poesia, tradução

Maya Angelou, por Lubi Prates

Recentemente, escutei algo como “os aniversários são para sempre”. Não sei quem me disse isso, se li ou ouvi, e nem o contexto. Mas quando penso sobre hoje, aniversário de Maya Angelou, só consigo concluir que, sim, é uma data para ser sempre celebrada.

Maya (Marguerite Annie Johnson) foi uma poeta, escritora, condutora de bondes (a primeira negra contratada para a função), atriz, cantora, dançarina, diretora de cinema, ativista pelos direitos dos negros, ou seja, teve uma vida recheada de histórias – que ela gostava de contar e repetir, e que lhe renderam 7 autobiografias, sucessos mundiais.

Com a poesia, Maya conquistou o Pulitzer (com o livro “Apenas me dê um copo de água gelada antes que eu morraaa) e 3 Grammy com álbuns de poesia falada,  e essa era uma relação especial porque foi através da poesia que Maya conseguiu romper com um trauma vivido na infância. Quando tinha 7 anos, Maya foi estuprada pelo namorado de sua mãe. Ela compartilhou o acontecido com seu irmão, Bailey, que contou para o resto da família – dias depois, o estuprador foi encontrado morto. Com isso, Maya acreditou que sua voz tinha matado aquele homem e que, portanto, poderia matar qualquer um, por isso, parou de falar e esse mutismo durou anos, sendo quebrado pela provocação feita por uma amiga da família, a senhora Flowers, com quem Maya passava algumas tardes. A senhora Flowers lia para Maya uma infinidade de poetas (Shakespeare, Dickens, Poe) que, depois, se tornaram referências para ela. “Maya, você não gosta de poesia… Você nunca vai gostar até que a recite, até sentí-la rolar pela sua língua, sobre os dentes, através de seus lábios. Você nunca vai gostar”. Diante disso, 5 anos depois que decidiu parar de falar, Maya tentou recitar um poema. Essa relação que criou com a poesia, Maya explicava como “a prova de que algo bom pode nascer de uma situação ruim”.

Desse momento em diante, mesmo com diversas atividades, Maya sempre enxergou a poesia como seu trabalho e algo de extrema importância.

Publicou 5 livros de poesia: Apenas me dê um copo de água gelada antes que eu morraaa; Oh, reze para que minhas asas me caiam bem; E ainda assim eu me levanto; Shaker, por que você não canta? e Eu não serei levada, além de diversos poemas avulsos, que foram traduzidos e publicados no Brasil, em março.  Seus poemas falam sobre a condição da mulher negra estadunidense, que ama, que viaja, que trabalha, que tem fé, que resiste e luta – como dizia: “afiando a ponta da caneta nas cicatrizes que existiam no seu próprio corpo”. Com a chegada desta publicação ao país, é possível, ainda, se tratando de uma existência particular, encontrar diversas relações entre a vida da Maya e as vidas de tantas mulheres negro-brasileiras.

Abaixo, poemas de Maya e suas traduções, um bocado de cada livro. Que com eles, que com a vida que existe neles, possamos celebrar a existência dessa mulher fenomenal – como ela mesma se enxergava.

Lubi Prates

* * *

Quando penso sobre mim mesma

Quando penso sobre mim mesma,
Gargalho até quase morrer,
Minha vida tem sido uma grande piada,
Uma dança que se anda,
Uma canção que se fala,
Gargalho tanto que quase perco o ar,
Quando penso sobre mim mesma.

Sessenta anos no mundo dessa gente,
A criança para quem trabalho me chama de garota,
Eu respondo “Sim, senhora” por causa do emprego.
Muito orgulhosa para me curvar,
Muito pobre para me quebrar,
Gargalho até meu estômago doer,
Quando penso sobre mim mesma.

Meus pais podem me fazer cair na gargalhada,
Rir tanto até quase morrer,
As histórias que eles contam soam como mentiras,
Eles cultivam a fruta,
Mas só comem a casca,
Gargalho até começar a chorar,
Quando penso sobre meus pais.

When I think about myself

When I think about myself,
I almost laugh myself to death,
My life has been one great big joke,
A dance that’s walked,
A song that’s spoke,
I laugh so hard I almost choke,
When I think about myself.


Sixty years in these folks’ world,
The child I works for calls me girl,
I say “Yes ma’am” for working’s sake.
Too proud to bend,
Too poor to break,
I laugh until my stomach ache,
When I think about myself.


My folks can make me split my side,
I laughed so hard I nearly died,
The tales they tell sound just like lying,
They grow the fruit,
But eat the rind,
I laugh until I start to crying,
When I think about my folks.


Para assistir a Maya declamando esse poema: https://youtu.be/k9ywTJvBwTc

§

Minha culpa

Minha culpa são “as correntes da escravidão”, por muito tempo
o barulho do ferro caindo ao longo dos anos.
Este irmão vendido, esta irmã que se foi,
tornam-se uma cera amarga tapando os meus ouvidos.
Minha culpa fez música com as lágrimas.

Meu crime são “os heróis mortos e esquecidos”,
Vesey, Turner, Gabriel, mortos,
Malcolm, Marcus, Martin King, mortos.
Eles lutaram pesado e amaram bem.
Meu crime é estar viva para contar.

Meu pecado é “estar pendurada numa árvore”,
Eu não grito, isso me deixa orgulhosa.
Decidi morrer como um homem.
Faço isso para impressionar a multidão.
Meu pecado é não gritar mais alto.

My guilt

My guilt is “slavery’s chains,” too long
the clang of iron falls down the years.
This brother’s sold, this sister’s gone,
is bitter wax, lining my ears.
My guilt made music with the tears.


My crime is “heroes, dead and gone,”
dead Vesey, Turner, Gabriel*,
dead Malcolm, Marcus, Martin King.
They fought too hard, they loved too well.
My crime is I’m alive to tell.


My sin is “hanging from a tree,”
I do not scream, it makes me proud.
I take to dying like a man.
I do it to impress the crowd.
My sin lies in not screaming loud.


*Nota: Vesey, Turner e Gabriel, assim como os também citados (e mais conhecidos) Malcolm X, Marcus Garvey e Martin Luther King, foram lutadores pela liberdade dos negros.

§

Um brinde à recomposição

Eu fui numa festa
lá em Hollywood.
A atmosfera era péssima
mas as bebidas estavam boas
e foi onde ouvi você rir.

Então, eu fiz um cruzeiro
num velho navio grego.
A tripulação era divertida
mas os convidados não eram descolados,
foi aí que encontrei suas mãos.

Numa caravana
para o Saara,
O sol acertava como uma flecha
mas as noites eram grandiosas,
e foi assim que eu encontrei seu peito.

Numa tarde no Congo
onde o Congo termina,
Eu me encontrei sozinha, ah
mas eu fiz alguns amigos,
e foi onde eu vi seu rosto.

Eu tenho dedicado
todo meu tempo para reunir
partes suas que flutuam
ainda descoladas.

E você não vai se recompor
Para
Mim
N E N H U M A V E Z?

Here’s to Adhering

I went to a party
out in Hollywood,
The atmosphere was shoddy
but the drinks were good,
and that’s where I heard you laugh.


I then went cruising
on an old Greek ship,
The crew was amusing
but the guests weren’t hip,
that’s where I found your hands.

On to the Sahara
in a caravan,
The sun struck like an arrow
but the nights were grand,
and that’s how I found your chest.

An evening in the Congo
where the Congo ends,
I found myself alone, oh
but I made some friends,
that’s where I saw your face.

I have been devoting
all my time to get
Parts of you out floating
still unglued as yet.
Won’t you pull yourself together
For
Me
O N C E.

§

Trabalho de mulher

Eu tenho crianças para cuidar
As roupas para remendar
O chão para esfregar
A comida para comprar
Depois, o frango para fritar
O bebê para secar
Eu tenho as visitas para alimentar
O jardim para aparar
Eu tenho camisetas para passar
O bebê para vestir
A cana para cortar
Eu tenho que limpar essa cabana
Depois, cuidar dos doentes
E colher o algodão.

Brilhe sobre mim, luz do sol
Chova sobre mim, chuva
Caiam suavemente, gotas de orvalho
E refresquem minha testa novamente.

Tempestade, me sopre daqui
Com seus ventos violentos
Me deixe flutuar através do céu
Até que eu possa descansar novamente.

Caiam gentilmente, flocos de neve
Me cubram de beijos
Brancos e gelados e
Me deixem descansar esta noite.

Sol, chuva, céu turvo
Montanha, oceanos, folhas e pedras
Luz das estrelas, brilho da lua
Vocês são tudo que posso chamar de meu.

Woman Work
I’ve got the children to tend
The clothes to mend
The floor to mop
The food to shop
Then the chicken to fry
The baby to dry
I got company to feed
The garden to weed
I’ve got the shirts to press
The tots to dress
The cane to be cut
I gotta clean up this hut
Then see about the sick
And the cotton to pick.

Shine on me, sunshine
Rain on me, rain
Fall softly, dewdrops
And cool my brow again.

Storm, blow me from here
With your fiercest wind
Let me float across the sky
Till I can rest again.

Fall gently, snowflakes
Cover me with white
Cold icy kisses and
Let me rest tonight.

Sun, rain, curving sky
Mountain, oceans, leaf and stone
Star shine, moon glow
You’re all that I can call my own.

§

Mais uma rodada

Não há pagamento mais doce sob o sol
Do que o descanso depois de um trabalho bem feito.
Eu nasci para trabalhar até morrer
Mas eu não nasci
Para ser escrava.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

Papai molda o aço e Mamãe mantinha a guarda,
Nunca os ouvi reclamando porque o trabalho era pesado.
Nasceram para trabalhar até morrer
Mas não nasceram
Para morrer escravos.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

Irmãos e irmãs sabem as tarefas diárias,
O trabalho não fez com que perdessem a cabeça.
Eles nasceram para trabalhar até morrer
Mas não nasceram
Para morrer escravos.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

E agora vou contar qual é minha Regra de Ouro,
Eu nasci para trabalhar, mas não sou nenhuma mula.
Eu nasci para trabalhar até morrer
Mas não nasci
Para morrer escrava.

Mais uma rodada
E viramos o navio,
Mais uma rodada
E viramos o navio.

