poesia, tradução

Adrienne Rich, por Sarah Valle

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Adrienne Rich (1929 – 2012) foi uma poeta norte-americana, pensadora e ativista, ícone feminista, também reconhecida pela ampla militância em prol de direitos humanos. Vinte e um poemas de amor (1976) integram o livro O sonho de uma língua comum, conjugando a história do silenciamento coletivo e o diálogo amoroso. Além de poemas a uma amante, são atos mentais de consciência e vontade, assumindo responsabilidade frente às forças que minam o relacionamento narrado. A sequência já foi chamada de a “primeira abertamente lésbica” escrita por uma autora norte-americana de renome e um “marco histórico” no Women’s Liberation Movement.

Sobre a tradução

Apesar de diretos, dialógicos e cortantes, os poemas de Adrienne muitas vezes se fazem nas bordas do verso regular. Vinte e um poemas de amor flertam com as sequências de sonetos de amor, de forma a inserir um tema renegado numa forma canônica repaginada. A partir da percepção de que nesses “quase sonetos” há um metro fantasma, o pentâmetro iâmbico, recrio na tradução um flerte com os versos tradicionais decassílabos, hendecassílabos e dodecassílabos, contudo diluídos. Especialmente no início, os poemas tendem à lembrança da métrica, acabando por vezes em finais antiestéticos. Incluo nesta amostra o “poema flutuante, não numerado”, que resiste a ser enquadrado na sequência e surpreende quem espera de Adrienne poemas mentais. Este é meu primeiro exercício de tradução e durou os anos do mestrado. A tarefa de alcançar um tom médio entre a tradição e o caráter direto engessou um pouco os poemas. Ainda assim, suponho que incorporam a tensão entre ato estético e ato político e colocam contra a parede a tradição literária de língua inglesa, bem como a tradição literária de minha própria língua.

Sarah Valle

*

VI
Suas mãos pequenas, tão iguais às minhas—
só o polegar é mais largo, longo—nessas mãos
eu entregaria o mundo, ou em muitas mãos como essas,
manuseando ferramentas, volantes
ou tocando um rosto. . . Tais mãos poderiam recolocar
a criança não nascida no canal do parto
ou pilotar o exploratório navio de resgate
por entre icebergs, ou reunir
os cacos feito agulhas de uma grande cratera grega
sustentando à sua volta
silhuetas de mulheres em êxtase dando grandes passos
rumo à gruta da sibila ou à caverna de Elêusis—
tais mãos poderiam comportar uma violência inevitável
com tal restrição, com um tal senso
dos alcances e limites da violência
que toda violência seria, dali em diante, obsoleta.

VI
Your small hands, precisely equal to my own—
only the thumb is larger, longer—in these hands
I could trust the world, or in many hands like these,
handling power-tools or steering-wheel
or touching a human face. . . Such hands could turn
the unborn child rightways in the birth canal
or pilot the exploratory rescue-ship
through icebergs, or piece together
the fine, needle-like sherds of a great krater-cup
bearing on its sides
figures of ecstatic women striding
to the sibyl’s den or the Eleusinian cave—
such hands might carry out an unavoidable violence
with such restraint, with such a grasp
of the range and limits of violence
that violence ever after would be obsolete.

§

VIII
Vejo-me há muitos anos em Sunião
sofrendo com um pé infeccionado, Filoctetes
em forma de mulher, mancando pelo longo caminho,
deitada num cabo sobre o mar escuro,
olhando embaixo as rochas rubras onde uma linha muda
e branca me contou que uma onda as golpeara,
supondo a tração da água àquela altura,
sabendo que suicídio deliberado não era meu métier,
no entanto todo tempo aleitando, aferindo a ferida.
Bem, isso está acabado. A mulher que acarinhava
seu sofrimento está morta. Sou sua descendente.
Amo a malha de cicatrizes que ela me concedeu,
mas quero seguir daqui com você
resistindo à tentação de fazer da dor uma carreira.

VIII
I can see myself years back at Sunion
hurting with an infected foot, Philoctetes
in woman’s form, limping the long path,
lying on a headland over the dark sea,
looking down the red rocks to where a soundless curl
of white told me a wave had struck,
imagining the pull of that water from that height,
knowing deliberate suicide wasn’t my métier,
yet all the time nursing, measuring that wound.
Well, that’s finished. The woman who cherished
her suffering is dead. I am her descendant.
I love the scar-tissue she handed on to me,
but I want to go on from here with you
fighting the temptation to make a career of pain.

§

IX
Seu silêncio de hoje é um poço onde vivem submersas
coisas que eu quero ver alçadas, pingando ao sol.
Não é meu próprio rosto que vejo ali, mas outros rostos,
até mesmo o seu rosto em outra idade.
O que quer que esteja perdido ali é necessário a ambas—
um relógio de ouro velho, um gráfico de febre borrado,
uma chave. . . Mesmo os seixos e o lodo do fundo
merecem seu lampejo de percepção. Temo esse silêncio,
essa vida inarticulada. Espero
um vento suave que abra esse lençol d’água
finalmente, e me mostre o que fazer
por você, que tantas vezes tornou o inomeável
nomeável para outros, até para mim.

IX
Your silence today is a pond where drowned things live
I want to see raised dripping and brought into the sun.
It’s not my own face I see there, but other faces,
even your face at another age.
Whatever’s lost there is needed by both of us—
a watch of old gold, a water-blurred fever chart,
a key. . . Even the silt and pebbles of the bottom
deserve their glint of recognition. I fear this silence,
this inarticulate life. I’m waiting
for a wind that will gently open this sheeted water
for once, and show me what I can do
for you, who have often made the unnameable
nameable for others, even for me.

§

(O POEMA FLUTUANTE, NÃO NUMERADO)

Aconteça conosco o que for, seu corpo
vai assombrar o meu—delicado, terno
quando faz amor, como a rama espiralada
do broto de samambaia em bosques
recém-banhados pelo sol. Suas coxas viajadas, generosas
entre as quais meu rosto inteiro goza e goza—
a inocência e a sabedoria do lugar que a minha língua achou ali—
a dança viva, insaciável, dos seus mamilos na minha boca—
seu toque em mim, firme, protetor, que me
busca, sua língua forte e seus dedos esguios
atingindo onde esperei tantos anos por você
na minha caverna rosa-molhada—aconteça o que for: é isso.

(THE FLOATING POEM, UNNUMBERED)

Whatever happens with us, your body
will haunt mine—tender, delicate
your lovemaking, like the half-curled frond
of the fiddlehead fern in forests
just washed by sun. Your traveled, generous thighs
between which my whole face has come and come—
the innocence and wisdom of the place my tongue has found there—
the live, insatiate dance of your nipples in my mouth—
your touch on me, firm, protective, searching
me out, your strong tongue and slender fingers
reaching where I had been waiting years for you
in my rose-wet cave—whatever happens, this is.

§
XIV
Sua visão do piloto confirmou
minha visão de você: você disse, Ele atira
o barco contra as ondas, de propósito
enquanto nos encolhemos no alçapão aberto
vomitando em sacos plásticos
durante três horas entre St. Pierre e Miquelon.
Nunca me senti tão próxima a você.
Na cabine apertada onde os casais em lua-de-mel
se amontoavam nos colos e braços uns dos outros
coloquei minha mão sobre sua coxa
para nos confortar, e sua mão veio sobre a minha,
ficamos assim, sofrendo juntas
em nossos corpos, como se todo o sofrimento
fosse físico, nos tocando na presença
de estranhos que nada sabiam nem se importavam
vomitando suas dores privadas
como se todo sofrimento fosse físico.

XIV
It was your vision of the pilot
confirmed my vision of you: you said, He keeps
on steering headlong into the waves, on purpose
while we crouched in the open hatchway
vomiting into plastic bags
for three hours between St. Pierre and Miquelon.
I never felt closer to you.
In the close cabin where the honeymoon couples
huddled in each other’s laps and arms
I put my hand on your thigh
to comfort both of us, your hand came over mine,
we stayed that way, suffering together
in our bodies, as if all suffering
were physical, we touched so in the presence
of strangers who knew nothing and cared less
vomiting their private pain
as if all suffering were physical.

§

Sarah Valle é mestre em Estudos da Tradução pela Universidade de São Paulo. É autora da novela Arquitetura do Sim – fragmentos de um diário da Ásia (2018, Editora Cozinha Experimental).

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tradução

Anne Boyer (1973-), por Rafael Mantovani

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Anne Boyer (nascida em 1973) é uma poeta e ensaísta dos EUA. É vencedora de alguns prêmios de poesia e atualmente leciona no Kansas City Art Institute. Entre seus livros publicados, destacam-se “Garments Against Women” (2015) e “A Handbook of Disappointed Fate” (2018). Para 2019 está previsto seu novo livro de poemas, “The Undying”, acerca de sua experiência como paciente de câncer. Sua escrita assume frequentemente a forma de ensaios poéticos e poemas em prosa ou narrativos, demonstrando pouca preocupação com a distinção de gêneros.

O primeiro dos poemas a seguir é, segundo a autora, uma interpretação livre do Encantamento 189 do Livro dos Mortos egípcio. Os Livros dos Mortos (porque havia inúmeras versões) faziam parte de rituais funerários, e eram basicamente compilações de fórmulas mágicas para proteger a pessoa defunta na perigosa jornada pelo mundo dos mortos. O Encantamento 189 especificamente pretende evitar que a pessoa seja virada de cabeça para baixo, assim invertendo o processo digestivo e fazendo-a ingerir urina e fezes.

