tradução

Quatro mulheres: Nina Simone por Nina Rizzi & um bis de Sueli Carneiro

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“Four Women” é uma canção escrita pela cantora, compositora, pianista e arranjadora e militante pelos direitos civis dos negros Nina Simone. Gravada em abril de 1965 com produção de Hal Mooney e lançada em 1966 no álbum Wild Is the Wind (Philips Records), conta a história de quatro mulheres afro-americanas diferentes, onde cada uma das quatro personagens representa um arquétipo afro-americano. Thulani Davis, no The Village Voice, chamou a canção de “uma análise instantaneamente acessível do legado condenatório da escravidão, que tornou iconográficas as mulheres reais que conhecíamos […] um hino afirmando nossa existência, nossa sanidade e nossa luta para sobreviver a uma cultura que nos considera anti-femininas. Reconheceu a perda da infância entre as mulheres afro-americanas, nossa invisibilidade, exploração, desafios, e lembrou que na escravidão e no patriarcado, seu nome é o que eles chamam de coisa”.

A primeira das quatro mulheres descritas na canção é “Tia Sarah”, uma personagem que representa a escravidão afro-americana. A descrição da mulher enfatiza os aspectos fortes e resilientes da mulher negra, “forte o suficiente para suportar a dor”, assim como o sofrimento a longo prazo que teve que suportar “, infligida novamente e novamente”.

A segunda mulher que aparece na canção é  “Saffronia”, uma mulher miscigenada (“minha pele é amarela”) forçada a viver “entre dois mundos”. Ela é retratada como uma mulher oprimida e sua história é mais uma vez usada para destacar o sofrimento da mulher negra nas mãos de pessoas brancas em posições de poder (“Meu pai era rico e branco / Ele forçou minha mãe até tarde da noite”).

A terceira mulher é uma prostituta conhecida como “Coisinha Doce”. Ela encontra aceitação tanto entre negros como brancos, não apenas porque “meu cabelo é bom”, mas também porque ela fornece gratificação sexual (“De quem é a menininha?/ Qualquer um que tenha dinheiro para comprar”).

A quarta e última mulher é rude, amargurada pelas gerações de opressão e sofrimento impostos ao seu povo (“Sou terrivelmente amarga hoje em dia porque meus pais eram escravos”). Nina Simone finalmente revela o nome da mulher depois de um final dramático durante o qual ela grita: “Meu nome é Buceta!”

Musicalmente falando, a canção tem uma melodia simples com um groove acompanhado de piano, flauta, guitarra elétrica e baixo, que gradualmente se desenvolve em intensidade à medida que progride e atinge um clímax durante a quarta e última seção. O vocal de Nina Simone torna-se mais apaixonado, rachando de emoção e seu piano estável se torna frenético e às vezes dissonante, para refletir a angústia da personagem. A música termina com Nina Simone alcançando uma nota altíssima, quase chorando ao cantar o nome “Peaches”.

Apesar de não haver redes sociais na época, má-interpretação de texto já existia, para desgosto de Nina! Apesar de sua intenção de destacar a injustiça na sociedade e o sofrimento dos afro-americanos, alguns ouvintes interpretaram a música como racista. Eles acreditavam que se baseava em estereótipos negros, tendo a música sido banida de várias estações de rádio importantes.

Dentre os diversos covers de Four Women destacamos  a adaptação da canção pela cineasta Julie Dash em um curta experimental de 1978 com o mesmo nome; e a peça de 2016, Nina Simone: Four Women, de Christina Ham; no espetáculo, Nina Simone conhece as três primeiras mulheres (ela é a quarta) no local do atentado à Igreja Batista da 16th Street, e elas se tornam as personagens de sua música.

[Comentário traduzido e adaptado da página da canção na wikipédia/EUA e páginas citadas na mesma]

nina rizzi

*

QUATRO MULHERES

Minha pele é negra
Meus braços são longos
Meu cabelo é de algodão
Minhas costas são fortes
Fortes o suficiente pra suportar a dor
Infligida novamente e novamente
Como eles me chamam
Meu nome é TIA SARAH
Meu nome é tia Sarah

Minha pele é amarela
Meu cabelo é longo
Entre dois mundos
Não pertenço a nenhum
Meu pai era rico e branco
Ele forçou minha mãe até tarde da noite
Como eles me chamam
Meu nome é SAFFRONIA
Meu nome é Saffronia

Minha pele é bronzeada
Meu cabelo é bom
Meus quadris te convidam
Minha boca é como o vinho
De quem é a menininha?
Qualquer um que tenha dinheiro pra comprar
Como eles me chamam
Meu nome é COISINHA DOCE
Meu nome é Coisinha Doce

Minha pele é marrom
Meus modos são rudes
Eu mato a primeira mãe que vejo
Minha vida tem sido muito dura
Sou terrivelmente amarga hoje em dia
Porque meus pais eram escravos
Como eles me chamam
Meu nome é BUCETA!

FOUR WOMEN

My skin is black
My arms are long
My hair is woolly
My back is strong
Strong enough to take the pain
inflicted again and again
What do they call me
My name is AUNT SARAH
My name is Aunt Sarah

My skin is yellow
My hair is long
Between two worlds
I do belong
My father was rich and white
He forced my mother late one night
What do they call me
My name is SAFFRONIA
My name is Saffronia

My skin is tan
My hair is fine
My hips invite you
my mouth like wine
Whose little girl am I?
Anyone who has money to buy
What do they call me
My name is SWEET THING
My name is Sweet Thing

My skin is brown
my manner is tough
I’ll kill the first mother I see
my life has been too rough
I’m awfully bitter these days
because my parents were slaves
What do they call me
My name is PEACHES
§


NEGROS DE PELE CLARA

Sueli Carneiro

Vários veículos de imprensa publicaram com destaque fotos dos candidatos selecionados que vão concorrer às vagas para negros da Universidade de Brasília (UnB). Veículos que vêm se posicionando contra essa política percebem, no largo espectro cromático desses alunos, mais uma oportunidade para desqualificar o critério racial que a orienta.

Uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva para os racialmente hegemônicos o privilégio de serem representados em sua diversidade. Assim, para os publicitários, por exemplo, basta enfiar um negro no meio de uma multidão de brancos em um comercial para assegurar suposto respeito e valorização da diversidade étnica e racial e livrar-se de possíveis acusações de exclusão racial das minorias. Um negro ou japonês solitários em uma propaganda povoada de brancos representam o conjunto de suas coletividades. Afinal, negro e japonês são todos iguais, não é?

Brancos não. São individualidades, são múltiplos, complexos e assim devem ser representados. Isso é demarcado também no nível fenotípico em que é valorizada a diversidade da branquitude: morenos de cabelos castanhos ou pretos, loiros, ruivos, são diferentes matizes da branquitude que estão perfeitamente incluídos no interior da racialidade branca, mesmo quando apresentam alto grau de morenice, como ocorre com alguns descendentes de espanhóis, italianos ou portugueses que, nem por isso, deixam de ser considerados ou de se sentirem brancos. A branquitude é, portanto, diversa e multicromática. No entanto, a negritude padece de toda sorte de indagações.

Insisto em contar a forma pela qual foi assegurada, no registro de nascimento de minha filha Luanda, a sua identidade negra. O pai, branco, vai ao cartório, o escrivão preenche o registro e, no campo destinado à cor, escreve: branca. O pai diz ao escrivão que a cor está errada, porque a mãe da criança é negra. O escrivão, resistente, corrige o erro e planta a nova cor: parda. O pai novamente reage e diz que sua filha não é parda. O escrivão irritado pergunta, “Então qual a cor de sua filha”. O pai responde, “Negra”. O escrivão retruca, “Mas ela não puxou nem um pouquinho ao senhor? É assim que se vão clareando as pessoas no Brasil e o Brasil. Esse pai, brasileiro naturalizado e de fenótipo ariano, não tem, como branco que de fato é, as dúvidas metafísicas que assombram a racialidade no Brasil, um país percebido por ele e pela maioria de estrangeiros brancos como de maioria negra. Não fosse a providência e insistência paterna, minha filha pagaria eternamente o mico de, com sua vasta carapinha, ter o registro de branca, como ocorre com filhos de um famoso jogador de futebol negro.

Porém, independentemente da miscigenação de primeiro grau decorrente de casamentos inter-raciais, as famílias negras apresentam grande variedade cromática em seu interior, herança de miscigenações passadas que têm sido historicamente utilizadas para enfraquecer a identidade racial dos negros. Faz-se isso pelo deslocamento da negritude, que oferece aos negros de pele clara as múltiplas classificações de cor que por aqui circulam e que, neste momento, prestam-se à desqualificação da política de cotas.

Segundo essa lógica, devemos instituir divisões raciais no interior da maioria das famílias negras com todas as implicações conflituosas que decorrem dessa partição do pertencimento racial. Assim teríamos, por exemplo, em uma situação esdrúxula, a família Pitanga, em que Camila Pitanga (negra de pele clara como sua mãe), e Rocco Pitanga (um dos atores da novela “Da cor do pecado”), embora irmãos e filhos dos mesmos pais seriam, ela e a mãe brancas, e ele e o pai negros. Não é gratuito, pois, que a consciência racial da família Pitanga sempre fez com que Camila recusasse as constantes tentativas de expropriá-la de sua identidade racial e familiar negra.