One more round

There ain’t no pay beneath the sun
As sweet as rest when a job’s well done.
I was born to work up to my grave
But I was not born
To be a slave.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

Papa drove steel and Momma stood guard,
I never heard them holler ’cause the work was hard.
They were born to work up to their graves
But they were not born
To be worked-out slaves.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

Brothers and sisters know the daily grind,
It was not labor made them lose their minds.
They were born to work up to their graves
But they were not born
To be worked-out slaves.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

And now I’ll tell you my Golden Rule,
I was born to work but I ain’t no mule.
I was born to work up to my grave
But I was not born
To be a slave.

One more round
And let’s heave it down,
One more round
And let’s heave it down.

§

Despertando em Nova York

Cortinas se forçam
contra o vento,
as crianças dormem,
trocando sonhos com
os anjos. A cidade
se força a acordar nas
vias do metrô; e
eu, alarmada, acordo como
um rumor de guerra,
me espreguiçando pelo amanhecer,
indesejado e ignorado.

Awaking in New York

Curtains forcing their will
against the wind,
children sleep,
exchanging dreams with
seraphim. The city
drags itself awake on
subway straps; and
I, an alarm, awake as
a rumor of war,
lie stretching into dawn,
unasked and unheeded.

§

Por que eles estão felizes?

Arreganhe seus dentes, maldito seja,
agite seus ouvidos,
sorria enquanto os anos
correm
do seu rosto.

Levante as bochechas, garoto negro,
enrugue seu nariz,
sorria enquanto os seus dedos
cavam
o seu túmulo.

Revire esses olhos grandes, garota negra,
emborrache seus joelhos,
sorria quando as árvores
se curvarem
com seus parentes.

Why are they happy people?

Skin back your teeth, damn you,
wiggle your ears,
laugh while the years
race
down your face.

Pull up your cheeks, black boy,
wrinkle your nose,
grin as your toes
spade
up your grave.

Roll those big eyes, black gal,
rubber your knees,
smile when the trees
bend
with your kin.

* * *

Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) é poeta, tradutora, editora e curadora. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). “um corpo negro” foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação, em 2020, na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ser finalista do Prêmio Rio de Literatura e do 61º Prêmio Jabuti. Tem diversas publicações em antologias e revistas nacionais e internacionais. Organizou os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

Padrão
poesia, tradução

Yusef Komunyakaa, por Viviane Nogueira

yusef-komunyadaa-866

Yusef Komunyakaa é um poeta e professor estadunidense nascido em Bogalusa, Louisiana, em 1947. Durante os anos de 1969 e 1970 Komunyakaa serviu na Guerra do Vietnã como correspondente, e posteriormente como editor, do jornal militar The Southern Cross.  Após o serviço militar estudou na Universidade do Colorado, Colorado Springs. Komunyakaa obteve seu Master in Arts em Escrita pela Colorado State University (1978) e um Master in Fine Arts em Escrita Criativa pela Universidade da Califórnia (1980). Ensinou poesia no sistema escolar público de Nova Orleans e escrita criativa na Universidade de Nova Orleans, na Universidade de Indiana. Em 1997 se tornou professor de inglês na Universidade de Princeton. Yusef Komunyakaa é professor do Programa de Escrita Criativa da Universidade de Nova York.

Em seus poemas trabalha através de uma narrativa autobiográfica temas como raça, guerra e jazz. Recebeu em 1994 o Pullitzer pelo livro Neon Vernacular: New and Selected Poems (1994), e entre outros prêmios, o Ruth Lilly Poetry Prize (2001), o Shelley Memorial Award da Poetry Society of America (2004), e o Wallace Stevens Award da Academy of American Poets (2011). Entre suas obras estão os livros: Dedications & Other Darkhorses (1977); Lost in the Bonewheel Factory (1979);  I Apologize for the Eyes in My Head (1986); Dien Cai Dau (1988), Warhorses (2008); Taboo: The Wishbone Trilogy, Part 1 (2006); Pleasure Dome: New & Collected Poems, 1975-1999(2001); Talking Dirty to the Gods (2000); and Thieves of Paradise (1998). Suas coletâneas de poesia mais recentes incluem The Chameleon Couch (2011);  Testimony: A Tribute to Charlie Parker (2013) e Emperor of Water Clocks (2015).

Agradeço a Ana Rusche, Francesca Cricellli e Maíra Mendes Galvão pelas revisões e pelo incentivo.

Viviane Nogueira

*

We Never Know

He danced with tall grass
for a moment, like he was swaying
with a woman. Our gun barrels
glowed white-hot.
When I got to him,
a blue halo
of flies had already claimed him.
I pulled the crumbed photograph
from his fingers.
There’s no other way
to say this: I fell in love.
The morning cleared again,
except for a distant mortar
& somewhere choppers taking off.
I slid the wallet into his pocket
& turned him over, so he wouldn’t be
kissing the ground

Nunca sabemos

Ele dançou com o capim alto
por um momento, como se bailasse
com uma mulher. O cano de nossas armas
brilhou incandescente.
Quando o encontrei,
uma auréola azul
de moscas já lhe reivindicava.
Puxei a fotografia amarrotada
de seus dedos.
Não há outro jeito
de dizer isso: me apaixonei.
A manhã clareou novamente,
exceto por um morteiro distante
& helicópteros alçando voo em algum lugar.
Deslizei a carteira para dentro de seu bolso
& o virei para cima, para que não
beijasse mais o chão.

§

 

You And I Are Disappearing–Bjorn Hakansson

The cry I bring down from the hills
belongs to a girl still burning
inside my head. At daybreak

she burns like a piece of paper.

She burns like foxfire
in a thigh-shaped valley.
A skirt of flames
dances around her
at dusk.

We stand with our hands

hanging at our sides,
while she burns
like a sack of dry ice.

She burns like oil on water.
She burns like a cattail torch
dipped in gasoline.
She glows like the fat tip
of a banker’s cigar,

silent as quicksilver.

A tiger under a rainbow
    at nightfall.
She burns like a shot glass of vodka.
She burns like a field of poppies
at the edge of a rain forest.
She rises like dragonsmoke
    to my nostrils.
She burns like a burning bush
driven by a godawful wind.

Você e eu estamos desaparecendo

O lamento que eu trago das colinas
pertence a uma garota que ainda queima
em minha cabeça. No romper do dia

ela queima como um pedaço de papel

queima fogo-fátuo
num vale em forma de coxa
Uma saia de chamas
dança ao seu redor
no cair da noite.

Ficamos com as mãos

soltas ao lado do corpo
enquanto ela queima
como um saco de gelo seco.

Queima como óleo na água.
Queima como uma tocha de taboa
mergulhada em gasolina.
Ela brilha como a ponta grossa
do charuto de um banqueiro,

silenciosa como mercúrio.
Um tigre sob o arco-íris
no anoitecer.
Ela queima como um shot de vodka.
Queima como um campo de papoulas
na borda de uma floresta tropical.
Se ergue como fumaça de dragão
até minhas narinas.
Ela queima como sarça ardente
movida por um vento de merda

§

Believing In Iron

The hills my brothers & I created
never balanced, & it took years
To discover how the world worked.
We could look at a tree of blackbirds
& tell you how many were there,
But with the scrap dealer
Our math was always off.
Weeks of lifting & grunting
Never added up to much,
But we couldn’t stop
Believing in iron.
Abandoned trucks & cars
Were held to the ground
By thick, nostalgic fingers of vines
Strong as a dozen sharecroppers.
We’d return with our wheelbarrow
Groaning under a new load,
Yet tiger lilies lived better
In their languid, August domain.
Among paper & Coke bottles
Foundry smoke erased sunsets,
& we couldn’t believe iron
Left men bent so close to the earth

As if the ore under their breath
Weighed down the gray sky.
Sometimes I dreamt how our hills
Washed into a sea of metal,
How it all became an anchor
For a warship or bomber
Out over trees with blooms
Too red to look at.

Acreditar no Ferro

Os montes que meus irmãos & eu criamos
Nunca fecharam as contas & foram anos
para descobrir como o mundo funciona.
Podíamos olhar para uma árvore de melros-pretos
& lhe dizer quantos estavam lá,
Mas com o homem do ferro velho
Nossas contas estavam sempre erradas.
Semanas levantando & grunhindo
Nunca rendiam muito,
Mas não podíamos parar de
Acreditar no ferro.
Caminhões & carros abandonados
Depostos no chão
Por dedos grossos e nostálgicos de trepadeiras
Fortes como uma dúzia de meeiros.
Voltávamos com nosso carrinho de mão
Gemendo debaixo de uma nova carga,
Ainda que os lírios vivessem melhor
Em seu lânguido domínio de agosto.
Entre papel & garrafas de Coca-cola
A névoa das chaminés apagava poentes,
& não podíamos crer que o ferro
deixava os homens tão perto do chão
Como se o minério em seu fôlego
Rebaixasse o céu cinzento.
Às vezes sonhava com nossos montes
Desaguando um mar de metal,
Como tudo isso se fez âncora
Para um navio de guerra ou bombardeiro
Por cima de árvores em flor
Rubras demais para serem olhadas.

§

Instructions for Building Straw Huts         

First you must have
unbelievable faith in water,
in women dancing like hands playing harps
for straw to grow stalks of fire.
You must understand the year
that begins with your hands tied
behind your back,
worship of dark totems
weighed down with night birds that shift their weight
& leave holes in the sky. You must know
what’s behind the shadow of a treadmill—
its window the moon’s reflection
& silent season reaching
into red sunlight hills.
You must know the hard science
of building walls that sway with summer storms.
Locking arms to a frame of air, frame of oak
rooted to ancient ground
where the door’s constructed last,
just wide enough for two lovers
to enter on hands & knees.
You must dance
the weaverbird’s song
for mending water & light
with straw, earth, mind, bright loom of grain
untortured by bushels of thorns.

Instruções para Construir Cabanas de Palha

Há de se ter
uma fé inabalável na água,
nas mulheres que dançam como mãos tocam harpas
para que da palha cresçam hastes de fogo.
Há de se entender o ano
que começa com tuas mãos presas
às costas,
adoração de entidades sombrias
sobrecarregadas com aves noturnas que mudam de peso
& deixam buracos no céu. Há de se saber
o que está atrás da sombra de uma moenda —
sua janela o reflexo da lua
& a estação silenciosa alcançando
as colinas do sol vermelho.
Há de se saber a ciência exata
de construir paredes que balançam com as tempestades de  verão.
Encerrar os braços numa moldura de ar, de madeira
enraizada em solo antigo
onde a porta é construída por último,
com a largura exata para que dois amantes
entrem de joelhos & mãos.
Há de se dançar
o canto dos tecelões
para remendar água & luz
com palha, terra, mente, tear brilhante de grãos
sem a tormenta de alqueires de espinho.