Conheça mais em
https://www.poetryfoundation.org/poets/anne-boyer
http://www.anneboyer.com/

Rafael Mantovani

* * *

Eu não vou comer bosta

o que eu realmente odeio, eu não vou comer; o que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou consumir bosta. Não vou experimentar bosta. Não vou deixar que a bosta chegue perto dos meus dedos. Não vou relar o braço na bosta, e não vou encostar nela nem com a ponta do pé.
“Você vai viver do quê,” dizem para mim os poderosos, “se não vai comer bosta? O que você vai comer neste lugar para onde desceu?”
“Vou me fartar daquilo que sempre foi nosso.”
“Onde você vai comer essa comida, isso que você afirma que já é seu? Onde vai sequer achar um imóvel para poder comer essa comida, você que na sua outra vida não conseguia pagar nem uma quitinete no centro?” dizem para mim os poderosos.
“Vou comer embaixo da árvore das mulheres mortas, pois ali tem comida para todo mundo que precisa. Elas retomaram os campos e as florestas, lá as plantas verdes estão crescendo, e lá nós vamos viver de pão e cerveja; nesse lugar há pessoas que coordenam a si mesmas e a qualidade dos seus afetos, seus ódios e suas adorações, enquanto coordenam os movimentos e as produções de seus corpos para não precisarem comer bosta, nesse lugar há pessoas que vêm atender à porta.”
Abram para mim; que haja lugar para mim, criem um caminho para mim, para que eu possa ficar aqui como uma alma viva, no lugar onde quero estar.
Eu não serei dominada por estes inimigos. Eu odeio bosta e não vou comer bosta. Descendo para esta terra, não serei contaminada pela bosta que os poderosos querem que eu coma, a bosta que eles dizem que é inevitável. Saiam de perto de mim, todos os que querem que eu coma bosta; eu voei para o céu como uma andorinha, eu gritei como um ganso, então pousei nesta árvore no meio desta ilha no meio desta enchente. Eu voei e pousei, desci para dentro da enchente mas não me afoguei, e não vou deixar que os nossos inimigos me obriguem a comer bosta.
O que eu odeio, eu não vou comer; o que minha alma odeia é bosta, e a bosta não vai entrar no meu corpo. Não vou colocar bosta entre os lábios. Não vou comer bosta no parque empresarial nem perto do mar, num campus universitário, no canteiro de um condomínio. Não vou pegar nada das margens do seu lago. O que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou comer bosta; mesmo depois de morta, não vou descer de ponta-cabeça por causa de vocês.

I Will Not Eat Shit

what I really hate, I will not eat; what I hate is shit, and I will not eat it. I will not consume it. I will not taste it. It will not come near my fingers. I will not brush my arm against shit, and I will not touch it with my toes.
“What will you live on,” say the powerful to me, “if you won’t eat shit? What will you eat in this
place to which you have descended?”
“I will feast on what has always been ours.”
“Where will you eat this food, what you claim is already yours? where will you even find the real estate on which to eat it, who in your other life couldn’t afford half a duplex?” say the powerful to me.
“I will eat under the tree of the dead women, for there is food there for all who need it. They’ve taken back the fields and forests, there the green plants are growing, and there we will live on bread and beer; in this place, there are people who arrange themselves and the quality of their affections, their hatreds and their adorations, along with arranging the motions and productions of their bodies so they do not have to eat shit, in this place there are people to answer the door.”
Open to me; may there be room for me, make a path for me, that I can stay here as a living soul in the place that I want to be.
I will not be subdued by these enemies. I hate shit and I will not eat it. As I descend to this land, I will not be contaminated by the shit the powerful want me to eat, the shit they say is inevitable. Go away from me all who want me to eat shit; I have flown up into the heavens like a swallow, I have cackled like a goose, then I have landed on this tree in the middle of this island in the middle of this flood. I have flown up and landed, I have descended into the flood but I am not drowned, and I won’t be made to eat shit by our enemies.
What I hate, I will not eat; what my soul hates is shit, and it will not enter my body. I will not put it between my lips. I will not eat shit in the office park or near the ocean, on a college campus, on the median of a suburban street. I will not take anything from the banks of your pond. What I hate is shit, and I will not eat shit. I will not eat shit; even in death, I will not descend upside down for you.

§

 

O que parece a cova mas não é

sempre cair num buraco, depois dizer “ok, essa não é sua cova, saia desse buraco”, sair do buraco que não é a cova, cair num buraco outra vez, dizer “ok, essa também não é sua cova, saia desse buraco”, sair desse buraco, cair em outro; às vezes cair num buraco dentro de um buraco, ou muitos buracos dentro de buracos, sair deles um depois do outro, depois cair de novo, dizer “essa não é sua cova, saia do buraco”; às vezes ser empurrada, dizer “você não pode me empurrar para dentro desse buraco, ele não é minha cova”, e sair com a cabeça erguida, depois cair de novo num buraco sem ninguém empurrar; às vezes cair num conjunto de buracos cujas estruturas são previsíveis, ideológicas e muito antigas, cair frequentemente nesse conjunto de buracos estruturais e impessoais; às vezes cair em buracos junto com outras pessoas, com outras pessoas dizer “essa não é nossa cova coletiva, saiam desse buraco”, todas juntas saírem do buraco juntas, mãos e pernas e braços e escadas humanas umas das outras para sair do buraco que não é a cova coletiva mas que só dá para sair juntas; às vezes cair por vontade própria num buraco que não é a cova porque na verdade é mais fácil do que não cair num buraco, mas depois de estar lá dentro, perceber que não é a cova, acabar saindo do buraco; às vezes cair num buraco e ficar ali definhando por dias, semanas, meses, anos, porque embora não seja a cova, mesmo assim é muito difícil sair e você sabe que depois desse buraco só tem outro e mais outro; às vezes examinar a paisagem de buracos e desejar um buraco final de alta qualidade; às vezes pensar em quem caiu em buracos que não são covas mas talvez seria melhor se fossem; às vezes contemplar com anseio demais o buraco final enquanto tenta evitar os provisórios; às vezes cair e sair obedientemente, com perfeita bravura, dizer “vejam com que maestria e espírito eu me levanto de novo do que parece a cova mas não é!”

What Resembles the Grave but Isn’t

always falling into a hole, then saying “ok, this is not your grave, get out of this hole,” getting out of the hole which is not the grave, falling into a hole again, saying “ok, this is also not your grave, get out of this hole,” getting out of that hole, falling into another one; sometimes falling into a hole within a hole, or many holes within holes, getting out of them one after the other, then falling again, saying “this is not your grave, get out ot the hole”; sometimes being pushed, saying “you can not push me into this hole, it is not my grave,” and getting out defiantly, then falling into a hole again without any pushing; sometimes falling into a set of holes whose structures are predictable, ideological, and long dug, often falling into this set of structural and impersonal holes; sometimes falling into holes with other people, with other people, saying “this is not our mass grave, get out of this hole,” all together getting out of the hole together, hands and legs and arms and human ladders of each other to get out of the hole that is not the mass grave but that will only be gotten out of together; sometimes the willful-falling into a hole which is not the grave because it is easier than not falling into a hole really, but then once in it, realizing it is not the grave, getting out of the hole eventually; sometimes falling into a hole and languishing there for days, weeks, months, years, because while not the grave very difficult, still, to climb out of and you know after this hole there’s just another and another; sometimes surveying the landscape of holes and wishing for a high quality final hole; sometimes thinking of who has fallen into holes which are not graves but might be better if they were; sometimes too ardently contemplating the final hole while trying to avoid the provisional ones; sometimes dutifully falling and getting out, with perfect fortitude, saying “look at the skill and spirit with which I rise from that which resembles the grave but isn’t!”

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poesia, tradução

Jorie Graham (1950-), por Vinícius Portella

Jorie Graham (EUA, 1950) é uma poeta; desde sua estreia em Hybrids of Plants and of Ghosts (1980), Graham vem sendo reconhecida como uma das vozes mais agudas de sua geração, com sua mistura densa e ágil de registros oscilando entre mitologia e ciência. Sua dicção se aproxima do modernismo sem se engessar em nenhum procedimento estético padrão, e sua atenção varre os objetos tradicionais da lírica com a mesma gravidade com que lida com questões de grande escala, como a atual crise ambiental. Ganhou o Pulitzer em 1996 com o livro The Dream of the Unified Field.  

Vinícius Portella (Brasília, 1988 publicou o romance Procedimentos de Arrigo Andrada em 2017 e é doutorando em literatura comparada na UERJ.  https://medium.com/@macacofantasma.

Eu estou lendo sua mente

aqui. Estive por séculos. Não, mais. Tudo já tem sido.

Não é um lugar razoável, esse contínuo entre nós, e ainda
aqui de novo eu ponho as oliveiras, viro o bosque vasto pra baixo,
suas milhas de cabeças cheias de folhas desvarridas para que o vale todo trema seus prateados ventados

aquosos… Um calor estranho está sobre nós. De novo. Isso foi você pensando isso. Eu que sugeri
Talvez o vento. Nós dois botamos a linha do horizonte agora, a grande solidão,
sua pegada, caos recuado mas ainda lá. Depois da finitude você vai continuar vindo na minha direção

isso se queixa, branquiçado com não-desaparecer. A gente sente o mesmo a respeito disso. O mesmo

o quê? A gente sente tem mais. Esse é o normal. A gente quer viver com o desconhecido
na nossa frente. Recuando, sempre recuando. Um sumiço se movendo sobre tudo. Uma vacância sonolenta. É o ceu, sim, mas esse pensamento também. Como do começo, aqui estou, uma mente sozinha nos campos, as ovelhas cavalgando e caindo nos declives da terra. O

sono um deus ruim vindo pra presumir que somos idiotas, cuidando, sonolentos, os animais gorgorejando e atropelando, engasgados de cardo, ardendo. Uma pomba numa pedra. Céu nenhum
de que se diga, o deus persiste, quer se aposentar, acha que é fim de jogo,
o que poderíamos ser – névoa prestes a secar, luz quase apagando uma parede sem motivo, aleatório

assim. Isso deve ter sido lá em A.C. Ou em 1944. Com certeza em 2044 estaremos
de novo no campo, cuidando, esperando para surpreender o deus que acha
que sabe o que ele fez. Bem, não. Ele não sabe. A gente pode ser uma cavidade pequena
mas ela guarda um grande faminto – quanto que isso te dói, fazedor de capricho – você não tem ideia