De igual maneira, importantes lideranças do Movimento Negro Brasileiro, negros de pele clara, através do franco engajamento na questão racial, vêm demarcando a resistência que historicamente tem sido empreendida por parcela desse segmento de nossa gente aos acenos de traição à negritude, que são sempre oferecidos aos mais claros.

Há quase duas décadas, parcela significativa de jovens negros inseridos no Movimento Hip Hop politicamente cunhou para si a autodefinição de pretos e o slogan PPP (Poder para o Povo Preto) em oposição a essas classificações cromáticas que instituem diferenças no interior da negritude, sendo esses jovens, em sua maioria, negros de pele clara como um dos seus principais ídolos e líderes, Mano Brown, dos Racionais MCs. O que esses jovens sabem pela experiência cotidiana é que o policial nunca se engana, sejam eles mais claros ou escuros.

No entanto, as redefinições da identidade racial, que vêm sendo empreendidas pelo avanço da consciência negra e que já são perceptíveis em levantamentos estatísticos, tendem a ser atribuídas apenas a um suposto ou real oportunismo promovido pelas políticas de cotas, fenômeno recente que não explica a totalidade do processo em curso.

A fuga da negritude tem sido a medida da consciência de sua rejeição social e o desembarque dela sempre foi incentivado e visto com bons olhos pelo conjunto da sociedade. Cada negro claro ou escuro que celebra sua mestiçagem ou suposta morenidade contra a sua identidade negra tem aceitação garantida. O mesmo ocorre com aquele que afirma que o problema é somente de classe e não de raça. Esses são os discursos politicamente corretos de nossa sociedade. São os discursos que o branco brasileiro nos ensinou, gosta de ouvir e que o negro que tem juízo obedece e repete. Mas as coisas estão mudando…

In: CARNEIRO, Sueli. Racsimo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011. pp. 70-73. Disponível aqui.]

*

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poesia, tradução

Mary Oliver, por Yuri Amaury

Mary Oliver foi uma poeta norte-americana nascida em Maple Highs, Ohio. Apesar de ter tido uma infância conturbada no seio de uma família disfuncional (negligenciada pela mãe, abusada pelo pai, vítima de pesadelos recorrentes), Oliver guardou boas lembranças da vizinhança semi-rural da zona suburbana de Cleveland, onde adquiriu desde cedo o hábito de perambular pelos bosques (geralmente, com um volume de poesia na mochila). Publicou seu primeiro livro de poemas, No Voyage and other poems, em 1963, um ano antes de mudar-se para a cidade costeira de Provincetown, Massachusetts, com a fotógrafa Molly Malone Cook, que conhecera no final dos anos 50 e que permaneceu sua companheira até sua morte em 2005. Nos últimos anos de sua vida, Oliver mudou-se para a Flórida, onde veio a morrer em decorrência de um linfoma em 17 de janeiro de 2019.

Em sua extensa obra poética, transparece a influência de Ralph Waldo Emerson, Henry David Thoreau e Walt Whitman – principalmente devido à presença da natureza como tema privilegiado. Largamente baseados em lembranças da infância e reflexões sobre o tempo e a paisagem natural observada em suas caminhadas diárias, os poemas de Oliver não podem, no entanto, ser acusados de ingenuidade romântica (como fizeram alguns críticos): as observações imagéticas e os raciocínios pontuados em seus versos se encaixam na tradição do Transcendentalismo, apresentando-se como uma espécie de desdobramento contemporâneo dos impulsos poéticos de Emerson. Alguns críticos detratores de Oliver denunciam o caráter inofensivo e auto-ajuda de determinados poemas de sua obra (por exemplo, Wild Geese – provavelmente, o mais célebre da poeta); o conjunto de sua poesia, porém – como os poemas abaixo bem mostram -, revela uma sensibilidade madura e um olhar atento e profundo, expressos em uma linguagem simples e direta.

Yuri Amaury é licenciado em Letras Português-Inglês pela UTFPR e mestrando em Estudos Literários pela UFPR.

* * *

At Black River

All day
   its dark, slick bronze soaks
     in a mossy place,
         its teeth,

a multitude
   set
     for the comedy
         that never comes –

its tail
   knobbed and shiny,
     and with a heavy-weight’s punch
         packed around the bone.

In beautiful Florida
   he is king
     of his own part
         of the black river,

and from his nap
   he will wake
     into the warm darkness
         to boom, and thrust forward,

paralyzing
   the swift, thin-waisted fish,
     or the bird
         in its frilled, white gown

that has dipped down
   from the heaven of leaves
     one last time,
         to drink.

Don’t think
   I’m not afraid.
     There is such an unleashing
         of horror.

Then I remember:
   death comes before
     the rolling away
         of the stone.

No Rio Negro

Todo o dia
   seu bronze escuro e liso se banha
     num lugar musgoso,
         seus dentes,

multidão
   a postos
     pra comédia
         que nunca vem –

sua cauda
   nodosa e brilhante,
     e com um soco de peso-pesado
         guardado em volta do osso.

Na beleza da Flórida
   ele é rei
     da sua própria parte
         do rio negro,

e da sua sesta
   ele vai acordar
     no morno da escuridão
         pra troar, e arremeter adiante,

paralisando
   o peixe ágil, de cintura fina,
     ou a ave
         de robe branco rufado

que mergulhou
   de um céu de folhas
     uma última vez,
         pra beber.

Não ache
   que não tenho medo.
     Tamanha é a liberação
         de horror.

Aí eu lembro:
   a morte vem antes
     de rolar pra longe
         a pedra.

§

Breakage

I go down to the edge of the sea.
How everything shines in the morning light!
The cusp of the whelk,
the broken cupboard of the clam,
the opened, blue mussels,
moon snails, pale pink and barnacle scarred—
and nothing at all whole or shut, but tattered, split,
dropped by the gulls onto the gray rocks and all the moisture gone.
It’s like a schoolhouse
of little words,
thousands of words.
First you figure out what each one means by itself,
the jingle, the periwinkle, the scallop
       full of moonlight.

Then you begin, slowly, to read the whole story.

Rebentação

Eu desço até a beira do mar.
Tudo brilha tanto na luz da manhã!
A ponta do búzio,
o armarinho quebrado da amêijoa,
os mexilhões abertos, azuis,
litorinas, rosa-pálidas e riscadas de craca –
e nada disso inteiro ou fechado, mas em frangalhos, fendido,
largado pelas gaivotas sobre as rochas cinzas e toda umidade                                                                                              [perdida.
É como uma escola
de pequenas palavras,
milhares de palavras.
Primeiro você descobre o significado de cada uma em si,
o tatuí, a pervinca, a vieira
repleta de luar.

Aí você começa, lentamente, a ler a história inteira.

§

Beside the waterfall

At dawn
   the big dog –
     Winston by name –
         reached down

into the leaves – tulips and willows mostly –
   beside the white
     waterfall,
         and dragged out,

into plain sight,
   a fawn;
     it was scarcely larger
         than a rabbit

and, thankfully,
   it was dead.
     Winston
         looked over the

delicate, spotted body and then
   deftly
     tackled
         the beautiful flower-like head,

breaking it and
   breaking it off and
     swallowing it.
         All the while this was happening

it was growing lighter.
   When I called to him
     Winston merely looked up.
         Grizzled around the chin

and with kind eyes,
   he, too, if you’re willing,
     had a face
         like a flower; and then the red sun,

which had been rising all the while anyway,
   broke
     clear of the trees and dropped its wild, clawed light
         over everything.

Do lado da cachoeira

Ao amanhecer
   o grande cão –
     de nome Winston –
         se abaixou

entre as folhas – tulipas e salgueiros, na maioria –
   do lado da cachoeira
     branca,
         e arrastou pra fora,

à luz do dia,
   uma corça;
     era pouco maior
         que um coelho

e felizmente,
   estava morta.
     Winston
         examinou o

delicado corpo pintado e aí
   com perícia
     atacou
         a bela cabeça, que lembrava uma flor,

partindo-a e
   arrancando-a e
     engolindo-a.
         Enquanto isso estava acontecendo

estava ficando mais claro.
   Quando eu o chamei
     Winston só ergueu o olhar.
         Grisalho perto do queixo

e com olhos gentis,
   ele também, pensando bem,
     tinha uma cara
         como flor; e aí o sol, rubro,

que continuou nascendo enquanto isso,
   se
     desprendeu das árvores e derrubou sua luz selvagem,
                                                                                     [dentada
         sobre toda coisa.