§

Viviane Nogueira tem 24 anos, é poeta, bacharela em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco e autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, com ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

*

 

Padrão
poesia, tradução

Três poemas uterinos de Anne Sexton, por Mariana Basílio

anne sexton

Anne Sexton (1928 – 1974) é uma das mais celebradas poetas estadunidenses do século XX. Autora de mais de 10 livros de poesia e prosa, venceu o Prêmio Pulitzer de Poesia em 1967. A vida de Sexton foi marcada por sua luta contra a depressão. Ela começou a escrever na década de 1950, incentivada pelo seu analista. Os temas de seus poemas incluem sua longa batalha contra a depressão e as tentativas de suicídio, detalhes de sua vida pessoal, filhos, temas feministas e intimistas – como a questão uterina para vida da mulher, o aborto, a masturbação. Anne também colaborou com músicos, formando um grupo de jazz chamado Her Kind (título de um dos seus poemas), que adicionava música à sua poesia. Em prosa, sua peça teatral Mercy Street foi produzida em 1969, e inspirou uma canção homônima de Peter Gabriel.

Ela decidiu morrer em 4 de outubro de 1974, após um almoço ao lado da amiga Maxine Kumin, quando revisavam o manuscrito de The Awful Rowing Toward God, que seria publicado em março de 1975.

Sua obra também inclui livros como:  To Bedlam and Part Way Back (1960), All My Pretty Ones (1962), Live or Die (1966), Love Poems (1969), Mercy Street (1969), Transformations (1971), The Book of Folly (1972), The Death Notebooks (1974).

Para minha tradução da poesia completa de Anne Sexton, trabalho iniciado em 2017,  procuro sempre um equilíbrio entre seus versos livres, observando a força dos seus vocábulos e metáforas, e quesitos como métrica e ritmo, focando sobretudo no sentido de sua poesia, na fluidez e densidade dessa poesia confessional, procurando manter as surpresas e as sutilezas dos seus versos na língua portuguesa, acompanhando a essência de Sexton: uma poesia híbrida, moderna, fluente, densa, intimista, potente – repleta de reflexões sociais e  pessoais – em movimentos que ultrapassam seu tempo, e que a tornaram uma das vozes mais ilustres da poesia americana do século XX.

Para esta colaboração, apresento uma tríade de poemas inéditos na escamandro, os famosos poemas The abortion, Menstruation at forty, e In Celebration of My Uterus. Um tema que é contínuo em seus livros, uma unidade importante da poesia de Sexton, é a reflexão das dimensões da mulher em seu papel gerativo, na vida que ela escolhe e não escolhe viver, estar e representar, e se emancipar.

Anteriormente, a autora apareceu pela primeira vez no escamandro em 2014, em apresentação de Adriano Scandolara para uma tradução de Bernardo Beledeli Perin, e reapareceu neste blog anos mais tarde em outros três poemas traduzidos por Beatriz Regina Guimarães Barboza, escolhidos do final de sua trajetória.

Espero assim, com esta nova contribuição, colaborar para o aumento do seu reconhecimento pelo público lusófono e brasileiro.

Mariana Basílio

*

O aborto

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

Assim como a terra sua boca enrugou,
cada botão inchado de seu nó,
eu troquei meus sapatos, e dirigi para o sul.

Passando pelas Montanhas Blue, vê-se a
Pensilvânia se curvando infinitamente,
vestindo, como um gato de giz de cera, seu pelo verde,

suas estradas afundadas como uma tábua de lavar cinzenta;
onde, na verdade, o chão racha malignamente,
uma tomada escura de onde o carvão foi se vertendo,

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

a grama como uma cebolinha eriçada e robusta,
e eu me perguntando quando o chão se quebraria,
e eu me perguntando como algo frágil perdura;

lá na Pensilvânia, eu conheci um homem pequenino,
não Rumpelstiltskin, mesmo, mesmo…
ele tomou a plenitude que o amor deu início.

Voltando ao norte, até o céu se tornou tão fino
como uma alta janela olhando para lugar nenhum.
A estrada era tão plana, como um papel alumínio.

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

Sim, mulher, tal lógica irá levar
à perda sem morte. Ou diga o que você quis dizer,
sua covarde… esse bebê a me sangrar.

 

The abortion

Somebody who should have been born
is gone.

Just as the earth puckered its mouth,
each bud puffing out from its knot,
I changed my shoes, and then drove south.

Up past the Blue Mountains, where
Pennsylvania humps on endlessly,
wearing, like a crayoned cat, its green hair,

its roads sunken in like a gray washboard;
where, in truth, the ground cracks evilly,
a dark socket from which the coal has poured,

Somebody who should have been born
is gone.

the grass as bristly and stout as chives,
and me wondering when the ground would break,
and me wondering how anything fragile survives;

up in Pennsylvania, I met a little man,
not Rumpelstiltskin, at all, at all…
he took the fullness that love began.

Returning north, even the sky grew thin
like a high window looking nowhere.
The road was as flat as a sheet of tin.

Somebody who should have been born
is gone.

Yes, woman, such logic will lead
to loss without death. Or say what you meant,
you coward… this baby that I bleed.

§
Menstruação aos quarenta

Eu estava pensando num filho.
O ventre não é um relógio
nem um sino tocando,
mas no décimo primeiro mês de vida
eu sinto o novembro
do corpo, bem como o do calendário.
Em dois dias será o meu aniversário
e como sempre a terra terminou a sua colheita.
Desta vez eu caço a morte,
a noite a que eu me inclino,
a noite que eu desejo.
Bem, então –
fale disso!
Ele estava no ventre este tempo todo.

Eu estava pensando num filho…
Você! O nunca conseguido,
o nunca semeado ou desatado,
você, dos genitais que eu temia,
o talo e o fôlego do filhotinho.
Eu te darei os meus olhos ou os dele?
Você será o David ou a Susan?
(Esses dois nomes eu escolhi escutando).
Você pode ser o homem que seus pais são –
os músculos das pernas de Michelangelo,
mãos da Iugoslávia
em algum lugar o camponês, Eslavo e determinado,
em algum lugar o sobrevivente, cheio de vida –
e seria ainda possível
tudo isso com os olhos de Susan?

Tudo isso sem você –
dois dias passados em sangue.
Eu mesma morrerei sem batismo,
uma terceira filha com que não se importaram.
A minha morte virá no dia do meu santo.
O que há de errado com o dia do meu santo?
É só um anjo do sol.
Mulher,
tecendo uma teia sobre você mesma,
um veneno fino e emaranhado.
Escorpião,
má aranha –
morra!

A minha morte pelos pulsos,
dois crachás,
sangue vestido como flor de corpete,
para florescer,
uma à esquerda e outra à direita –
É um quarto morno,
o lugar do sangue.
Deixe a porta aberta nas dobradiças!

Dois dias para a sua morte
e dois dias até a minha.

Amor! Essa rubra doença –
ano após ano, David, você me deixaria louca!
David, Susan, David, David!
plena e desgrenhada, sibilando pela noite,
sem nunca envelhecer,
esperando sempre por você na varanda…
ano após ano,
minha cenoura, meu repolho,
eu teria te possuído antes de todas as mulheres,
chamando seu nome,
chamando-te meu.

 

Menstruation at forty

I was thinking of a son.
The womb is not a clock
nor a bell tolling,
but in the eleventh month of its life
I feel the November
of the body as well as of the calendar.
In two days it will be my birthday
and as always the earth is done with its harvest.
This time I hunt for death,
the night I lean toward,
the night I want.
Well then –
speak of it!
It was in the womb all along.

I was thinking of a son…
You! The never acquired,
the never seeded or unfastened,
you of the genitals I feared,
the stalk and the puppy’s breath.
Will I give you my eyes or his?
Will you be the David or the Susan?
(Those two names I picked and listened for.)
Can you be the man your fathers are –
the leg muscles from Michelangelo,
hands from Yugoslavia
somewhere the peasant, Slavic and determined,
somewhere the survivor bulging with life –
and could it still be possible,
all this with Susan’s eyes?

All this without you –
two days gone in blood.
I myself will die without baptism,
a third daughter they didn’t bother.
My death will come on my name day.
What’s wrong with the name day?
It’s only an angel of the sun.
Woman,
weaving a web over your own,
a thin and tangled poison.
Scorpio,
bad spider –
die!

My death from the wrists,
two name tags,
blood worn like a corsage
to bloom
one on the left and one on the right –
It’s a warm room,
the place of the blood.
Leave the door open on its hinges!

Two days for your death
and two days until mine.

Love! That red disease –
year after year, David, you would make me wild!
David! Susan! David! David!
full and disheveled, hissing into the night,
never growing old,
waiting always for you on the porch…
year after year,
my carrot, my cabbage,
I would have possessed you before all women,
calling your name,
calling you mine.

§

Celebração do Meu Útero

Cada um em mim é um pássaro.
Estou batendo todas as minhas asas.
Eles queriam te arrancar
mas eles não irão.
Eles disseram que você estava imensuravelmente vazio
mas você não está.
Eles disseram que você estava prestes a morrer
mas eles estavam errados.
Você canta como uma estudante.
Você não está rasgado.

Doce peso,
na celebração da mulher que eu sou
e da alma dessa mulher que eu sou
e da criatura central e de seu deleite,
eu canto para você. Eu ouso viver.
Olá, alma. Olá, taça.
Ata, cobre. Tampa que contém.
Olá à terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.

Cada célula tem uma vida.
Aqui há o bastante para satisfazer uma nação.
É bastante que o povo possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer comunidade diria disso,
“Está tudo tão bem neste ano que poderemos plantar de novo
e esperar uma colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.”
Muitas mulheres unidas estão cantando sobre isso:
uma amaldiçoando a máquina na fábrica de sapatos,
uma cuidando de uma foca no aquário,
uma aborrecida nas rodas do seu Ford,
uma cobrando no guichê do pedágio,
uma enlaçando um bezerro no Arizona,
uma montando no seu violoncelo na Rússia,
uma mexendo as panelas do fogão no Egito,
uma pintando da cor da lua as paredes do seu quarto,
uma morrendo, mas recordando de um café da manhã,
uma estirando-se na sua esteira na Tailândia,
uma limpando o bumbum do seu filho,
uma olhando pela janela do trem
no meio de Wyoming e uma está
em algum lugar e algumas estão por todo lado e todas
parecem estar cantando, ainda que algumas não saibam
cantar nota alguma.

