crítica, poesia, tradução

Raymond Carver, por Cide Piquet (& uma orelha de Angélica Freitas)

Apesar de ser mais conhecido como escritor de contos, Raymond Carver começou sua carreira literária publicando uma coleção de poemas, Near Klammath, em 1968. Em entrevista à Paris Review, Carver afirmou que a única explicação para ter começado a escrever foram todos os relatos que havia escutado de seu pai: aventuras nos bosques e viagens clandestinas em trens, e também histórias de família, como a do bisavô que lutara na Guerra Civil americana, pelos dois lados, um verdadeiro vira-casacas.

Essas histórias do pai, um trabalhador encarregado de cuidar das lâminas de uma serraria, povoaram o imaginário do jovem Raymond, que por sua vez encontrou nas caçadas e pescarias da juventude os primeiros temas que lhe emocionaram. Ele queria contar sobre o peixe que havia pescado, mas também sobre o que havia escapulido.

Suas escolhas na vida adulta moldaram ainda mais a sua forma de ver o mundo. Uma série de empregos menores e mal pagos, como o de faxineiro num hospital, aguçaram seu olhar e sensibilidade. Trabalhadores pobres, grupo no qual se incluía, são muitas vezes os personagens principais de seus poemas. Com estilo direto e conciso, em que cada palavra é necessária, retratou como poucos a precariedade e os fracassos dessas vidas.

Talvez um dos poemas mais exemplares desta obra seja “O Padeiro”, no qual um homem que teve sua mulher tomada por um pistoleiro foge à noite, humilhado, carregando suas botas para não acordá-lo. “Ele é o herói deste poema”, escreve. Os garotos que entregam jornais, o funcionário do cemitério de Montparnasse que não quer pensar na morte, e os engolidores de fogo das ruas da cidade do México são, também, à sua maneira, heróis de outros poemas.

Os detalhes desse mundo precário, tão bem observados, partem o coração. “Pressionamos os lábios contra a borda esmaltada das xícaras/ e sabemos que essa gordura que boia sobre o café/ um dia irá parar nossos corações./ Olhos e dedos tombam sobre a prataria/ que não é prataria” (“De manhã, pensando no império”). Outro exemplo: “Partimos à meia-noite, com um caminhão de mudança e uma lanterna/ Quem sabe o que passou pela cabeça dos vizinhos ao verem uma família abandonar sua casa no meio da noite” (“Nossa primeira casa em Sacramento”).

A morte está presente em sua obra, mas os cemitérios, quando aparecem nos poemas, servem como lembrete de que é melhor não se demorar neles e que a vida está acontecendo em todos os lugares o tempo inteiro.

Os poemas de Raymond Carver também estão cheios de esperança e da capacidade de se maravilhar. “Existe algo mais maravilhoso do que uma nascente?”, pergunta, em “Onde a água se junta a outra água”. E a sensação que temos, após lê-los, é que se ficarmos muito quietos com nossas xícaras de café, atentos ao que se passa dentro de nós e ao nosso redor, alguma coisa bonita pode acontecer.

Angélica Freitas, na orelha de Esta vida: poemas escolhidos, organização e tradução de Cide Piquet, que acaba de sair pela Editora 34.

* * *

O Padeiro

Então Pancho villa chegou à cidade
enforcou o prefeito
e convocou o velho e enfermo
conde Vronski para jantar.
Pancho lhe apresentou sua nova namorada,
ao lado do marido de avental branco,
mostrou a Vronski sua pistola,
depois lhe pediu que falasse
sobre seu triste exílio no México.
Mais tarde, a conversa foi sobre mulheres e cavalos.
Ambos eram peritos.
A namorada sorria
e brincava com os botões de pérola
da camisa de Pancho, até que,
prontamente à meia-noite, Pancho adormeceu
com a cabeça sobre a mesa.
O marido fez o sinal da cruz
e deixou a casa carregando suas botas
sem nem mesmo acenar
para sua mulher ou para o conde.
Esse marido anônimo, descalço,
humilhado, tentando salvar sua vida, ele
é o herói deste poema.

The Baker

Then Pancho villa came to town,
hanged the mayor
and summoned the old and infirm
Count Vronsky to supper.
Pancho introduced his new girl friend,
along with her husband in his white apron,
showed Vronsky his pistol,
then asked the Count to tell him
about his unhappy exile in Mexico.
Later, the talk was of women and horses.
Both were experts.
The girl friend giggled
and fussed with the pearl buttons
on Pancho’s shirt until,
promptly at midnight, Pancho went to sleep
with his head on the table.
The husband crossed himself
and left the house holding his boots without so much as a sign
to his wife or Vronsky.
That anonymous husband, barefooted,
humiliated, trying to save his life, he
is the hero of this poem.

Baratinhas

para Mona Simpson

O seu bolo de rum com amêndoas, que parecia
delicioso, foi entregue em mãos na minha porta
esta manhã. O motorista estacionou no pé
do morro e subiu o caminho inclinado.
Nada mais se movia naquela paisagem congelada.
Fazia frio dentro e fora. Assinei
o recibo, agradeci e voltei para dentro.
Então removi a grossa fita, arranquei
os grampos da sacola, e lá dentro
encontrei a vasilha que você tinha enchido de bolo.
Rasguei com a unha o adesivo da tampa.
Removi a tampa. Desdobrei o papel-alumínio.
E senti a primeira lufada daquela doçura!

Foi então que apareceu a baratinha
vinda das úmidas profundezas. Uma baratinha
dentro do seu bolo. Bêbada
de rum. Ela contornou a borda da vasilha
e atravessou selvagemente a mesa para
buscar abrigo na fruteira. Não a matei.
Não nesse momento. Tomado que estava por sentimentos
conflitantes. Nojo, é claro. Mas também
espanto. Até admiração. Aquela criatura
tinha feito uma viagem de 3 mil milhas, atravessado a noite
no ar, cercada por bolo, lascas de amêndoas
e o cheiro opressivo do rum. Depois
foi levada de caminhão por uma estrada nas montanhas e
carregada morro acima, no frio, até uma casa
com vista para o Oceano Pacífico. Uma baratinha.
Vou deixá-la viver, pensei. O que é uma a mais,
ou a menos, no mundo? Esta, talvez,
seja especial. Abençoada seja sua estranha cabeça.

Ergui a vasilha de seu invólucro de alumínio
e outras três baratinhas correram sobre a borda
da vasilha! Por um momento fiquei tão
surpreso que não sabia se devia matá-las
ou o quê. Então fui tomado de cólera
e as esmaguei. Espremi a vida de seus corpos
antes que pudessem escapar. Foi um massacre.
Enquanto estava nisso, encontrei e destruí
também a outra, por fim.
Mal comecei e tudo já tinha terminado.
O que quero dizer é que poderia ter simplesmente continuado
a exterminá-las. Se é verdade
que o homem é lobo do homem, o que pode uma mera baratinha
esperar quando brota a sede de sangue?

Sentei, tentando acalmar meu coração.
O ar bufando pelo nariz. Olhei
em volta da mesa, lentamente. Pronto
para o que fosse. Mona, lamento dizer isso,
mas não consegui comer nada do seu bolo.
Guardei-o para mais tarde, quem sabe.
Mesmo assim, obrigado. Você foi doce em se lembrar
de mim, sozinho aqui nesse inverno.
Vivendo sozinho.
Quase como um animal.

Earwigs

for Mona Simpson

Your delicious-looking rum cake, covered with
almonds, was hand-carried to my door
this morning. the driver parked at the foot
of the hill, and climbed the steep path.
Nothing else moved in that frozen landscape.
It was cold inside and out. i signed
for it, thanked him, went back in.
Where i stripped off the heavy tape, tore
the staples from the bag, and inside
found the canister you’d lled with cake.
I scratched adhesive from the lid.
Prized it open. Folded back the aluminum foil.
To catch the rst whiff of that sweetness!

It was then the earwig appeared
from the moist depths. An earwig
stuffed on your cake. Drunk
from it. He went over the side of the can.
Scurried wildly across the table to take
refuge in the fruit bowl. I didn’t kill it.
Not then. Filled as I was with conflicting
feelings. Disgust, of course. But
amazement. Even admiration. This creature
that’d just made a 3,000-mile, overnight trip
by air, surrounded by cake, shaved almonds,
and the overpowering odor of rum. Carried
then in a truck over a mountain road and
packed uphill in freezing weather to a house
overlooking the Paci c ocean. An earwig.
I’ll let him live, i thought. What’s one more,
or less, in the world? This one’s special,
maybe. Blessings on its strange head.

I lifted the cake from its foil wrapping
and three more earwigs went over the side
of the can! For a minute i was so taken
aback i didn’t know if i should kill them,
or what. Then rage seized me, and
I plastered them. Crushed the life from them
before any could get away. It was a massacre.
While I was at it, I found and destroyed
the other one utterly.
I was just beginning when it was all over.
I’m saying I could have gone on and on,
rending them. If it’s true
that man is wolf to man, what can mere earwigs
expect when bloodlust is up?

I sat down, trying to quieten my heart.
Breath rushing from my nose. I looked
around the table, slowly. Ready
for anything. Mona, I’m sorry to say this,
but i couldn’t eat any of your cake.
I’ve put it away for later, maybe.
Anyway, thanks. You’re sweet to remember
me out here alone this winter.
Living alone.
Like an animal, I think.

§

Seu Cachorro Morre

é atropelado por uma van.
você o encontra na beira da estrada
e o enterra.
você fica triste por isso.
você fica triste por si mesmo,
mas também pela sua filha,
porque era o bichinho dela
e ela o amava tanto.
ela costumava sussurrar para ele
e o deixava dormir com ela na cama.
você escreve um poema sobre isso
e diz que é um poema para sua filha,
sobre o cachorro que foi atropelado por uma van
e como você cuidou de tudo,
como o levou para o bosque
e o enterrou fundo, fundo,
e o poema fica tão bom
que você quase se alegra porque o cachorrinho
foi atropelado, senão você nunca
teria escrito aquele bom poema.
então você se senta para escrever
um poema sobre escrever um poema
sobre a morte do cachorro
mas enquanto você está escrevendo
você escuta uma mulher gritar
o seu nome, seu primeiro nome,
as duas sílabas,
e o seu coração para.
depois de um minuto, você volta a escrever.
ela grita outra vez.
você se pergunta quanto tempo isso pode durar.