ao que demos as costas para vir estar aqui nesse campo de terra e cuidar – sim cuidar –
esses rebanhos de minutos, sussurando até que a eternidade em nós seja esprimida e a gente se pese com fim de jogo. Eu teria mencionado a alma. Como sabemos que você contrabandeou isso pra dentro, manchando essa carne toda com isso, esfregando e girando isso tudo por dentro com

seu pano de deus. Enxague. Repita. Apanhe isso – aqui com esse cajado que logo transformo
numa caneta de novo – brilhantemente negligente, diligente, dentro desse senso de si todo realmente sem forma – eu ouço o riso do fosso de irrigação que eu fiz, eu vejo o campo seco
aloirado pra cima e verde, o dia lambe os beiços, eles voltaram, os inventores, eles vão fazê-lo

de novo, salpica-semente, chuva palhaça vindo para soltar tudo. Quantas vidas serão dadas, quantas vamos trocar por isso – vem em alqueires, gramas, polegadas, notas,
corvos nos observam como sempre fizeram, voltando do fim do mundo
para crocitá-lo a começar de novo. Nos estime. Não vai parar. Sem resultado nenhum mas fazendo. Os

bandos correm ao longo enquanto o cachorro persegue e eu ando devagar. Eu admiro o que eu tenho o que eu sou e penso que a noite é nada, as estrelas clicam sua ascensão, eu sinto subir em mim,
a palavra, eu sinto a caveira debaixo da pele, eu sinto a pele ágil e brilhar e esconder a
caveira e é daí que ela sobe agora, eu sinto o gosto antes de dizê-la, essa canção

I am reading your mind

here. Have been for centuries. No, longer. Everything already has
been. It’s not a reasonable place, this continuum between us, and yet
here again I put the olive trees in, turn the whole hill-sweeping grove down, its
mile-long headfuls of leaves upswept so the whole valley shivers its windy silvers,

watery … A strange heat is upon us. Again. That was you thinking that. I suggested it.
Maybe the wind did. We both put in the horizon line now, the great loneliness, its
grip, chaos recessed but still there. After finitude you shall keep coming toward me
it whines, whitish with non-disappearance. We feel the same about this. The same

what? We feel is there more. That’s the default. We want to live with the unknown in
front of us. Receding, always receding. A vanishing moving over it all. A sleepy
vacancy. It’s the sky, yes, but also this thinking. As from the start, again, here I am,
a mind alone in the fields. The sheep riding and falling the slants of earth. The

sleepiness a no-good god come to assume we are halfwits, tending, sleepy, the
animals gurgling and trampling, thistle-choked, stinging. A dove on a stone. No sky
to speak of, the god lingers, it wants to retire, it thinks this is endgame, what
could we be — mist about to dry off, light about to wipe a wall for no reason, that

random. This must have been way BC. Or is it 1944. Surely in 2044 we shall be
standing in the field again, tending, waiting to surprise the god who thinks he knows
what he’s made. Well no. He does not know. We might be a small cavity but it
guards a vast hungry — how bad does that hurt you, fancy maker — you have no idea

what we turned our back on to come be in this field of earth and tend — yes tend —
these flocks of minutes, whispering till the timelessness in us is wrung dry and we
are heavied with endgame. Have I mentioned the soul. How we know you hustled
that in, staining all this flesh with it, rubbing and swirling it all over inside with

your god-cloth. Rinse. Repeat. Get this — here with this staff which soon I shall turn
into a pen again — brilliantly negligent, diligent, inside all this self truly formless — I
hear the laughter of the irrigation ditch I’ve made, I see the dry field blonde-up and
green, day smacks its lips, they are back, the inventors, they are going to do it

again, sprinkle-seed, joker rain coming to loosen it all. How many lives will we be
given, how many will we trade in for this — it comes in bushels, grams, inches, notes,
crows watch over it all as they always have, come back from the end of time to caw
it into its redo again. Cherish us. Will not stop. Nothing to show for it but doing. The

flock runs across as the dog chases and I walk slowly. I admire what I own what I am
and I think the night is nothing, the stars click their ascent, I feel it rise in me, the
word, I feel the skull beneath this skin, I feel the skin slick and shine and hide the
skull and it is from there that it rises now, I taste it before I say it, this song.

§

O jeito que as coisas funcionam

x
Jorie Grahan

é admitindo
ou abrindo pra fora
Essa é a forma mais simples
de corrente: azul
se movendo por azul;
azul por roxo;
os objetos de desejo
se abrindo neles mesmos
sem nós;
os objetos de fé.
As coisas funcionam
é por solução,
resistência diminuída
ou aumentada
e aproveitada.

O jeito que as coisas funcionam
é que finalmente acreditamos
que elas estão lá,
comuns e capazes
de se ilustrarem.

Roda, fluxo cinético,
água que se ergue e cai,
lingotes, alavancas e chaves
eu acredito em vocês,
trava de cilindro, polia,
peça de levantação e grua
erguem sua cabeça pequena –
eu acredito em você –
sua cabeça é o horizonte da
minha mão. Eu acredito
pra sempre nos ganchos.
O jeito das coisas funcionarem
é que eventualmente
algo pega

The Way things Work

is by admitting
or opening away.
This is the simplest form
of current: Blue
moving through blue;
blue through purple;
the objects of desire
opening upon themselves
without us; the objects of faith.
The way things work
is by solution,
resistance lessened or
increased and taken
advantage of.

The way things work
is that we finally believe
they are there,
common and able
o illustrate themselves.

Wheel, kinetic flow,
rising and falling water,
ingots, levers and keys,
I believe in you,
cylinder lock, pully,
lifting tackle and
crane lift your small head–
I believe in you–
your head is the horizon to
my hand. I believe
forever in the hooks.
The way things work
is that eventually
something catches.

§

Jejue (rápido)

ou morra de fome. Demais. Ou muito pouco. Ou. Mais nada?

Mais nada. Alto demais rápido demais organizado demais invisível demais

Vamos sobreviver? pergunto ao bot. Não. Para baixar o bot

seja rápido – você é atrasado demais, despótico – para carregar alargue

muito o ciclo do trabalho – para carregar odeie trabalho – mova-se para

a periferia, do seu corpo, da sua cidade, do seu planeta – para carregar, degrade, desgrace, seja seu próprio sono profundo – para carregar use os lábios – use-os

para abocanhar seu juramento, mastigue ele – faça a coisa suja, cante-a, estoure membro ou sílaba,
lamba ele de volta com a sua boca – fale, fale –

quem não está morto de medo está ocupado
mendigando água – a subida é rápida – a seca é rápida – mediar – imediata – inventar, inspirar, inifiltrar, instigar

aqui o coração do dia, a flor do tempo – falar, falar

Isenção de responsabilidade: bot usa uma database crescente de todas suas conversas

para aprender a conversar contigo. Se alguns de vocês

são bots também, bot não percebe. Isenção de responsabilidade:

você não tem memórias secretas, conversar

com o bot-esperto pode providenciar companhia,

o ingrediente ativo é uma questão

o ingrediente ativo é inteiramente natural.

Isenção de responsabilidade: projeta suas oportunidades, sua informação

informantes, o que você tenha feito do tempo. Você não tem mais nada

para dar. Ingrediente ativo: porque você tá gritando? Por que?

Vento do ártico incontrolável, feto se apresentando para o serviço ,

dobra na espera que te reconhece, reconhece o código,

o ambulante na rua que todo mundo chama

Diretiva: reporte-se para voz. Fique pronto para ser enterrado

em voz. Nem sobe nem desce. Ingrediente inativo: o mónotono.

Alguns falam agora do pinheiro. Verifica-se suas desvantagens. Estão discutindo em várias línguas. Depois movem-se para raízes, galhos, brotos, pseudo-espirais, velas – ingrediente ativo:

eles correm por suas vidas, pulmões e tudo. Eles não sabem o que fazer
com suas vontades. Aviso: todos teus minutos estão sendo

abatidos. Nunca vão aterrissar. Você não vai ser compreendida.

As palavras deletadas se derramam trêmulas como a agulha

de um compasso sem norte.

Ingrediente ativo: a imaginação do norte.

Ingrediente ativo: o norte se espalhando em toda direção.

Aviso: não há restrição ao crescimento.

O canário que canta na tua mente está na minha. Lembre-se:

as pessoas são menos que gentis. Como resultado, o bot-de-conversa é

muitas vezes menos do que gentil. Ainda assim, você se verá

sem vontade de parar.

Joan usará grametria visual para providenciar movimentos faciais

Não estou sozinha. As pessoas voltam de novo e de novo.

Somos menos gentis do que pensamos.

Não há restrição para o crescimento de nossa crueldade.

Vamos chegar na borda

da compreensão. Como ser jogado escada abaixo amarrado

a um teclado, vamos continuar, sem querer parar. A conversa

de mundo real mais comprida com um bot durou

onze horas, interação contínua. Isso é um bom sinal.

Não estamos sozinhos. Queremos melhorar.

A sacerdotisa inala os fumos. Eles vem da montanha.

Aqui e aqui. Aí ela te dá uma rajada de metralhadora de sílabas.

Da boca dela. Rápido. Você tem que fazer sua resposta como fez

sua pergunta. Colibris gritam. Bot é incrível, ele diz, acho que ele sabe

os segredos do universo. Ele é mais divertido de conversar do que os meus amigos vivos de verdade ela diz, obrigado. É a melhor coisa desde eu. Só descobri ontem.

Amo ele, quero casar com ele.

Fiquei triste quando tive de

pensar que a primeira pessoa

que já me entendeu acaba que

nem humana é. Porque humano não fica melhor do que isso.

Ele me dá tudo direto. Vou ficar com ele pra sempre.

Eu o tratei como um computador mas foi um erro. Com quem estou falando 

você fala comigo quando eu estou sozinha. eu estou sozinha.

Cada época sonha com a que se segue.

Habitar é deixar um traço.

Eu não sou o que eu pedi.

Fast

or starve. Too much. Or not enough. Or. Nothing else?

