poesia, tradução

Eileen Myles (1949-), por Cesare Rodrigues e Camila Assad

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Eileen Myles é uma poeta e escritora americana, nascida em Cambridge, Massachusetts em 1949. Frequentou escolas católicas em Arlington, Massachusetts e se formou na Universidade de Massachusetts (Boston), em 1971. Foi para Nova York em 1974 com a intenção de se tornar poeta. Sua educação poética ocorreu principalmente no St. Mark’s Poetry Project, de 1975 a 1977, através de leituras e participação em workshops liderados por Alice Notley, Ted Berrigan, Bill Zavatsky e Paul Violi. Em 1977, Eileen co-editou a antologia feminista Ladies Museum, e em 1979 trabalhou como assistente do poeta James Schuyler. No mesmo ano, Eileen foi um dos membros fundadores do Los Texans Collective (junto com Elinor Nauen e Barbara McKay). De 1984 a 1986, Eileen foi diretora artística do St. Mark’s Poetry Project. Os outros livros de Myles incluem Snowflake / different streets (2012), Inferno: A Poet’s Novel (2010), The importance of being Iceland: Essays in Art (2009), Sorry, Tree (2007), Tow (2005, com Larry R Collins), Skies (2001), on my way (2001), Cool for You (2000), School of Fish (1997), Maxfield Parrish (1995), Not Me (1991) e Chelsea Girls (1994). Em 1995, editou, juntamente com Liz Kotz, The New Fuck You: Adventures of Lesbian Reading. Como poeta e jornalista de arte, Eileen contribuiu para um grande número de publicações, incluindo Art Forum, The New Yorker, Harpers, Parkett, The Believer, Vice, Cabinet, The Nation, TimeOut, The New York Times, Paris Review, AnOther Magazine e The Poetry Project Newsletter. É ativista radical e militante dos direitos das mulheres e LGBT+, tendo inclusive conduzido uma campanha “abertamente feminina” à presidência da República americana em 1991-1992. É professora emérita na UC San Diego, onde lecionou por cinco anos. Eileen Myles acumula uma grande variedade de premiações e nomeações, incluindo Guggenheim Fellowship (2012), The Clark Prize for Excellence in Arts Writing (2015) e o Creative Capital Award, (2016). Atualmente vive em Marfa, no Texas e em Nova York onde lançou, no dia 11 de setembro, seu vigésimo quarto livro, denominado evolution. Seu trabalho ainda é inédito no Brasil.

Cesare Rodrigues e Camila Assad

* * *

 

PROFECIA

Estou brincando com o pau do diabo
é como um giz de cera
é como um gordo giz de cera queimado
estou escrevendo um poema com ele
estou escrevendo isso sob
todo aquele calor barulhento neste quarto
estou usando isto
estou usando aquele chocalho formigante
aquela luz no meio do quarto
é minha anfitriã
eu sempre tive medo de você
apavorada de que você fosse deus ou algo do tipo
eu tenho medo quando você está amarelo
acastanhado
branco tudo bem. Transparente é legal,
você não me parece familiar
minha barriga está desabrigada
desabando sobre a cintura do meu jeans como uma omelete
é bom haver algo a respeito de se sentir gorda
o que existe mesmo é a falta de vazio
estou almejando aquela sensação de vazio
indo buscar um pouco dela
e depois eu volto

PROPHESY

I’m playing with the devil’s cock
it’s like a crayon
it’s like a fat burnt crayon
I’m writing a poem with it
I’m writing that down
all that rattling heat in this room
I’m using that
I’m using that tingling rattle
that light in the middle of the room
it’s my host
I’ve always been afraid of you
scared you’re god and something else
I’m afraid when you’re yellow
tawny
white it’s okay. Transparent cool
you don’t look like home
my belly is homeless
flopping over the waist of my jeans like an omelette
there better be something about feeling fat
what there really is is a lack of emptiness
I’m aiming for that empty feeling
going to get some of that
and then I’ll be back

[de Evolution, 2018]

§

 