Your Dog Dies

it gets run over by a van.
you nd it at the side of the road and bury it.
you feel bad about it.
you feel bad personally,
but you feel bad for your daughter because it was her pet,
and she loved it so.
she used to croon to it
and let it sleep in her bed.
you write a poem about it.
you call it a poem for your daughter,
about the dog getting run over by a van
and how you looked after it,
took it out into the woods
and buried it deep, deep,
and that poem turns out so good
you’re almost glad the little dog
was run over, or else you’d never
have written that good poem.
then you sit down to write
a poem about writing a poem
about the death of that dog,
but while you’re writing you
hear a woman scream
your name, your rst name,
both syllables,
and your heart stops.
after a minute, you continue writing.
she screams again.
you wonder how long this can go on.

§

Fragmento Final

E você teve o que queria
desta vida, apesar de tudo?
Tive.
E o que você queria?
Dizer que fui amado,
me sentir amado sobre a terra.

Late Fragment

And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved,
to feel myself beloved on the earth.

(Raymond Carver, traduções de Cide Piquet)

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poesia, tradução

O amor segundo Robert Creeley, parte 2

Há cinco (5!, gente, 5!) anos atrás, eu declarei aqui, uma vez mais, em tradução, o meu amor. E prometi — os amantes prometem tanto — que continuaria a série O amor segundo Robert Creeley com os dois poemas longos, lindos, loucos, de RC, que não cabiam lá, “The act of love” e “For love”. Como nos erros que a gente faz no amor, larguei esses poemas na gaveta, que hoje saem do limbo simplesmente porque o Italo Diblasi veio me perguntar por eles, veio sem querer me lembrar da existência deles, e das traduções. Sei que também, como todo mundo, já deixei coisas do amor na gaveta, do jeito mais torto, e quero acreditar que vou tirando na hora certa, ainda em tempo, como estes poemas, estas renovações de promessas. Ainda para a Nanda.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Por amor

para Bobbie

Ontem, eu quis falar
dele, o sentido acima
dos outros para mim,
importante porque tudo

que conheço deriva
do que ele me ensina.
Hoje o que é que está
finalmente sem remédio,

diferente, desesperado
da própria afirmação, quer
afastar-se, infinitamente
afastar-se.

Se a lua não . . .
não, se você não,
então nem eu,
mas eu não

faria, que prevenção, que
coisa fácil de parar.
Eis o amor ontem
ou amanhã, não

agora. Posso comer
o que você me der?
Não mereci. Devo
pensar em tudo

como mérito? Agora o amor
também vira um prêmio tão
distante de mim que eu
o fiz somente em minha mente.

Aqui está o tédio,
desespero, um doloroso
senso de isolação e
excêntrico de autocrítica

pomposa. Mas a imagem
pertence à vaga estrutura
da mente, vaga para mim
porque é minha mesma.

Amor, o que eu penso
em dizer, não sei dizê-lo.
O que você virou pra perguntar,
no que eu te transformei,

parceira, boa companhia,
pernas cruzadas de saia, ou
tenro corpo sob
os ossos da cama?

Nada diz algo
senão o que ele deseja
que aconteça, teme
tudo que possa acontecer em

outro lugar, outro
espaço que não este.
Uma voz no meu lugar, um
eco do que é apenas no teu.

Me deixe tropeçar,
não na confissão, mas
na obsessão que agora
eu começo. Por você

também (também)
um tempo além do espaço, ou
espaço além do tempo, sem
mente que reste pra

dizer alguma coisa,
foi-se aquela face, agora.
Na companhia do amor
tudo retorna.

For Love

for Bobbie

Yesterday I wanted to
speak of it, that sense above
the others to me
important because all

that I know derives
from what it teaches me.
Today, what is it that
is finally so helpless,

different, despairs of its own
statement, wants to
turn away, endlessly
to turn away.

If the moon did not …
no, if you did not
I wouldn’t either, but
what would I not

do, what prevention, what
thing so quickly stopped.
That is love yesterday
or tomorrow, not

now. Can I eat
what you give me. I
have not earned it. Must
I think of everything

as earned. Now love also
becomes a reward so
remote from me I have
only made it with my mind.

Here is tedium,
despair, a painful
sense of isolation and
whimsical if pompous

self-regard. But that image
is only of the mind’s
vague structure, vague to me
because it is my own.

Love, what do I think
to say. I cannot say it.
What have you become to ask,
what have I made you into,

companion, good company,
crossed legs with skirt, or
soft body under
the bones of the bed.

Nothing says anything
but that which it wishes
would come true, fears
what else might happen in

some other place, some
other time not this one.
A voice in my place, an
echo of that only in yours.

Let me stumble into
not the confession but
the obsession I begin with
now. For you

also (also)
some time beyond place, or
place beyond time, no
mind left to

say anything at all,
that face gone, now.
Into the company of love
it all returns.

§

O Ato Amoroso

O que constitui
o ato amoroso,
fora o encontro

físico, você
é o meu bem,
não um valor como

o dos bancos –
mas um sentido auto-
suficiente, seco

por vezes como areia,
ou então árvores,
pigando de

chuva. Como alguém,
essa por assim dizer
pessoa, poderia

dizê-lo? Ele
ama, a mente
está ocupada, as

mãos se movem,
escrevem palavras
que lhe vêm
à cabeça.
Mas aqui,
o dia envolve

esse homem,
essa mulher,
sentados a pequena

distância.
O amor não
resolve – mas

aproxima,
sempre, faz
a umidade das

suas bocas e corpos
atuar
ativamente. Se eu

quisesse
uma imagem suja,
seria sempre

a de uma
mulher montada?
Sim

e não, são
opostos verdadeiros,
um você e eu

de non-
sense,
por nosso amor.

Mas, diz
alguém, o vento
alça, o céu

é muito azul, a
água acima
de mim faz

seus sons amáveis.
Você é
o meu

bem, que amá-
vel é todo o
teu corpo, como

todos esses
sentidos se
misturam, pra

que mesmo nos
teus braços eu
pense em você.

The Act of Love

Whatever constitutes
the act of love,
save physical

encounter, you are
dear to me,
not value as

with banks –
but a meaning self-
sufficient, dry

at times as sand,
or else the trees,
dripping with

rain. How shall
one, this so-
called person,

say it? He
loves, his mind
is occupied, his

hands move
writing words
which come

into his head.
Now here,
the day surrounds

this man
and woman
sitting a small

distance apart.
Love will not
solve it – but

draws closer
always, makes
the moisture of their

mouths and bodies
actively
engage. If I

wanted
a dirty picture
would it always

be of a
woman straddled?
Yes

and no, these
are true opposites
a you and me

of non-
sens,
for our love.

Now, one
says, the wind
lifts, the sky

is very blue,
the water just
beyond me makes

its lovely sounds.
How dear
you are

to me, how love-
ly all your
body is, how

all these
senses do
commingle, so

that in your very
arms I still
can think of you.

Padrão
poesia, tradução

Prufrock, Sayão, Pedrosa, por André Capilé

“O verso mais interessante já escrito em nosso idioma se obtém ou tomando uma forma muito simples, como o pentâmetro jâmbico, e constantemente se afastando dela, ou partindo da ausência de forma e constantemente se aproximando de uma forma muito simples. É esse contraste entre fixidez e fluxo, essa discreta fuga da monotonia, que constitui a própria vida do verso. […] Podemos, pois, apresentar a seguinte formulação: o fantasma de algum metro simples deve sempre esconder-se atrás do cortinado, até mesmo no verso mais ‘livre’” [T. S. Eliot em tradução do Paulo Henriques Britto].

Sendo “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” um dos poemas mais traduzidos do modernismo anglófono, haveria, ainda, motivações razoáveis em repetir, mais uma vez, a empreitada?

Empreendendo uma pesquisa sobre verso livre no Brasil, acompanhando de perto as reflexões de Paulo Henriques Britto, encontrei-me instigado a mexer com esse poema. Ao ler alguns prosodistas estadunidenses sobre o tema, e suas obsessões contabilistas — já não me lembro se Fussel ou Beyers —, apontavam que no desenvolvimento formal da “love song” era possível encontrar um pouco mais de 50% dos versos marcados pelo regime do pentâmetro — a tal “forma muito simples” que ora se aproxima, ora se afasta, dita por Eliot.

Quando me dirigi às versões que encontrei, embora tenha lido algumas prodigiosamente realizadas no âmbito do ritmo, de modo geral esse regime de medida era sumariamente negligenciado. As respostas que comumente são dadas ao pentâmetro, em língua portuguesa, são endereçadas ao decassílabo ou ao dodecassílabo. Vide, por exemplo, essa inversão com a brilhante tradução de Bishop ao poema do Vinícius no âmbito da forma, em que ela converte em pentâmetros os dodecassílabos dele — Scandolara trata disso aqui: https://escamandro.wordpress.com/2012/07/11/elizabeth-bishop-tradutora/

Tentei, o melhor possível, responder a esses pentâmetros encontrados na “love song”. Mas ainda outro incômodo comparecia: a negligência dos esquemas de rimas que Eliot disseminava ao longo de todo o poema. A tradução a que a maioria das pessoas tem acesso é a de Ivan Junqueira, justamente ela é a que mais se afasta dessas proposições.

O pentâmetro, ali, é a enzima que mobiliza o que Eliot chama de “metro fantasma”, um elemento persecutório que martela o ouvido, habituado ou não, na insistência de uma familiaridade rítmico-sonora. Pensemos, por exemplo, no “poema sujo” do Gullar. Acredito ser incontornável a audição, aqui e ali, do fantasma de arte menor das redondilhas maiores jogando com o ritmo físico da mancha gráfica. Mas esse assunto é outro.

Ainda com as rimas o caso é o mesmo. Cada turno estrófico em que Eliot emprega um esquema de rimas, ainda que irregular, joga o tempo todo com o monumento da tradição como se o traísse pela brecha do ridículo. É o “admirabilíssimo ão”, é o “mundo mundo vasto mundo” da anglofonia. Elementos, no fim das contas, que são incontornáveis, a meu ver.

Traduzi esse poema para entrar numa coleção intitulada “Herbert Richers” da Edições Macondo. É uma versão brasileira. A melhor possível. Obviamente me vali das traduções realizadas, e postadas, aqui na escamandro. Muitas vezes uma ótima idéia, rimada com geléia, já havia sido realizada. E, naturalmente, impunha outra tomada de caminho.