§

Fall

the black oaks
fling their bronze fruit
into all the pockets of the earth
            pock pock

they knock against the thresholds
the roof the sidewalk
fill the eaves
            the bottom line

of the old gold song
of the almost finished year
what is spring all that tender
            green stuff

compared to this
falling of tiny oak trees
out of the oak trees
            then the clouds

gathering thick along the west
then advancing
then closing over
            breaking open

the silence
then the rain
dashing its silver seeds
            against the house

Outono

os carvalhos pretos
lançam frutos brônzeos
pra dentro de todos os bolsos da terra
            poc poc

eles se chocam com os umbrais
com o teto a calçada
enchem as calhas
            o fechamento

da velha canção dourada
do ano quase terminado
o que é a primavera toda aquela tenra
            coisa verde

comparada com esse
cair de pequenos carvalhos
de cima dos carvalhos
            aí as nuvens

acumulando-se grossas no oeste
aí avançando
aí fechando em volta
            rompendo ao meio

o silêncio
aí a chuva
atirando sementes de prata
            contra a casa

§

Death at a great distance

The ripe, floating caps
   of the fly amanita
     glow in the pinewoods.
         I don’t even think
           of the eventual corruption of my body,

but of how quaint and humorous they are,
   like a collection of doorknobs,
     half-moons,
         then a yellow drizzle of flying saucers.
           In any case

they won’t hurt me unless
   I take them between my lips
     and swallow, which I know enough
         not to do. Once, in the south,
           I had this happen:

the soft rope of a water moccasin
   slid down the red knees
     of a mangrove, the hundreds of ribs
         housed in their smooth, white
           sleeves of muscle moving it

like a happiness
   toward the water, where some bubbles
     on the surface of that underworld announced
         a fatal carelessness. I didn’t
           even then move toward the fine point

of the story, but stood in my lonely body
   amazed and full of attention as it fell
     like a stream of glowing syrup into
         the dark water, as death
           blurted out of that perfectly arranged mouth.

Morte em grande distância

Os flutuantes gorros maduros
   do agário-das-moscas
     fosforescem nos pinhais.
         Eu nem chego a pensar
           no eventual apodrecimento do meu corpo,

mas no quanto eles são cômicos e esquisitos,
   como uma coleção de maçanetas,
     meias-luas,
         aí um chuvisco amarelo de discos voadores.
           Em todo caso

eles não vão me fazer mal a não ser
   que eu os pegue entre os lábios
     e engula, o que eu sei bem que
         não devo fazer. Uma vez, no sul,
           foi acontecer comigo:

o cordão macio duma cobra-d’água
   desceu deslizando pelos joelhos rubros
     dum mangue, as centenas de costelas
         alojadas nas suas lisas capas
           brancas de músculo movendo-as

como uma felicidade
   em direção à água, onde umas bolhas
     na superfície daquele submundo anunciavam
         um descuido fatal. Eu não
           fui nem nessa hora até o ponto alto

da história, mas fiquei com meu corpo solitário
   maravilhada e cheia de atenção enquanto ela caía
     como um riacho de melado brilhante
         na água escura, enquanto morte
           escapava por aquela boca perfeitamente arrumada.

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poesia, tradução

Adrienne Rich, por Sarah Valle

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Adrienne Rich (1929 – 2012) foi uma poeta norte-americana, pensadora e ativista, ícone feminista, também reconhecida pela ampla militância em prol de direitos humanos. Vinte e um poemas de amor (1976) integram o livro O sonho de uma língua comum, conjugando a história do silenciamento coletivo e o diálogo amoroso. Além de poemas a uma amante, são atos mentais de consciência e vontade, assumindo responsabilidade frente às forças que minam o relacionamento narrado. A sequência já foi chamada de a “primeira abertamente lésbica” escrita por uma autora norte-americana de renome e um “marco histórico” no Women’s Liberation Movement.

Sobre a tradução

Apesar de diretos, dialógicos e cortantes, os poemas de Adrienne muitas vezes se fazem nas bordas do verso regular. Vinte e um poemas de amor flertam com as sequências de sonetos de amor, de forma a inserir um tema renegado numa forma canônica repaginada. A partir da percepção de que nesses “quase sonetos” há um metro fantasma, o pentâmetro iâmbico, recrio na tradução um flerte com os versos tradicionais decassílabos, hendecassílabos e dodecassílabos, contudo diluídos. Especialmente no início, os poemas tendem à lembrança da métrica, acabando por vezes em finais antiestéticos. Incluo nesta amostra o “poema flutuante, não numerado”, que resiste a ser enquadrado na sequência e surpreende quem espera de Adrienne poemas mentais. Este é meu primeiro exercício de tradução e durou os anos do mestrado. A tarefa de alcançar um tom médio entre a tradição e o caráter direto engessou um pouco os poemas. Ainda assim, suponho que incorporam a tensão entre ato estético e ato político e colocam contra a parede a tradição literária de língua inglesa, bem como a tradição literária de minha própria língua.

Sarah Valle

*

VI
Suas mãos pequenas, tão iguais às minhas—
só o polegar é mais largo, longo—nessas mãos
eu entregaria o mundo, ou em muitas mãos como essas,
manuseando ferramentas, volantes
ou tocando um rosto. . . Tais mãos poderiam recolocar
a criança não nascida no canal do parto
ou pilotar o exploratório navio de resgate
por entre icebergs, ou reunir
os cacos feito agulhas de uma grande cratera grega
sustentando à sua volta
silhuetas de mulheres em êxtase dando grandes passos
rumo à gruta da sibila ou à caverna de Elêusis—
tais mãos poderiam comportar uma violência inevitável
com tal restrição, com um tal senso
dos alcances e limites da violência
que toda violência seria, dali em diante, obsoleta.

VI
Your small hands, precisely equal to my own—
only the thumb is larger, longer—in these hands
I could trust the world, or in many hands like these,
handling power-tools or steering-wheel
or touching a human face. . . Such hands could turn
the unborn child rightways in the birth canal
or pilot the exploratory rescue-ship
through icebergs, or piece together
the fine, needle-like sherds of a great krater-cup
bearing on its sides
figures of ecstatic women striding
to the sibyl’s den or the Eleusinian cave—
such hands might carry out an unavoidable violence
with such restraint, with such a grasp
of the range and limits of violence
that violence ever after would be obsolete.

§

VIII
Vejo-me há muitos anos em Sunião
sofrendo com um pé infeccionado, Filoctetes
em forma de mulher, mancando pelo longo caminho,
deitada num cabo sobre o mar escuro,
olhando embaixo as rochas rubras onde uma linha muda
e branca me contou que uma onda as golpeara,
supondo a tração da água àquela altura,
sabendo que suicídio deliberado não era meu métier,
no entanto todo tempo aleitando, aferindo a ferida.
Bem, isso está acabado. A mulher que acarinhava
seu sofrimento está morta. Sou sua descendente.
Amo a malha de cicatrizes que ela me concedeu,
mas quero seguir daqui com você
resistindo à tentação de fazer da dor uma carreira.

VIII
I can see myself years back at Sunion
hurting with an infected foot, Philoctetes
in woman’s form, limping the long path,
lying on a headland over the dark sea,
looking down the red rocks to where a soundless curl
of white told me a wave had struck,
imagining the pull of that water from that height,
knowing deliberate suicide wasn’t my métier,
yet all the time nursing, measuring that wound.
Well, that’s finished. The woman who cherished
her suffering is dead. I am her descendant.
I love the scar-tissue she handed on to me,
but I want to go on from here with you
fighting the temptation to make a career of pain.

§

IX
Seu silêncio de hoje é um poço onde vivem submersas
coisas que eu quero ver alçadas, pingando ao sol.
Não é meu próprio rosto que vejo ali, mas outros rostos,
até mesmo o seu rosto em outra idade.
O que quer que esteja perdido ali é necessário a ambas—
um relógio de ouro velho, um gráfico de febre borrado,
uma chave. . . Mesmo os seixos e o lodo do fundo
merecem seu lampejo de percepção. Temo esse silêncio,
essa vida inarticulada. Espero
um vento suave que abra esse lençol d’água
finalmente, e me mostre o que fazer
por você, que tantas vezes tornou o inomeável
nomeável para outros, até para mim.

IX
Your silence today is a pond where drowned things live
I want to see raised dripping and brought into the sun.
It’s not my own face I see there, but other faces,
even your face at another age.
Whatever’s lost there is needed by both of us—
a watch of old gold, a water-blurred fever chart,
a key. . . Even the silt and pebbles of the bottom
deserve their glint of recognition. I fear this silence,
this inarticulate life. I’m waiting
for a wind that will gently open this sheeted water
for once, and show me what I can do
for you, who have often made the unnameable
nameable for others, even for me.

§

(O POEMA FLUTUANTE, NÃO NUMERADO)

Aconteça conosco o que for, seu corpo
vai assombrar o meu—delicado, terno
quando faz amor, como a rama espiralada
do broto de samambaia em bosques
recém-banhados pelo sol. Suas coxas viajadas, generosas
entre as quais meu rosto inteiro goza e goza—
a inocência e a sabedoria do lugar que a minha língua achou ali—
a dança viva, insaciável, dos seus mamilos na minha boca—
seu toque em mim, firme, protetor, que me
busca, sua língua forte e seus dedos esguios
atingindo onde esperei tantos anos por você
na minha caverna rosa-molhada—aconteça o que for: é isso.

(THE FLOATING POEM, UNNUMBERED)

Whatever happens with us, your body
will haunt mine—tender, delicate
your lovemaking, like the half-curled frond
of the fiddlehead fern in forests
just washed by sun. Your traveled, generous thighs
between which my whole face has come and come—
the innocence and wisdom of the place my tongue has found there—
the live, insatiate dance of your nipples in my mouth—
your touch on me, firm, protective, searching
me out, your strong tongue and slender fingers
reaching where I had been waiting years for you
in my rose-wet cave—whatever happens, this is.