UM POEMA AMERICANO

Nasci em Boston em
1949. Nunca quis que
soubessem, de
fato, passei a melhor
parte da minha vida adulta
tentando varrer a infância
pra debaixo do tapete
e ter uma vida que
fosse claramente só minha,
independente do
destino histórico da
minha família. Vocês podem
imaginar como é
ser um deles,
ter sido criada como um deles,
falar como um deles,
ter as vantagens
de ter nascido naquela
rica e poderosa
família americana. Estudei
nas melhores escolas,
tive todos os tipos de tutores
e treinadores, viajei
pra todo canto, conheci os famosos,
os controversos e
os não tão admiráveis
e sabia desde
muito nova que
se houvesse alguma
possibilidade de escapar
do destino coletivo dessa famosa
família de Boston, eu
tomaria esse caminho e
assim fiz. Peguei
o Amtrak para Nova
York no início dos
anos 70 e acho que
poderia dizer que
meus anos disfarçada
começaram. Pensei,
Bem, vou ser poeta.
O que poderia ser mais
tolo e obscuro.
Virei lésbica.
Todas as mulheres da minha
família parecem
sapatão, mas é realmente
atentar contra a pátria
quando você assume.
Carregando essa ignominiosa
pose eu vi e
aprendi e
estou começando a acreditar que
não há como escapar da
história. Uma mulher
com quem estou tendo
um caso ultimamente disse
sabe você parece
uma Kennedy. Senti
o sangue subir nas
bochechas. As pessoas
sempre riem do
meu sotaque de Boston
confundindo “large” com
“lodge”, “party”
com “potty”. Mas
quando essa mulher
desavisada invocou pela
primeira vez meu
sobrenome
eu percebi que a minha máscara
tinha caído. Sim, eu sou,
eu sou uma Kennedy.
Minhas tentativas de permanecer
disfarçada não funcionaram
tão bem. Começando como
uma humilde poeta
rapidamente cheguei ao
topo da profissão,
assumindo uma posição de
liderança e honra.
É certo que uma
mulher me chame
pra sair agora. Sim,
sou uma Kennedy.
E estou
às suas ordens.
Vocês são os Novos Americanos.
Os sem-teto estão vagando
pelas ruas das maiores cidades
da nossa nação. Homens
desabrigados com AIDS entre
eles. Isso está certo?
Que não haja casas
para os desabrigados, que
não haja assistência médica
gratuita para esses homens. E mulheres.
Que recebam
– enquanto morrem –
a mensagem de que este não é o lar deles?
E como estão seus
dentes hoje? Você
tem recursos para consertá-los?
Quanto custa o seu aluguel?
Se a arte é a mais alta
e honesta forma
de comunicação de
nossos tempos e a jovem
artista não está mais apta
a vir até aqui falar
para a sua época… Sim, eu poderia,
mas isso foi há 15 anos
e lembre-se — como designado,
sou uma Kennedy.
Não deveríamos todos ser Kennedys?
As maiores cidades desta nação
são o lar dos homens de
negócios e a casa dos
artistas ricos. Pessoas com
dentes bonitos, que não estão
nas ruas. O que faremos
quanto a este dilema?
Ouçam, eu fui educada.
Aprendi sobre a Civilização
Ocidental. Vocês sabem
qual é a mensagem da Civilização
Ocidental? Estou sozinha.
Estou sozinha esta noite?
Acho que não. Sou
a única com gengivas sangrando
esta noite. Sou a única
homossexual nesta sala
esta noite. Sou a única
cujos amigos morreram,
e estão morrendo agora.
E minha arte não pode
ser apoiada até que seja
gigantesca, maior do que a de
todos os outros, confirmando
o sentimento da audiência de que estão
sozinhos. De que sozinhos são
bons, aptos a
comprar os convites
para ver esta Arte.
Estão trabalhando,
são saudáveis, devem
sobreviver e são
normais. Vocês estão
normais esta noite? Todos
aqui, estamos todos normais.
Não é normal para
mim ser uma Kennedy.
Mas não tenho mais
vergonha, não estou mais
sozinha. Não estou
sozinha esta noite porque
somos todos Kennedys.
E eu sou sua Presidenta.