As opções, de modo geral, ficam bem claras e não creio que careceriam de maiores apontamentos. Mas uma questão incomoda a muita gente boa: a tradução do nome do J. Alfred Prufrock por J. Pinto Sayão. Não vou me alongar, mas pensando um bocado na figura da personagem, fantasiando uma etimologia para Prufrock, chegou-se em “prurience” e “frock”, a justa “lascívia” da “batina”. Sayão garante um certo ar de aristocracia. E aí está. Mas devo, mesmo, esse nome ao Paulo Henriques Britto. O mérito não é nada meu.

O que me pertence, no fim, é a glosa roubada da canção. Em J. Geraldo Pedrosa, um nome mais comum, fora o início, que é tentativa de dar cabo a outras possibilidades de abertura, há toda um despojo pra jogar, mais uma vez, com a quase impossível tarefa de traduzir “as moças que vem, as moças que vão, falando sem parar pelo salão”.

 

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978. É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Estão no prelo: chabu e troco da passagem — ambos saírão pela editora TextoTerritório. Publicará muimbu pela Edições Macondo agora em abril. Tem publicado textos esparsos em revistas e sites de literatura.

* * *

A CANÇÃO DE AMOR DE J. PINTO SAYÃO

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse ai mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma per cio che giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’ odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.

Então vamos, você e eu,
Quando o fim da tarde é espalhado contra o céu
Como um paciente eterizado sobre a mesa;
Vamos, por certas ruas meio ermas,
Resmungando da noite o refúgio
no pernoite inquieto em hotéis vagabundos;
E as ostras com serragem nos botecos:
Ruas que seguem como uma discussão tediosa
Cuja intenção insidiosa
É conduzir você à questão crucial . . .

“Qual é?” Ah, não me inquira
Vamos logo fazer nossa visita.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

A bruma ocre que esfrega o dorso em volta das vidraças,
O fumo ocre que esfrega o focinho nas vidraças
Lambeu os beiços nas esquinas do crepúsculo,
Pôs-se na poça a chafurdar o charco,
Deixou cair nas costas a fuligem que vem das chaminés,
Deslizou pela laje, deu um salto súbito,
E vendo que era uma branda noite de outubro,
Por inteiro enrolou-se em volta da casa, e dormiu.

E muito certamente haverá tempo
Pra que flua pela rua a parda fumaça
Esfregando o dorso pelas vidraças;
E sim, haverá tempo, haverá tempo
De preparar um rosto que outro rosto encare;
Haverá tempo para matar e criar,
Tempo de mãos, para os trabalhos e os dias,
Que erguem e lançam questões no seu prato;
Tempo para você, tempo pra mim,
E tempo ainda de mil e uma indecisões,
Também de inúmeras visões e revisões,
Antes da hora de torradas com chazinho.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

E muito certamente haverá tempo
Para se perguntar: “Devo eu ousar?” e, “Eu devo ousar?”
Tempo de dar meia volta e descer as escadas,
Com o meu cocuruto calvo como um alvo —
(E dirão: “Como o cabelo dele está ficando ralo!”)
Meu paletó, colarinho engomado, o queixo firme,
Alfineto a gravata, mui discreta e chique,
(E dirão: “Como as pernas e braços dele estão magrinhos. ”)
E eu devo ousar
Perturbar o universo?
Em um minuto temos tempo
Pra decisões e revisões que num segundo verão seu reverso.

A todos conheci, já sei de tudo: —
Sei bem as noites, as manhãs, as tardes,
Tenho a vida medida em colheres de chá;
E sei, num fim de outono, as vozes moribundas
Que vem de um salão remoto, sob música.
Como então eu presumiria?

Conheci de todos, os olhares, os olhares todos —
Olhos te acertam numa frase lapidar,
E quando eu estiver formulado, estrebuchando em um alfinete
E eu estiver espetado e contorcido na parede,
Como então deveria eu começar
A escarrar o bagaço da vida diária?
E como eu presumiria?

E também sei de braços, todos eles —
Brancos e nus os braços portam braceletes
(Mas a lâmpada alumbra a penugem castanha!)
Vem do perfume das saias
O que me faz divagar?
Esses braços pousados numa mesa, ou envoltos em um xale.
E como eu presumiria?
E eu começaria como?

.      .      .      .      .      .      .      .      .

Diria: Caminhei no crepúsculo por vielas estreitas,
Vendo a fumaça subir dos cachimbos
De homens sós, em camisetas, nas janelas? . . .

Eu deveria ter sido um par de garras molambentas
Escrutando o fundo de mares silentes.

.      .      .      .      .      .      .      .      .

E a tarde dorme, anoitecendo, tão pacífica!
Apalpada por longos dedos,
Dormente . . . fatigada . . . ou achacadiça,
Estirada no chão, aqui, ao lado de mim e você.
Eu deveria, após o chá, sorvete e quiche,
Ousar levar esse momento a uma crise?
Apesar de choro e jejum, choro e oração,
E de ter visto minha cabeça (um pouco calva) ser carregada
[ sobre uma travessa,
Não sou profeta —, isso em nada interessa;
Vi meu momento de glória piscar,
Vi o eterno lacaio vestir-me o casaco, e assobiar;
Em resumo: eu tive medo.

Valeria a pena, depois de tudo?
Depois das xícaras, geléia e chá,
Em meio à porcelana, em meio às nossas falas,
Teria valido a pena,
Cortar, com um sorriso, o falatório;
Ter premido o universo numa bola
Que rola ao crucial questionamento;
Dizer: “Sou Lázaro, venho dos mortos,
Vos direi tudo, Eu tudo Vos direi na volta” —
Se alguém, pousando a testa na almofada,
Balbuciasse: “Não disse bem isso; contudo
Falei mas não assim, em absoluto”.

Valeria a pena, depois de tudo,
Teria valido a pena,
Depois do por do sol, os fundos de quintais e as ruas polvilhadas,
Depois do chá das cinco, da novela das seis, do giro no salão
[ com a saia rendada —
É isto, e então: mais nada? —
É impossível dizer justo o que quis dizer!
Como se houvesse projetado uma lanterna mágica, na tela,
[ uma sessão de nervos:
Teria valido a pena
Se alguém, ao ajeitar uma almofada ou retirar um xale,
E voltando-se em direção à janela, dissesse:
“Não é nada disso;
Não foi nada disso que eu quis dizer.”

.      .      .      .      .      .      .      .      .

Não! Não sou, nem quis ser, Príncipe Hamlet;
Sou um lorde cortesão, que servirá
De figurante com andar solene, iniciada uma ou outra cena,
Aconselhar o príncipe: uma ferramenta simples, sem dúvida;
Respeitoso, contente de ser útil,
E meticuloso, e cauto, e prudente;
Um fraseado pomposo, mas um pouco obtuso;
Às vezes parece um tanto ridículo —
Às vezes, de fato, o BUFO.

Envelheci . . . Ah, eu envelheci . . .
Dobrar as bainhas das calças eu consegui.

Partirei pelo meio o meu cabelo? Me atreverei comer um pêssego?
Vestirei calça branca de flanela, e vou andar sobre a areia.
De uma pra outra, ouvi cantar sereias.

Não devo crer que cantarão pra mim.

Nas ondas do mar, cavalgando, as vi
No recuo das vagas, penteando crinas claras
Que o vento rufla, em preto & branco, as águas.

Cingem-nos as Ondinas com grinaldas de algas pardas e rubras
Nas câmaras do oceano persistimos
Até que humanas vozes nos despertam, e sucumbimos.

§

A cantilena de J. Geraldo Pedrosa

Poderia começar tudo de novo —
como enxugar o gelo ou alisar um ovo —
dizendo simplesmente: “as moças vão e vem”.
Contudo, seguem os segundos sem demora.
E se pergunta: “o que é que vem agora?”
Agora já passou mais um segundo,
— talvez eu te visite em mais um turno,
ó mundo que me deu só um amor.
E o tempo é pra perder — não é terrível
poupar a vida temendo o ridículo?
Saber que o mel, dessa canção, é um horror?
Então, vou me montar, passar o rímel;
espera mais um pouco, e já saímos
— é hora de largarmos os relógios.
E aí? Vamos agora, só nós dois,
quando espalhado contra o céu o sol se pôs
como um paciente eterizado ali na maca;
certo, as ruas estão meio desertas,
mas não reclame muito, se o refúgio inquieta
a noite, se o pernoite é num motel barato,
ou se os botecos dão-nos ostras com borralho:
feito papo furado a via ruma
por intenções movidas com astúcia
conduzindo-o à questão excruciante. . .
“Qual é?” Ah, nem me venha com seus arremedos:
a vida é muito curta pra ter medo
e as moças vão e vêm, num toma lá dá cá
(feito uma aparição no meio do tumulto
— as pétalas no charco, e os galhos brunos).
e as falas principais são das atrizes —
quando começam, não há quem as pare:
garotas que azulejam Portinari,
não deixam por riscar mais uma prise.
a vida é pura, e as moças vêm e vão
falando sem parar pelo salão.
O drama inicial foi bem dinâmico —
quando começa a dança, ele vai ver:
garotas que se clicam por Monet,
deixam de ser motivo (e desce pano).
A vida é rara, e as moças vêm e vão
falando sem parar pelo salão.
Cansou de artista plástico um minuto —
o assunto é borrachudo, como um cheque:
talvez seja melhor samba de breque,
e o que sobra do tom é bem cascudo.
A vida é bamba, e as bossas vão durar
pelo salão… enquanto tocam sem parar.

