cantou esposa
cantou filho)
Perguntei-lhe tinha
4 anos
‘por quê
violino?’ respondeu
“Porque eu
gosto muito”
Depois–“você
não sabe
você é
um sapo dorminhoco.”

[…]

De vinhas
bençãos: por
que ter
paciência pra
diferenciar números
aleatórios (meu
13 dá
sorte) e
se !
voz por
Demétrio ‘Egito
. . cantando harmonias
de sete vogais

louvando deuses’
(antes do
fonema) ‘. . sequência
ouvia-se isso
. . vozes substituindo
flauta e
lira ditongo
ditongos encontram-se
. . variedade . . elevação
. . forte . . suave
hoíên não
só diferentes
letras diferentes timbres

ocorrência de
mesmas vogais
um pouco
de canto
trinados canto
empilhado (assim
por dizer)
sobre cantos’
me lembrando
‘Die Elenden
sollen essen’
primeira canção
de Bach (Leipzig)

[…]

Mallarmé (não
o chapéu)
a face
um convertido
parece poder
fazer alguém
envergonhar-se do
canto D’onde
sofrer foi
para sempre
riscado
. nove
logo logo vinte

“A”-19

An other
song – you
want another
encóre I

hear back-
stage the
stagehand’s
late
the stage’s

moon his
sufferance of
lights footcandles
mind pines

at a
door snow
flakes drift
down up

thru and
past turn
over under
on froth

pine needles
frost tomorrow’s
sun better
than any

tune bōwed
fingered drawn
lights dimmed
bōwed heart

another
bŏwed – fame
crowds an
other valentine.

No ill-luck
if bonding
tohu bohu
horsehair mends
azure mane
flogs cold
races rut
shards the
perverse desolate
with pride
who curse
misfortune Place
it futile range

less discreet
than her
lips dawned
on china
benign day’s
first kiss
the lips
not drinking
yet where
to tarry
is breath:
arm even
the martyr’s assay

will may
may be
soul owned
by time
illumine itself
primordial elect
penchant salute
horsehair silk
play to
the balm
of time
an anti-matter
of its sigh

bird one
hears once
of all
alive comber
naked jubilation
its story
cinder sparing
the fire
fierce shying
idleness offense:
purchase woman
child broth
quarryman cut out


for his
marriage cobbler
who’d recreate
shoes (feet
if
you
will) revive
everyday’s amities
his live
eye separate
him from
his togs
so he
walk naked god


song of
his wood
the truth
of a
face of
it hymn
work patience
atlas herb
science ritual
while insensible
authority trouble
to humiliate
ore and motility


their impalpable
conscionable double
when no
eye’ll hallucinate
air with
divisions sage
sprig the
litigious who
tease but
till the
blossom grow
too large
for their reasons


fierce shyness
no symbol
literally Don
Quixote with
shoe trees
come home:
(Two lives
unknown to
each other
profess with
and without
salon a
future apart the


like hazard
sang wife
sang child)
Asked him
4-year old
‘why the
violin?’ responded
“Individually I
love it”
Finally – “you
don’t understand
you’re like
a sleeping frog.”

[…]

The wistaria’s
blessing: why
you should
have patience
ranging random
numbers (my
luck is
13) and
if !
voice thru
Demetrius ‘Egypt
. . singing harmonies
of seven vowels


hymning gods’
(before phoneme)
‘. . sequence men
listened to
. . voices replacing
flute and
lyre diphthong
clashing diphthong
. . variety . . elevation
. . rough . . smooth
hoiain not
only different
letters different breathings


concurrence of
like vowels
a bit
of song
trills song
piled (so
to say)
on songs’
reminding me
‘Die Elenden
sollen essen’
Bach’s first
music (Leipzig Cantorate)

[…]

Mallarmé (not
the hat)
the face
a covert
look might
make one
shy of
song
From
thence sorrow
be ever
raz’d nine
so soon twenty

Padrão