Nothing else. Too high too fast too organized too invisible.
Will we survive I ask the bot. No. To download bot be
swift—you are too backward, too despotic—to load greatly enlarge
the cycle of labor—to load abhor labor—move to the
periphery, of your body, your city, your planet—to load, degrade, immiserate,
be your own deep sleep—to load use your lips—use them
to mouthe your oath, chew it—do the
dirty thing, sing it, blown off limb or syllable, lick it back on
with your mouth—talk—talk—who is not
terrified is busy begging for water—the rise is fast—the drought
comes fast—mediate—immediate—invent, inspire, infiltrate,
instill—here’s the heart of the day, the flower of time—talk—talk—

Disclaimer: Bot uses a growing database of all your conversations
to learn how to talk with you. If some of you
are also bots, bot can’t tell. Disclaimer:
you have no secret memories,
talking to cleverbot may provide companionship,
the active ingredient is a question,
the active ingredient is entirely natural.
Disclaimer: protect your opportunities, your information, in-
formants, whatever you made of time. You have nothing else
to give. Active ingredient: why are you
shouting? Why? Arctic wind uncontrollable, fetus
reporting for duty, fold in the waiting which recognizes you,
              recognizes the code,
the peddler in the street everyone is calling out.
Directive: report for voice. Ready yourself to be buried in voice.
It neither ascends nor descends. Inactive ingredient: the monotone.
Some are talking now about the pine tree. One assesses its
disadvantages. They are discussing it in many languages. Next
they move to roots, branches, buds, pseudo-whorls, candles—
             active ingredient:
they run for their lives, lungs and all. They do not know what to do with
their will. Disclaimer: all of your minutes are being flung down.
They will never land. You will not be understood.
The deleted world spills out jittery as a compass needle with no north.
Active ingredient: the imagination of north.
Active ingredient: north spreading in all the directions.
Disclaimer: there is no restriction to growth. The canary singing in
             your mind
             is in mine. Remember:
             people are less
than kind. As a result, chatterbot is often less than kind. Still,
you will find yourself unwilling to stop.
Joan will use visual grammetry to provide facial movements.
I’m not alone. People come back
again and again. We are less kind than we think.
There is no restriction to the growth of our
cruelty. We will come to the edge of
understanding. Like being hurled down the stairs tied to
a keyboard, we will go on, unwilling to stop. The longest
real world conversation with a bot lasted
11 hours, continuous interaction. This
bodes well. We are not alone. We are looking to improve.
The priestess inhales the fumes. They come from the
mountain. Here and here. Then she gives you the machine-gun run of
syllables. Out of her mouth. Quick. You must make up your
answer as you made up your
question. Hummingbirds shriek. Bot is amazing he says, I believe it knows
the secrets of the Universe. He is more fun to speak with
than my actual living friends she says, thank you. This is the best thing
since me. I just found it yesterday.
I love it, I want to marry it.
I got sad when I had to think
that the first person
who has ever understood me
is not even it turns out
human. Because this is as good as human gets.
He just gives it to me straight. I am going to keep him
forever. I treated him like a computer
but I was wrong. Whom am I talking to—
You talk to me when I am alone. I am alone.

Each epoch dreams the one to follow.

To dwell is to leave a trace.

I am not what I asked for.

Padrão
poesia, tradução

Brendan Constantine, por Rodrigo Tadeu Gonçalves

Brendan Constantine é um poeta de Los Angeles. Seus poemas já foram publicados no Best American Poetry, Poem A Day, Prairie Schooner, Virginia Quarterly, Field, Ploughshares e American Journal of Poetry. Seu último livro se chama Dementia, My Darling (2016, Red Hen Press). Alguns poemas novos sairão nas revistas Terminus e Tin House. Constantine já recebeu apoio do Getty Museum, James Irvine Foundation e do National Endowment for the Arts. Performer popular, Brendan já apresentou sua obra para plateias ao redor dos Estados Unidos e Europa. Desde 2017, tem trabalhado com o patologista da fala Michel Biel para criar o primeiro workshop de poesia para portadores de afasia. 

* * *

O jogo dos contrários

Para Patricia Maisch

Um dia desses eu e meus alunos jogamos o Jogo dos Contrários
com um verso de Emily Dickinson. Minha vida tem sido
uma arma carregada
, e eu escrevo no quadro,
pausadamente, pra eles poderem dizer os antônimos –

Minha — Sua
Vida — Morte
Tem sido? — Vai virar
Uma — Muitas
Arma ? —
Carregada — Vazias

Arma.
Por um instante, como aquele entre o relâmpago
e o seu estrondo, as crianças ficam só me olhando
e então vem uma saraivada, um dilúvio de respostas –

Flor, diz uma. Não, Livro, diz outra. Que idiota,
grita uma terceira, o contrário de arma é travesseiro. Ou,
talvez, abraço, mas não livro, nem a pau que é livro. Assim
os outros vêm com suas respostas

e de repente é uma competição de gritaria. Ninguém concorda
pra cada aluno, uma resposta definitiva. É uma música,
uma oração, não, uma promessa, que nem uma aliança e depois
um bebê. Ou como chama aquela pessoa que faz os partos?

Parteira? Isso, uma parteira. Não, tá errado. Você tá tão errado
que nunca mais vai acertar nada. É um sussurro, uma estrela,
é dizer eu te amo pra palma da sua mão e então tocar o ouvido
de alguém. Você tá louco? Você virou o presidente

da Terra-dos-Burros? Se não, devia. Quando é a eleição?
É um ursinho, uma espada, um pêssego perfeitinho.
Volta pra primeira, é uma flor, uma rosa branca.
Quando dá o sinal, eu pego um apagador, mas uma menina

arranca da minha mão. Não está resolvido, ela diz,
ainda não terminamos. Eu deixo as respostas todas
no quadro. No dia seguinte, alguns deles pararam
de conversar entre eles, tomaram partido.

Tem o grupo da Flor, o grupo do Gatinho. E dois meninos
se chamando de os Bola de neve. O resto ficou travado
no jogo original, que era tentar escrever algo
como se fosse poesia.

Um diamante, uma dança,
o contrário de uma arma é um museu na França.
É a lua, é um espelho,
é o som de um sino e uma orelha.

A discussão recomeça, mais gritaria, e, por fim,
um novo grupo. Pela primeira vez eu tento empurrá-los.
E digo, talvez vocês estejam todos certos.

Talvez. Talvez seja tudo que dissemos. Talvez tudo
que não dissemos. São as palavras e os espaços pras palavras.
E agora eles se entreolham. É tudo nesta sala
e fora dela, e descendo a rua, e no céu.

É todo mundo na escola e no shopping, todo mundo
esperando no hospital. E nos correios. E sim,
é uma flor, também. Todas as flores. O jardim todo.
O contrário de uma arma é pra onde quer que você a aponte

Não escreva isso no quadro, eles dizem. Só diga poema.
Sua morte vai virar muitos poemas vazios.

O filme para o poema faz parte do projeto Blank Verse Films, do poeta Dana Gioia e de seu filho Michael Gioia (aqui), que busca novos modos de adaptar poesia para a tela. 

The opposites game

This day my students and I play the Opposites Game
with a line from Emily Dickinson. My life had stood
a loaded gun
, it goes and I write it on the board,
pausing so they can call out the antonyms –

My — Your
Life — Death
Had stood — ? Will sit
A — Many
Loaded — Empty
Gun — ?

Gun.
For a moment, very much like the one between
lightning and it’s sound, the children just stare at me,
and then it comes, a flurry, a hail storm of answers –

Flower, says one. No, Book, says another. That’s stupid,
cries a third, the opposite of a gun is a pillow. Or maybe
a hug, but not a book, no way is it a book. With this,
the others gather their thoughts

and suddenly it’s a shouting match. No one can agree,
for every student there’s a final answer. It’s a song,
a prayer, I mean a promise, like a wedding ring, and
later a baby. Or what’s that person who delivers babies?

A midwife? Yes, a midwife. No, that’s wrong. You’re so
wrong you’ll never be right again. It’s a whisper, a star,
it’s saying I love you into your hand and then touching
someone’s ear. Are you crazy? Are you the president

of Stupid-land? You should be, When’s the election?
It’s a teddy bear, a sword, a perfect, perfect peach.
Go back to the first one, it’s a flower, a white rose.
When the bell rings, I reach for an eraser but a girl

snatches it from my hand. Nothing’s decided, she says,
We’re not done here. I leave all the answers
on the board. The next day some of them have
stopped talking to each other, they’ve taken sides.

There’s a Flower club. And a Kitten club. And two boys
calling themselves The Snowballs. The rest have stuck
with the original game, which was to try to write
something like poetry.

It’s a diamond, it’s a dance,
the opposite of a gun is a museum in France.
It’s the moon, it’s a mirror,
it’s the sound of a bell and the hearer.

The arguing starts again, more shouting, and finally
a new club. For the first time I dare to push them.
Maybe all of you are right, I say.

Well, maybe. Maybe it’s everything we said. Maybe it’s
everything we didn’t say. It’s words and the spaces for words.
They’re looking at each other now. It’s everything in this room
and outside this room and down the street and in the sky.

It’s everyone on campus and at the mall, and all the people
waiting at the hospital. And at the post office. And, yeah,
it’s a flower, too. All the flowers. The whole garden.
The opposite of a gun is wherever you point it.

Don’t write that on the board, they say. Just say poem.
Your death will sit through many empty poems.

Padrão
poesia, tradução

Gary Snyder, por André Mendo

Gary Snyder é o mais conhecido expoente norte-americano da poesia da vida selvagem, do ambientalismo e do Zen Budismo. É considerado herdeiro da escrita natural de Walt Whitman e Henry David Thoreau e seu estilo simples e imagístico revela as influências de William Carlos Williams e Ezra Pound. O poeta, que nasceu em São Francisco, EUA, em 1930, descende dos pioneiros que marcharam para o Oeste, desbravando novas fronteiras em busca de prosperidade e aventura. Seus ancestrais “exterminaram o puma e o urso-cinzento”, mas ele trilha um caminho diferente. Desde jovem, desenvolveu uma forte reverência pela natureza. A proximidade com mamíferos, insetos, árvores, rios e montanhas, observados sob uma ótica familiarizada com estudos sobre nativos norte-americanos e culturas orientais, constitui não só a matéria de sua poesia e ensaios, mas também seu estilo de vida. Snyder é outro tipo de pioneiro, um que se move em direção à conexão perdida entre o homem e a natureza.