Doce peso,
em celebração da mulher que eu sou
deixe-me levar uma echarpe de três metros,
deixe-me batucar pelas de dezenove anos,
deixe-me levar as tigelas para as oferendas
(se for o caso).
Deixe-me analisar o tecido cardiovascular,
deixe-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixe-me chupar os caules das flores
(se for o caso).
Deixe-me fazer certas figuras tribais
(se for o caso).
Por esta coisa que o corpo necessita
deixe-me cantar
para a ceia,
para os beijos,
para o certeiro
sim.

 

In Celebration of My Uterus

Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.

§

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015), Sombras & Luzes (2016), e Tríptico Vital (Patuá, 2018. Prêmio ProAC 2017, Finalista Residência Literária Sesc 2018, Finalista Prêmio Guarulhos 2019). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. É também autora das plaquetes de poemas, As Três Mal-Amadas (Kizumba Edições, 2018), e As Mãos que Ressoam o Absurdo (edição artesanal, 2019). Com patrocínio do prêmio ProAC 2019, do Governo de São Paulo, publicará em 2020 seu quarto livro de poesia, Mácula (Patuá). Mantém o site http://www.marianabasilio.com.br.

*

 

Padrão
poesia, tradução

“A”-19 de Louis Zukofsky, um trecho por Beethoven Alvarez

Louis Zukofsky (1904 – 1978) foi um poeta americano, filho de imigrantes russos judeus, que carregou o peso de ter vindo depois de T.S. Eliot, Ezra Pound e William Carlos Williams. E não sou eu que digo isso, foi o próprio Pound que escreveu isso numa carta pro L.Z. (numa das quase 600 que trocaram ao longo da vida, que dá pra ler nesse volume).

Entre 1927 (quando L.Z. tinha 23 e Pound, 42) e 1933, foram mais de 300 cartas, até finalmente se encontrarem pessoalmente na Itália. A história dessa amizade e filiação poética vai muito além disso (e inclui muito mais afeto e desilusão), mas, dessa época, um fato importante foi que Pound convenceu Harriet Monroe, editora da Poetry, a deixar L.Z. editar uma edição especial em 1931, que ele intitulou de Objectivists’ 1931.

Zukofsky tinha começado a escrever ainda na década de 1920, muito influenciado por Pound e William Carlos Williams, mas, foi na década de 1930, depois da publicação dessa edição da Poetry, que fica conhecido como uma espécie de líder de um grupo de poetas que intitulou de “objetivistas” (embora nunca se tenha falado de um “objetivismo” como movimento).

Para L.Z. e os objetivistas o poema deveria ser entendido como um objeto, sincero e inteligente, que permitisse ao poeta enxergar e fazer enxergar o mundo, como um espelho. Ver o poema como esse objeto exigia chamar a atenção para o próprio poema, o que podia ser feito com a fragmentação sintática deliberada e pelas quebras de linha que perturbam o ritmo normal da fala. Essas ideias L.Z. desenvolveu continuamente. 

Porém, embora tenha feito certo sucesso, sua poesia era tida como obscura, experimental e intelecual demais (era?). L.Z. acabou ficando um tanto eclipsado pela popularidade de Eliot, Yeats e outros poetas americanos de influências simbolistas. Zukofsky continuou trabalhando, produziu algumas antologias, um profundo estudo sobre Shakespeare (antes já tinha sido o primeiro a publicar uma análise sobre os Cantos, de E.P.) e uma tradução integral da poesia de Catulo num método, no mínimo, controverso. Além de se manter escrevendo poemas.

Sua obra mais marcante, com certeza, é poema épico “A”. É seu magnum opus (e bota magnum nisso), que L.Z. começou a escrever ainda em 1927 e terminou 40 anos depois, em 1968. Composto por 24 cantos, equivalentes às 24 horas do dia, o poema tem 803 páginas (sem considerar os índices; se considerarmos os índices do final, o livro tem 826 páginas e começa exatamente com a letra A e termina com a palavra Zion).

Um conhecido crítico, Hugh Kenner, chamou “A” de o “mais hermético poema em inglês, um poema que os estudiosos vão estar ainda tentando elucidar no século 22”. (Isso quem diz foi Barry Ahearn, um dos maiores conhecedores da obra de L.Z., na Introdução da edição de 2011 de “A”.)

E é um trecho do canto “A”-19 que apresento agora traduzido. E já digo: se você não entender muita coisa de início, eu juro, a culpa não é só minha. É necessário fazer um esforço hermenêutico grave pra penetrar o intricado jogo de sentidos e de falta deles, de ritmos, de melodias (a poesia de Zukofsky é altamente musical), de vozes, de alusões, citações, referências e o escambau. Mas o próprio L.Z. dá a chave de leitura, ou, melhor, de apreciação desse canto: aqui será uma espécie de tributo a Mallarmé. 

É preciso dizer que L.Z. empregou aqui e em várias passagens de “A”, como fez com Catulo, a chamada “tradução homofônica”, que acaba por criar um texo como uma imagem sonora do outro, em que a semântica está fortemente subordinada ao sistema fônico. Busquei fazer o mesmo, mas além de transpor o texto em inglês para o português homofonicamente, em várias passagens, que vão parecer ter pouca correspondência, eu fiz isso direto com o texto em francês (de poemas de Mallarmé). Dá uma olhada em algumas notas sobre isso aqui.

Do ponto de vista formal e descritivo, Kenneth Cox, exatamente num estudo chamado “Tribute to Mallarmé” (2001), explica que o “A”-19 é composto por um prelúdio de 8 quartetos + 72 estrofes de 13 versos cada (a última possui 12 linhas).

Todos os versos são formados por duas palavras, exceto o verso final de cada estrofe, que tem três (embora haja irregularidades aqui ou ali).

São então 2³ (= 8) quartetos de 2³ (= 8) palavras cada no prelúdio, e 2³ x 3² (= 72) estrofes de 3³ (= 27) palavras cada no corpo do poema. A estrofe final possui 2² x 3 (= 12) versos e 2³ x 3 (= 24) palavras.

Aqui vai a tradução do prelúdio + 9 estrofes (que é uma parte 1 do poema) + 4 estrofes da parte final (incluindo a última), ou seja, o prelúdio + 13 estrofes (achei o número alvissareiro, L.Z. acha que 13 é um número da sorte).

Ponha um Bach pra tocar e ouça um trechinho dessa canção.

Beethoven Alvarez é professor de Língua e Literatura Latina da UFF em Niterói. Traduz Plauto. O “A”-21 de L.Z. é uma tradução de Plauto.

* * *

“A”-19

Mais uma
canção – você
quer outra
encóre eu

ouço la-
tente atrás
tarde
do assistente

sua lua
sofrendo de
luzes . lúmens
cuidado pinheiros

e na
porta flocos
de neve
flutuam acima

através e
passa torna
sobre sobe
em espuma

pinhas essas
gelam melhor
qualquer sol
no amanhã

sons tocados
em dedos
luz cai
tocados corações

mais umas
palmas – fama
cobram um
outro cartãozinho.

Azar não
se colagem
inanis vacua
crina remenda
azul juba
flagelo frio
rótas rôtas
cacos a
perversa triste
em orgulho
que odeia
infortúnio Apraz
fútil e range

menos discreto
que ela
lábios raiam
na xícara
primeiro beijo
bento dia
os lábios
não beberam
inda onde
o tardar
é sopro:
arme vem
de mártir rir-se

será se
pode ser
alma posse
por tempo
ilumina-se mesmo
príncipe eleito
paixão saúde
crina seda
ou quimera
ao bálsamo
dos tempos
uma anti-matéria
à sua vista

um ave
duma vez
só ouviu
viu-o longe
nua jubilação
tua história
cinza separa
o fogo
heroi fracote
parece ofensa:
puxasse uma
infante sopa
com irmã corta

pro seu
marido sapateiro
que recriaria
sapatos (se
pés vocês
valem) reviver
amizades monótonas
sua vida
olho separa
ele de
suas roupas
e como
deus vá nu

canção de
sua floresta
a verdade
de sua
face do
seu hino
obra paciência
atlas ervas
ciência ritual
quando insensível
autoridade turva
era humilhado
sem nenhum motivo

seus impalpáveis
conscientes duplos
quando não
olhará alucinado
ar com
divisões sábio
ramo de
litígio que
provoca mas
até que
flores crescem
tão grandes
por suas razões

cruel aspereza
sem símbolos
literalmente Dom
Quixote com
formas nos
pés retornando:
(Duas vidas
desconhecidas uma
da outra
declaram com
e sem
festa um
futuro à parte

do acaso
cantou esposa
cantou filho)
Perguntei-lhe tinha
4 anos
‘por quê
violino?’ respondeu
“Porque eu
gosto muito”
Depois–“você
não sabe
você é
um sapo dorminhoco.”

[…]

De vinhas
bençãos: por
que ter
paciência pra
diferenciar números
aleatórios (meu
13 dá
sorte) e
se !
voz por
Demétrio ‘Egito
. . cantando harmonias
de sete vogais

louvando deuses’
(antes do
fonema) ‘. . sequência
ouvia-se isso
. . vozes substituindo
flauta e
lira ditongo
ditongos encontram-se
. . variedade . . elevação
. . forte . . suave
hoíên não
só diferentes
letras diferentes timbres

ocorrência de
mesmas vogais
um pouco
de canto
trinados canto
empilhado (assim
por dizer)
sobre cantos’
me lembrando
‘Die Elenden
sollen essen’
primeira canção
de Bach (Leipzig)

[…]

Mallarmé (não
o chapéu)
a face
um convertido
parece poder
fazer alguém
envergonhar-se do
canto D’onde
sofrer foi
para sempre
riscado
. nove
logo logo vinte

“A”-19

An other
song – you
want another
encóre I

hear back-
stage the
stagehand’s
late
the stage’s

moon his
sufferance of
lights footcandles
mind pines

at a
door snow
flakes drift
down up

thru and
past turn
over under
on froth

pine needles
frost tomorrow’s
sun better
than any

tune bōwed
fingered drawn
lights dimmed
bōwed heart

another
bŏwed – fame
crowds an
other valentine.