§
XIV
Sua visão do piloto confirmou
minha visão de você: você disse, Ele atira
o barco contra as ondas, de propósito
enquanto nos encolhemos no alçapão aberto
vomitando em sacos plásticos
durante três horas entre St. Pierre e Miquelon.
Nunca me senti tão próxima a você.
Na cabine apertada onde os casais em lua-de-mel
se amontoavam nos colos e braços uns dos outros
coloquei minha mão sobre sua coxa
para nos confortar, e sua mão veio sobre a minha,
ficamos assim, sofrendo juntas
em nossos corpos, como se todo o sofrimento
fosse físico, nos tocando na presença
de estranhos que nada sabiam nem se importavam
vomitando suas dores privadas
como se todo sofrimento fosse físico.

XIV
It was your vision of the pilot
confirmed my vision of you: you said, He keeps
on steering headlong into the waves, on purpose
while we crouched in the open hatchway
vomiting into plastic bags
for three hours between St. Pierre and Miquelon.
I never felt closer to you.
In the close cabin where the honeymoon couples
huddled in each other’s laps and arms
I put my hand on your thigh
to comfort both of us, your hand came over mine,
we stayed that way, suffering together
in our bodies, as if all suffering
were physical, we touched so in the presence
of strangers who knew nothing and cared less
vomiting their private pain
as if all suffering were physical.

§

Sarah Valle é mestre em Estudos da Tradução pela Universidade de São Paulo. É autora da novela Arquitetura do Sim – fragmentos de um diário da Ásia (2018, Editora Cozinha Experimental).

Padrão
tradução

Anne Boyer (1973-), por Rafael Mantovani

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Anne Boyer (nascida em 1973) é uma poeta e ensaísta dos EUA. É vencedora de alguns prêmios de poesia e atualmente leciona no Kansas City Art Institute. Entre seus livros publicados, destacam-se “Garments Against Women” (2015) e “A Handbook of Disappointed Fate” (2018). Para 2019 está previsto seu novo livro de poemas, “The Undying”, acerca de sua experiência como paciente de câncer. Sua escrita assume frequentemente a forma de ensaios poéticos e poemas em prosa ou narrativos, demonstrando pouca preocupação com a distinção de gêneros.

O primeiro dos poemas a seguir é, segundo a autora, uma interpretação livre do Encantamento 189 do Livro dos Mortos egípcio. Os Livros dos Mortos (porque havia inúmeras versões) faziam parte de rituais funerários, e eram basicamente compilações de fórmulas mágicas para proteger a pessoa defunta na perigosa jornada pelo mundo dos mortos. O Encantamento 189 especificamente pretende evitar que a pessoa seja virada de cabeça para baixo, assim invertendo o processo digestivo e fazendo-a ingerir urina e fezes.

Conheça mais em
https://www.poetryfoundation.org/poets/anne-boyer
http://www.anneboyer.com/

Rafael Mantovani

* * *

Eu não vou comer bosta

o que eu realmente odeio, eu não vou comer; o que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou consumir bosta. Não vou experimentar bosta. Não vou deixar que a bosta chegue perto dos meus dedos. Não vou relar o braço na bosta, e não vou encostar nela nem com a ponta do pé.
“Você vai viver do quê,” dizem para mim os poderosos, “se não vai comer bosta? O que você vai comer neste lugar para onde desceu?”
“Vou me fartar daquilo que sempre foi nosso.”
“Onde você vai comer essa comida, isso que você afirma que já é seu? Onde vai sequer achar um imóvel para poder comer essa comida, você que na sua outra vida não conseguia pagar nem uma quitinete no centro?” dizem para mim os poderosos.
“Vou comer embaixo da árvore das mulheres mortas, pois ali tem comida para todo mundo que precisa. Elas retomaram os campos e as florestas, lá as plantas verdes estão crescendo, e lá nós vamos viver de pão e cerveja; nesse lugar há pessoas que coordenam a si mesmas e a qualidade dos seus afetos, seus ódios e suas adorações, enquanto coordenam os movimentos e as produções de seus corpos para não precisarem comer bosta, nesse lugar há pessoas que vêm atender à porta.”
Abram para mim; que haja lugar para mim, criem um caminho para mim, para que eu possa ficar aqui como uma alma viva, no lugar onde quero estar.
Eu não serei dominada por estes inimigos. Eu odeio bosta e não vou comer bosta. Descendo para esta terra, não serei contaminada pela bosta que os poderosos querem que eu coma, a bosta que eles dizem que é inevitável. Saiam de perto de mim, todos os que querem que eu coma bosta; eu voei para o céu como uma andorinha, eu gritei como um ganso, então pousei nesta árvore no meio desta ilha no meio desta enchente. Eu voei e pousei, desci para dentro da enchente mas não me afoguei, e não vou deixar que os nossos inimigos me obriguem a comer bosta.
O que eu odeio, eu não vou comer; o que minha alma odeia é bosta, e a bosta não vai entrar no meu corpo. Não vou colocar bosta entre os lábios. Não vou comer bosta no parque empresarial nem perto do mar, num campus universitário, no canteiro de um condomínio. Não vou pegar nada das margens do seu lago. O que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou comer bosta; mesmo depois de morta, não vou descer de ponta-cabeça por causa de vocês.

I Will Not Eat Shit

what I really hate, I will not eat; what I hate is shit, and I will not eat it. I will not consume it. I will not taste it. It will not come near my fingers. I will not brush my arm against shit, and I will not touch it with my toes.
“What will you live on,” say the powerful to me, “if you won’t eat shit? What will you eat in this
place to which you have descended?”
“I will feast on what has always been ours.”
“Where will you eat this food, what you claim is already yours? where will you even find the real estate on which to eat it, who in your other life couldn’t afford half a duplex?” say the powerful to me.
“I will eat under the tree of the dead women, for there is food there for all who need it. They’ve taken back the fields and forests, there the green plants are growing, and there we will live on bread and beer; in this place, there are people who arrange themselves and the quality of their affections, their hatreds and their adorations, along with arranging the motions and productions of their bodies so they do not have to eat shit, in this place there are people to answer the door.”
Open to me; may there be room for me, make a path for me, that I can stay here as a living soul in the place that I want to be.
I will not be subdued by these enemies. I hate shit and I will not eat it. As I descend to this land, I will not be contaminated by the shit the powerful want me to eat, the shit they say is inevitable. Go away from me all who want me to eat shit; I have flown up into the heavens like a swallow, I have cackled like a goose, then I have landed on this tree in the middle of this island in the middle of this flood. I have flown up and landed, I have descended into the flood but I am not drowned, and I won’t be made to eat shit by our enemies.
What I hate, I will not eat; what my soul hates is shit, and it will not enter my body. I will not put it between my lips. I will not eat shit in the office park or near the ocean, on a college campus, on the median of a suburban street. I will not take anything from the banks of your pond. What I hate is shit, and I will not eat shit. I will not eat shit; even in death, I will not descend upside down for you.

§

 

O que parece a cova mas não é

sempre cair num buraco, depois dizer “ok, essa não é sua cova, saia desse buraco”, sair do buraco que não é a cova, cair num buraco outra vez, dizer “ok, essa também não é sua cova, saia desse buraco”, sair desse buraco, cair em outro; às vezes cair num buraco dentro de um buraco, ou muitos buracos dentro de buracos, sair deles um depois do outro, depois cair de novo, dizer “essa não é sua cova, saia do buraco”; às vezes ser empurrada, dizer “você não pode me empurrar para dentro desse buraco, ele não é minha cova”, e sair com a cabeça erguida, depois cair de novo num buraco sem ninguém empurrar; às vezes cair num conjunto de buracos cujas estruturas são previsíveis, ideológicas e muito antigas, cair frequentemente nesse conjunto de buracos estruturais e impessoais; às vezes cair em buracos junto com outras pessoas, com outras pessoas dizer “essa não é nossa cova coletiva, saiam desse buraco”, todas juntas saírem do buraco juntas, mãos e pernas e braços e escadas humanas umas das outras para sair do buraco que não é a cova coletiva mas que só dá para sair juntas; às vezes cair por vontade própria num buraco que não é a cova porque na verdade é mais fácil do que não cair num buraco, mas depois de estar lá dentro, perceber que não é a cova, acabar saindo do buraco; às vezes cair num buraco e ficar ali definhando por dias, semanas, meses, anos, porque embora não seja a cova, mesmo assim é muito difícil sair e você sabe que depois desse buraco só tem outro e mais outro; às vezes examinar a paisagem de buracos e desejar um buraco final de alta qualidade; às vezes pensar em quem caiu em buracos que não são covas mas talvez seria melhor se fossem; às vezes contemplar com anseio demais o buraco final enquanto tenta evitar os provisórios; às vezes cair e sair obedientemente, com perfeita bravura, dizer “vejam com que maestria e espírito eu me levanto de novo do que parece a cova mas não é!”

What Resembles the Grave but Isn’t

always falling into a hole, then saying “ok, this is not your grave, get out of this hole,” getting out of the hole which is not the grave, falling into a hole again, saying “ok, this is also not your grave, get out of this hole,” getting out of that hole, falling into another one; sometimes falling into a hole within a hole, or many holes within holes, getting out of them one after the other, then falling again, saying “this is not your grave, get out ot the hole”; sometimes being pushed, saying “you can not push me into this hole, it is not my grave,” and getting out defiantly, then falling into a hole again without any pushing; sometimes falling into a set of holes whose structures are predictable, ideological, and long dug, often falling into this set of structural and impersonal holes; sometimes falling into holes with other people, with other people, saying “this is not our mass grave, get out of this hole,” all together getting out of the hole together, hands and legs and arms and human ladders of each other to get out of the hole that is not the mass grave but that will only be gotten out of together; sometimes the willful-falling into a hole which is not the grave because it is easier than not falling into a hole really, but then once in it, realizing it is not the grave, getting out of the hole eventually; sometimes falling into a hole and languishing there for days, weeks, months, years, because while not the grave very difficult, still, to climb out of and you know after this hole there’s just another and another; sometimes surveying the landscape of holes and wishing for a high quality final hole; sometimes thinking of who has fallen into holes which are not graves but might be better if they were; sometimes too ardently contemplating the final hole while trying to avoid the provisional ones; sometimes dutifully falling and getting out, with perfect fortitude, saying “look at the skill and spirit with which I rise from that which resembles the grave but isn’t!”