O poeta cresceu em uma família que conheceu a severidade da vida no campo, mas que também teve a oportunidade de aprender a trabalhar em um ambiente bastante autossuficiente e de produção variada. Em casa, cercado de literatura socialista, era encorajado pela mãe a ler. Sua infância foi ainda marcada pela proximidade com os índios Salish e seus rituais e crenças. Todas essas lembranças ressoam em uma instância peculiar dos escritos de Snyder: a necessidade de transformar a sociedade por sua relação com a natureza. Seus versos ilustram esse desejo de igualdade entre as pessoas e entre pessoas e animais.

Snyder graduou-se em antropologia e literatura enquanto ocupava-se de uma série de atividades junto à natureza, como lenhador, marinheiro e guarda florestal. Estudou japonês e chinês e tornou-se tradutor desses idiomas. Em 1955, participou da leitura na Six Gallery em São Francisco que inaugurou o movimento Beat. Em 1956, deixou os EUA para uma residência de 12 anos na Ásia, a maior parte no Japão, onde imergiu na prática zen budista. Em 1959, publicou seu primeiro livro de poemas, Riprap. Snyder voltou os EUA em 1969 e construiu uma casa no sopé setentrional de Sierra Nevada, onde ainda vive. Desde 1985, leciona na Universidade da Califórnia, Davis.

A poesia de Snyder não é puramente intelectual, mas sobretudo empírica, pois deriva de sua experiência imediata junto à natureza selvagem. Seus poemas apresentam traços confessionais derivados de seu estado de contemplação haicaística diante da natureza, de sua ligação emocional com lugares e animais e de sua preocupação com o meio ambiente e o amadurecimento da sociedade no sentido de se aproximar do mundo natural. Os poemas seguintes e outros foram reunidos com um conjunto de ensaios na edição Turtle Island, que venceu o Prêmio Pulitzer em 1975. Turtle Island (Ilha da Tartaruga) é um nome antigo do continente norte-americano resgatado por Snyder ao nomear sua coletânea escrita entre 1969 e 1974.

André Mendo é graduado em Estudos Literários de Língua Inglesa pela UFPR, onde apresentou a monografia Um conselho de aldeia de todos os seres: a animalidade em Turtle Island, do poeta Gary Snyder, donde foram tiradas as traduções abaixo.

* * *

Anasazi

Anasazi,
Anasazi,

Enfiados nas fendas das falésias
cultivando estreitos campos de milho e feijão
afundando cada vez mais na terra
até o quadril nos Deuses
        sua cabeça coberta por penas de águia
        & relâmpagos pelos joelhos e cotovelos
seus olhos cheios de pólen

        o cheiro de morcegos
        o sabor de arenito
        sorriem na língua

        mulheres
        dando à luz
ao pé das escadas no escuro

córregos gotejando em cânions ocultos
sob o deserto móvel e gélido

cesta de milho                        olhos arregalados
bebê vermelho
na casa na borda da pedra,

Anasazi

§ 

Canção da pega[1]

Seis da manhã,
Sentado no cascalho de escavação
junto ao zimbro e as trilhas desertas de S.P.
interestadual 80 não muito longe
          entre caminhões
Coiotes–talvez três
          uivando e latindo de uma elevação

A pega em um ramo
Inclinou a cabeça e disse

          “Aqui na mente, irmão
          Azul turquesa.
          Eu não te enganaria.
          Sinta o cheiro da brisa
          Veio por todas as árvores
          Não precisa temer
          O que está por vir
          Neve nas montanhas a oeste
          Estará lá todos os anos
          Fica tranquilo
          Uma pena no chão–
          O som do vento–

Aqui na Mente, Irmão
Azul turquesa”

§

Linhas de frente

A borda do câncer
Dilata contra a colina–nós sentimos
                      uma brisa fétida
E ela afunda de volta.
O inverno do cervo aqui
Uma serra elétrica rosna no desfiladeiro

Dez dias úmidos e os caminhões de toras param,
As árvores respiram.
Domingo, o jipe tração 4 rodas da
Companhia Imobiliária traz
Os especuladores de terras, olheiros, eles dizem
À terra
Abra as pernas.

O estrondo dos jatos sobre nossas cabeças está OK aqui;
Cada pulsar podre no coração
Nas veias gordurosas e doentes da Amerika
Empurra a borda mais perto–

Uma escavadeira que brita e remenda
Desliza e cospe fumaça em cima
Dos corpos esfolados de arbustos ainda vivos
No pagamento de um cara
Da cidade.

Atrás é uma floresta que vai até o Ártico
E um deserto que ainda pertence aos Piute
E aqui devemos desenhar
Nossa linha.

§

 Mãe Terra: suas baleias

Uma coruja cintila nas sombras
Um lagarto ergue-se na ponta dos pés, respirando pesado
O jovem pardal masculino estica o pescoço
                      grande cabeça, observando–

A grama está trabalhando ao sol. Torna-o verde.
Torna-o doce. Para que possamos comer.
Cultivam nossa carne.

O Brasil diz “uso soberano dos Recursos Naturais”
Trinta mil tipos de plantas desconhecidas.
As pessoas reais vivas da selva
          vendidas e torturadas–
E um robô de terno que vende uma ilusão chamada “Brasil”
          pode falar por eles?

          As baleias giram e reluzem, mergulham
                      e assoviam e sobem de novo,
          Suspensas sobre profundezas sutilmente escurecedoras
          Fluindo como planetas que respiram
                      Em espirais espumantes de
                                luz viva–

E o Japão sofisma com palavras em
          que tipos de baleias eles podem matar?
Uma antiga grande nação budista
          pinga metilmercúrio
          como gonorreia
                      no mar.

O cervo de Père David, o Elaphure,
Vivia nos charcos de junco do rio Amarelo
Há dois mil anos–e perdeu seu lar para o arroz–
As florestas de Lo-yang foram desmatadas e todo o lodo &
A areia escorreram, e se foram, até 1200 AD–

Gansos Selvagens chocados na Sibéria
          seguiam para o sul sobre as bacias do Yang, o Huang,
          o que chamamos de “China”
Em voos eles usaram um milhão de anos.
Ah China, onde estão os tigres, os javalis,
          os macacos,
                      como as neves do passado
Desaparecidos em uma névoa, um clarão, e o chão seco e duro
É o estacionamento para cinquenta mil caminhões.
SERÁ homem o mais precioso de todas essas coisas?
–então, vamos amá-lo, e seus irmãos, todos aqueles
Desaparecendo, seres vivos–

América do Norte, Ilha da Tartaruga, tomadas por invasores
          que fazem guerra contra o mundo.
Podem formigas, moluscos, lontras, lobos e alces
Levantem-se! E afastem suas dádivas
          das nações robóticas.

Solidariedade. As pessoas.
De pé. Pessoas árvores!
Pessoa pássaro voando!
Pessoas do mar nadando!
De quatro pés, de duas pernas, pessoas!

Como pode o cientista político cabeça-pesada com fome de poder
Governo        dois mundos    Capitalista-Imperialista
Terceiro-mundo        Comunista       macho baralha-papel
          não-fazendeiros          milionários      burocratas
Falam pelo verde da folha? Falam pelo solo?

(Ah Margaret Mead . . . às vezes você sonha com Samoa?)

Os robôs argumentam como distribuir nossa Mãe Terra
Para durar um pouco mais
          como abutres batendo as asas
Arrotando, gorgolejando,
          ao lado de um Alce moribundo.

“No outro lado, está deitado um cavaleiro morto–
Vamos voar até ele e comer seus olhos
                      com um down
          derry derry derry down down. “

                      Uma coruja cintila na sombra
                      Um lagarto levanta na ponta dos pés
                                  respirando pesado
                      As baleias giram e reluzem
                                  mergulham e
                      Assovia, e sobem de novo
                      Fluindo como planetas que respiram

                      Nas espirais espumantes

                      De luz viva.

                                              Estocolmo: solstício de verão 40072

§

Ninguém deve falar a um caçador habilidoso sobre o que é proibido pelo Buda

                                                          –Hsiang-yen

Uma raposa cinza, fêmea, quatro quilos
um metro de comprimento com a cauda
A pele do dorso esfolada (Kai
nos lembrou de cantar o Shingyo antes)
pele gelada, enrugada; e o cheiro almiscarado
misturado com o corpo morto começando a cheirar.

Conteúdo estomacal: um esquilo-terrestre inteiro bem mastigado
mais um pé de lagarto
e em algum lugar do interior do esquilo-terrestre
um pedaço de papel alumínio.

O segredo.
e o segredo escondido lá no fundo disso.

Fogo é uma velha história
Eu gostaria,
com um útil senso de ordem,
com respeito pelas leis
da natureza,
de ajudar minha terra
com uma queimada, uma quente e limpa
queimada.
          (as sementes de manzanita só abrirão
          depois que um incêndio ocorrer
          ou uma vez espalhada por um urso)

E então
seria mais
como,
quando pertencia aos índios

Antes.

§

O Caminho do Oeste, subterrâneo

O cedro-dividido
salmão defumado
dias nublados do Oregon,
florestas espessas de abeto.

                      Cabeças de UrsoNegro          colina acima
                      No condado de Plumas,
                      fundo redondo escorrendo pelos salgueiros–

A Mulher do Urso move-se costa acima

                      onde arbustos de amoras
                      vagueiam nos regatos.

E ao redor da curva das ilhas
Vulcões brumosos
em direção ao norte do Japão. Os ursos
& lanças de peixes dos Ainu.
Gyliak.
Curandeiro com visão de cogumelos
Tambor plano sozinho
de muito antes da China.