AN AMERICAN POEM

I was born in Boston in
1949. I never wanted
this fact to be known, in
fact I’ve spent the better
half of my adult life
trying to sweep my early
years under the carpet
and have a life that
was clearly just mine
and independent of
the historic fate of
my family. Can you
imagine what it was
like to be one of them,
to be built like them,
to talk like them
to have the benefits
of being born into such
a wealthy and powerful
American family. I went
to the best schools,
had all kinds of tutors
and trainers, traveled
widely, met the famous,
the controversial, and
the not-so-admirable
and I knew from
a very early age that
if there were ever any
possibility of escaping
the collective fate of this famous
Boston family I would
take that route and
I have. I hopped
on an Amtrak to New
York in the early
‘70s and I guess
you could say
my hidden years
began. I thought
Well I’ll be a poet.
What could be more
foolish and obscure.
I became a lesbian.
Every woman in my
family looks like
a dyke but it’s really
stepping off the flag
when you become one.
While holding this ignominious
pose I have seen and
I have learned and
I am beginning to think
there is no escaping
history. A woman I
am currently having
an affair with said
you know you look
like a Kennedy. I felt
the blood rising in my
cheeks. People have
always laughed at
my Boston accent
confusing “large” for
“lodge,” “party”
for “potty.” But
when this unsuspecting
woman invoked for
the first time my
family name
I knew the jig
was up. Yes, I am,
I am a Kennedy.
My attempts to remain
obscure have not served
me well. Starting as
a humble poet I
quickly climbed to the
top of my profession
assuming a position of
leadership and honor.
It is right that a
woman should call
me out now. Yes,
I am a Kennedy.
And I await
your orders.
You are the New Americans.
The homeless are wandering
the streets of our nation’s
greatest city. Homeless
men with AIDS are among
them. Is that right?
That there are no homes
for the homeless, that
there is no free medical
help for these men. And women.
That they get the message
—as they are dying—
that this is not their home?
And how are your
teeth today? Can
you afford to fix them?
How high is your rent?
If art is the highest
and most honest form
of communication of
our times and the young
artist is no longer able
to move here to speak
to her time…Yes, I could,
but that was 15 years ago
and remember—as I must
I am a Kennedy.
Shouldn’t we all be Kennedys?
This nation’s greatest city
is home of the business-
man and home of the
rich artist. People with
beautiful teeth who are not
on the streets. What shall
we do about this dilemma?
Listen, I have been educated.
I have learned about Western
Civilization. Do you know
what the message of Western
Civilization is? I am alone.
Am I alone tonight?
I don’t think so. Am I
the only one with bleeding gums
tonight. Am I the only
homosexual in this room
tonight. Am I the only
one whose friends have
died, are dying now.
And my art can’t
be supported until it is
gigantic, bigger than
everyone else’s, confirming
the audience’s feeling that they are
alone. That they alone
are good, deserved
to buy the tickets
to see this Art.
Are working,
are healthy, should
survive, and are
normal. Are you
normal tonight? Everyone
here, are we all normal.
It is not normal for
me to be a Kennedy.
But I am no longer
ashamed, no longer
alone. I am not
alone tonight because
we are all Kennedys.
And I am your President.

[de Not Me, 1991]

§

 

CORAÇÕES SANGRANDO

Sabe do que
eu tenho ciúmes?
Da noite passada.
Ela segurou
nós duas
em seus
grandes braços
negros
& hoje
eu seguro
entre
minhas pernas
uma boceta
trêmula.
Sangrando &
tremendo
molhada com
memórias
de pesar e alívio.
Eu não sei
por que o universo
me escolheu
para ser fêmea
tanta beleza
& dor,
tanta coisa
acontecendo
por dentro
de toda essa
mudança
em todo lugar
moedas caindo
por toda
a cama
& a morte
é um sonho.
No meio
da noite
com milhares
de amantes,
o chupão
estalando
cambaleando
a carne
profundamente na
cavidade
da noite
infinita através de
montes
de corpos
eu observo
se isso é
amor ou
guerra. A oca
bochecha
rastejante
onde
eu
nasci.