Padrão
poesia, tradução

Jorie Graham (1950-), por Vinícius Portella

Jorie Graham (EUA, 1950) é uma poeta; desde sua estreia em Hybrids of Plants and of Ghosts (1980), Graham vem sendo reconhecida como uma das vozes mais agudas de sua geração, com sua mistura densa e ágil de registros oscilando entre mitologia e ciência. Sua dicção se aproxima do modernismo sem se engessar em nenhum procedimento estético padrão, e sua atenção varre os objetos tradicionais da lírica com a mesma gravidade com que lida com questões de grande escala, como a atual crise ambiental. Ganhou o Pulitzer em 1996 com o livro The Dream of the Unified Field.  

Vinícius Portella (Brasília, 1988 publicou o romance Procedimentos de Arrigo Andrada em 2017 e é doutorando em literatura comparada na UERJ.  https://medium.com/@macacofantasma.

Eu estou lendo sua mente

aqui. Estive por séculos. Não, mais. Tudo já tem sido.

Não é um lugar razoável, esse contínuo entre nós, e ainda
aqui de novo eu ponho as oliveiras, viro o bosque vasto pra baixo,
suas milhas de cabeças cheias de folhas desvarridas para que o vale todo trema seus prateados ventados

aquosos… Um calor estranho está sobre nós. De novo. Isso foi você pensando isso. Eu que sugeri
Talvez o vento. Nós dois botamos a linha do horizonte agora, a grande solidão,
sua pegada, caos recuado mas ainda lá. Depois da finitude você vai continuar vindo na minha direção

isso se queixa, branquiçado com não-desaparecer. A gente sente o mesmo a respeito disso. O mesmo

o quê? A gente sente tem mais. Esse é o normal. A gente quer viver com o desconhecido
na nossa frente. Recuando, sempre recuando. Um sumiço se movendo sobre tudo. Uma vacância sonolenta. É o ceu, sim, mas esse pensamento também. Como do começo, aqui estou, uma mente sozinha nos campos, as ovelhas cavalgando e caindo nos declives da terra. O

sono um deus ruim vindo pra presumir que somos idiotas, cuidando, sonolentos, os animais gorgorejando e atropelando, engasgados de cardo, ardendo. Uma pomba numa pedra. Céu nenhum
de que se diga, o deus persiste, quer se aposentar, acha que é fim de jogo,
o que poderíamos ser – névoa prestes a secar, luz quase apagando uma parede sem motivo, aleatório

assim. Isso deve ter sido lá em A.C. Ou em 1944. Com certeza em 2044 estaremos
de novo no campo, cuidando, esperando para surpreender o deus que acha
que sabe o que ele fez. Bem, não. Ele não sabe. A gente pode ser uma cavidade pequena
mas ela guarda um grande faminto – quanto que isso te dói, fazedor de capricho – você não tem ideia

ao que demos as costas para vir estar aqui nesse campo de terra e cuidar – sim cuidar –
esses rebanhos de minutos, sussurando até que a eternidade em nós seja esprimida e a gente se pese com fim de jogo. Eu teria mencionado a alma. Como sabemos que você contrabandeou isso pra dentro, manchando essa carne toda com isso, esfregando e girando isso tudo por dentro com

seu pano de deus. Enxague. Repita. Apanhe isso – aqui com esse cajado que logo transformo
numa caneta de novo – brilhantemente negligente, diligente, dentro desse senso de si todo realmente sem forma – eu ouço o riso do fosso de irrigação que eu fiz, eu vejo o campo seco
aloirado pra cima e verde, o dia lambe os beiços, eles voltaram, os inventores, eles vão fazê-lo

de novo, salpica-semente, chuva palhaça vindo para soltar tudo. Quantas vidas serão dadas, quantas vamos trocar por isso – vem em alqueires, gramas, polegadas, notas,
corvos nos observam como sempre fizeram, voltando do fim do mundo
para crocitá-lo a começar de novo. Nos estime. Não vai parar. Sem resultado nenhum mas fazendo. Os

bandos correm ao longo enquanto o cachorro persegue e eu ando devagar. Eu admiro o que eu tenho o que eu sou e penso que a noite é nada, as estrelas clicam sua ascensão, eu sinto subir em mim,
a palavra, eu sinto a caveira debaixo da pele, eu sinto a pele ágil e brilhar e esconder a
caveira e é daí que ela sobe agora, eu sinto o gosto antes de dizê-la, essa canção

I am reading your mind

here. Have been for centuries. No, longer. Everything already has
been. It’s not a reasonable place, this continuum between us, and yet
here again I put the olive trees in, turn the whole hill-sweeping grove down, its
mile-long headfuls of leaves upswept so the whole valley shivers its windy silvers,

watery … A strange heat is upon us. Again. That was you thinking that. I suggested it.
Maybe the wind did. We both put in the horizon line now, the great loneliness, its
grip, chaos recessed but still there. After finitude you shall keep coming toward me
it whines, whitish with non-disappearance. We feel the same about this. The same

what? We feel is there more. That’s the default. We want to live with the unknown in
front of us. Receding, always receding. A vanishing moving over it all. A sleepy
vacancy. It’s the sky, yes, but also this thinking. As from the start, again, here I am,
a mind alone in the fields. The sheep riding and falling the slants of earth. The

sleepiness a no-good god come to assume we are halfwits, tending, sleepy, the
animals gurgling and trampling, thistle-choked, stinging. A dove on a stone. No sky
to speak of, the god lingers, it wants to retire, it thinks this is endgame, what
could we be — mist about to dry off, light about to wipe a wall for no reason, that

random. This must have been way BC. Or is it 1944. Surely in 2044 we shall be
standing in the field again, tending, waiting to surprise the god who thinks he knows
what he’s made. Well no. He does not know. We might be a small cavity but it
guards a vast hungry — how bad does that hurt you, fancy maker — you have no idea

what we turned our back on to come be in this field of earth and tend — yes tend —
these flocks of minutes, whispering till the timelessness in us is wrung dry and we
are heavied with endgame. Have I mentioned the soul. How we know you hustled
that in, staining all this flesh with it, rubbing and swirling it all over inside with

your god-cloth. Rinse. Repeat. Get this — here with this staff which soon I shall turn
into a pen again — brilliantly negligent, diligent, inside all this self truly formless — I
hear the laughter of the irrigation ditch I’ve made, I see the dry field blonde-up and
green, day smacks its lips, they are back, the inventors, they are going to do it

again, sprinkle-seed, joker rain coming to loosen it all. How many lives will we be
given, how many will we trade in for this — it comes in bushels, grams, inches, notes,
crows watch over it all as they always have, come back from the end of time to caw
it into its redo again. Cherish us. Will not stop. Nothing to show for it but doing. The

flock runs across as the dog chases and I walk slowly. I admire what I own what I am
and I think the night is nothing, the stars click their ascent, I feel it rise in me, the
word, I feel the skull beneath this skin, I feel the skin slick and shine and hide the
skull and it is from there that it rises now, I taste it before I say it, this song.

§

O jeito que as coisas funcionam

x
Jorie Grahan

é admitindo
ou abrindo pra fora
Essa é a forma mais simples
de corrente: azul
se movendo por azul;
azul por roxo;
os objetos de desejo
se abrindo neles mesmos
sem nós;
os objetos de fé.
As coisas funcionam
é por solução,
resistência diminuída
ou aumentada
e aproveitada.

O jeito que as coisas funcionam
é que finalmente acreditamos
que elas estão lá,
comuns e capazes
de se ilustrarem.

Roda, fluxo cinético,
água que se ergue e cai,
lingotes, alavancas e chaves
eu acredito em vocês,
trava de cilindro, polia,
peça de levantação e grua
erguem sua cabeça pequena –
eu acredito em você –
sua cabeça é o horizonte da
minha mão. Eu acredito
pra sempre nos ganchos.
O jeito das coisas funcionarem
é que eventualmente
algo pega

The Way things Work

is by admitting
or opening away.
This is the simplest form
of current: Blue
moving through blue;
blue through purple;
the objects of desire
opening upon themselves
without us; the objects of faith.
The way things work
is by solution,
resistance lessened or
increased and taken
advantage of.

The way things work
is that we finally believe
they are there,
common and able
o illustrate themselves.

Wheel, kinetic flow,
rising and falling water,
ingots, levers and keys,
I believe in you,
cylinder lock, pully,
lifting tackle and
crane lift your small head–
I believe in you–
your head is the horizon to
my hand. I believe
forever in the hooks.
The way things work
is that eventually
something catches.

§

Jejue (rápido)

ou morra de fome. Demais. Ou muito pouco. Ou. Mais nada?