No ill-luck
if bonding
tohu bohu
horsehair mends
azure mane
flogs cold
races rut
shards the
perverse desolate
with pride
who curse
misfortune Place
it futile range

less discreet
than her
lips dawned
on china
benign day’s
first kiss
the lips
not drinking
yet where
to tarry
is breath:
arm even
the martyr’s assay

will may
may be
soul owned
by time
illumine itself
primordial elect
penchant salute
horsehair silk
play to
the balm
of time
an anti-matter
of its sigh

bird one
hears once
of all
alive comber
naked jubilation
its story
cinder sparing
the fire
fierce shying
idleness offense:
purchase woman
child broth
quarryman cut out


for his
marriage cobbler
who’d recreate
shoes (feet
if
you
will) revive
everyday’s amities
his live
eye separate
him from
his togs
so he
walk naked god


song of
his wood
the truth
of a
face of
it hymn
work patience
atlas herb
science ritual
while insensible
authority trouble
to humiliate
ore and motility


their impalpable
conscionable double
when no
eye’ll hallucinate
air with
divisions sage
sprig the
litigious who
tease but
till the
blossom grow
too large
for their reasons


fierce shyness
no symbol
literally Don
Quixote with
shoe trees
come home:
(Two lives
unknown to
each other
profess with
and without
salon a
future apart the


like hazard
sang wife
sang child)
Asked him
4-year old
‘why the
violin?’ responded
“Individually I
love it”
Finally – “you
don’t understand
you’re like
a sleeping frog.”

[…]

The wistaria’s
blessing: why
you should
have patience
ranging random
numbers (my
luck is
13) and
if !
voice thru
Demetrius ‘Egypt
. . singing harmonies
of seven vowels


hymning gods’
(before phoneme)
‘. . sequence men
listened to
. . voices replacing
flute and
lyre diphthong
clashing diphthong
. . variety . . elevation
. . rough . . smooth
hoiain not
only different
letters different breathings


concurrence of
like vowels
a bit
of song
trills song
piled (so
to say)
on songs’
reminding me
‘Die Elenden
sollen essen’
Bach’s first
music (Leipzig Cantorate)

[…]

Mallarmé (not
the hat)
the face
a covert
look might
make one
shy of
song
From
thence sorrow
be ever
raz’d nine
so soon twenty

Padrão
poesia, tradução

Perdidos na tradução: Robert Frost por Rodrigo Madeira

Poetry is what gets lost in translation.
Robert Frost

Embora tenha nascido na Califórnia (São Francisco, 1874) e vivido em diferentes cidades ao longo da vida, a obra e imagística de Robert Frost ficará para sempre associada à paisagem natural e humana da Nova Inglaterra, no nordeste gelado dos Estados Unidos. Frost, ainda que tenha em seus poemas “bucólicos” a mais poderosa expressão de sua inteligência poética, lembra – no comovente registro da solidão e da melancólica fugacidade da vida – os impasses existenciais dos retratos eminentemente urbanos de Edward Hopper.

De fato, “Beto Geada” sempre me pareceu um Hopper da poesia norte-americana (Cummings, o reverso desse anverso, seria, é claro, o Jackson Pollock). Há em um poema como “Nothing Gold Can Stay” a mesma economia de recursos, a mesma e definitiva síntese presente em “Sun in an Empty Room”, de Hopper.

Ao mesmo tempo, a poesia de Frost apresenta, nas dobras do cotidiano, aquelas velhas situações-limite tão caras à psicologia individualista dos norte-americanos: suas encruzilhadas mitológicas, dos desbravadores do Far West e da filosofia de Thoreau às crossroads de bluesmen faustianosNo caso de Frost, um sujeito solitário diante de “portais” (por assim dizer) que se abrem e fecham nos amplos espaços naturais da Nova Inglaterra. Não à toa, ao lado de Walt Whitman, Robert Frost – muito mais do que Pound, Eliot, Carlos Williams ou Wallace Stevens – é o poeta mais popular e amado dos EUA.

No Brasil, no entanto, excluído do paideuma concretista e menoscabado por acadêmicos e tradutores em geral, muito provavelmente em função do tradicionalismo formal de suas formas fixas e de certa atemporalidade temática ao mesmo tempo antiexperimental e antierudita, este autor fundamental do modernismo norte-americano passou ao largo de esforços tradutórios mais sistemáticos – afora traduções esparsas, Frost ganhou versões brasileiras em uma única e longínqua seleção de poemas (“Poemas Escolhidos de Robert Frost”, Editora Lidador, tradução de Marisa Murray, nos idos de 1969).

Vai aqui, portanto, uma pequena mostra de sua obra: seis dos mais emblemáticos poemas frostianos.

Aperte o defrost. Sirva-se à vontade. Experimente na língua portuguesa.  

Rodrigo Madeira

* * *

NADA QUE É DE OURO PERMANECE

O verde mais cedinho é ouro.
Dos tons o mais fugaz tesouro.
A folha então é flor que aflora,
Apenas porém por uma hora.
Depois a folha perde a flor.
Assim é que o Éden virou dor,
Assim enfim o dia cresce.
Nada que é de ouro permanece.

NOTHING GOLD CAN STAY

Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

§

FOGO E GELO

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

FIRE AND ICE

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

§

O CAMINHO NÃO TRILHADO

A estrada se partiu no bosque amarelado
E lamentando não poder seguir por ambas
E ser apenas um, fiquei ali parado
E olhei uma das vias, o olhar alongado,
Até que ela fugisse na curva entre as ramas;

Então tomei a outra, possível também,
E sendo ela talvez a mais convidativa,
Porque clamava a grama pelos pés de alguém,
Mesmo que, em relação a isso, outros vaivéns
A tivessem gastado na mesma medida

E que, aquela manhã, naquelas duas vias
Houvesse ainda tantas folhas por pisar.
Ah, deixei a primeira para um outro dia!
Mas, se um caminho sempre a outros levaria,
Duvidei de que um dia eu pudesse voltar.

Mais à frente hei de dar, saudoso, o meu relato;
Entre o passado e mim, uma distância imensa:
A estrada se partiu no bosque amarelado –
Tomei dos dois caminhos o menos trilhado,
E justamente isso fez a diferença.

THE ROAD NOT TAKEN

Two roads diverged in a yellow wood
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sign
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I –
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

§

PARANDO À MARGEM DA MATA NUMA NOITE DE NEVE

Acho que sei de quem é a mata,
Fica na vila sua casa;
Não me verá, pois, circunspecto,
Olhando essa mata nevada.

Minha égua acha estranho decerto
Parar sem cocheiras por perto
Entre a mata e o lago gelado
Na noite mais negra do inverno.

Em sinos de arreio vibrados,
Minha égua pergunta – algo errado?
E se ouvem, no mais, na calada
Só neves e ventos soprados.

Escura, funda, bela é a mata,
Mas trago a palavra empenhada
E, antes que eu durma, há tanta estrada.
E, antes que eu durma, há tanta estrada.

STOPPING BY WOODS ON A SNOWY EVENING

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and the frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound´s the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

§

JUNTANDO FOLHAS

As pás recolhem as folhas
Como a colher ou a mão,
E um saco cheio de folhas
É leve como um balão.

O dia todo eu farfalho
Fazendo um baita alarido,
Como uma lebre ou um cervo
Que pronto houvessem fugido.

Mas me escapam ao enlace
O que em montes é disposto,
Transbordando dos meus braços
E voando no meu rosto.

Se várias e várias vezes,
Até lotar um galpão,
Eu carrego e descarrego,
Que me resta disso então?

Quase nada têm de peso,
E sendo assim desbotadas
Do contato com a terra,
Têm por cor um quase nada.

Quase nada de proveito.
Mas a safra é safra feita,
E quem há de dizer onde
Vai parar esta colheita? 

GATHERING LEAVES

Spades take up leaves
No better than spoons,
And bags full of leaves
Are light as balloons.

I make a great noise
Of rustling all day
Like rabbit and deer
Running away.

But the mountains I raise
Elude my embrace.
Flowing over my arms
And into my face.

I may load and unload
Again and again
Till I fill the whole shed,
And what have I then?

Next to nothing for weight,
And since they grew duller
From contact with earth,
Next to nothing for color.

Next to nothing for use.
But a crop is a crop,
And who’s to say where
The harvest shall stop?

§

BRAÇADA

Pra cada embrulho que agachando abraço,
Um outro embrulho escorre pelos braços.
E escorregando o litro, o pão francês –
Formas difíceis de abarcar de vez –
Eu nada, ainda assim, deixo pra trás.
O que fazem as mãos e a mente faz,
Ou mesmo o coração, é o meu melhor
Pra equilibrar tijolos como for.
Me agacho pra evitar que caiam todos;
Então me sento, a pilha toda em torno.
Eu tive que soltar tudo na estrada
E começar de novo, outra braçada.

THE ARMFUL

For every parcel I stoop down to seize
I lose some other off my arms and knees,
And the whole pile is slipping, bottles, buns –
Extremes too hard to comprehend at once,
Yet nothing I should care to leave behind.
With all I have to hold with hand and mind
And heart, if need be, I will do my best
To keep their building balanced at my breast.
I crouch down to prevent them as they fall;
Then sit down in the middle of them all.
I had to drop the armful in the road
And try to stack them in a better load. 

Rodrigo Madeira (Foz do Iguaçu, 1979). Poeta e aforista. Vive em Curitiba desde 1992. Autor dos livros Sol sem pálpebras, Pássaro ruim e Baldio.

Padrão
tradução

John Wieners (1934-2002), por Rafael Mantovani

wieners

John Wieners, New York, Novembro de 1993. Foto: Allen Ginsberg.

John Wieners (1934 – 2002) foi um poeta estadunidense associado à geração Beat. Nascido numa família de classe média-baixa no Massachusetts, partiu muito jovem para a Costa Oeste e teve uma vida errante por vários anos, participando de comunidades experimentais de poetas, dentre as quais o Black Mountain College.