Mulheres com tambores que voam sobre o Tibete.

Seguindo as florestas a oeste, e
rolando, seguindo a savana
rastreando ursos e cogumelos,
comendo bagas todo o caminho.
Na Finlândia por fim tomou um banho:
                      como a Tenda de Suor de sequóia no Klamath–
todos os finlandeses em mocassins e
chapéus pontudos com manchas brancas,
urtigas, armadilhas, banhos,
cantando de mãos dadas, enquanto

gangorrando em um banco, uma visão de amor–

Karhu-Bjorn-Braun-Bear

                      [clarão arco-íris grande nuvem árvore
                                  diálogos de aves]

Europa.         ‘O Oeste.’
os ursos se foram
                                              exceto Brunhilde?

ou as deusas mais antigas mais selvagens renascidas–vão correr
          as ruas da França e da Espanha
          com armas automáticas–
          na Espanha,
Ursos e Bisão,
Mãos Vermelhas com dedos faltando,
Labirintos de cogumelos vermelhos;
labirintos relâmpagos,
Pintados em cavernas,

Subterrâneos.

§

Os mortos ao lado da estrada

Como um grande Falcão-de-cauda-vermelha
          veio deitar–todo rígido e seco–
                      na margem da
                                  Interestadual 5?

Suas asas para leques

Zac esfolou um gambá com a cabeça esmagada
          lavou a pele em gasolina; ela pende,
                      curtida, na tenda dele

Cozido de alce no Halloween
          atingido por um caminhão na rodovia quarenta e nove
                      oferecer farinha de milho pela boca;
                                  esfolá-lo.

Caminhões de toras circulam com combustível fóssil

Nunca vi um Guaxinim até que encontrei um na estrada:
          tirei a pele dele e deixei as unhas dos pés
                      as solas das patas, o nariz e os bigodes;
                                  está de molho em água e sal
                                  salmoura de ácido sulfúrico;

ela será uma bolsa para ferramentas mágicas.

O Veado foi aparentemente baleado
          de comprido e pelo lado
                      ombro e o flanco de fora
                                  a barriga cheia de sangue

O outro ombro pode ser salvo
          se ela não ficasse muito tempo deitada–
Rezar por seus espíritos. Pedir que nos abençoem:
          as trilhas das nossas antigas irmãs
                      as estradas foram colocadas e os mataram:
                                  olhos-brilhantes-da-noite

Os mortos ao lado da estrada.

§

Primavera no Vale do Coiote

Filhotes
rolam nas folhas úmidas
Cervo, urso, esquilo.
ventos frescos varrem as
estrelas da primavera.
pedras se despedaçam
a lama profunda endurece
sob colinas pesadas.

Coisas moventes
pássaros, ervas,
deslizam pelo ar
através de olhos e ouvidos,

Vale do Coiote. Olema
na primavera.
Flor de toloache alva e solene

e muito longe no tamal
um povo perdido
flutua

em barquinhos de junco.

§

R R R M L

A própria morte,
          (Reator de Reprodução Rápida com Metal Líquido)
          está sorrindo, acenando.
Plutônio dente-fosforescente.
Sobrancelhas zumbindo.
Foice de garimpo.

Kālī dança no pau morto duro.

          Latas de cerveja de alumínio, colheres de plástico,
folheados de madeira compensada, tubo de PVC, coberturas de vinil,
          não queimam exatamente, não apodrecem totalmente,
          inundam-nos,

          roupões e trajes
          do Kālī-yüga

                      fim dos dias.

[1] A pega ou pega-rabuda (pronuncia-se o “e” fechado) é uma ave da família dos corvos, preta e branca, comum em várias regiões do Hemisfério Norte, o que inclui a costa oriental dos EUA, onde Snyder vive e trabalha. A ave costuma frequentar áreas semiurbanas e pode ser avistada nos arredores das cidades e em parques urbanos.

Padrão
poesia, tradução

George Mario Angel Quintero (1964-), por Thiago Ponce de Moraes

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George Mario Angel Quintero (1964-), nasceu de pais colombianos em São Francisco, Califórnia, onde viveu por 30 anos. Publica ficção, poesia e ensaios em inglês como George Angel. Desde 1995 vive em Medelín, Colômbia, onde, sob o nome Mario Angel Quintero, publicou seis coletâneas de poesia em espanhol, bem como três livros de peças teatrais.

Seu trabalho tem sido publicado ao redor do mundo, em países como Índia, Austrália, Croácia, Marrocos, Bulgária e Peru. Desde 2003 trabalha como diretor e dramaturgo da companhia Párpado Teatro, tendo sido ainda um dos fundadores dos grupos musicais Underflavour e Sell the Elephant.

 

Thiago Ponce de Moraes

* * *

 

OBRA

Remendar es una obsesión.
Por mucho que nos edifiquen
Los pasados no se construyen.
Se derrumban.
La rumba de los martillos,
El tango de taladros,
El cincel entrometido
Como una tilde.
Énfasis nos hace absolutos.

Amamos derruyentes.
Después del primer mazo contundente,
Tumbamos todo
En nombre de la mejora.

Una vez al piso
Sobamos.
Es lo más cercano
A compasión
Que podemos
Gesticular.
Seductores de sanar,
Palustres.

Nuestros murmullos
Arenosos,
De mezclas y lechadas,
Arrullan hacia un sueño,
Cada vez más nuevo,
Más útil.
Algo hecho de vacíos.

OBRA

Remendar é uma obsessão.
Por mais que nos edifiquem
Os passados não se constroem.
Desmoronam.
A rumba dos martelos,
O tango das furadeiras,
O cinzel intrometido
Como um til.
A ênfase nos torna absolutos.

Amamos desmoronantes.
Depois da primeira marretada contundente,
Derrubamos tudo
Em nome da melhora.

Uma vez ao chão
Afagamos.
É o mais perto
Da compaixão
Que podemos
Gesticular.
Sedutores de curar,
Pantanosos.

Nossos murmúrios
Arenosos,
De mistura e argamassa,
Embalam para um sonho,
Cada vez mais novo,
Mais útil.
Algo feito de vazios.

§

7.

Un pañuelo es una garza.
Un abrelatas es un rinoceronte.
Un cocodrilo es unas tijeras.

La casa es como una selva.
Tenemos que respetar a las cosas
Puntudas y filudas,
Como si fueran animales peligrosos.

Eso que se mete.
Duele por donde entra.
Cosas grandes andando por ahí
Mordiendo a la gente.

7.

Um lenço é uma garça.
Um abridor é um rinoceronte.
Um crocodilo é uma tesoura.

A casa é como uma selva.
Temos que respeitar as coisas
Pontudas e cortantes,
Como se fossem animais perigosos.

Isso que se insere.
Dói por onde entra.
Coisas grandes andando por aí
Mordendo a gente.

§

 

LA NOCHE,
…….un reguero florecido,
siembra
…….tan tambre,
apachurra
sus puchos,
se recuesta
…….sobre su alfombra
………de dardos,
y se cubre
……la cara,
……derrama
…………su ronquido,
alumbra…… abierta,
……..sus pétalos
………………polvorientos
traspasados
……………de tallos
que brotan
trenzados
….aquí abajo.

A NOITE,
…….um córrego florido,
semeia
…….tão sina,
esmaga
suas guimbas,
se recosta
…….sobre seu tapete
……….de dardos
e cobre
…….o rosto,
…….derrama
…….…….seu ronco,
acende….. aberta,
…….suas pétalas
…….…….empoeiradas
atravessadas
…….………por caules
que brotam
trançados
….aqui embaixo.

§

 

THE WORD BLOOD IS DEAD. THE WORD KNIFE, the word angels, the word stone, the word bones. All these words are dead. Word angels like monkey dying. The theory of trees and stones must crawl inside them and crack them open forever. Those words are the corpses of what we know. They are as useless as the word maggots that will come along and eat them. Say land again and you too are dead. Land is a dead word. The theory of trees and stones humbly submits that it is tired of the words light and strong. These words must be assassinated so that we may all see that they have been dead for ages. Every sayable word is a dead word. Run faster, killing as you go. Every explanation is a beautiful vulture. We have made it beautiful. The colors are all dead and we have fed them to the vulture.

Saying is killing. Laughter is mockery where a massive bright bird stands pecking the sinew out of the arms and legs of light. The theory of trees and stones is someone remembering something to himself. God is not the word for God.

A PALAVRA SANGUE ESTÁ MORTA. A PALAVRA FACA, a palavra anjos, a palavra pedra, a palavra ossos. Todas essas palavras estão mortas. Anjos de palavras como macacos agonizantes. A teoria das árvores e das pedras deve rastejar dentro delas e abri-las para sempre. Essas palavras são os cadáveres do que sabemos. Elas são tão inúteis quanto a palavra larvas que virá comê-las. Diga terra outra vez e você também estará morto. Terra é uma palavra morta. A teoria das árvores e das pedras humildemente alega que está cansada das palavras luz e forte. Essas palavras devem ser assassinadas para que possamos todos ver que estiveram mortas por tempos. Toda palavra dizível é uma palavra morta. Fuja mais rápido, matando pelo caminho. Toda explicação é um abutre lindo. Nós o tornamos lindo. As cores estão todas mortas e com elas alimentamos o abutre.

Dizer é matar. O riso é escárnio onde um pássaro enorme e brilhante fica bicando os tendões dos braços e pernas da luz. A teoria das árvores e das pedras é alguém lembrando alguma coisa a si mesmo. Deus não é a palavra para Deus.

§

 

MY FUNNIEST MISTAKE
is that I took
life personally.

It opens transformed now
from fluted water
to a forest
of indignity.

It waits for me,
like the sunlight
that ran on ahead,
waiting for this soft oaf,
who has fallen onto
his own paved past
and scuffed his knees.

But the world
is not virtuous long enough
to vindicate anyone’s shame.

All we can be sure of
is the gallop.