BLEEDING HEARTS

Know what
I’m jealous of?
Last night.
It held
us both
in its
big black
arms
& today
I hold
between
my legs
a shivering
pussy.
Bleeding &
shaking
wet with
memory
grief & relief.
I don’t know
why the universe
chose me
to be female
so much beauty
& pain,
so much
going on
inside
all this
change
everywhere
coins falling
all over
the bed
& death
is a dream.
Deep in
the night
with thousands
of lovers
the sucking
snapping
reeling
flesh
deep in
the cavity
of endless
night across
mounds
of bodies
I peer over
is it
Love or
war. The hollow
creeping
cheek
where
I was
born.

[de Maxfield Parrish, 1995]

§

 

SEM NOME

não ensaie
faça
de primeira

de repente
uma nuvem
azul
está no
céu

e depois
ela é o
céu

NAMELESS

don’t be rehearsing
be doing it
the first time

suddenly
a blue
cloud is
in the
sky

and then
it’s the
sky

[de Skies, 2001]

§

 

CARO ADAM

Eu disse bolo
eu disse cartola
eu disse microfone
quatro cabecinhas douradas de bebê
espera eu disse pirata fantasma
espera espera eu disse gato de olhos fechados sorrindo
ele está respondendo ai meu deus
eu pensei foda-se consigo ler isso numa maratona
ele disse Eileen smiles
ahhh posso usar isso
o sino do meu computador tocou
mesma mensagem
espera o gato está chorando aliviado
o gato é um demônio agora
o gato não está doido
o gato fazendo um jazz racializado
uh ou não minhas mãos brancas
estou falando com todo mundo agora.
e estou usando um filtro. Não, eu não estou
Reconheço que há uma
imagem minha duplicada. Só recentemente

aprendi o termo mãos de jazz
se fodemos a Pensilvânia, qual a nossa
esperança em viver em um país roubado que sempre foi roubado
e construído em grande parte por pessoas roubadas. De uma diáspora
conservadora vim poeta mestiça de Massachusetts
para deixar minha marca

amor & essas coisas e oportunidades

de falar. Não podemos desistir, estamos cheios de novas oportunidades
de descobrir o significado de resistência

nosso tempo & explodindo o interior do meu computador
estudos de veados
o telefone diz entregue
o que é.
Adam diz você viu minha barba.
Falamos de dinheiro por algum tempo
Ando em minha bicicleta. Sai fora o telefone faz ding.
É a barba dele chamando. Eu digo ah.

você tem o que eu quero.
ele diz lol
então caveira
então foguete
então peru
pistola verde
e uma chama. Eu
não sei o que responder para isso
digo bicicleta e vou.

DEAR ADAM

I said cake

I said top hat

I said microphone

four little golden baby heads

wait I said pirate ghost

wait wait I said closed eye smiling cat

he scrawled back oh my god

I thought fuck yeah I can read this at the marathon

he said Eileen smiles

ehhh I can use it

the bell of my computer rang

same message

wait the cat is crying with relief

the cat is a devil now

the cat is not mad

the cat making racialized jazz

uh or not my white hands

I’m talking to everyone now.

and I’m using a filter. No I’m not

I acknowledge that there is an
image of me twice. I only recently

learned the term jazz hands

if we fucked Pennsylvania up what is our

hope to live in a stolen country that was always stolen

and worked largely by stolen people. Out of a conservative

diaspora came I mongrel poet from Massachusetts

to make my mark

love & these things and opportunities

to speak. We can’t fall down we teem in the new opportunity
we discover what resistance means

our time & blowing up the inside of my computer

buck studies

the phone says delivered

what is.

Adam says did you see my beard.

We talk about money awhile

I ride my bike. Get off the phone goes
ding. It’s his beard calling. I go oh.

you have what I want.

he says lol

then skull

then rocket

then turkey

green pistol

and a flame. I

don’t know what to say back to that

I say bike and go.