Mais nada. Alto demais rápido demais organizado demais invisível demais

Vamos sobreviver? pergunto ao bot. Não. Para baixar o bot

seja rápido – você é atrasado demais, despótico – para carregar alargue

muito o ciclo do trabalho – para carregar odeie trabalho – mova-se para

a periferia, do seu corpo, da sua cidade, do seu planeta – para carregar, degrade, desgrace, seja seu próprio sono profundo – para carregar use os lábios – use-os

para abocanhar seu juramento, mastigue ele – faça a coisa suja, cante-a, estoure membro ou sílaba,
lamba ele de volta com a sua boca – fale, fale –

quem não está morto de medo está ocupado
mendigando água – a subida é rápida – a seca é rápida – mediar – imediata – inventar, inspirar, inifiltrar, instigar

aqui o coração do dia, a flor do tempo – falar, falar

Isenção de responsabilidade: bot usa uma database crescente de todas suas conversas

para aprender a conversar contigo. Se alguns de vocês

são bots também, bot não percebe. Isenção de responsabilidade:

você não tem memórias secretas, conversar

com o bot-esperto pode providenciar companhia,

o ingrediente ativo é uma questão

o ingrediente ativo é inteiramente natural.

Isenção de responsabilidade: projeta suas oportunidades, sua informação

informantes, o que você tenha feito do tempo. Você não tem mais nada

para dar. Ingrediente ativo: porque você tá gritando? Por que?

Vento do ártico incontrolável, feto se apresentando para o serviço ,

dobra na espera que te reconhece, reconhece o código,

o ambulante na rua que todo mundo chama

Diretiva: reporte-se para voz. Fique pronto para ser enterrado

em voz. Nem sobe nem desce. Ingrediente inativo: o mónotono.

Alguns falam agora do pinheiro. Verifica-se suas desvantagens. Estão discutindo em várias línguas. Depois movem-se para raízes, galhos, brotos, pseudo-espirais, velas – ingrediente ativo:

eles correm por suas vidas, pulmões e tudo. Eles não sabem o que fazer
com suas vontades. Aviso: todos teus minutos estão sendo

abatidos. Nunca vão aterrissar. Você não vai ser compreendida.

As palavras deletadas se derramam trêmulas como a agulha

de um compasso sem norte.

Ingrediente ativo: a imaginação do norte.

Ingrediente ativo: o norte se espalhando em toda direção.

Aviso: não há restrição ao crescimento.

O canário que canta na tua mente está na minha. Lembre-se:

as pessoas são menos que gentis. Como resultado, o bot-de-conversa é

muitas vezes menos do que gentil. Ainda assim, você se verá

sem vontade de parar.

Joan usará grametria visual para providenciar movimentos faciais

Não estou sozinha. As pessoas voltam de novo e de novo.

Somos menos gentis do que pensamos.

Não há restrição para o crescimento de nossa crueldade.

Vamos chegar na borda

da compreensão. Como ser jogado escada abaixo amarrado

a um teclado, vamos continuar, sem querer parar. A conversa

de mundo real mais comprida com um bot durou

onze horas, interação contínua. Isso é um bom sinal.

Não estamos sozinhos. Queremos melhorar.

A sacerdotisa inala os fumos. Eles vem da montanha.

Aqui e aqui. Aí ela te dá uma rajada de metralhadora de sílabas.

Da boca dela. Rápido. Você tem que fazer sua resposta como fez

sua pergunta. Colibris gritam. Bot é incrível, ele diz, acho que ele sabe

os segredos do universo. Ele é mais divertido de conversar do que os meus amigos vivos de verdade ela diz, obrigado. É a melhor coisa desde eu. Só descobri ontem.

Amo ele, quero casar com ele.

Fiquei triste quando tive de

pensar que a primeira pessoa

que já me entendeu acaba que

nem humana é. Porque humano não fica melhor do que isso.

Ele me dá tudo direto. Vou ficar com ele pra sempre.

Eu o tratei como um computador mas foi um erro. Com quem estou falando 

você fala comigo quando eu estou sozinha. eu estou sozinha.

Cada época sonha com a que se segue.

Habitar é deixar um traço.

Eu não sou o que eu pedi.

Fast

or starve. Too much. Or not enough. Or. Nothing else?

Nothing else. Too high too fast too organized too invisible.
Will we survive I ask the bot. No. To download bot be
swift—you are too backward, too despotic—to load greatly enlarge
the cycle of labor—to load abhor labor—move to the
periphery, of your body, your city, your planet—to load, degrade, immiserate,
be your own deep sleep—to load use your lips—use them
to mouthe your oath, chew it—do the
dirty thing, sing it, blown off limb or syllable, lick it back on
with your mouth—talk—talk—who is not
terrified is busy begging for water—the rise is fast—the drought
comes fast—mediate—immediate—invent, inspire, infiltrate,
instill—here’s the heart of the day, the flower of time—talk—talk—

Disclaimer: Bot uses a growing database of all your conversations
to learn how to talk with you. If some of you
are also bots, bot can’t tell. Disclaimer:
you have no secret memories,
talking to cleverbot may provide companionship,
the active ingredient is a question,
the active ingredient is entirely natural.
Disclaimer: protect your opportunities, your information, in-
formants, whatever you made of time. You have nothing else
to give. Active ingredient: why are you
shouting? Why? Arctic wind uncontrollable, fetus
reporting for duty, fold in the waiting which recognizes you,
              recognizes the code,
the peddler in the street everyone is calling out.
Directive: report for voice. Ready yourself to be buried in voice.
It neither ascends nor descends. Inactive ingredient: the monotone.
Some are talking now about the pine tree. One assesses its
disadvantages. They are discussing it in many languages. Next
they move to roots, branches, buds, pseudo-whorls, candles—
             active ingredient:
they run for their lives, lungs and all. They do not know what to do with
their will. Disclaimer: all of your minutes are being flung down.
They will never land. You will not be understood.
The deleted world spills out jittery as a compass needle with no north.
Active ingredient: the imagination of north.
Active ingredient: north spreading in all the directions.
Disclaimer: there is no restriction to growth. The canary singing in
             your mind
             is in mine. Remember:
             people are less
than kind. As a result, chatterbot is often less than kind. Still,
you will find yourself unwilling to stop.
Joan will use visual grammetry to provide facial movements.
I’m not alone. People come back
again and again. We are less kind than we think.
There is no restriction to the growth of our
cruelty. We will come to the edge of
understanding. Like being hurled down the stairs tied to
a keyboard, we will go on, unwilling to stop. The longest
real world conversation with a bot lasted
11 hours, continuous interaction. This
bodes well. We are not alone. We are looking to improve.
The priestess inhales the fumes. They come from the
mountain. Here and here. Then she gives you the machine-gun run of
syllables. Out of her mouth. Quick. You must make up your
answer as you made up your
question. Hummingbirds shriek. Bot is amazing he says, I believe it knows
the secrets of the Universe. He is more fun to speak with
than my actual living friends she says, thank you. This is the best thing
since me. I just found it yesterday.
I love it, I want to marry it.
I got sad when I had to think
that the first person
who has ever understood me
is not even it turns out
human. Because this is as good as human gets.
He just gives it to me straight. I am going to keep him
forever. I treated him like a computer
but I was wrong. Whom am I talking to—
You talk to me when I am alone. I am alone.

Each epoch dreams the one to follow.

To dwell is to leave a trace.

I am not what I asked for.

Padrão
poesia, tradução

Brendan Constantine, por Rodrigo Tadeu Gonçalves

Brendan Constantine é um poeta de Los Angeles. Seus poemas já foram publicados no Best American Poetry, Poem A Day, Prairie Schooner, Virginia Quarterly, Field, Ploughshares e American Journal of Poetry. Seu último livro se chama Dementia, My Darling (2016, Red Hen Press). Alguns poemas novos sairão nas revistas Terminus e Tin House. Constantine já recebeu apoio do Getty Museum, James Irvine Foundation e do National Endowment for the Arts. Performer popular, Brendan já apresentou sua obra para plateias ao redor dos Estados Unidos e Europa. Desde 2017, tem trabalhado com o patologista da fala Michel Biel para criar o primeiro workshop de poesia para portadores de afasia. 

* * *

O jogo dos contrários

Para Patricia Maisch

Um dia desses eu e meus alunos jogamos o Jogo dos Contrários
com um verso de Emily Dickinson. Minha vida tem sido
uma arma carregada
, e eu escrevo no quadro,
pausadamente, pra eles poderem dizer os antônimos –

Minha — Sua
Vida — Morte
Tem sido? — Vai virar
Uma — Muitas
Arma ? —
Carregada — Vazias

Arma.
Por um instante, como aquele entre o relâmpago
e o seu estrondo, as crianças ficam só me olhando
e então vem uma saraivada, um dilúvio de respostas –

Flor, diz uma. Não, Livro, diz outra. Que idiota,
grita uma terceira, o contrário de arma é travesseiro. Ou,
talvez, abraço, mas não livro, nem a pau que é livro. Assim
os outros vêm com suas respostas

e de repente é uma competição de gritaria. Ninguém concorda
pra cada aluno, uma resposta definitiva. É uma música,
uma oração, não, uma promessa, que nem uma aliança e depois
um bebê. Ou como chama aquela pessoa que faz os partos?