Seu primeiro livro, The Hotel Wentley Poems — escrito aos 24 anos, supostamente em menos de uma semana, logo após o rompimento com um homem que ele ainda amava — foi publicado em 1958 e recebeu atenção já na época, entre outros motivos, por sua franqueza e antimoralismo no trato com a homossexualidade e o uso de drogas. Nos mais de dez livros que publicou desde então, seus poemas dão corpo a um nomadismo corajoso e melancólico, presenciando a vida noturna de San Francisco com seus artistas boêmios, restaurantes chineses e bares queer, as visões conduzidas pela heroína e outros psicoativos, os amantes masculinos como entidades de força e revelação — tanto em paixões duradouras quanto no prazer clandestino e estigmatizado do cruising em ruas, banheiros e cenários escondidos do habitat urbano. Nesses contextos o amor aparece sobretudo como devoção, transporte para o êxtase e também para o sofrimento extremo, abarcados numa linguagem explicitamente religiosa como explicitamente sexual.

Por seus encontros com a loucura e sua pouca aptidão ou interesse por propósitos práticos (como manter empregos que lhe forneciam renda), Wieners passou grandes partes da vida em penúria financeira e instabilidade mental, sendo internado algumas vezes em instituições psiquiátricas e vivendo com o apoio de amigos.

Conviveu com (e era admirado por) poetas como Robert Creeley, Frank O’Hara e Allen Ginsberg, embora não tenha recebido — nem em vida, nem (ainda) na posteridade — a difusão e reconhecimento que sua obra fascinante merece. O único material um pouco mais extenso (que encontrei) sobre sua vida e seu trabalho é uma reportagem de Pamela Petro publicada em 2000 na Boston College Magazine (clique aqui).

Rafael Mantovani

* * *

Cocaína

Porque eu vi o amor
e o rosto dele é Heart of Hearts do mais seleto,
carne de puro fogo, fundindo-se a partir do centro
onde todo Movimento é um.

E conheci
o desespero de que o Rosto parou de olhar
para mim com a Rosa do mundo
mas sim está encolhido

num paraíso artificial onde entrar é um Inferno.
Se eu soubesse que você está aí
cairia de joelhos e imploraria a Deus
para te entregar de novo nos meus braços.

Mas é estupidez tentar.
Só o que se pode é tomar medidas para diminuir a tristeza,
confundir as sensações para que este Rosto,
o que dói no coração e faz cada re-

começo menos perto da fonte do desejo,
se dissipe da carne que incendeia a noite,
com sonhos e vontade infinita.

Cocaine

For I have seen love
and his face is choice Heart of Hearts,
a flesh of pure fire, fusing from the center
where all Motion is one.

And I have known
despair that the Face has ceased to stare
at me with the Rose of the world
but lies furled

in an artificial paradise it is Hell to get into.
If I knew you were there
I would fall upon my knees and plead to God
to deliver you in my arms once again.

But it is senseless to try.
One can only take means to reduce misery,
confuse the sensations so that this Face,
what aches in the heart and makes each new

start less close to the source of desire,
fade from the flesh that fires the night,
with dreams and infinite longing.

§

 

As Garbos e Dietrichs

Deslizando feito um sonho por Ibiza
cruzando as cidades noturnas do mundo
comprando os sonhos dos homens/e seus corações
para pendurar nos camarins, quantos enfeites
para vestir no jantar, em suntuosas ceias egoístas —

este pecado não se vê à luz de velas, os filhos delas
não ouvem esse grito na noite, curiosas gravidezes
abortos não contam, rostos despedaçados
corações arrancados abandonados no porto
quando seus navios partem.

Estou falando de suicidas lançados à corrente.
De remédios para dormir que acalmam a dor da mente.
De amantes que elas assassinaram, tão condescendentes.
Tudo para continuarem belas e não verem
Os homens que viraram porcos na sua frente.

The Garbos and Dietrichs

Moving like a dream through Ibiza
through midnight cities of the world
buying dreams of men/and their hearts
to hang at dressing tables, how many ornaments
to wear for dinner, or selfish supper parties —

this sin does not show by candlelight, their children
do not hear that cry in the night, odd pregnancies
abortions are not counted, smashed faces
wrenched hearts left behind at harborside
when their ships pull out.

I speak of suicides, men dropped at tide.
I speak of sleeping pills that still our aching mind.
I speak of lovers they murdered because they are so kind.
Anything to stay beautiful and remain blind
To those men they turn into swine.

§

 

Ato nº 2

para Marlene Dietrich

Levei o amor para casa comigo,
nós picamos noite adentro e
afundamos num clarão ardente.

¼ grão de amor
………………………..que tínhamos,
2 homens numa cama de campanha, uma manta
de seda e um pano verde
cobrindo o abajur.
………………………..A música era perfeita.
Chupei ele que nem uma sinfonia
…………..que flutuava e
………………………..ele desceu
a rua comigo e
………………………..me deixou ali.
3 da manhã. Nenhum sinal.

só uma van subindo
a Van Ness Avenue.

Nunca foi assim na Foster’s.

Vou caminhar para casa, subindo
……………os mesmos morros que
………………………..descemos.
Ele nunca vai voltar,
……………não vai ter cavalo
……………amanhã nem beque
………………………..hoje para fumar até o amanhecer.

Ele foi embora e levou
minha morfina
Oh Johnny. Mulheres na
noite gemem o seu nome

Act #2

for Marlene Dietrich

I took love home with me,
we fixed in the night and
sank into a stinging flash.

¼ grain of love
………………………..we had,
2 men on a cot, a silk
cover and a green cloth
over the lamp.
………………………..The music was just right.
I blew him like a symphony,
……………it floated and
………………………..he took me
down the street and
………………………..left me here.
3 AM. No sign.

only a moving van
up Van Ness Avenue.

Foster’s was never like this.

I’ll walk home, up the
……………same hills we
………………………..came down.
He’ll never come back,
……………there’ll be no horse
……………tomorrow nor pot
………………………..tonight to smoke till dawn.

He’s gone and taken
my morphine with him
Oh Johnny. Women in
the night moan yr. name

Padrão
poesia, tradução

Três mulheres, de Sylvia Plath, por Rafael Zacca

Louise Bourgeois, “The Feeding Frenzy”. 

SOBRE A TRADUÇÃO

Sylvia Plath (1932-1963) compôs Três mulheres como um livro-poema radiofônico. Nesse sentido, não foi escrito para ser lido individualmente, em silêncio, mas para ser falado. Inclui, em sua própria forma, um desejo comunitário.

Trata-se, de fato, de uma comunidade de incomuns. As três Vozes do poema são de mulheres que tomaram rumos distintos com relação a uma situação de possível maternidade.

(Sobre a questão da maternidade tanto em Três mulheres quanto em outros poemas de Plath, conferir o artigo de Marina Della Valle que acompanha a tradução da mesma autora em “‘Três mulheres’: Sylvia Plath e a maternidade”, nos Cadernos de Literatura em Tradução n. 8 da USP.)

O poema, encomendado pela BBC, é transmitido pela primeira vez em 1962, no mesmo ano em que nasce o segundo filho da poeta e de sua separação de Ted Hughes.

Muitos viram nos temas que surgem no poema para três Vozes questões centrais na obra posterior de Plath.

Outra chave de leitura possível seria considerar Três mulheres ao lado de outros poemas que tematizam o universo do hospital, como “Acordando no inverno”, “Tulipas” e “Febre 40 graus”, relativamente contemporâneos ao poema radiofônico.

Essa leitura permitiria, talvez, conjugar os pares solidão / comunidade e corpo / incomum com a lei das metáforas em Plath, em sua relação com os pares natureza / cultura. Mas, sobretudo, permitira ver na sua forma de metaforização um duelo entre um corpo que vai morrer e um corpo que insiste em viver.

Sobre a tradução de Três mulheres: o poema de Plath possui poucas versões em língua portuguesa. Em todas elas, um problema central se coloca: como traduzir o uso que Plath faz da palavra “flat” mantendo: a sua conotação simbólica de oposição entre vazio e cheio; a sua sonoridade gerativa (nas semelhanças sonoras produzidas pela palavra em versos como: “Blunt and flat enough to feel no lack. I feel a lack”); e a sua brevidade fonética.

Ana Gabriela Macedo, que traduziu o livro para o português de Portugal pela editora Relógio D’Água, opta pela variação do termo. Às vezes o traduz por “vazio”, às vezes por “raso”, por exemplo, para manter uma polissemia lida pela autora como contradição entre esterilidade e vazio masculino e fertilidade feminina. Já Marina Della Valle alerta que a escolha de um único vocábulo para substituir “flat” também não se apresenta como solução possível sem que algo de muito valioso se perca. Procurou, não obstante, manter suas escolhas vocabulares próximas ao termo “reto”, escolha fundamentada nas leituras que a autora fez dos estudos de Kroll e Folson.

Não consegui localizar uma tradução de Marcia Cavendish Wanderley, que aparentemente está concluída, mas uma versão preliminar pode ser lida no blog “Convite a palavra”, na publicação de 25 de dezembro de 2008, com o título de “TRÊS MULHERES de Sylvia Plath”. Também há variação do termo.

Optei aqui pela insistência no termo “raso” como tradução para “flat”. Isso fez com que eu tivesse de transformar também a tradução de vocábulos vizinhos, que produziam relações sonoras com “flat”, em outras palavras. Também transformei alguns vocábulos derivados de “flat” em outros semelhantes a raso, mas de significado completamente diferente. Em alguns casos, a operação beira a arbitrariedade.

No entanto, como contraprova, quero advertir que procurei no universo simbólico do poema (como no duelo entre natureza e cultura, bem como na ambivalência do caráter gentil e do violento alternado entre as Vozes) a resposta para o gesto transcriativo. Como no caso de “flat, flatness”, em que optei pelo par “raso, restinga”. Antes de receber as duras críticas de quem lê esta tradução, quero chamar a atenção para o contraste que a segunda Voz faz com a primeira, por exemplo, quando se refere a valores em jogo no mundo natural e no mundo social.

Não quero com isso propor que a dimensão sonora é a mais determinante na forma do poema – mas decidi privilegiá-la para fornecer uma tradução de caráter por assim dizer mais radiofônico.

Não ignorei, tampouco, a dimensão gráfica. Não me parece gratuito, por exemplo, que na descrição de uma cena de enfermaria, Plath faça um verso comparando aquelas mulheres a montanhas, de acordo com o seu desenho debaixo dos lençóis, fazendo uso de letras que escritas remetem ao desenho de subidas e descidas, “m” e w” (“I am a mountain now, among mountainy women” – para manter a isomorfia, optei pela tradução “Sou uma montanha neste momento, misturada a mulheres montanhosas”).