[publicado na revista Poetry, está no livro Evolution, lançado em setembro de 2018]

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Padrão
poesia, tradução

Jennifer Franklin, por Lucio Carvalho

Jennifer Franklin é uma poeta norte-americana nascida e residente em Nova York. Formada em Inglês e Escrita Criativa pela Brown University e pela Columbia University School of The Arts, leciona e ministra oficinas de poesia no Hudson Valley Writers’ Center. Também é co-editora da Slapering Hol Press, editora dedicada a pequenas tiragens de autores emergentes. Estreou na coleção Ten New Poets, da Paris Review #141, e a seguir publicou em revistas como Pequod, The Nation, Boston Review, Salmagundi e Guernica. Publicou em 2011 o chapbook Persephone’s Ransom e, em 2015, o livro Looming, que recebeu o 14th Annual Editor’s Prize da Elixir Press. Em 2013, através do livro Far from the Tree, de Andrew Solomon, trechos de sua poesia, marcada pela confluência da descoberta do autismo em sua filha de dois anos e seus estudos em mitologia greco-latina, apareceram pela primeira vez no Brasil. Os poemas aqui traduzidos estão publicados em Looming.

Lucio Carvalho nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1971.  Tradutor bissexto, publicou a coletânea de contos A aposta, o livro de artigos e ensaios Inclusão em pauta e o livro de poemas Falso alarde. Há uma década, é redator e co-editor da revista Inclusive – Inclusão e Cidadania. Escreve ficção, poesia, crítica e artigos jornalísticos para diversas publicações.

* * *

Gostaria que o meu amor morresse
     a partir de Beckett

Gostaria que o meu amor morresse
Ou pelo menos que eu não te amasse

Tanto. Se eu pudesse levar meu coração
Até ao inverno, eu não poderia fazer isso

Por mais ninguém. Se você não sorrisse
Ao dormir, ou não tocasse meu rosto

Com ternura, eu poderia ter ido embora
Desde quando você partiu através

Das portas do meu coração camuflado
Sem olhar para trás. Eu gostaria de não amá-la

Tanto. Gostaria que o meu amor morresse
Então eu não teria que matar tudo o que há

Em torno de mim. Então eu não teria de ser
A caçadora que me tornei. Mas você

Não vai me liberar do seu abraço poderoso.
Você me faz permanecer a seu lado com o seu

Braço delicado em meu pescoço. Ele não parece
Forte nem para pegar um animal pequeno, mas ele é.

I would like my love to die
after Beckett

I would like my love to die
Or at least that I didn’t love you

So much. If I could turn my heart
To winter, I wouldn’t need to do this

To the earth. If you didn’t smile
In your sleep or touch my face

With tenderness, I could walk away
From you when you left through

The trap door of my hosta-lined heart
Without looking back. I wish I didn’t love

You so much. I would like my love to die
So I wouldn’t have to murder everything

Around me. So I wouldn’t have to be
The hunter I have become. But you’re

Not going to release me from your unnatural
Embrace. You pin me beside you with your

Thin arm around my neck. It doesn’t look
Strong enough to hold a small animal; but it is.

§

Amazona ferida

Com seu rosto sereno e inclinado que não
denunciará a dor, posso procurá-la outra vez.

Você sempre a amou – a primeira obra de arte
Que você conheceu pelo nome. Toda a semana

Você me trouxe até ela. Desatenta pelo
Vislumbre do mármore e de seu tamanho

Eu não sabia que você estava mostrando a quem
Eu precisava tornar-me para protegê-la

De tudo o que não você não entendia –
A mulher poderosa surgindo acima de tudo,

Tendo de aprender a sentir cada açoite, cada corte
E continuar em pé, com olhos vazios,

Registrando tudo. Você sabia que ela era
A mãe que você precisava, que desnudaria

Seu peito para você e sangraria sem demonstrar
Tristeza nem arrependimento. Eu só espero

Ter aprendido suas lições o quanto antes e você
Não tenha me visto derramar-me em lágrimas. Eu

Deveria pairar sobre você como uma rocha,
Apoiando-me em uma coluna, com o braço

Sobre a cabeça e a ferida estancada. Você
Me quer assim, o terror branco ocultando meus olhos

Vazios, o freio do animal amarrando meu traje rasgado –
Nua, para que visse o côncavo do meu vazio o bastante

Para suportar o peso de todo o seu temor. Eu finjo
Ser ela, em pé sobre as pernas fortes que se recusam

A sustentar-me. Ela não pode amá-la. Se eu tivesse
Toda essa força, você estaria perdida. Ela não iria

Permitir que você enterrasse a cabeça sob o braço amputado,
Em seu peito frio, e cantasse sua canção indistinguível.

Wounded Amazon

With her serene, slanted face that will
Not betray pain, I can look at her again.