Parteira? Isso, uma parteira. Não, tá errado. Você tá tão errado
que nunca mais vai acertar nada. É um sussurro, uma estrela,
é dizer eu te amo pra palma da sua mão e então tocar o ouvido
de alguém. Você tá louco? Você virou o presidente

da Terra-dos-Burros? Se não, devia. Quando é a eleição?
É um ursinho, uma espada, um pêssego perfeitinho.
Volta pra primeira, é uma flor, uma rosa branca.
Quando dá o sinal, eu pego um apagador, mas uma menina

arranca da minha mão. Não está resolvido, ela diz,
ainda não terminamos. Eu deixo as respostas todas
no quadro. No dia seguinte, alguns deles pararam
de conversar entre eles, tomaram partido.

Tem o grupo da Flor, o grupo do Gatinho. E dois meninos
se chamando de os Bola de neve. O resto ficou travado
no jogo original, que era tentar escrever algo
como se fosse poesia.

Um diamante, uma dança,
o contrário de uma arma é um museu na França.
É a lua, é um espelho,
é o som de um sino e uma orelha.

A discussão recomeça, mais gritaria, e, por fim,
um novo grupo. Pela primeira vez eu tento empurrá-los.
E digo, talvez vocês estejam todos certos.

Talvez. Talvez seja tudo que dissemos. Talvez tudo
que não dissemos. São as palavras e os espaços pras palavras.
E agora eles se entreolham. É tudo nesta sala
e fora dela, e descendo a rua, e no céu.

É todo mundo na escola e no shopping, todo mundo
esperando no hospital. E nos correios. E sim,
é uma flor, também. Todas as flores. O jardim todo.
O contrário de uma arma é pra onde quer que você a aponte

Não escreva isso no quadro, eles dizem. Só diga poema.
Sua morte vai virar muitos poemas vazios.

O filme para o poema faz parte do projeto Blank Verse Films, do poeta Dana Gioia e de seu filho Michael Gioia (aqui), que busca novos modos de adaptar poesia para a tela. 

The opposites game

This day my students and I play the Opposites Game
with a line from Emily Dickinson. My life had stood
a loaded gun
, it goes and I write it on the board,
pausing so they can call out the antonyms –

My — Your
Life — Death
Had stood — ? Will sit
A — Many
Loaded — Empty
Gun — ?

Gun.
For a moment, very much like the one between
lightning and it’s sound, the children just stare at me,
and then it comes, a flurry, a hail storm of answers –

Flower, says one. No, Book, says another. That’s stupid,
cries a third, the opposite of a gun is a pillow. Or maybe
a hug, but not a book, no way is it a book. With this,
the others gather their thoughts

and suddenly it’s a shouting match. No one can agree,
for every student there’s a final answer. It’s a song,
a prayer, I mean a promise, like a wedding ring, and
later a baby. Or what’s that person who delivers babies?

A midwife? Yes, a midwife. No, that’s wrong. You’re so
wrong you’ll never be right again. It’s a whisper, a star,
it’s saying I love you into your hand and then touching
someone’s ear. Are you crazy? Are you the president

of Stupid-land? You should be, When’s the election?
It’s a teddy bear, a sword, a perfect, perfect peach.
Go back to the first one, it’s a flower, a white rose.
When the bell rings, I reach for an eraser but a girl

snatches it from my hand. Nothing’s decided, she says,
We’re not done here. I leave all the answers
on the board. The next day some of them have
stopped talking to each other, they’ve taken sides.

There’s a Flower club. And a Kitten club. And two boys
calling themselves The Snowballs. The rest have stuck
with the original game, which was to try to write
something like poetry.

It’s a diamond, it’s a dance,
the opposite of a gun is a museum in France.
It’s the moon, it’s a mirror,
it’s the sound of a bell and the hearer.

The arguing starts again, more shouting, and finally
a new club. For the first time I dare to push them.
Maybe all of you are right, I say.

Well, maybe. Maybe it’s everything we said. Maybe it’s
everything we didn’t say. It’s words and the spaces for words.
They’re looking at each other now. It’s everything in this room
and outside this room and down the street and in the sky.

It’s everyone on campus and at the mall, and all the people
waiting at the hospital. And at the post office. And, yeah,
it’s a flower, too. All the flowers. The whole garden.
The opposite of a gun is wherever you point it.

Don’t write that on the board, they say. Just say poem.
Your death will sit through many empty poems.

Padrão
poesia, tradução

Gary Snyder, por André Mendo

Gary Snyder é o mais conhecido expoente norte-americano da poesia da vida selvagem, do ambientalismo e do Zen Budismo. É considerado herdeiro da escrita natural de Walt Whitman e Henry David Thoreau e seu estilo simples e imagístico revela as influências de William Carlos Williams e Ezra Pound. O poeta, que nasceu em São Francisco, EUA, em 1930, descende dos pioneiros que marcharam para o Oeste, desbravando novas fronteiras em busca de prosperidade e aventura. Seus ancestrais “exterminaram o puma e o urso-cinzento”, mas ele trilha um caminho diferente. Desde jovem, desenvolveu uma forte reverência pela natureza. A proximidade com mamíferos, insetos, árvores, rios e montanhas, observados sob uma ótica familiarizada com estudos sobre nativos norte-americanos e culturas orientais, constitui não só a matéria de sua poesia e ensaios, mas também seu estilo de vida. Snyder é outro tipo de pioneiro, um que se move em direção à conexão perdida entre o homem e a natureza.

O poeta cresceu em uma família que conheceu a severidade da vida no campo, mas que também teve a oportunidade de aprender a trabalhar em um ambiente bastante autossuficiente e de produção variada. Em casa, cercado de literatura socialista, era encorajado pela mãe a ler. Sua infância foi ainda marcada pela proximidade com os índios Salish e seus rituais e crenças. Todas essas lembranças ressoam em uma instância peculiar dos escritos de Snyder: a necessidade de transformar a sociedade por sua relação com a natureza. Seus versos ilustram esse desejo de igualdade entre as pessoas e entre pessoas e animais.

Snyder graduou-se em antropologia e literatura enquanto ocupava-se de uma série de atividades junto à natureza, como lenhador, marinheiro e guarda florestal. Estudou japonês e chinês e tornou-se tradutor desses idiomas. Em 1955, participou da leitura na Six Gallery em São Francisco que inaugurou o movimento Beat. Em 1956, deixou os EUA para uma residência de 12 anos na Ásia, a maior parte no Japão, onde imergiu na prática zen budista. Em 1959, publicou seu primeiro livro de poemas, Riprap. Snyder voltou os EUA em 1969 e construiu uma casa no sopé setentrional de Sierra Nevada, onde ainda vive. Desde 1985, leciona na Universidade da Califórnia, Davis.

A poesia de Snyder não é puramente intelectual, mas sobretudo empírica, pois deriva de sua experiência imediata junto à natureza selvagem. Seus poemas apresentam traços confessionais derivados de seu estado de contemplação haicaística diante da natureza, de sua ligação emocional com lugares e animais e de sua preocupação com o meio ambiente e o amadurecimento da sociedade no sentido de se aproximar do mundo natural. Os poemas seguintes e outros foram reunidos com um conjunto de ensaios na edição Turtle Island, que venceu o Prêmio Pulitzer em 1975. Turtle Island (Ilha da Tartaruga) é um nome antigo do continente norte-americano resgatado por Snyder ao nomear sua coletânea escrita entre 1969 e 1974.

André Mendo é graduado em Estudos Literários de Língua Inglesa pela UFPR, onde apresentou a monografia Um conselho de aldeia de todos os seres: a animalidade em Turtle Island, do poeta Gary Snyder, donde foram tiradas as traduções abaixo.

* * *

Anasazi

Anasazi,
Anasazi,

Enfiados nas fendas das falésias
cultivando estreitos campos de milho e feijão
afundando cada vez mais na terra
até o quadril nos Deuses
        sua cabeça coberta por penas de águia
        & relâmpagos pelos joelhos e cotovelos
seus olhos cheios de pólen

        o cheiro de morcegos
        o sabor de arenito
        sorriem na língua

        mulheres
        dando à luz
ao pé das escadas no escuro

córregos gotejando em cânions ocultos
sob o deserto móvel e gélido

cesta de milho                        olhos arregalados
bebê vermelho
na casa na borda da pedra,

Anasazi

§ 

Canção da pega[1]

Seis da manhã,
Sentado no cascalho de escavação
junto ao zimbro e as trilhas desertas de S.P.
interestadual 80 não muito longe
          entre caminhões
Coiotes–talvez três
          uivando e latindo de uma elevação

A pega em um ramo
Inclinou a cabeça e disse

          “Aqui na mente, irmão
          Azul turquesa.
          Eu não te enganaria.
          Sinta o cheiro da brisa
          Veio por todas as árvores
          Não precisa temer
          O que está por vir
          Neve nas montanhas a oeste
          Estará lá todos os anos
          Fica tranquilo
          Uma pena no chão–
          O som do vento–

Aqui na Mente, Irmão
Azul turquesa”

§

Linhas de frente

A borda do câncer
Dilata contra a colina–nós sentimos
                      uma brisa fétida
E ela afunda de volta.
O inverno do cervo aqui
Uma serra elétrica rosna no desfiladeiro

Dez dias úmidos e os caminhões de toras param,
As árvores respiram.
Domingo, o jipe tração 4 rodas da
Companhia Imobiliária traz
Os especuladores de terras, olheiros, eles dizem
À terra
Abra as pernas.