Padrão
poesia, tradução

Bernadette Mayer (1945 – ), por Stefano Calgaro

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Bernadette Mayer é uma poeta, ensaísta e artista visual Nascida em Brooklyn, Nova Iorque. Tanto associada à escola de nova Iorque quanto ao L=A=N=G=U=A=G=E=P=O=E=T=R=Y, ficou conhecida por uma exposição que mesclava fotografia e narração chamada memory, organizada em 1971. Ela foi professora, editou a 0 to 9 magazine com o artista Vito Acconci e estabeleceu a editora United Artists Book com Lewis Warsh, publicando poetas como Robert Creeley, Anne Waldman e Alice Notley. Publicou diversos livros de poesia, estreando com ceremony latin (1964). Os poemas a seguir foram extraídos do livro A Bernadette Mayer Reader, que contém poemas e excertos dos livros Ceremony Latin, Story (1968), moving (1971), memory (1976), studying hunger (1976), the Golden book of words (1978), midwinter day (1982), utopia (1984), mutual aid (1985), sonnets (1989), the formal field of kissing (1990), the desires of mothers to please others in letters (1994). Bernadette possui uma grande diversidade e mobilidade ao longo de sua obra, que ora vai para o soneto, a sextina, ora o verso livre; ora textos em prosa, com uma presença muito forte de fluxos de consciência, fluidez e uma experimentação textual que se estende tanto à textos mais narrativos quanto poemas que exploram mais a espacialização das palavras no branco da página (embora menos recorrentes). Fez traduções livres e poemas que dialogam com Dante, Horácio e Catulo, mas outros mais próximos de Wallace Stevens, Allen Ginsberg, Charles Bernstein, ou até mesmo John Cage. Bernadette vive em Nova Iorque.

Obs: Priorizei os poemas de Bernadette que tivessem mais essa fluidez e livres associações àqueles mais experimentais, que o são através de formas muito diversas, ora explorando a mobilidade sintática, ora explorando o uso de parônimos, ora explorando a capacidade plurissignificante e móvel das palavras (The Red Rose Doesn’t, the Rose is red does), ora mais sintéticos (Laira Cashdollars), ou mesmo aqueles que, como ditos, exploram mais a sonoridade, a visualidade e a espacialização na página (the sun’s in my eyes).

As únicas traduções que consegui achar em português foram as que estão disponíveis na Modo de usar & Co. (que usei como referencia para a tradução de Eve of easter http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2011/04/bernadette-mayer.html) feita pelo Ricardo Domeneck, a do Rubens Akira Kuana (também usada como referencia para traduzir The way to keep going in antartica https://akirakuana.wordpress.com/2014/02/28/o-caminho-para-continuar-na-antartica-por-bernadette-mayer), e as de Marília Garcia, tanto em seu blog (http://lepaysnestpaslacarte.blogspot.com.br/search/label/bernadette%20mayer) como um texto que saiu na revista Grupo Canoa (Luna Parque).

Stefano Calgaro

* * *

O caminho para continuar na antártica

Seja forte bernadette
Ninguém jamais saberá
Eu vim aqui por uma razão
Talvez haja uma vida aqui
De não ter medo de seu próprio coração batendo
Não tenha medo do seu próprio coração batendo
Olhe as coisas minúsculas com seus olhos
& mantenha-se aquecida
Nada lá fora pode te curar mas tudo está fora
Há uma grande vergonha para o mundo em saber
Que você pôde ter ido tão longe
Talvez seja por isso que você ame tanto a presença de outras pessoas
Talvez seja por isso que você aguarda tão impacientemente
Você não tem mais nada a ensinar
Até que não haja mais pânico em saber de sua própria real existência
& então apenas o especial riso infantil a ser mostrado
& sem mais mentiras sem mais
Não a te encontrar não
Mais voltar & mais retornos
Viagens austrais
Pequenas coisas & não meus próprios escombros
Algo a se lutar contra
& somos todos fluentes sobre nós mesmos
Nossas próprias ideias sobre comida, um molho selvagem
Não há muita razão em terem acabado: mas não falamos deles:
Eu escrevera: “o homem que costurou suas solas de volta aos seus pés”
Então entrei em pânico pelo som do que o vento poderia fazer
Comigo
Se eu rastejasse de volta à casa, dois pés não dão posição, se
Os galhos estalados sobre minha cabeça & a sua ameaça sobre mim, se eu
Cobrisse meu rosto com cerveja & suasse até sua volta
Se eu sofresse que mais poderia fazer

The way to keep going in Antartica

Be strong Bernadette
Nobody will ever know
I came here for a reason
Perhaps there is a life here
Of not being afraid of your own heart beating
Do not be afraid of your own heart beating
Look at very small things with your eyes
& stay warm
Nothing outside can cure you but everything’s outside
There is great shame for the world in knowing
You may have gone this far
Perhaps this is why you love the presence of other people so much
Perhaps this is why you wait so impatiently
You have nothing more to teach
Until there is no more panic at the knowledge of your own real existence
& then only special childish laughter to be shown
& no more lies no more
Not to find you no
More coming back & more returning
Southern journey
Small things & not my own debris
Something to fight against
& we are all very fluent about ourselves
Our own ideas of food, a Wild sauce
There’s not much point in its being over: but we do not speak them:
I had written: “the man who sewed his soles back on his feet”
And then I panicked most at the sound of what the wind could do
to me
if I crawled back to the house, two feet give no position, if
the branches cracked over my head & their threatening me, if I
covered my face with beer & sweated till you returned
If I suffered what else could I do

§

Parecendo partes do Kansas

“we had our first cucumber
Yesterday”
-Nathaniel Hawthorne

New England é péssimo
Inverno de cinco meses
O sol talvez apareça hoje mas isso não significa nada
Há yankees
Homens & mulheres que não podem falar
Usam cores escuras & se arrastam por aí, todos em marrons & cinzas,
Olhando para o céu e fingindo prever todas as
grandes tempestades
Ou então acenam sabiamente
Eh, um vento nordeste
O céu amarelece o tempo todo
O rio é cinza
Tudo é preto ou branco
Todos comem feijões
Tudo congela
Todos vivem em uma casa velha de papel
Pessoas cortam madeira o tempo todo
Deslizam por aí nessas estradas de gelo escorregadias
Todas árvores parecem mortas
Fazem longas sombras na neve
Há apenas luz do dia por cerca de quatro horas
Pessoas sentadas em casa & tomando uns tragos
À noite todos os telefones apagam & fios elétricos vêm abaixo
Todo fim de semana tem uma tempestade então ninguém pode vir te ver
As lareiras são muito arejadas
As montanhas parecem negras
Não há livros nas lojas
A religião é algo importante
Todo mundo tem uma história
O sexo é laborioso para as pessoas de New England
Está -11° & usam olla’s e jontex’s
Algumas pessoas têm um gerador
As Janelas são muito pequenas
Você tem que sair & sentir frio
De repente o céu azul surpreende
Tudo está enterrado sobre cinco pés de neve
Não vai embora até Abril ou Maio
Tudo até maçãs ou algum tipo de abóbora
As casas são caixas vazadas & você não pode abrir as janelas
Pessoas contam histórias umas das outras
Pessoas têm que vir & lavrar a neve para o seu lado
Da rua
Então talham caminhos para carros diferentes
Há reuniões da cidade sobre o novo sistema de esgoto
As ideias das pessoas em geral não são mais elevadas do que
Os telhados de suas casas
Até mesmo a água congela na torneira

Looking like Areas of Kansas

“we had our first cucumber
Yesterday”
-Nathaniel Hawthorne

New england is awful
The winter’s five months long
The sun may come out today but that doesnt mean anything
There are yankees
Men & women who cant talk
They wear dark colors & trudge around, all in browns & greys,
Looking up at the sky & pretending to predict all the
Big storms
Or else they nod wisely
Yup, a northeaster
The sky turns yellow all the time
The river’s grey
Everything’s black or White
Everybody eats beans
Everything freezes
Everybody lives in na old paper house
People chop wood all the time
They slide around on these slippery icy roads
All the trees look dead
They make long shadows on the snow
There’s only daylight for about four hours
People sit home & drink boilermakers
At night all the telefones go out & the power lines blow down
Every weekend there’s a storm so nodoby can come to see you
The fireplaces are very drafty
The mountains look black
There are no books at the store
Religion’s a big thing
Everybody has a story
Sex is drudgery for people in New England
It’s 12° & they use trojans or tahitis
Some people have a generator
The Windows are very small
You have to go out & get cold
All of a sudden the blue sky blows away
Everything’s buried under five feet of snow
It doesn’t go away until April or May
Everything’s either apples or some kind of squash
The houses are all drafty boxes & you cant open the Windows
People tell stories about each other
People have to come & plow the snow off to the side of
Your road
Then people shovel pathways to different cars
They have town meetings about the new sewer systems
The ideas of people in general are not raised higher than the
Roofs of their houses
Even the water freezes in the tap

§

Véspera de páscoa

Milton, que fez suas filhas iletradas
Lerem para ele em cinco idiomas
Até ouvirem as novidades de que ele se casaria de novo
E disseram que preferiam ouvir que estava morto
Milton que transforma até O Paraíso Perdido
Numa autobiografia, eu tenho três
Bebês esta noite, todas três dormindo:
Rachel a ta ta taraneta
De Herman Melville está adormecida na cama
Sophia e Marie estão dormindo
Sophia homônimo das esposas
De Lewis Freedson o acadêmico e Nathaniel Hawthorne
Marie o nome mais antigo da minha mãe, essas três meninas
Descansam no escuro, eu fiz o escuro luzente
Roubei imagens de Milton para curar o negrume opaco
tornar o quarto um globo debaixo dessa rouca
lua de março, eclipsada apenas à luz diurna
corpos de bebês respirando pesado
Filhas e descendentes na presença
Dos grandes, Milton e Melville e Hawthorne,
Todos estão falando
Ao mesmo tempo, apenas as olhei todas mescladas
Cada uma metade semita, de uma raça sempre em guerra
O resto de sua graça herdada
dos nórdicos, germanos e ingleses,
Escritores em paz
apressando judeus em guerra para a democracia quando na verdade
A paz está à janela implorando entrada
Com as hordas no meio do ar
Frio demais para essa época do ano,
Véspera de páscoa e a ideia chocante de ressurreição
Agora a bebê de alguém se agita, faminta por um ovo,
É a bebê Melville, indo à gritaria
A de Melville chupando seus dedos por consolo
Ela faz um barulho de grunhido
Bebê Hawthorne ainda profundamente adormecida
A que parece minha mãe apagada como luz
A de Melville mesmo sendo a menor é a que mais quer
Porque na verdade não mora aqui
Hawthorne vai querer ser amamentada quando acordar
Melville mamou um pouco e voltou pro cochilo
Agora Hawthorne está se mexendo, é a mais faminta
Mas talvez a mais encantada pela escuridão no quarto
Posso ouvir Hawthorne, sei que está acordada agora
Mas será que vai se agitar, perturbando o plácido sono
De Melville e insistindo em acordar todos nós
Enquanto isso o resto das pessoas de Lenox
Dirigem rua a cima e abaixo
Agora Hawthorne quer comer
Todas veem a luz à qual escrevo, Hawthorne suspira
A casa está quieta, escuto o brinquedo de Melville
Nunca troquei as fraldas de um menino
Acho que vou pegar Hawthorne e amamentá-la pelo prazer
De cortar através da escuridão antes que seu barulho comedido
Estimule meninos, vou cozinhar um peixe
Reter aprumo na presença
Dos descendentes intrépidos, obstinados seus pais
Olham pra mim e bebem tinta
Eu devolvo um olhar para todas as filhas e pisco
Véspera de páscoa, eu herdei este
Sono tranquilo dos filhos de homens
Rachel, Sophia, Marie e eu de novo
Bernadette, toda coração eu vivo, toda cabeça, toda olhos, toda ouvidos,
Eu perdi o preconceito do paraíso
E acabei cuidando dos bebês desses caras