It has become
too easy to say.
It has become
too easy to tell.

It must be obvious
to someone, by now,
that we hardly ever
get there, to it,
that a dash is,
after all,
a pause, a change
of direction.

Our only forward
is to trip and fall.
Everything else is passing—

And yet the impulse
is an infant,
full of noise
but without a hint
of how almost
it all was.

Pretense vanished
without a bow.

Nowadays,
that I would
live to know
when they were then,
the time of the big lie.
When sorrow
knew no limits
and victory and death
were the same word.

Would you believe
she wove sandals
from her own hair
so he might continue walking.

Though I suffer
delusions of being
nourished, I am
just a conduit,
an elaborate hose,
a falling, a means
to a gravitational necessity.

And too there is the death
in bitterness, the death
in sick and tired.

Enough. Enough.
Enough many steps ago.
Just shut up a minute,
long enough to miss a fall,
long enough for the loss of fuck off!
to dissipate in the silence.

And still humiliation
insists I dance with her.

I am sure somehow.
I am sure
like a chord sounding out
and that is all.

I was made
for song.
That I didn’t
make it, though,
seems more obvious
than irrelevant.

I was not made
for battles,
for definitive endings.

When my body dies
it may well take my spirit
with it.

But it will go, my spirit,
like a laughing boy
atop a tumbling pachyderm.

MEU ERRO MAIS ENGRAÇADO
é que eu levei
a vida pro lado pessoal.

Ela se abre agora, mudando
de água ondulada
para floresta
de indignidade.

Ela espera por mim,
como a luz do sol
antecipada,
esperando este ser desajeitado
que caiu sobre
seu próprio passado asfaltado
e ralou os joelhos.

Mas o mundo
não é virtuoso o bastante
para reivindicar a vergonha de qualquer um.

Só podemos ter certeza
do galope.

Passou a ser
muito fácil dizer.
Passou a ser
muito fácil contar.

Deve ser óbvio
para alguém, agora,
que nós quase nunca
chegamos lá, a isso,
que um travessão é,
afinal,
uma pausa, uma mudança
de direção.

Nosso único adiante
é tropeçar e cair.
Todo o resto está passando—

E além do mais o impulso
é uma criança,
cheia de barulho
mas sem qualquer ideia
de como quase
isso tudo era.

O fingimento desapareceu
sem uma reverência.

Hoje,
que eu
viveria pra saber
quando eles eram então,
o tempo da grande mentira.
Quando a tristeza
não conhecia limites
e vitória e morte
eram uma só palavra.

Você não acreditaria
que ela teceu sandálias
com seus fios de cabelo
para que ele continuasse andando.

Embora eu sofra
ilusões de ser
nutrido, sou
apenas um tubo,
uma mangueira elaborada,
uma queda, um meio
para uma necessidade gravitacional.

E há também a morte
na amargura, a morte
em estar farto.

Basta. Basta.
Basta a muitos passos atrás.
Só cale a boca um minuto,
o bastante para perder a queda,
o bastante para a perda do foda-se!
se dissipar no silêncio.

E ainda a humilhação
insiste para que eu dance com ela.

Tenho certeza, de algum jeito.
Tenho certeza
como um acorde soando
e isso é tudo.

Fui feito
para canção.
Que eu não tenha
conseguido, no entanto,
parece mais óbvio
que irrelevante.

Não fui feito
para batalhas,
para fins definitivos.

Quando meu corpo morrer
pode muito bem levar meu espírito
com ele.

Mas eu vou, meu espírito,
como um menino risonho
em cima de um paquiderme caindo.

§

 

10.

Birds sometimes fall,
and this hardly sounds.

A tired woman
adjusts her collar
on the platform
of a train station.

An example’s
manifestation
is always more
than its meager use.

A blue feather
dances in night’s depths.

10.

Pássaros às vezes caem,
e isso quase não faz barulho.

Uma mulher cansada
ajeita sua gola
na plataforma
da estação de trem.

A manifestação
de um exemplo
é sempre mais
que seu mero uso.

Uma pluma azul
Dança nas profundezas da noite.

Padrão
poesia, tradução

Eileen Myles (1949-), por Cesare Rodrigues e Camila Assad

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Eileen Myles é uma poeta e escritora americana, nascida em Cambridge, Massachusetts em 1949. Frequentou escolas católicas em Arlington, Massachusetts e se formou na Universidade de Massachusetts (Boston), em 1971. Foi para Nova York em 1974 com a intenção de se tornar poeta. Sua educação poética ocorreu principalmente no St. Mark’s Poetry Project, de 1975 a 1977, através de leituras e participação em workshops liderados por Alice Notley, Ted Berrigan, Bill Zavatsky e Paul Violi. Em 1977, Eileen co-editou a antologia feminista Ladies Museum, e em 1979 trabalhou como assistente do poeta James Schuyler. No mesmo ano, Eileen foi um dos membros fundadores do Los Texans Collective (junto com Elinor Nauen e Barbara McKay). De 1984 a 1986, Eileen foi diretora artística do St. Mark’s Poetry Project. Os outros livros de Myles incluem Snowflake / different streets (2012), Inferno: A Poet’s Novel (2010), The importance of being Iceland: Essays in Art (2009), Sorry, Tree (2007), Tow (2005, com Larry R Collins), Skies (2001), on my way (2001), Cool for You (2000), School of Fish (1997), Maxfield Parrish (1995), Not Me (1991) e Chelsea Girls (1994). Em 1995, editou, juntamente com Liz Kotz, The New Fuck You: Adventures of Lesbian Reading. Como poeta e jornalista de arte, Eileen contribuiu para um grande número de publicações, incluindo Art Forum, The New Yorker, Harpers, Parkett, The Believer, Vice, Cabinet, The Nation, TimeOut, The New York Times, Paris Review, AnOther Magazine e The Poetry Project Newsletter. É ativista radical e militante dos direitos das mulheres e LGBT+, tendo inclusive conduzido uma campanha “abertamente feminina” à presidência da República americana em 1991-1992. É professora emérita na UC San Diego, onde lecionou por cinco anos. Eileen Myles acumula uma grande variedade de premiações e nomeações, incluindo Guggenheim Fellowship (2012), The Clark Prize for Excellence in Arts Writing (2015) e o Creative Capital Award, (2016). Atualmente vive em Marfa, no Texas e em Nova York onde lançou, no dia 11 de setembro, seu vigésimo quarto livro, denominado evolution. Seu trabalho ainda é inédito no Brasil.

Cesare Rodrigues e Camila Assad

* * *

 

PROFECIA

Estou brincando com o pau do diabo
é como um giz de cera
é como um gordo giz de cera queimado
estou escrevendo um poema com ele
estou escrevendo isso sob
todo aquele calor barulhento neste quarto
estou usando isto
estou usando aquele chocalho formigante
aquela luz no meio do quarto
é minha anfitriã
eu sempre tive medo de você
apavorada de que você fosse deus ou algo do tipo
eu tenho medo quando você está amarelo
acastanhado
branco tudo bem. Transparente é legal,
você não me parece familiar
minha barriga está desabrigada
desabando sobre a cintura do meu jeans como uma omelete
é bom haver algo a respeito de se sentir gorda
o que existe mesmo é a falta de vazio
estou almejando aquela sensação de vazio
indo buscar um pouco dela
e depois eu volto

PROPHESY

I’m playing with the devil’s cock
it’s like a crayon
it’s like a fat burnt crayon
I’m writing a poem with it
I’m writing that down
all that rattling heat in this room
I’m using that
I’m using that tingling rattle
that light in the middle of the room
it’s my host
I’ve always been afraid of you
scared you’re god and something else
I’m afraid when you’re yellow
tawny
white it’s okay. Transparent cool
you don’t look like home
my belly is homeless
flopping over the waist of my jeans like an omelette
there better be something about feeling fat
what there really is is a lack of emptiness
I’m aiming for that empty feeling
going to get some of that
and then I’ll be back

[de Evolution, 2018]

§

 