You always loved her—the first work
Of art you knew by name. Each week

You brought me to her. Distracted
By joy at seeing her tall marble form,

I didn’t realize you were showing me
Whom I needed to become to protect

You from all you did not understand—
The strong woman looming above life,

Having learned to feel every lashing,
Every cut and remain poised, blank eyes

Taking everything. You knew she was
The mother you needed who could bare

Her breast for you and bleed without
Expression of grief or regret. I wish

I learned your lessons sooner and you
Had not seen me shed so many tears. I should

Have stood above you like a rock, leaning
On a pillar for strength, my arm above

My head and bloodless wound. You want me
This way, my white terror masking my empty

Eyes, horse’s bridle belting my ripped garb—
Naked for you to see—my back concave enough

To hold the weight of all your worries. I pretend
To be her, standing on strong legs that refuse

To hold me up. She cannot love you. If I were
That strong, you would be lost. She would not

Let you burrow your head below her cut, cold
Breast and sing your indistinguishable song.

§

O corpo de minha filha

Se você a visse, pensaria em como ela é linda.
Estranhos me param na rua para dizê-lo.

Se falasse com ela, veria que essa beleza
Não significa nada. Sua visão se desloca para os pombos

Na calçada. Seu contato com os olhos torna-se
tão precário quanto o dela e escapam lentamente

Com diferentes graus de graça. Eu nunca sei
O quanto dizer para explicar o desgosto.

Às vezes, lhes digo. Mais frequentemente fico
Em silêncio. Com o sorriso dela me cauterizando, firmo

Sua mão por todo o caminho até em casa, embalando-nos.
As mãos da florista entregam-lhe uma rosa já morta que ela guarda

Suavemente, sem rasgar as pétalas, como ela faz
Com as tulipas que olham para nós com sua expressão insípida,

Fingindo que podem aguentar o meu sofrimento
Em seus copos alongados, porque eu os conhecia

Antes de conhecer a dor. Eles não entendem que
Estão arruinados para mim agora. Eu plantei quinhentos

Bulbos que, como ela, germinaram dentro de mim, seu cérebro já
Formado por fios de nosso dna danificado

Ou qualquer outra coisa que os médicos não entendem.
Após o banho, ela se enrola em mim para ninar –

A única vez durante o dia que seu pequeno corpo permanece quieto.
Então eu canto, respiro nos cabelos lavados e penso

Nos esqueletos no Musée de Préhistoire
Em Les Eyzies. Os ossos da mãe e do bebê

Deitados em uma caixa de vidro na mesma posição em que estamos
Agora. Eles foram enterrados em uma posição incomum:

A criança enrolada na curva do braço da mãe.
Os arqueólogos estão intrigados com a posição.

Isso não me surpreende de todo. Seria fácil
Morrer dessa maneira, cada uma de nós em seu último suspiro

Com rimas infantis em nossos lábios abertos
E a promessa de um sono tranquilo.

My Daughter’s Body

If you saw her, you would think she was beautiful.
Strangers stop me on the street to say it.

If they talk to her they see that this beauty
Means nothing. Their sight shifts to pigeons

On the sidewalk. Their eye contact becomes
As poor as hers. They slip away slowly,

With varying degrees of grace. I never know
How much to say to explain the heartbreak.

Sometimes, I tell them. More often,
I remain silent. As her smile sears me, I hold

Her hand all the way home from the swings.
The florist hands her a dying rose and she holds it

Gently without ripping the petals like she does
To the tulips that stare at us with their insipid faces,

Pretending that they can hold my sorrow
In their outstretched cups because I knew them

Before I knew grief. They do not understand that
They are ruined for me now. I planted five hundred

Bulbs as she grew inside of me, her brain already
Formed by strands of our damaged DNA

Or something else the doctors don’t understand.
After her bath, she curls up on me for lullabies—

The only time during the day that her small body is still.
As I sing, I breathe in her shampooed hair and think

Of the skeletons in the Musée de Préhistoire
In Les Eyzies. The bones of the mother and baby

Lie in a glass case in the same position we are
In now. They were buried in that unusual pose,

Child curled up in the crook of the mother’s arm.
The archaeologists are puzzled by the position.