Eve of Easter

Milton, who made his illiterate daughters
Read to him in five languages
Till they heard the news he would marry again
And said they would rather hear he was dead
Milton who turns even Paradise Lost
Into a n autobiography, I have three
Babies tonight, all three are sleeping:
Rachel the great great great granddaughter
Of Herman Melville is asleep on the bed
Sophia and Marie are sleeping
Sophia namesake of the wives
Of Lewis Freedson the scholar and Nathaniel Hawthorne
Marie my mother’s oldest name, these three girls
Resting in the dark, I made the lucent dark
I stole images of Milton to cure opacous gloom
To render the room an orb beneath this raucous
Moon of March, eclipsed only in daylight
Heavy breathing baby bodies
Daughters and descendants in the presence of
The great ones, Milton and Melville and Hawthorne,
Everyone is speaking
At once, I only looked at them all blended
Each half Semitic, of a race always at war
The rest of their inherited grace
From among Nordics, Germans and English,
Writers at peace
Rushing warring Jews into democracy when actually
Peace is at the window begging entrance
With the hordes in the midst of air
Too cold for this time of year,
Eve of Easter and the shocking resurrection idea
Some one baby stirs now, hungry for an egg
It’s the Melville baby, going to make a fuss
The Melville one’s sucking her fingers for solace
She makes a squealing noise
Hawthorne baby’s still deeply asleep
The one like my mother’s out like a light
The Melville one though the smallest wants the most
Because she doesn’t really live here
Hawthorne will want to be nursed when she gets up
Melville sucked a bit and dozed back off
Now Hawthorne is moving around, she’s the most hungry
Yet perhaps the most seduced by darkness in the room
I can hear Hawthorne, I know she’s awake now
But will she stir, disturbing the placid sleep
Of Melville and insisting on waking us all
Meanwhile the rest of the people of Lenox
Drive up and down the street
Now Hawthorne wants to eat
They all see the light by which I write, Hawthorne sighs
The house is quiet, I hear Melville’s toy
I’ve never changed the diaper of a boy
I think I’ll go get Hawthorne and nurse her for the pleasure
Of cutting through darkness before her measured noise
Stimulates the boys, I’ll cook a fish
Retain poise in the presence
Of heady descendants, stone-willed their fathers
Look at me and drink ink
I return a look to all the daughters and I wink
Eve of Easter, I’ve inherited this
Peaceful sleep of the children of men
Rachel, Sophia, Marie and again me
Bernadette, all heart I live, all head, all eye, all ear
I lost the prejudice of paradise
And wound up caring for the babies of these guys

§

Poema

Estou começando a alterar
a locação desse porto
agora encontra com um canal
juntando um lugar ao outro.
Então continua
como se numa cidade
habilidosa de uma mão
cheia de algumas coisas
e não outras.
Olhos descansam
e vemos o que está
diante de tudo o mesmo.
Apesar de implicar um começo
ao qual atribuímos ponto algum
isso tem um fim,
pois nenhum bispo de alguma importância
constrói sua tumba em tempo ruim.

O fim que vem
não é tão importante quanto o movimento
preso no ar
pausando em seu curso.
Para então mudar
reverta o trem
de uma linha em andamento,
e como antes
deve girar e endereçar
a um novo local
a ser visto por baixo.
Essa conversa volante
aloca a cena
a um sino.

Eu contei mais
do que pode ser visto.
O sino faz seu truque
mais que uma ópera.
Se você viu o mundo de um navio
então você não viu
o que o navio deixa cair no mar
para escurecer seu topo e fazer crescer.
Para sair desse porto
você deve ser um cortador de redes.

Poem

I am beginning to alter
the location of this harbor
now meets with a channel
joining one place with one.
Then it continues
as if in a town
artfulness of a hand
full of some things
and not others.
Eye rests
and we see what is
before everything else the same.
Though this implies a beginning
to which we ascribe no point
nevertheless it has an end,
for no bishop of any importance
constructs his tomb in a bad time.

The end which comes
is not as important as the motion
held in the air
pausing in its course.
To switch then
reverses the train
of a running line,
and as before
may wheel and address
to a new location
to be seen beneath.
This flying conversation
sets the scene
to a bell.

I have told more
than can be seen.
The bell makes its trick
more than an opera.
If you have seen the world from a ship
then you have not seen
what the ship lets fall into the sea
to blacken its top and make it grow.
To get out of this seaport
you must be a cutter of networks.

§

O que os bebês realmente fazem

Luz como a vida em que estou
Quem disse isso você disse eu disse
Comer não calha com prosa
Ou poesia, espaguete talvez

Janela afora um dia fresco e cinza de primavera
O chão não está molhado ainda
Algo salta & ata

Mães sempre muito específicas
Onças de libras, prata em prata
Na verdade eu não comeria moluscos com uma colher
É muito borrachoso

quando estou feliz amiúde um medo me assalta-
Não medo que a alegria acabe, mas medo que as circunstâncias
Além de meu controle e inesperadas se erguerão para me prevenir
De jamais sentir alegria de novo

Compraremos vestidos de Boston
Como a exaltação de uma fruta lacrada
Banana pura com a exaltação
Da tarde em sua pele

Rheingold kasha scoth kooler
Deixo pensamentos intermináveis passarem através
Como o arroz que parece um ventre
Não tenho minha própria voz

Então rapidamente termino o prazer
Do primeiro dia cinza que foi deveras
castanho no ar, muitas árvores
estalaram ao meio nesse inverno

Um grande bordo ameaça a casa
Com seu latido vazante, uma racha
Bem abaixo de um galho
Concordamos que cairá mas em que direção

Missangas de arroz estradas esburacas muitas coisas
Em minhas ideias, eu gosto d’O New Yorker
Onde poemas não tem ideias
Eu gosto dos bordos melosos perdendo galhos sobre mim

A estrada marrom é ok, cheiro de bananas
Pássaros são bons, você vive dentro deles
Achamos seu deslize você deveria ver minha vista
Você se esqueceu de me lembrar de não tomar outra cerveja

É uma tarde interminável, se recusa a chover
Encho minha boca com a fumaça tipo-Dashiell-Hammett
Se recusa em ser consistente
Como há ingredientes por tudo

& mais galhos, pernas de cadeiras
& mais farinha, fico bem com a comida
Atum tempero Kasha Varnishkas
Cento e um filés

Não apenas pão escuro
Mas pão escuro com passas
Você pede mais que cinco libras de laranjas
Carrego um fardo atrás do meu jeep ou guardo

Sementes de girassol para substituir a vista de uma
vida como ela é
Os galhos cinzentos não se moverão
A não ser que o vento os sopre

Ela se movimenta como de costume à melodia
É um luxo ficar dentro
Não terminei de
Cantar bem alto

Escute, grasne grasne
Broo ah ha ha
Pensamentos desfiam
Corra atrás dela

O sol ganhou a borda do vento é frio dois três
Nada além de poesia
Ah ha escuto

What babies really do

Light like the life I’m in
Who said that did you say that did I
Eating doesn’t go with prose
Or poetry, spaghetti maybe

Out a window cool spring gray day
With only tips of trees in buds
The ground’s not wet yet
Something leaps & bounds

Mothers always too specific
Ounces of pounds, silver on silver
I wouldn’t actually wat a clam with a spoon
It’s too rubbery

Often when I’m happy a fear comes over me-
Not fear that the joy will end, but fear that circumstances
Beyond my control and unexpected will arise to prevent me
From ever feeling joy again

We’ll get dresses from Boston
Like the elation of a sealed fruit
Pure banana with the elation
Of the afternoon in its skin

Rheingold kasha scotch kooler
I let endless thoughts go by in between
Like the rice that looks like a belly
I don’t have my own voice

So I quickly end the pleasure
Of the first gray day that was truly
Brown in the air, many trees
Have snapped in half this winter

One big maple threatens the house
With its leaking bark, a crack
Right down the side of an arm of it
We agree it’ll fall but in what direction

Rice beads rutted road too many things
In my ideias, I like The New Yorker
Where the poems have no ideas
I like the gray sappy maples losing their branches over me

The brown road’s ok, smell of bananas
Birds are good, you live inside them
We found your slip you should see my view
You forgot to remind me not to have another beer

It’s an endless afternoon, it refuses to rain
I fill up my mouth with Dashiell-Hammett-type smoke
It refuses to be consistent
As there are ingridients all over

& more branches, chair legs
& more flour, I sit with the food
Tuna temper kasha varnishkas
A hundred and one fillets

Not just brown bread
But brown bread with raisins
You order more that five lbs of oranges
I carry a crate in the back of my jeep or keep

Sunflower kernels to replace the sight of one
Life like it is
The gray branches wont move
Unless wind blows them

She’s in motion as usual to the tune
It’s a luxury to stay inside
I haven’t finished
Singing outloud

Listen, gaggle gaggle
broo ah ha ha
thoughts unravel
run after her

the sun won the edge of the wind is cold two three
nothing much but poetry
ah ha I hear

§

Uma mulher eu misturo homens…

Uma mulher eu misturo homens
Em meus sonhos & outras maneiras, imagino
Se isso é o mesmo que saber
O que é & não é socialismo, um homem tenho certeza

Faz a mesma coisa, misturando
A mãe pela amante ou
Vice versa sem mencionar as misturas
do poderoso homossexual que acontecem
tanto quanto, ó deus quem

deve ser ele ou ela, eu te pergunto
porque é David Lewis ou Lewis Ed?
Porque Anne Catherine ou Catherine Ted?
Porque não tenho ou não quero ter certeza
Levanto essas perguntas aos céus
Onde eu pude, como proposto por uma criança
Sentar em uma nuvem arriscando cair através
Deveria a criança saber a nuvem não é sólida
& deveria não trazer paraquedas, eu sinto

O risco tão grande em amar como é
Em votar & seu meu encontro com o amante mesmo
Nos sonhos essa outra mulher ou homem de seu próprio sexo
Parecem o jornal, muito previsível
Que tipos em que trajes irão aparecer
Fazendo o que em que posturas, ternos & poses, refazer

O mundo não é algo que as pessoas sonham o bastante, um
Não deveria usar a palavra sonho & um não deveria usar
As palavras deveria e não deveria, livrar-se do livro & não encontrar
Expectativas, compreender liberalismo não é
O mesmo que conservadorismo ou (deus me perdoe) misticismo, há
Manhã e há meio dia e há noite, há
Fases dessa lua factualmente atadas à terra

Dilacerar dicionários, eles ainda não
Contam a verdade, misturo palavras com verdade
E abstração com presença, quem liga
Sem forma quem eu sou, sei que vou em algum momento morrer
Mas vocês dois, deus e essa sua imagem a bomba nóia
Vivem para sempre a destruir o eterno o imortal
No que costumavam chamar Homem, não agora.