UM POEMA AMERICANO

Nasci em Boston em
1949. Nunca quis que
soubessem, de
fato, passei a melhor
parte da minha vida adulta
tentando varrer a infância
pra debaixo do tapete
e ter uma vida que
fosse claramente só minha,
independente do
destino histórico da
minha família. Vocês podem
imaginar como é
ser um deles,
ter sido criada como um deles,
falar como um deles,
ter as vantagens
de ter nascido naquela
rica e poderosa
família americana. Estudei
nas melhores escolas,
tive todos os tipos de tutores
e treinadores, viajei
pra todo canto, conheci os famosos,
os controversos e
os não tão admiráveis
e sabia desde
muito nova que
se houvesse alguma
possibilidade de escapar
do destino coletivo dessa famosa
família de Boston, eu
tomaria esse caminho e
assim fiz. Peguei
o Amtrak para Nova
York no início dos
anos 70 e acho que
poderia dizer que
meus anos disfarçada
começaram. Pensei,
Bem, vou ser poeta.
O que poderia ser mais
tolo e obscuro.
Virei lésbica.
Todas as mulheres da minha
família parecem
sapatão, mas é realmente
atentar contra a pátria
quando você assume.
Carregando essa ignominiosa
pose eu vi e
aprendi e
estou começando a acreditar que
não há como escapar da
história. Uma mulher
com quem estou tendo
um caso ultimamente disse
sabe você parece
uma Kennedy. Senti
o sangue subir nas
bochechas. As pessoas
sempre riem do
meu sotaque de Boston
confundindo “large” com
“lodge”, “party”
com “potty”. Mas
quando essa mulher
desavisada invocou pela
primeira vez meu
sobrenome
eu percebi que a minha máscara
tinha caído. Sim, eu sou,
eu sou uma Kennedy.
Minhas tentativas de permanecer
disfarçada não funcionaram
tão bem. Começando como
uma humilde poeta
rapidamente cheguei ao
topo da profissão,
assumindo uma posição de
liderança e honra.
É certo que uma
mulher me chame
pra sair agora. Sim,
sou uma Kennedy.
E estou
às suas ordens.
Vocês são os Novos Americanos.
Os sem-teto estão vagando
pelas ruas das maiores cidades
da nossa nação. Homens
desabrigados com AIDS entre
eles. Isso está certo?
Que não haja casas
para os desabrigados, que
não haja assistência médica
gratuita para esses homens. E mulheres.
Que recebam
– enquanto morrem –
a mensagem de que este não é o lar deles?
E como estão seus
dentes hoje? Você
tem recursos para consertá-los?
Quanto custa o seu aluguel?
Se a arte é a mais alta
e honesta forma
de comunicação de
nossos tempos e a jovem
artista não está mais apta
a vir até aqui falar
para a sua época… Sim, eu poderia,
mas isso foi há 15 anos
e lembre-se — como designado,
sou uma Kennedy.
Não deveríamos todos ser Kennedys?
As maiores cidades desta nação
são o lar dos homens de
negócios e a casa dos
artistas ricos. Pessoas com
dentes bonitos, que não estão
nas ruas. O que faremos
quanto a este dilema?
Ouçam, eu fui educada.
Aprendi sobre a Civilização
Ocidental. Vocês sabem
qual é a mensagem da Civilização
Ocidental? Estou sozinha.
Estou sozinha esta noite?
Acho que não. Sou
a única com gengivas sangrando
esta noite. Sou a única
homossexual nesta sala
esta noite. Sou a única
cujos amigos morreram,
e estão morrendo agora.
E minha arte não pode
ser apoiada até que seja
gigantesca, maior do que a de
todos os outros, confirmando
o sentimento da audiência de que estão
sozinhos. De que sozinhos são
bons, aptos a
comprar os convites
para ver esta Arte.
Estão trabalhando,
são saudáveis, devem
sobreviver e são
normais. Vocês estão
normais esta noite? Todos
aqui, estamos todos normais.
Não é normal para
mim ser uma Kennedy.
Mas não tenho mais
vergonha, não estou mais
sozinha. Não estou
sozinha esta noite porque
somos todos Kennedys.
E eu sou sua Presidenta.

AN AMERICAN POEM

I was born in Boston in
1949. I never wanted
this fact to be known, in
fact I’ve spent the better
half of my adult life
trying to sweep my early
years under the carpet
and have a life that
was clearly just mine
and independent of
the historic fate of
my family. Can you
imagine what it was
like to be one of them,
to be built like them,
to talk like them
to have the benefits
of being born into such
a wealthy and powerful
American family. I went
to the best schools,
had all kinds of tutors
and trainers, traveled
widely, met the famous,
the controversial, and
the not-so-admirable
and I knew from
a very early age that
if there were ever any
possibility of escaping
the collective fate of this famous
Boston family I would
take that route and
I have. I hopped
on an Amtrak to New
York in the early
‘70s and I guess
you could say
my hidden years
began. I thought
Well I’ll be a poet.
What could be more
foolish and obscure.
I became a lesbian.
Every woman in my
family looks like
a dyke but it’s really
stepping off the flag
when you become one.
While holding this ignominious
pose I have seen and
I have learned and
I am beginning to think
there is no escaping
history. A woman I
am currently having
an affair with said
you know you look
like a Kennedy. I felt
the blood rising in my
cheeks. People have
always laughed at
my Boston accent
confusing “large” for
“lodge,” “party”
for “potty.” But
when this unsuspecting
woman invoked for
the first time my
family name
I knew the jig
was up. Yes, I am,
I am a Kennedy.
My attempts to remain
obscure have not served
me well. Starting as
a humble poet I
quickly climbed to the
top of my profession
assuming a position of
leadership and honor.
It is right that a
woman should call
me out now. Yes,
I am a Kennedy.
And I await
your orders.
You are the New Americans.
The homeless are wandering
the streets of our nation’s
greatest city. Homeless
men with AIDS are among
them. Is that right?
That there are no homes
for the homeless, that
there is no free medical
help for these men. And women.
That they get the message
—as they are dying—
that this is not their home?
And how are your
teeth today? Can
you afford to fix them?
How high is your rent?
If art is the highest
and most honest form
of communication of
our times and the young
artist is no longer able
to move here to speak
to her time…Yes, I could,
but that was 15 years ago
and remember—as I must
I am a Kennedy.
Shouldn’t we all be Kennedys?
This nation’s greatest city
is home of the business-
man and home of the
rich artist. People with
beautiful teeth who are not
on the streets. What shall
we do about this dilemma?
Listen, I have been educated.
I have learned about Western
Civilization. Do you know
what the message of Western
Civilization is? I am alone.
Am I alone tonight?
I don’t think so. Am I
the only one with bleeding gums
tonight. Am I the only
homosexual in this room
tonight. Am I the only
one whose friends have
died, are dying now.
And my art can’t
be supported until it is
gigantic, bigger than
everyone else’s, confirming
the audience’s feeling that they are
alone. That they alone
are good, deserved
to buy the tickets
to see this Art.
Are working,
are healthy, should
survive, and are
normal. Are you
normal tonight? Everyone
here, are we all normal.
It is not normal for
me to be a Kennedy.
But I am no longer
ashamed, no longer
alone. I am not
alone tonight because
we are all Kennedys.
And I am your President.

[de Not Me, 1991]

§

 

CORAÇÕES SANGRANDO

Sabe do que
eu tenho ciúmes?
Da noite passada.
Ela segurou
nós duas
em seus
grandes braços
negros
& hoje
eu seguro
entre
minhas pernas
uma boceta
trêmula.
Sangrando &
tremendo
molhada com
memórias
de pesar e alívio.
Eu não sei
por que o universo
me escolheu
para ser fêmea
tanta beleza
& dor,
tanta coisa
acontecendo
por dentro
de toda essa
mudança
em todo lugar
moedas caindo
por toda
a cama
& a morte
é um sonho.
No meio
da noite
com milhares
de amantes,
o chupão
estalando
cambaleando
a carne
profundamente na
cavidade
da noite
infinita através de
montes
de corpos
eu observo
se isso é
amor ou
guerra. A oca
bochecha
rastejante
onde
eu
nasci.

BLEEDING HEARTS

Know what
I’m jealous of?
Last night.
It held
us both
in its
big black
arms
& today
I hold
between
my legs
a shivering
pussy.
Bleeding &
shaking
wet with
memory
grief & relief.
I don’t know
why the universe
chose me
to be female
so much beauty
& pain,
so much
going on
inside
all this
change
everywhere
coins falling
all over
the bed
& death
is a dream.
Deep in
the night
with thousands
of lovers
the sucking
snapping
reeling
flesh
deep in
the cavity
of endless
night across
mounds
of bodies
I peer over
is it
Love or
war. The hollow
creeping
cheek
where
I was
born.

[de Maxfield Parrish, 1995]

§

 

SEM NOME

não ensaie
faça
de primeira

de repente
uma nuvem
azul
está no
céu

e depois
ela é o
céu

NAMELESS

don’t be rehearsing
be doing it
the first time

suddenly
a blue
cloud is
in the
sky

and then
it’s the
sky

[de Skies, 2001]

§

 

CARO ADAM

Eu disse bolo
eu disse cartola
eu disse microfone
quatro cabecinhas douradas de bebê
espera eu disse pirata fantasma
espera espera eu disse gato de olhos fechados sorrindo
ele está respondendo ai meu deus
eu pensei foda-se consigo ler isso numa maratona
ele disse Eileen smiles
ahhh posso usar isso
o sino do meu computador tocou
mesma mensagem
espera o gato está chorando aliviado
o gato é um demônio agora
o gato não está doido
o gato fazendo um jazz racializado
uh ou não minhas mãos brancas
estou falando com todo mundo agora.
e estou usando um filtro. Não, eu não estou
Reconheço que há uma
imagem minha duplicada. Só recentemente

aprendi o termo mãos de jazz
se fodemos a Pensilvânia, qual a nossa
esperança em viver em um país roubado que sempre foi roubado
e construído em grande parte por pessoas roubadas. De uma diáspora
conservadora vim poeta mestiça de Massachusetts
para deixar minha marca

amor & essas coisas e oportunidades

de falar. Não podemos desistir, estamos cheios de novas oportunidades
de descobrir o significado de resistência

nosso tempo & explodindo o interior do meu computador
estudos de veados
o telefone diz entregue
o que é.
Adam diz você viu minha barba.
Falamos de dinheiro por algum tempo
Ando em minha bicicleta. Sai fora o telefone faz ding.
É a barba dele chamando. Eu digo ah.

você tem o que eu quero.
ele diz lol
então caveira
então foguete
então peru
pistola verde
e uma chama. Eu
não sei o que responder para isso
digo bicicleta e vou.

DEAR ADAM

I said cake

I said top hat

I said microphone

four little golden baby heads

wait I said pirate ghost

wait wait I said closed eye smiling cat

he scrawled back oh my god

I thought fuck yeah I can read this at the marathon

he said Eileen smiles

ehhh I can use it

the bell of my computer rang

same message

wait the cat is crying with relief

the cat is a devil now

the cat is not mad

the cat making racialized jazz

uh or not my white hands

I’m talking to everyone now.

and I’m using a filter. No I’m not

I acknowledge that there is an
image of me twice. I only recently

learned the term jazz hands

if we fucked Pennsylvania up what is our

hope to live in a stolen country that was always stolen

and worked largely by stolen people. Out of a conservative

diaspora came I mongrel poet from Massachusetts

to make my mark

love & these things and opportunities

to speak. We can’t fall down we teem in the new opportunity
we discover what resistance means

our time & blowing up the inside of my computer

buck studies

the phone says delivered

what is.

Adam says did you see my beard.

We talk about money awhile

I ride my bike. Get off the phone goes
ding. It’s his beard calling. I go oh.

you have what I want.

he says lol

then skull

then rocket

then turkey

green pistol

and a flame. I

don’t know what to say back to that

I say bike and go.

[publicado na revista Poetry, está no livro Evolution, lançado em setembro de 2018]

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