It doesn’t surprise me at all. It would be so easy
To die this way—both of us taking our last breaths

With nursery rhymes on our open lips
And the promise of peaceful sleep.

Padrão
poesia, tradução

Frank O’Hara (1926-1966), por Lucas Túlio

ohara

Frank O’Hara (1926 – 1966) foi, entre outras coisas, um poeta norte-americano fundador do grupo Escola de Poetas de Nova Iorque (New York School of Poets) junto a John Ashbery, Kenneth Koch, James Schuyler e Barbara Guest. Nasceu em Baltimore, embora os anos mais produtivos de sua vida terem acontecido em Nova Iorque, onde a literatura, a música, a pintura e cinema convergiam em único ponto nos poemas de O’Hara. Por ser muito ativo na área das artes, na década de 60 Frank passou a ser um dos curadores do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Para ele o poema deveria divertir. Dos poemas abaixo, dois são do livro Lunch Poems (1964) – o poeta usava o horário de almoço para caminhar pela cidade em busca de situações e temas para seus poemas. Apenas “Manhã” é de The Collected Poems of Frank O’Hara (1971). Morreu prematuramente, em decorrência de um atropelamento por um buggy em Fire Island. Foi levado ao hospital, mas morreu devido aos ferimentos.

Lucas Túlio

* * *

 

Ontem lá pra baixo no canal

Você diz que tudo é bem simples e interessante
isso me faz sentir muito melancólico, como ler um bom romance russo faz
estou terrivelmente entediado
às vezes é como ver um filme ruim
outros dias, com frequência, é como ter uma doença aguda nos rins
deus sabe que não tem nada a ver com o coração
nada a ver com pessoas mais interessantes que eu
blá blá
é um pensamento divertido
como uma pessoa pode ser mais divertida que si mesma
como alguém falha em ser
posso pegar emprestado sua quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência prata
se não dá pra ser interessante ao menos dá pra ser uma lenda
(mas eu odeio toda essa merda)

Yesterday down at the canal

You say that everything is very simple and interesting
it makes me feel very wistful, like reading a great Russian novel does
i am terribly bored
sometimes it is like seeing a bad movie
other days, more often, it’s like having an acute disease of the kidney
god knows it has nothing to do with the heart
nothing to do with people more interesting than myself
yak yak
that’s an amusing thought
how can anyone be more amusing than oneself
how can anyone fail to be
can i borrow your forty-five
i only need one bullet preferably silver
if you can’t be interesting at least you can be a legend
(but i hate all that crap)

§

 

Manhã

Eu tenho que te dizer
como eu te amo sempre
penso nisso em manhãs
cinzas com a morte

em minha boca o chá
nunca está quente
o bastante nessa hora
o cigarro seco o roupão bordô

arrepia-me preciso de você
e olho para fora da janela
vendo a neve silenciosa

À noite na doca
os ônibus brilham como
nuvens e estou sozinho
pensando em flautas

sinto sua falta sempre
quando vou à praia
a areia molhada com
lágrimas que parecem minhas

embora eu nunca chore
e guarde você no meu
coração com um ânimo
tão sincero que te faria orgulhoso

o estacionamento está
lotado e eu estou parado
chacoalhando as chaves o carro
está vazio como uma bicicleta

o que você está fazendo
agora onde você comeu
no almoçou e tinham
muitas anchovas é

difícil pensar em você
sem mim na frase
você me deprime
quando está sozinho
noite passada as estrelas
eram numerosas e hoje
a neve é o cartão de visita
delas não serei cordial

não há nada que me
distraia a música é só
palavras cruzadas
você sabe como é
quando se é o único
passageiro se há algum
lugar mais distante de mim
imploro que não vá

Morning

I’ve got to tell you
how I love you always
I think of it on grey
mornings with death

in my mouth the tea
is never hot enough
then and the cigarette
dry the maroon robe

chills me I need you
and look out the window
at the noiseless snow

At night on the dock
the buses glow like
clouds and I am lonely
thinking of flutes