A woman I Mix Men Up…

A woman I mix men up
In my dreams & other ways, I wonder
If this is the same as knowing
What is & is not socialism, a man I’m sure

Does the same thing, mixing up
The mother for the lover or
Vice versa not to mention the mighty
Homosexual mix-ups which happen
Just as much, oh god whoever

He or she might be, I ask you
Why is David Lewis or Lewis Ed?
Why Anne Catherine or Catherine Ted?
Because I am not or don’t want to be sure
I raise these questions to the heavens
Wherein I might, as proposed by a child
Sit on a cloud risking falling through
Should the child know a cloud is not solid
& should she bring no parachute, I feel

The risk’s as great in loving as it is
In voting & your my lover’s meeting even in
Dreams this other woman or man of your own sex
Seems like the newspapers, all too predictable
What types in what outfits’ll appear
Doing what in what postures, suits & poses, to remake

The world is something not enough people dream of, one
Souldn’t use the word dream & one shouldn’t use
The words should and shouldn’t, cast off the book & find
No expectations, understanding liberalism’s not
the same as conservatism or (god forbid) mysticism, there is
morning and there is midday and there is night, there are
phases of this moon factually attached to the earth

scatter the dictionaries, they don’t
tell the truth yet, I mix up words with truth
and abstraction with presence, who cares
without a form who I am, I know I will timely die
but you two, God and this his image the Junky bomb
live forever to destroy the eternal the immortal
in what they used to call Man, now not.

§

Oito quarteirões

para Bill Kusher

Um vestido roxo bem bonitinho
Uma caixa de filmes coloridos
Um homem com flores para sua Outra, e então outra,
Mulheres europeias andando de braços dados
Quão sozinha estou nessa longa fila
Os policiais dizendo não é sensato ser
Uma mulherzinha de ética, ela suspira, eu gesticulo,
Ela diz, se você andar rápido você se cansa e se
Você andar devagar também, ela esquece eu esqueço
Os dedos elevados do sol nós cantamos
Em vozes justas para a virgem Sra. Kerchief-Cane
(recuar numa caminhada é ok) quem era aquele homem
Que sabia o que estava atrás de mim, agora vai chover,
Venta no paetê liso de um homem gordo
Há dois lados diferentes da rua
Entre eles há o trânsito da avenida
Na qual há quatro esquinas para se encontrar,
Cigarros franceses na janela árabe
Então a salvo na suada escola pública
Mas mães e pais estão muito adiantados
Em resgatar cada bebê de um dia de rigidez
Pais em massa como se num desastre e escondidos nos degraus
Espiam na janela da porta trancada da sala
Eis aquela mulher que vi esta manhã
Levando seus cigarros como um buquê de casamento

Eight blocks

For Bill Kushner

A very nice little purple dress
A box of colored film cans
A man with flowers for his Other, then another,
European women walking ar in arm
How lonely I am in this long line
Cops saying it’s not sensible to be
Pretty women of ethics, she sighs, I gesture,
She says, if you walk fast you get tired and if
You walk slow you still do, she forgot I forgot
The elevated fingers of the sun we sang
In just voices to virgin Mrs. Kerchief-Cane
(to backtrack on a walk’s ok) who was that man
Who knew what was behind me, now it’s gonna rain,
Wind on the fat man’s flat sequins
There are two different sides of the street
Between them is the traffic of the avenue
There are four corners on which to meet,
French cigarettes in the Arabian window
Then safe in the sweaty public school
But mothers and fathers are too early
To rescue each baby from a day of rigidity
Parents mass as at disasters and hide on steps
They peek in the window of the locked room’s door
There’s that woman I saw this morning
Carrying her cigarretes like a wedding bouquet

§

O fenômeno do caos

O amor hoje não está intento o que eu vi
Um banco, uma loja, padrões de folhas
Caindo na quadra de basquete porque
A chuva seguiu a fumaça do incêndio de onze estados

A sair do universo você poderia
Acreditar nada está conferido
Mas nós não exatamente existimos não é
Caso contrário como poderíamos

Será que você me ama quando o sol da terra
Se põe em sua canção em sua língua
Isso é ridículo o universo
Não é mais uniforme

Com isso quero dizer o universo nem é ou não é
Um padrão de nada o amor não volta mais

The Phenomenon of chaos

Love’s not intente today what did I see
A bank, a store, a pattern of leaves
Fallen to the basketball court because
Rain followed the smoke of eleven states’ fires

To exit from the universe you could
Believe nothing is checked on
But we don’t exactly exist do we
Otherwise how could we

Do you love me when the earth’s sun
Sets on your song on your tongue
This is ridiculous the universe
Is no longer uniform

By this we mean the universe’s not or aint
A standard of nothing love’s turning no more

§

Catulo #48

Eu beijaria seus olhos trezentas mil vezes
Se você me deixasse, Juventius, beijá-los
O tempo todo, seus olhos queridos, olhos de mel
E mesmo que o campo formal do beijo
Tivesse mais beijos do que há milhos nos campos de agosto
Eu ainda não teria me cansado de você

Catullus #48

I’d kiss your eyes three hundred Thousand times
If you would let me, Juventius, kiss them
All the time, your darling eyes, eyes of honey
And even if the formal field of kissing
Had more kisses than there’s corn in August’s fields
I still wouldn’t have had enough of you

§

Soneto do manicatriardo

Não sou nada a não ser uma lista de coisas a fazer
Isso não é etcetera ou chuva reta também não
Acho que fiz as coisas que podem ajudar os outros
Por Marie por Danine por Wanda pelos escritores de sci-fi
Comecei a escrever a carta sobre meu novo livro de caretas
Então parei, mãe, pra ver se você estava por perto
Apenas enganando seu preventivo de toda minha moção
Mas eu fiz mesmo assim então quer ver uma enorme arvore imóvel
Absenta das historias de sci-fi sobre dignidade
A maneira que garotas podem falar sem contar
Com uma temível seita do absoluto que ninguém aprovaria
Especialmente meus pais fanáticos que poderiam amá-la

Falem garotas falem noite adentro
Talvez haja um segundo que rime com desastre

Manicatriarchic sonnet

I am nothing but a list of things to do
This is not etcetera or red umbrella either
I think i did the things that might help others
for Marie for Danine for Wanda for the scifi writers
I started to write the letter about my new book of frowns
And the I stopped, mother, to see if you were around
Only fooling your preventer of all my motion
I did though then want to see a big immobile tree
Absent from the scifi histories of dignity
The way girls can talk without counting in
Some fearsome sect. Of the absolute no one’d aprove of
Especially my bigoted parentes who could love them

Talk girls talk on into the night
There might be a second that rhymes with disaster

§

América

Quanto a mim, quando te vi
Estavas num conto
Pensando talvez o amor também virá
Na América
Ou talvez como o que é tardio em um conto
Se torna verdade,
A cena está simplesmente descrevendo seu uso.

Você não tinha esperança
Mas a amplidão dos dias, como no céu
Sobre o qual eu já sabia.

Essa informação delicada
Vem como uma prescrição.

Notar um amigo
Que está escrevendo uma nuvem
Que caso contrário cai indiferentemente
Não é traço distintivo.
Essa é a diferença
Entre o passado e sonhos,
Descartar uma efígie
Que parece estar cantando.

America

As for me, when I saw you
You were in a tale
Thinking perhaps love is coming too
In America
Or perhaps as what is belated in a tale
May come true.
The scene is simply describing its use.

You had no hope
But the length of days, as in the sky
About which I already knew.

This gentle information
Comes as a prescription.

To notice a friend
Who is lettering a cloud
Which otherwise falls indifferently
Is no mark of distinction.
This is the difference
Between the past and dreams,
To dismiss an effigy
Which appears to be singing.

(trad. de Stefano Calgaro)

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poesia, tradução

Um poema de Cage por Luiz Guilherme Barbosa

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2 Páginas, 122 Palavras sobre Música e Dança

Introdução à tradução

A brutalidade do que faz silêncio solicita, para acontecer, por exemplo a delicadeza de John Cage. A daquele que, sustentando o silêncio no palco, faz do barulho do público a brutalidade do silêncio (4’33’’ está traduzido para a tela aqui). “Essa é uma conversa sobre / alguma coisa / e naturalmente / também uma conversa sobre / nada”. Escutar silêncio na conversa acontece para quem escuta entre as vozes, para quem escuta entre a voz de uma voz, como quem no cinema, entre duas cenas montadas, só tem olhos para ver o preto, o preto entre as cenas, como quem, sem parar de falar, só tem voz para calar-se na fala enquanto fala. “Mas / agora / há silêncios / e as / palavras / fazem / ajudam a fazer / os / silêncios / .” Alguém, em análise, para de falar, chora: falou, ao parar de falar, demais. Uma certa ética da fala pede que se fale perdidamente à procura do autor, uma certa ética da escrita pede que se escreva um livro sobre nada. “E a voz humana não vai expressar tanto teor quanto a nota do pássaro?”, pergunta o poema traduzido também aqui por Reuben da Rocha. John Cage, em “2 Páginas, 122 Palavras sobre Música e Dança”, começa do zero, e o zero é “o que ele é”. O texto é a última das “Quatro proposições sobre a dança”, publicadas em Silence: Lectures and Writings (1961), e foi traduzido a partir da edição da Marion Boyars Publishers. A tradução, que havia sido feita em 2015 para uma oficina literária, foi revisitada por acaso ao transferir os arquivos de um computador para outro novo. Operações do acaso podem ser, à escuta distraída, generosas para a brutalidade do que se esqueceu, do que se havia perdido. Amigos ao lado, ao lerem a tradução, sugeriram palavras que foram acolhidas, e se chamam Paulo Santana e Rafael Zacca. Preciso falar deles porque estou aqui. Tentando não ter nada para dizer.