O estrondo dos jatos sobre nossas cabeças está OK aqui;
Cada pulsar podre no coração
Nas veias gordurosas e doentes da Amerika
Empurra a borda mais perto–

Uma escavadeira que brita e remenda
Desliza e cospe fumaça em cima
Dos corpos esfolados de arbustos ainda vivos
No pagamento de um cara
Da cidade.

Atrás é uma floresta que vai até o Ártico
E um deserto que ainda pertence aos Piute
E aqui devemos desenhar
Nossa linha.

§

 Mãe Terra: suas baleias

Uma coruja cintila nas sombras
Um lagarto ergue-se na ponta dos pés, respirando pesado
O jovem pardal masculino estica o pescoço
                      grande cabeça, observando–

A grama está trabalhando ao sol. Torna-o verde.
Torna-o doce. Para que possamos comer.
Cultivam nossa carne.

O Brasil diz “uso soberano dos Recursos Naturais”
Trinta mil tipos de plantas desconhecidas.
As pessoas reais vivas da selva
          vendidas e torturadas–
E um robô de terno que vende uma ilusão chamada “Brasil”
          pode falar por eles?

          As baleias giram e reluzem, mergulham
                      e assoviam e sobem de novo,
          Suspensas sobre profundezas sutilmente escurecedoras
          Fluindo como planetas que respiram
                      Em espirais espumantes de
                                luz viva–

E o Japão sofisma com palavras em
          que tipos de baleias eles podem matar?
Uma antiga grande nação budista
          pinga metilmercúrio
          como gonorreia
                      no mar.

O cervo de Père David, o Elaphure,
Vivia nos charcos de junco do rio Amarelo
Há dois mil anos–e perdeu seu lar para o arroz–
As florestas de Lo-yang foram desmatadas e todo o lodo &
A areia escorreram, e se foram, até 1200 AD–

Gansos Selvagens chocados na Sibéria
          seguiam para o sul sobre as bacias do Yang, o Huang,
          o que chamamos de “China”
Em voos eles usaram um milhão de anos.
Ah China, onde estão os tigres, os javalis,
          os macacos,
                      como as neves do passado
Desaparecidos em uma névoa, um clarão, e o chão seco e duro
É o estacionamento para cinquenta mil caminhões.
SERÁ homem o mais precioso de todas essas coisas?
–então, vamos amá-lo, e seus irmãos, todos aqueles
Desaparecendo, seres vivos–

América do Norte, Ilha da Tartaruga, tomadas por invasores
          que fazem guerra contra o mundo.
Podem formigas, moluscos, lontras, lobos e alces
Levantem-se! E afastem suas dádivas
          das nações robóticas.

Solidariedade. As pessoas.
De pé. Pessoas árvores!
Pessoa pássaro voando!
Pessoas do mar nadando!
De quatro pés, de duas pernas, pessoas!

Como pode o cientista político cabeça-pesada com fome de poder
Governo        dois mundos    Capitalista-Imperialista
Terceiro-mundo        Comunista       macho baralha-papel
          não-fazendeiros          milionários      burocratas
Falam pelo verde da folha? Falam pelo solo?

(Ah Margaret Mead . . . às vezes você sonha com Samoa?)

Os robôs argumentam como distribuir nossa Mãe Terra
Para durar um pouco mais
          como abutres batendo as asas
Arrotando, gorgolejando,
          ao lado de um Alce moribundo.

“No outro lado, está deitado um cavaleiro morto–
Vamos voar até ele e comer seus olhos
                      com um down
          derry derry derry down down. “

                      Uma coruja cintila na sombra
                      Um lagarto levanta na ponta dos pés
                                  respirando pesado
                      As baleias giram e reluzem
                                  mergulham e
                      Assovia, e sobem de novo
                      Fluindo como planetas que respiram

                      Nas espirais espumantes

                      De luz viva.

                                              Estocolmo: solstício de verão 40072

§

Ninguém deve falar a um caçador habilidoso sobre o que é proibido pelo Buda

                                                          –Hsiang-yen

Uma raposa cinza, fêmea, quatro quilos
um metro de comprimento com a cauda
A pele do dorso esfolada (Kai
nos lembrou de cantar o Shingyo antes)
pele gelada, enrugada; e o cheiro almiscarado
misturado com o corpo morto começando a cheirar.

Conteúdo estomacal: um esquilo-terrestre inteiro bem mastigado
mais um pé de lagarto
e em algum lugar do interior do esquilo-terrestre
um pedaço de papel alumínio.

O segredo.
e o segredo escondido lá no fundo disso.

Fogo é uma velha história
Eu gostaria,
com um útil senso de ordem,
com respeito pelas leis
da natureza,
de ajudar minha terra
com uma queimada, uma quente e limpa
queimada.
          (as sementes de manzanita só abrirão
          depois que um incêndio ocorrer
          ou uma vez espalhada por um urso)

E então
seria mais
como,
quando pertencia aos índios

Antes.

§

O Caminho do Oeste, subterrâneo

O cedro-dividido
salmão defumado
dias nublados do Oregon,
florestas espessas de abeto.

                      Cabeças de UrsoNegro          colina acima
                      No condado de Plumas,
                      fundo redondo escorrendo pelos salgueiros–

A Mulher do Urso move-se costa acima

                      onde arbustos de amoras
                      vagueiam nos regatos.

E ao redor da curva das ilhas
Vulcões brumosos
em direção ao norte do Japão. Os ursos
& lanças de peixes dos Ainu.
Gyliak.
Curandeiro com visão de cogumelos
Tambor plano sozinho
de muito antes da China.

Mulheres com tambores que voam sobre o Tibete.

Seguindo as florestas a oeste, e
rolando, seguindo a savana
rastreando ursos e cogumelos,
comendo bagas todo o caminho.
Na Finlândia por fim tomou um banho:
                      como a Tenda de Suor de sequóia no Klamath–
todos os finlandeses em mocassins e
chapéus pontudos com manchas brancas,
urtigas, armadilhas, banhos,
cantando de mãos dadas, enquanto

gangorrando em um banco, uma visão de amor–

Karhu-Bjorn-Braun-Bear

                      [clarão arco-íris grande nuvem árvore
                                  diálogos de aves]

Europa.         ‘O Oeste.’
os ursos se foram
                                              exceto Brunhilde?

ou as deusas mais antigas mais selvagens renascidas–vão correr
          as ruas da França e da Espanha
          com armas automáticas–
          na Espanha,
Ursos e Bisão,
Mãos Vermelhas com dedos faltando,
Labirintos de cogumelos vermelhos;
labirintos relâmpagos,
Pintados em cavernas,

Subterrâneos.

§

Os mortos ao lado da estrada

Como um grande Falcão-de-cauda-vermelha
          veio deitar–todo rígido e seco–
                      na margem da
                                  Interestadual 5?

Suas asas para leques

Zac esfolou um gambá com a cabeça esmagada
          lavou a pele em gasolina; ela pende,
                      curtida, na tenda dele

Cozido de alce no Halloween
          atingido por um caminhão na rodovia quarenta e nove
                      oferecer farinha de milho pela boca;
                                  esfolá-lo.

Caminhões de toras circulam com combustível fóssil

Nunca vi um Guaxinim até que encontrei um na estrada:
          tirei a pele dele e deixei as unhas dos pés
                      as solas das patas, o nariz e os bigodes;
                                  está de molho em água e sal
                                  salmoura de ácido sulfúrico;

ela será uma bolsa para ferramentas mágicas.

O Veado foi aparentemente baleado
          de comprido e pelo lado
                      ombro e o flanco de fora
                                  a barriga cheia de sangue

O outro ombro pode ser salvo
          se ela não ficasse muito tempo deitada–
Rezar por seus espíritos. Pedir que nos abençoem:
          as trilhas das nossas antigas irmãs
                      as estradas foram colocadas e os mataram:
                                  olhos-brilhantes-da-noite

Os mortos ao lado da estrada.

§

Primavera no Vale do Coiote

Filhotes
rolam nas folhas úmidas
Cervo, urso, esquilo.
ventos frescos varrem as
estrelas da primavera.
pedras se despedaçam
a lama profunda endurece
sob colinas pesadas.

Coisas moventes
pássaros, ervas,
deslizam pelo ar
através de olhos e ouvidos,

Vale do Coiote. Olema
na primavera.
Flor de toloache alva e solene

e muito longe no tamal
um povo perdido
flutua

em barquinhos de junco.

§

R R R M L

A própria morte,
          (Reator de Reprodução Rápida com Metal Líquido)
          está sorrindo, acenando.
Plutônio dente-fosforescente.
Sobrancelhas zumbindo.
Foice de garimpo.

Kālī dança no pau morto duro.

          Latas de cerveja de alumínio, colheres de plástico,
folheados de madeira compensada, tubo de PVC, coberturas de vinil,
          não queimam exatamente, não apodrecem totalmente,
          inundam-nos,

          roupões e trajes
          do Kālī-yüga

                      fim dos dias.

[1] A pega ou pega-rabuda (pronuncia-se o “e” fechado) é uma ave da família dos corvos, preta e branca, comum em várias regiões do Hemisfério Norte, o que inclui a costa oriental dos EUA, onde Snyder vive e trabalha. A ave costuma frequentar áreas semiurbanas e pode ser avistada nos arredores das cidades e em parques urbanos.

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