Seria bom poder ouvir o poema no rádio, de toda forma.

Também porque o que se anuncia nessa tradução é uma proposição: o som em Três mulheres (como nos poemas “hospitalares” de Plath) é uma máquina de produção de semelhanças, a partir de uma comunidade incomum não apenas entre personagens, mas entre as esferas da linguagem verbal e da produção de sentido do mundo por corpos que se confrontam muito diretamente com as questões fundamentais de vida e de morte.

Rafael Zacca

Aqui o link para o texto em inglês

* * *

Três Mulheres
Um Poema para Três Vozes
Cenário: Enfermaria da Maternidade e entorno

PRIMEIRA VOZ:
Sou lenta como o planeta. Sou muito paciente,
contornam meu tempo adentro sol e estrelas
observando com atenção.
A lua se interessa mais de perto:
vai e vem, luminosa como uma enfermeira.
Sente muito pelo que está prestes a acontecer? Acho que não.
Só está atônita com a fertilidade.

Quando saio pra caminhar, sou um grande evento.
Não preciso pensar, nem me preparar.
O que acontecer comigo acontecerá sem alarme.
O faisão espera na colina;
ele ajeita suas penas marrons.
Não posso evitar sorrir pelo que sei.
Folhas e pétalas cuidam de mim. Estou pronta.

SEGUNDA VOZ:
A primeira vez que a vi, a infiltração vermelha, não acreditei.
Vi os homens chegando perto de mim no escritório. Eram tão rasos!
Tinham qualquer coisa de cartolina, e aí eu pesquei,
tão rasos, tão rasos, restinga de onde ideias, destruições,
escavadeiras, guilhotinas, câmaras brancas de guinchos
[procedem
sem fim, procedem – e os anjos gelados, as abstrações.
Sentei na minha mesa com minha meia-calça, meu salto alto,

e o homem pra quem trabalho riu: “Viu algum fantasma?
Está tão branca assim de repente.” E eu não disse nada.
Eu vi a morte entre as árvores nuas, uma privação.
Não podia acreditar. Será tão difícil
para o espírito conceber um rosto, uma boca?
As letras procedem destas teclas pretas, e estas teclas pretas procedem
de meus dedos alfabéticos, ordenando as partes,

partes, pedaços, escarvas, as multiluminosas.
Estou morrendo enquanto estou sentada. Perco a dimensão.
Trens berram nas minhas orelhas, partidas, partidas!
Os trilhos de prata do tempo esvaziam-se na distância,
o céu branco esvazia-se de sua promessa, como uma taça.
Estes são meus pés, estes ecos mecânicos.
Péc, péc, péc, pinos de aço. Encontro-me depenada.

É uma doença o que carrego pra casa, uma morte.
De novo, isto é uma morte. Estão no ar,
as partículas de destruição que eu chupo? Serei um pulso
que diminui e diminui, encarando o anjo gelado?
É este o meu amante, então? Esta morte, esta morte?
Quando criança eu adorava um nome devorado pelo líquen.
É esse o meu pecado, então, esse velho amor morto de morte?

TERCEIRA VOZ:
Eu me lembro do minuto em que tive certeza.
Os salgueiros esfriavam,
O rosto na poça era bonito, mas não meu –
tinha um aspecto consequente, como tudo o mais,
E tudo o que eu podia ver eram perigos: pombas e palavras,
estrelas e chuvas de ouro – fecundações, fecundações!
Eu me lembro de uma asa gelada branca

e do grande cisne, com seu olhar terrível,
vindo a mim, como um castelo, do topo do rio.
Tem uma cobra nos cisnes.
Ele deslizou suspenso; seu olho tinha uma intenção sombria.
Nele vi o mundo – pequeno, mau e sombrio,
cada palavrinha enganchada em cada palavrinha, de ato em ato.
Um dia azul quente desabrochara em alguma coisa.

Eu não estava pronta. As nuvens brancas crescendo
em volta me arrastaram em quatro direções.
Eu não estava pronta.
Não fazia reverências.
Eu pensei que podia negar a consequência –
mas era tarde demais pra isso. Era tarde demais, e o rosto
começou a tomar forma com amor, como se eu estivesse pronta.

SEGUNDA VOZ:
É um mundo de neve agora. Não estou em casa.
Como são brancos estes lençóis. Os rostos não têm traços.
São lisos e impossíveis, como os rostos de minhas crianças,
Pequenos enfermos que se esquivam de meus braços.
Outras crianças não me tocam: são terríveis.
Elas têm muitas cores, muita vida. Não estão assim,
Quietas, como o vazio terrível que carrego.

Tive minhas chances. Eu tentei e tentei.
Eu costurei a vida em mim como um órgão raro,
e andei com cuidado, precariamente, como alguma coisa rara.
Eu tentei não pensar tanto. Tentei ser natural.
Eu tentei ser cega no amor, como as outras mulheres,
cega na cama, com meu cego querido,
evitando procurar, pela densa treva, outro rosto.

Eu não olhei. Mesmo assim o rosto estava lá,
o rosto do abortado que amava suas perfeições,
o rosto do morto que só podia ser perfeito
em sua calma inata, só podia manter-se santo assim.
E tinham outros rostos também. Os rostos de nações,
governos, parlamentos, sociedades,
os rostos sem cara de homens importantes.

São esses homens que me perturbam:
Tão ciumentos de qualquer coisa que não seja rasa! Deuses
[ciumentos
que fariam do mundo todo tábula rasa, por também o serem.
Vejo o Pai conversando com o Filho.
O arrasado não pode ser sagrado.
“Vamos criar um paraíso”, eles dizem.
“Vamos arrasar e lavar o rústico das almas.”

PRIMEIRA VOZ:
Estou calma. Estou calma. A calmaria precede alguma coisa
[medonha:
o minuto amarelo antes do vento que passa, quando as folhas
exibem suas mãos, sua palidez. É tão quieto aqui.
Os lençóis, os rostos, são brancos e parados, como relógios.
Vozes se distanciam e se achatam. Seus hieróglifos visíveis
achatam-se em painéis de pergaminho que desviam o vento.
E pintam seus segredos em Árabe, em Chinês!

Sou muda e marrom. Sou uma semente que irá se arrebentar.
A marronidade é meu eu morto, e se cansa:
não quer ser mais, ou diferente.
O crepúsculo me cobre de azul agora, como Maria.
Ai, cor da distância e do esquecimento! –
quando será, aquele segundo em que o tempo arrebenta
e a eternidade o engole, me afogando totalmente?

Eu converso comigo, só comigo, me afasto –
higienizada e sinistra com desinfetantes, sacrificial.
A espera deita pesada em minhas pálpebras. Deita como o sono,
feito um grande mar. Longe, longe, logo a primeira onda acumula
sua carga de agonia sobre mim, inescapável, mareal.
E eu, uma concha, ecoando nessa praia branca
enfrento as vozes da opressão, esse terrível elemento.

TERCEIRA VOZ:
Sou uma montanha neste momento, misturada a mulheres
[montanhosas.
Os médicos se movem entre nós como se nossa grandeza
apavorasse suas ideias. E sorriem como imbecis.
São os culpados pelo que sou, e sabem disso.
Exibem o que neles é raso como uma espécie de saúde.
E se eles então se surpreendessem, como eu?
Ficariam loucos com isso.

E se duas vidas vazassem por entre minhas coxas?
Eu vi a câmara asséptica e branca com seus instrumentos.
É um lugar de guinchos. Não é feliz.
“É pra cá que você vai vir quando estiver pronta.”
As luzes noturnas são luas rasas vermelhas. Estão embotadas com
[sangue.
Eu não estou pronta para coisa alguma.
Eu devia ter matado isso que me mata.

PRIMEIRA VOZ:
Não há milagre mais cruel que este.
Sou arrastada por cavalos, cascos de ferro.
Resisto. Sobrevivo. Cumpro meu trabalho.
Túnel escuro, através do qual acontecem provações,
as provações, as manifestações, os rostos assustados.
Sou o centro de uma atrocidade.
Que sofrimentos, que tristezas terei de parir e cuidar?

Pode tal inocência matar e matar? Minha vida a amamenta.
As árvores embranquecem nas ruas. A chuva é corrosiva.
Provo um pouco, e os horrores praticáveis,
os horrores sedentários e ociosos, as parteiras diminuídas
com seus corações tique e taque, com suas bolsas e instrumentos.
Hei de ser parede e telhado, protegendo.
Hei de ser céu e colina de bondade: Ai, deixe-me estar!

Um poder cresce em mim, uma tenacidade antiga.
Estou arrebentando como o mundo. Há esta escuridão,
esta escuridão intensa. Cruzo as mãos sobre uma montanha.
O ar é denso. É denso com este trabalho.
Sou usada. Sou usada à força.
Meus olhos são comprimidos pela escuridão.
Não vejo nada.

SEGUNDA VOZ:
Acusam-me. Sonho com massacres.
Sou um jardim de agonias pretas e vermelhas, que bebo,
odiando-me, odiando e temendo. E agora o mundo concebe
seu fim e vai em sua direção, braços embalando o amor.
É um amor de morte que a tudo adoece.
Um sol morto mancha o jornal. É vermelho.
Perco vida atrás de vida. A terra sombria as engole.

Ela é o nosso vampiro. Ela nos mantém
e engorda, é gentil. Sua boca é vermelha.
Eu a conheço. Conheço intimamente –
velha cara-de-inverno, velha estéril, velha bomba relógio.
Homens a enganaram. Ela há de comê-los.
Comê-los, comê-los, comê-los a todos no final.
O sol se pôs. Morro. Simulo uma morte.

PRIMEIRA VOZ:
Quem é ele, esse garoto azul e furioso,
bizarro e brilhante, como se arremessado de uma estrela?
Parece tão zangado!
Voou para o quarto, um berro no tornozelo.
O azul empalidece. Ele é humano, enfim.
Um lótus vermelho se abre em vasilha de sangue;
costuram-me com seda, como se eu fosse um tecido.

O que meus dedos faziam antes de segurá-lo?
O que meu coração fazia, com seu amor?
Eu nunca vi uma coisa tão nítida.
Suas pálpebras feito flores fúcsias
e suave feito mariposa, seu fôlego.
Não o abandonarei.
Não há nele malícia ou urdidura. Que assim permaneça.