Luiz Guilherme Barbosa

• • •

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poesia, tradução

Alguns poemas de Jim Morrison, por Lucas Rolim

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Jim Morrison (1943-1971) foi uma das grandes presenças universais do século passado. A personalidade icônica e o espírito forte e contagiante do vocalista do The Doors marcaram a história do rock para sempre. No entanto, sua poesia – pelo menos no Brasil – ao que me parece, tem sido ofuscada pelo seu trabalho como músico. Assim, pouco ou nada se tem lido ou ouvido falar a respeito.

Em seus textos, Morrison sintetiza o peso da mensagem na leveza do verso e na simpleza das palavras, e abre um grande leque de possíveis interpretações à escolha dos que o leem, exatamente como relata no prólogo de seu livro Wilderness, de onde saíram os poemas aqui traduzidos: “(…) a verdadeira poesia não diz coisa alguma, apenas sinaliza as possibilidades. Abre todas as portas. Você pode caminhar pela que melhor lhe servir”.

Xamanismo, cultura ameríndia, expansão da consciência e transcendência da mente são temas recorrentes na poesia de Morrison, que trava em boa parte dos poemas um diálogo próximo conosco, seus leitores, talvez como parte de sua busca para livrar as pessoas de seus modos limitados de ver e sentir, como declara no final do prólogo de Wilderness.

Is anybody in? Is anybody in?

Lucas Rolim

ps: os poemas abaixo integram o livro Wilderness.

* * *

What are you doing here?
What do you want?
Is it music?
We can play music.
But you want more.
You wnat something & someone new.
Am I right?
Of course I am.
I know you want.
You want ecstasy
Desire & dreams.
Things not exactly what they seem.
I lead you this way, he pulls thay way.
I’m not singing to an imaginary girl.
I’m talking to you, my self.
Let’s recreate the world.
The palace of conception is burning.

Look. See it burn.
Bask in the warm hot coals.

You’re Young to be old
You don’t need to be told
You want to see things as they are.
You know exactly what I do
Everything

O que você faz aqui?
O que deseja?
Música?
Nós podemos tocar música.
Porém você quer mais.
Você quer algo & alguém novo.
Estou certo?
É claro que estou.
Eu sei o que você deseja.
Você quer êxtase.
Desejo & sonhos.
As coisas não exatamente como parecem.
Guio você por este caminho, ele desvia para aquele.
Não canto a uma garota imaginária.
Estou falando com você, meu eu.
Vamos recriar o mundo.
O palácio da concepção queima.

Olhe. Veja-o queimar.
Aqueça-se nas quentes brasas acesas.

Você é muito jovem pra ser velha
Não precisa que a digam
Que você quer ver as coisas como elas são.
Você sabe exatamente o que eu sei
Tudo

§

POWER

I can make the earth stop in
Its tracks. I made the
Blue car go away.

I can make myself invisible or small.
I can become gigantic & reach the
farthest things. I can change
the course of nature.
I can place myself anywhere in
space or time.
I can summon the dead.
I can perceive events on other worlds,
in my deepest inner mind,
& in the minds of others.

I can

I am.

PODER

Posso fazer a terra parar em
suas rotas. Eu fiz os
carros azuis partirem.

Posso me fazer invisível ou pequeno.
Posso tornar-me gigantesco & tocar as
coisas mais distantes. Eu posso mudar
o curso da natureza.
Posso estar em qualquer lugar no
tempo ou espaço.
Posso invocar os mortos.
Eu posso notar eventos em outros mundos,
no mais profundo de minha mente,
& nas mentes de outros.

Eu posso

Eu sou.

§

he enters stage:

Blood boots. Killer storm.
Fool’s gold. God in a heaven.
Where is she?
Have you seen her?
Has anyone seen this girl?
……………….snap shot (projected)
She’s my sister.
Ladies & gentlemen:
……….please attend carefully to these words & events
……….It’s your last chance, our last hope.
……….In this womb or tomb, we’re free of the
………………..swarming streets.
……….The black fever which rages is safely
……….out those doors
……….My friends & I come from
……….Far Arden w/dances, &
………………..new music
……….Everywhere followers accrue
………………..to our procession.
……….Tales of Kings, gods, warriors
………………..and lovers dangled like
………………..jewels for your careless pleasure

…………………………I’m Me!

Can you dig it.
My meat is real.
My hands—how they move
balanced like lithe demons
My hair—so twined & writhing
The skin of my face—pinch the cheeks
My flaming sword tongue
spraying verbal fire-flys
I’m real.
I’m human
But I’m not na ordinary man
No No No

ele sobe ao palco:

Botas de sangue. Tempestade assassina.
Ouro de tolo. Deus num paraíso.
Onde ela está?
Você a viu?
Alguém viu esta moça?
……….……….Ela é minha irmã.
Senhoras e senhores:
……….peço que prestem muita atenção a estas palavras & eventos
……….É sua última chance, nossa última esperança.
……….Neste útero ou tumba, estamos livres do
……….……….enxame das ruas.
……….A febre negra que assola está a uma distância segura
……….……….para fora daquelas portas
……….Meus amigos & eu viemos do
……….Arden distante c/danças, &
……….……….Nova música´
……….Em toda parte seguidores se ajuntam
……….……….à nossa procissão.
……….Estórias de Reis, deuses, guerreiro
………………..e amantes balançando como
………………..joias para o seu desatento prazer

……….………………..Eu Me sou!

Pode você cavar.
Minha carne é real.
Minhas mãos—como se movem
balançando como demônios ágeis
Meu cabelo—tão embaraçado & contorcendo
A pele do meu rosto—aperte as bochechas
Minha língua de espada flamejante
Espalhando vagalumes verbais
Eu sou real.
Eu sou humano
Mas não sou um homem comum
Não Não Não

§

The grand highway
is
crowded
w/
lovers
&
searchers
&
leavers
so
eager
to
please
&
forget.

Wilderness.

A grande rodovia
está
lotada
c/
os que amam
&
os que buscam
&
os que deixam
tão
preocupados
em
agradar
&
esquecer.

Selva.

§

THE OPENING OF THE TRUNK

—Moment of inner freedom
when the mind is opened & the
infinite universe revealed
& the soul is left to Wander
dazed & confus’d searching
here and there for teachers & friends.

ABERTURA DO DORSO

—Momento de liberdade interior
quando a mente está aberta & o
universo infinito revelado
& a alma livre para vagar
atordoada e confusa procurando
aqui & ali por mestres & amigos.

§

Moment of Freedom
as the prisioner
blinks in the sun
like a mole
from his hole

a child’s 1st trip
away from home

That moment of Freedom

Momento de Liberdade
quando o prisioneiro
pisca no sol
como a toupeira
de seu buraco

uma criança na 1ª viagem
longe de casa

Aquele momento de Liberdade

§

LAmerica
Cold treatment of our empress
LAmerica
The Transient Universe
LAmerica
Instant communion and
communication
lamerica
emeralds in glass
lamerica
searchlights at twi-light
lamerica
stoned streets in the pale dawn
lamerica
robed in exile
lamerica
swift beat of a proud heart
lamerica
eyes like twenty
lamerica
swift dream
lamerica
frozen heart
lamerica
soldiers doom
lamerica
clouds & struggles
lamerica
Nighthawk
doomed from the start
lamerica
“That’s how I met her,
lamerica
lonely & fozen
lamerica
& sullen, yes
lamerica
right from the start”

Then stop.
Go.
The wilderness between.
Go round the march.

LAmérica
Tratamento frio de nossa imperatriz
LAmérica
Universo Temporário
LAmérica
Imediata comunhão e
comunicação
lamérica
esmeraldas no vidro
lamérica
holofotes ao crepúsculo
lamérica
ruas chapadas no pálido amanhecer
lamérica
roubada no exílio
lamérica
batimento acelerado de um coração orgulhoso
lamérica
olhos como vinte
lamérica
ligeiro sonho
lamérica
coração congelado
lamérica
perdição dos soldados
lamérica
nuvens & batalhas
lamérica
Águia da Noite
condenada desde o início
lamérica
“Assim a conheci,
lamérica
solitária & no frio
lamérica
& mal-humorada, sim
lamérica
bem desde o início”

Então pare.
Vá.
A selva no meio.
Vá em torno da marcha.

(trad. Lucas Rolim)

* * *

Lucas Rolim nasceu e vive em Teresina (PI), onde produz junto aos outros poetas do coletivo “Tensão, Tesão & Criação”, eventos cujo núcleo centraliza-se na poesia e em seus desdobramentos. Veicula seus textos através de impressos e publicações artesanais independentes. É autor dos fanzines poéticos Tetrapoemas (três volumes, 2015), Esquizofrenia (2015), No Panorama do Tempo o Menino se Alarga (2016) e Besouro (org. em parceria com Demetrios Galvão, vol. 1, 2016). Também apareceu em jornais, blogues e revistas eletrônicas.

e-mail: olucasrolim@outlook.com
facebook: fb.com/olucasrolim

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poesia, tradução

Barbara Guest (1920-2006), por Guilherme Gonçalves

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Barbara Guest foi uma poeta, ensaísta e romancista norte-americana, cuja obra corta as últimas quatro décadas do século XX. No final dos anos 1950, participou da cena-movimento da New York School, sendo a única poeta, mulher, associada às publicações do grupo. Colaborou com diversas revistas, como a Art News, através de artigos sobre pintura e poesia moderna, nos quais discute a influência do expressionismo abstrato e propõe uma poesia ligada ao imagismo e à reflexividade da linguagem, com ênfase sobre a noção de superfície, tomada das artes plásticas.