SEGUNDA VOZ:
Lá está a lua, na janela alta. Foi-se.
Como o inverno enche minha alma! E essa luz calcária
deitando escamas nas janelas, janelas de escritórios vazios,
salas de aula vazias, igrejas vazias. Ai, quanto vazio!
E essa interrupção. Essa terrível interrupção de tudo.
Esses corpos amontoados me rodeando agora, estes chinelos de neve–
que raio azul e lunar congela seus sonhos?

Sinto seu penetrar gelado, alienígena, como um instrumento.
E do outro lado essa face dura, louca, com sua boca em O
escancarada em seu luto perpétuo.
Ela arrasta o mar de sanguessombra ao redor
mês após mês, com suas vozes de fracasso.
Estou tão desamparada quanto o mar no final do cordão.
Estou insone. Insone e inútil. Também eu gero corpos.

Devo ir-me para o norte. Devo ir-me dentro da longa treva.
Vejo-me feito sombra, nem homem nem mulher,
nem uma mulher feliz por ser um homem, nem um homem
bruto e raso o suficiente para não sentir a falta. Sinto uma falta.
Sustenho meus dedos, dez piquetes brancos.
Vê, a escuridão se infiltra pelas rachaduras.
Não posso contê-la. Não posso conter minha vida.

Serei uma heroína do periférico.
Não serei acusada pelos botões caídos,
buracos na meia-calça, caras mudas e brancas
de cartas não respondidas, confinadas nas gavetas.
Eu não serei acusada. Eu não serei acusada.
O relógio não dará pela minha falta, nem essas estrelas
que rebitam um abismo depois do outro.

TERCEIRA VOZ:
Eu a vejo enquanto durmo, rubra, terrível garota.
Ela chora através do vidro que nos separa.
Ela chora, e ela é furiosa.
Seu choro é um gancho que agarra e arranha feito um gato.
É com esse gancho que ela escala até minha vista.
Ela chora no escuro, ou nas estrelas
que distantes de nós brilham e retorcem.

Acho que sua cabeça é esculpida em madeira,
em rubra e dura madeira, olhos fechados e boca escancarada.
A boca aberta emite gritos agudos
furando meu sono como flechas,
furando meu sono, perfurando até o meu lado.
Minha filha não tem dentes. Sua boca é larga.
E emite sons tão trevosos que não pode ser boa.

PRIMEIRA VOZ:
O que é que a nós nos arremessa essas almas inocentes?
Olha, estão tão exaustos, estão arrasados
em seus berços de lona, nomes amarrados a seus punhos,
os pequenos troféus de prata pelos quais vieram de tão longe.
Alguns têm os cabelos pretos e densos, outros são carecas.
Suas peles são rosas ou pálidas, pardas ou vermelhas;
e começam a lembrar de suas diferenças.

Acho que são feitos de água; não têm expressão.
Seu aspecto é de sono, como luz na água calma.
São verdadeiros monges e freiras com suas vestes idênticas.
Vejo-os chovendo como estrelas sobre a Terra –
na Índia, na África, na América, esses pequenos milagres,
essas miúdas e nítidas imagens. Cheiram a leite.
A sola de seus pés está intocada. São caminhantes do ar.

Pode o nada ser tão prodigioso?
Este é meu filho.
Seus olhos abertos são um azul raso e genérico.
Ele se vira para mim feito uma miúda, muda e mansa planta.
Um berro. Ele é o gancho ao qual me agarro.
E eu, um rio de leite.
Sou uma colina quente.

SEGUNDA VOZ:
Não sou feia. Sou até bonita.
O espelho devolve uma mulher sem deformidades.
As enfermeiras devolvem minhas roupas, e uma identidade.
É normal, elas dizem, que coisas assim aconteçam.
É normal na minha vida, e na vida de outras.
Eu sou uma em cinco, qualquer coisa do tipo. Não estou perdida.
Eu sou bonita como estatística. Aqui o meu batom.

Desenho na boca velha.
A boca vermelha que entreguei com minha identidade
um, dois, três dias atrás. Era uma sexta-feira.
E eu nem preciso de um feriado; posso ir ao trabalho hoje.
Posso amar meu marido, ele irá compreender.
E me amar através do borrão de minha deformidade
como eu tivesse perdido um olho, uma perna, uma língua.

Levanto-me, então, um pouco cega. E ando
com rodas, não com pernas; servem-me da mesma forma.
E aprendo a falar com os dedos, não com as línguas.
O corpo está cheio de recursos.
O corpo de uma estrela-do-mar pode regenerar os braços
e as salamandras são pródigas em pernas. Que eu também
Seja pródiga naquilo que me falta.

TERCEIRA VOZ:
Ela é uma pequena ilha, adormecida e pacífica,
E eu um navio branco apitando: Adeus, adeus.
O dia está fervendo. É triste demais.
As flores neste quarto são vermelhas e tropicais.
Elas viveram por trás de vidros toda a vida, cuidadas com ternura.
Agora enfrentam o inverno de lençóis brancos, rostos brancos.
Tenho pouquíssimas coisas na mala.

Tenho roupas de uma mulher gorda que eu não conheço.
Tenho pente e escova. Tenho um vazio.
Estou vulnerável de repente.
Sou uma ferida que foge do hospital.
Sou uma ferida que deixam partir.
Deixo minha saúde para trás. Deixo alguém
que iria aderir-se a mim: desfaço seus dedos como bandagens: vou.

SEGUNDA VOZ:
Eu sou eu mesma de novo. Não há caminhos sem saída.
Sangrei e estou branca como cera, não tenho compromissos.
Sou rasa e virginal, isto significa que nada aconteceu,
nada que não possa ser apagado, extirpado e descartado, um novo
[começo.
Estes pequenos ramos não pensam em florescer,
nem estas secas, secas calhas sonham com a chuva.
Esta mulher que me encontra na janela – é pura.
Tão pura que transparente, como um espírito.
Quão timidamente ela superpõe sua pureza
no inferno de laranjas africanas, e porcos presos pelo calcanhar.
Ela adia a realidade.
Sou eu mesma. Sou eu mesma –
provando a amargura entre os dentes.
A maldade diária incalculável.

PRIMEIRA VOZ:
Por quanto tempo posso ser uma parede, bloqueando o vento?
Por quanto tempo posso ser
abrandando o sol com a sombra de minha mão,
interceptando os dardos azuis de uma lua gelada?
As vozes da solidão, as vozes da tristeza
rondam-me inelutavelmente.
Como é que isso pode suavizá-las, essa cançãozinha de ninar?

Por quanto tempo posso ser um muro ao redor de minha verde
[propriedade?
Por quanto tempo podem minhas mãos
serem bandagem para suas feridas, e minhas palavras
pássaros pairando no céu, consolando, consolando?
É uma coisa terrível
esta desproteção: como se meu coração
pusesse uma cara e caminhasse pro mundo.

TERCEIRA VOZ:
Hoje as faculdades estão bêbadas com a primavera.
Minha beca preta é um pequeno funeral:
mostra que estou séria.
Os livros que trago se comprimem do meu lado.
Certa vez tive uma velha ferida, mas está curando.
Sonhei com uma ilha rubra de gritos.
Era um sonho, não significava nada.

PRIMEIRA VOZ:
A alvorada flore o grande ulmeiro fora de casa.
As andorinhas voltaram. Estão gritando como foguetes de papel.
Escuto o som das horas
dilatando e morrendo nas cercanias. Escuto o mugido das vacas.
As cores se recuperam, e o feno
úmido ferve ao sol.
Os narcisos abrem seus rostos brancos no pomar.

Estou tranquila. Estou tranquila.
Estas são as cores vívidas do berçário,
os patos falantes, os cordeiros alegres.
Sou simples de novo. Acredito em milagres.
Eu não acredito nessas crianças terríveis
que perturbam meu sono com olhos brancos e mãos sem dedos.
Não são minhas. Não me pertencem.

Devo meditar sobre a normalidade.
Devo meditar sobre meu filhinho.
Ele não caminha. Não fala uma palavra.
Ainda está enrolado em faixas brancas.
Mas é rosa e perfeito. Ele sorri com tanta frequência.
Enchi esse quarto com rosas no papel de parede,
e pintei corações em tudo.

Não quero que seja excepcional.
É a exceção que interessa o diabo.
É a exceção que escala a colina da tristeza
ou se senta no deserto e machuca o coração de sua mãe.
Eu o quero comum,
para amar-me e por mim ser amado,
para que se case com quem e onde queira.

TERCEIRA VOZ:
Meio-dia quente nos prados. Os botões-de-ouro
abafam e derretem, e os amantes
passam e passam.
São pretos e rasos como sombras.
É tão bonito não ter de apegar-se!
Sou solitária como a grama. O que é esta saudade?
Saberei algum dia, seja lá o que for?

Os cisnes se foram. Mesmo assim o rio
se lembra de como eram brancos.
Tenta encontrá-los nas luzes.
Observa suas formas nas nuvens.
O que é esse pássaro que grita
com tanta tristeza na voz?
Estou mais jovem do que nunca, ele diz. O que é esta saudade?

SEGUNDA VOZ:
Estou em casa sob a luz da lâmpada. As tardes se alongam.
Remendo a barra da seda: meu marido lê.
Como é bonita a luz incidindo sobre tudo.
Tem uma espécie de fumaça no ar primaveral,
uma fumaça que colore de rosa os parques,
as pequenas estátuas, como a ternura acordasse,
a ternura que não se cansa, que cura.

Aguardo e padeço. Creio que estou sendo curada.
Há mais o que fazer. Minhas mãos
podem coser com cuidado este material. Meu marido
pode virar e virar as páginas de um livro.
E assim estamos juntos em casa, por horas.
É só o tempo que pesa sobre nossas mãos.
É só o tempo, e isso não é material.

As ruas podem se tornar papel subitamente, mas eu me recupero
de minha longa queda, e me encontro na cama,
a salvo no colchão, mãos cruzadas, como pressentisse a queda.
Encontro-me novamente. Não sou uma sombra
ainda que haja uma sombra que saia de meus pés. Sou uma esposa.
A cidade aguarda e padece. As graminhas
crescem nas pedras, e estão verdes de vida.

Padrão