Nieves Alberola Crespo, professora de estudos ingleses da Universitat Jaume I, sugere que os versos de Guest implicam uma “respiração rápida”, devido à intensidade do ritmo e à captura da expectativa por meio da tensão entre narrativa e abertura imagética. A poeta Juliana Spahr observa o equilíbrio entre a força expressiva e a dilatação da linguagem, que fazem de Guest uma poeta lírica e uma esteta minuciosa. Este equilíbrio situaria sua escrita em um gesto de renovação tanto do subjetivismo da vertente confessional como da compressão simbolista dos discípulos do new criticism

Atravessando gêneros como poesia, narrativa, teatro, ensaio e biografia, sua obra se caracteriza pelo borramento das fronteiras entre os campos em direção a uma escrita integral. São alguns dos títulos: I Ching: Poems and Lithographs, The Tuerler Losses, Fair Realism, Defensive Rapture, Stripped Tales, Rocks on a Platter: Notes on Literature, Seeking Air (romance) e Herself Defined: The Poet H. D. and Her Word (biografia).     

Alguns de seus poemas, como é o caso de Parachutes my love could carry us higher, tornaram-se populares entre jovens leitores de língua inglesa e frequentam o repertório de riffs dos encontros de leitura, bem como as cartas e diários daqueles que, em sua expressão, caem em amor.

Parachutes my love could carry us higher e Safe flights pertencem a seu primeiro livro, The Location of Things (1960). Invisible Architecture compõe os escritos desbordados de Forces of Imagination: Writing on Writing (2003).

Referências:

American women poets of the 21st Century: where lyric meets language / edit. por Claudia Rankine e Juliana Spahr. Middletown: Wesleyan University Press, 2002.          

Alberola Crespo, María Nieves. La Escuela de Nueva York, John Ashbery y la nueva poética americana. Castelló de la Plana: Publicacions de la Universitat Jaume I, 2000.

https://www.poetryfoundation.org/poems-and-poets/poets/detail/barbara-guest

Guilherme Gonçalves 

Parachutes, My Love, Could Carry Us Higher

I just said I didn’t know
And now you are holding me
In your arms,
How kind.
Parachutes, my love, could carry us higher.
Yet around the net I am floating
Pink and pale blue fish are caught in it,
They are beautiful,
But they are not good for eating.
Parachutes, my love, could carry us higher
Than this mid-air in which we tremble,
Having exercised our arms in swimming,
Now the suspension, you say,
Is exquisite. I do not know.
There is coral below the surface,
There is sand, and berries
Like pomegranates grow.
This wide net, I am treading water
Near it, bubbles are rising and salt
Drying on my lashes, yet I am no nearer
Air than water. I am closer to you
Than land and I am in a stranger ocean
Than I wished.

(em The Location of Things, 1960).

Paraquedas, meu amor, poderia nos levar mais alto

Eu disse que não sabia
E agora você me segura
Em seus braços,
Que gentil.
Paraquedas, meu amor, poderia nos levar mais alto.
Mas em volta da rede flutuo,
Peixes rosas e azul-claro caem nela,
Eles são bonitos,
Mas não são bons para comer.
Paraquedas, meu amor, poderia nos levar mais alto
Que este meio-ar em que trememos,
Tendo exercitado nossos braços nadando,
Agora a suspensão, você diz,
É delicada. Eu não sei.
Tem coral debaixo da superfície,
Tem areia, e bagas
Crescem como romãs.
Esta grande rede, estou pisando água
Perto dela, bolhas sobem e sal
Secando meus cílios, e não estou mais próxima
Do ar que da água. Estou mais perto de você
Que a terra e num oceano mais estranho
Do que eu quis.

§

Safe Flights

To no longer like the taste of whisky
This is saying also no to you who are
A goldfinch in the breeze,
To no longer wish winter to have explanations
To lace your shoes in the snow
With no need to remember,
To no longer pull the two blankets
Over your shoulders, to no longer feel the cold,
To no longer pretend in the flower
There is a secret, or in the earth a tomb,
And no longer water on stone hurting the ear,
Making those five noises of thunder
And you tremble no longer.
To no longer travel over mountains,
Over small farms
No longer the weather changing and the atmosphere
Causing delicate breaks where the nerves confuse,
To no longer have your name shouted
And your birthmark again described,
To no longer fear where the rapids break
A miniature rock under your canoe,
To no longer repeat the mirror is water,
The house is a burden to the weak cyclone,
You are under a tent where promises perform
And the ring you grasp as an aerialist
Glides, no longer.

(In: The Location of Things, 1960).

Voos seguros

Não mais gostar do sabor do uísque
Isto está dizendo não também para você que é
Um pintassilgo na brisa,
Não mais esperar do inverno explicações
Amarrar seus tênis na neve
Sem precisar lembrar,
Não mais puxar os dois cobertores
Sobre seus ombros, não mais sentir o frio,
Não mais fingir na flor
Um segredo, ou na terra um túmulo,
E não mais água em pedra ferindo a orelha,
Fazendo aqueles cinco sons de trovão
E você não mais tremer.
Não mais viajar sobre montanhas,
Sobre pequenas fazendas
Não mais o tempo virando e a atmosfera
Causando quebras delicadas onde os nervos confundem,
Não mais ter seu nome berrado
E sua marca de nascença descrita novamente,
Não mais temer onde as corredeiras quebram
Uma pedra miniatura debaixo da sua canoa,
Não mais repetir o espelho é agua,
A casa é um fardo para o ciclone sem força,
Você está debaixo de uma tenda onde promessas encenam
E o anel que você agarra como trapezista
Desliza, não mais.

(In: The Location of Things, 1960).

§

Invisible Architecture

                 There is an invisible architecture often supporting
   the surface of the poem, interrupting the progress of the poem. It reaches
into the poem
in search for an identity with the poem,

its object is to possess the poem for a brief time, even as an apparition appears. An invisible architecture upholds the poem while allowing a moment of relaxation for the unconscious. A  period of emotional suggestion,     
  of lapse,
of reliance on the conscious substitute words pushed toward the bridge of the architecture.     An architecture in the period before the poem finds an exact form and vocabulary—,

   before the visible appearance of the poem on the page and the invisible approach to its composition. Reaching out to develop the poem there are interruptions, some apparently for no reason—something else is happening   the poet has no control—the poem begins to quiver, to hesitate, to become insubstantial   the desire of poetry   to elevate itself, to become stronger. The poem is fragile. It needs to reach through the armed vehicle of the poem,

                                        to loosen the armed hand.

Losing the arrogance of dominion over the poem to an invisible hand, the poet campaigns for a passage over which the poet has control. Yet the unstableness of the poem is important.
                Also the frequent lapses of control of the poem.
The writer only slowly retains power over the poem, physical power, when the poem breaks away from the authority of the invisible architecture.

This invisible authority may be the unconscious that dwells on the lower level, in a substratum beneath the surface of the poem and possesses its own reference. A fluidity only enters the poem when it becomes more openly aware of itself.

By whom or by what agency is the behavior of the poem suggested, by what invisible architecture, we ask, is the poem developed. The Surrealists taught us to wander freely on the page, releasing mechanical birds, if we so desire, to nest in the invisible handwriting of composition. There is always something within poetry that desires the invisible.

The desire of the poet to control. This control was earlier destructive to the interior of the poem, to its infrastructure. There is something deliberate about this practice of control by the conscious. It includes the question that is undefined, the behavior of the poem. By whom or by what agency is this decided, by what invisible architecture is the poem developed?

(In: Forçes of Imagination: Writing on Writing, 2002).

Arquitetura Invisível

Existe uma arquitetura invisível frequentemente sustentando
a superfície do poema, interrompendo o progresso do poema. Ela chega
no poema
em busca de uma identidade com o poema,

seu objetivo é possuir o poema por um tempo breve, assim como uma aparição
aparece. Uma arquitetura invisível suspende o poema permitindo um momento de
relaxamento para o inconsciente. Um período de sugestão emocional, de
lapso,
de confiança no substituto consciente que as palavras empurraram pela ponte da arquitetura. Uma arquitetura do período anterior ao poema achar exatos
forma e vocabulários-,

antes da aparência visível do poema na página e da invisível entrada em sua composição. No desenvolvimento do poema há interrupções, algumas sem razão aparente – outra coisa está acontecendo a poeta não tem controle – o poema começa a tremer, a hesitar, a tornar insubstancial o desejo da poesia de elevar-se, de tornar-se mais forte. O poema é frágil. Ele precisa atravessar o veículo armado do poema,

para liberar a mão armada.

Perdendo a arrogância de domínio do poema para uma mão invisível, x poeta faz campanha por uma passagem sobre a qual x poeta tem controle. Mas a instabilidade do poema é importante.
Também os constantes lapsos de controle do poema.
X escritorx apenas retém, lentamente, poder sobre o poema, poder físico, quando o poema rompe com a autoridade da arquitetura invisível.
Esta autoridade invisível pode ser o inconsciente que habita o nível mais baixo, em um substrato sob a superfície do poema e possui sua própria referência. A fluidez entra o poema apenas quando ele se torna mais abertamente consciente de si.

Por quem ou por que agência o comportamento do poema é sugerido, por que arquitetura invisível, perguntamos, o poema é desenvolvido. Os surrealistas nos ensinaram a vagar livremente pela página, libertando pássaros mecânicos, se assim desejarmos, para aninhar na caligrafia invisível da composição. Tem sempre algo dentro da poesia que deseja o invisível.

O desejo dx poeta por controle. Este controle era antes destrutivo para o interior do poema, para sua infraestrutura. Tem algo deliberado sobre essa prática de controle pela consciência. Ela inclui a questão que é indefinida, o comportamento do poema. Por quem ou por que agência isto se decide, por que arquitetura invisível o poema é desenvolvido?

* * *

Guilherme Gonçalves (1983) é professor, pesquisador e músico. Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-Rio, com pesquisa em sociologia da arte. Atua como professor de escrita e ciências humanas em bibliotecas e centros culturais do Rio de Janeiro, junto da Oficina Experimental de Poesia e do projeto Turista Aprendiz.

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