I miss you always
when I go to the beach
the sand is wet with
tears that seem mine

although I never weep
and hold you in my
heart with a very real
humor you’d be proud of

the parking lot is
crowded and I stand
rattling my keys the car
is empty as a bicycle

what are you doing now
where did you eat your
lunch and were there
lots of anchovies it

is difficult to think
of you without me in
the sentence you depress
me when you are alone

Last night the stars
were numerous and today
snow is their calling
card I’ll not be cordial

there is nothing that
distracts me music is
only a crossword puzzle
do you know how it is

when you are the only
passenger if there is a
place further from me
I beg you do not go

§

 

ohara1

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Padrão
poesia, tradução

Wallace Stevens (1879-1955), por Alessandro Funari

wallace-stevens-portrait

É notável como Wallace Stevens (1879 – 1955) imprime na materialidade de seus poemas o assunto abordado por eles. Usando como exemplo alguns poemas aqui trabalhados, vemos como em The Load of Sugar-Cane, não só o correr das águas do rio em questão carrega consigo versos inteiros (como se pode notar nas repetições, em estrofes diferentes, de ‘like water flowing’ e ‘under the rainbows’), mas leva também fonemas, como o g de ‘going’, que percorre o ‘glade-boat’, atravessa a estrofe e continua a caminhar pela ‘green saw-grass’. O mesmo ocorre com o w de ‘While the wind still whistles’ e, porque não, com o som de ‘Load’, no título, que adentra o poema e termina o primeiro verso com ‘boat’ (que tentei manter com ‘Açúcar’ e ‘sulcar’).

Em Anecdote of the Jar, temos o ritmo nos dizendo o que está semanticamente explicitado. Os jambos caminham regulares até o surgimento da palavra ‘slovenly’, no terceiro verso: ‘desalinhado’, ‘em desordem’, e é exatamente assim que o ritmo se comporta. O que estava em ordem agora está revolto.

Outro exemplo é a sexta parte de Thirteen Ways of Looking at a Blackbird, que traz ainda outro aspecto, desta vez tocando a materialidade das próprias letras. Ao desenhar uma cena de inverno, temos ‘Icicles filled the long window / With barbaric glass.’ Com o uso de letras de tipografia alongada (I, i, l, f, ll, t, h, l, d) ou que se afunilam (os w de ‘window’ e de ‘With’), é possível ver os próprios sincelos dependurados do batente da janela. Outra indicação do frio é a repetição do som ‘brrr’ em ‘barbaric’, uma exclamação dicionarizada pelo Oxford English Dictionary.

 

Alessandro Funari

* * *

 

Treze Maneiras de Olhar para um Melro

I
Em vinte montanhas nevadas,
Só o que se movia
Era o olho do melro.

II
Eu estava dividido em três,
Como os trevos
Entre os quais estão três melros.

III
O melro rodopiou nos ventos de outono.
Era uma pequena parte da pantomima.

 

IV
Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.

V
Não sei o que prefiro,
Se a beleza das inflexões
Ou a beleza das insinuações,
Se o assovio do melro
Ou o logo depois.

VI
Sincelos atulham a longa janela
Com vidro barbárico.
A sombra do melro
A cruzou diversas vezes.
A aura
Traçou na sombra
Uma causa indecifrável.

VII
Ó homens magros de Haddam,
Porque imaginais aves doiradas?
Não vedes como o melro
Caminha por entre os pés
Das damas à vossa volta?

VIII
Sei de acentos nobres
E de ritmos lúcidos, inescapáveis;
Mas sei, também,
Que o melro está envolvido
No que sei.

IX
Quando o melro voou para longe,
Demarcou a margem
De um dentre muitos círculos.

X
Ao avistar os melros
Voando à luz verde,
Até pécoras da eufonia
Gritariam estrídulas.

XI
Ele cruzou Connecticut
Em um coche de vidro.
Certa vez, tomou-lhe um medo,
Pois equivocou
A sombra de sua bagagem
Por um melro.

XII
O rio está se movendo.
O melro deve estar voando.

XIII
Era noite a tarde inteira.
Estava nevando
E iria nevar.
O melro pousado
Nos galhos do cedro.

Thirteen Ways of Looking at a Blackbird

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.

II
I was of three minds,
Like a tree
In which there are three blackbirds.

III
The blackbird whirled in the autumn winds.
It was a small part of the pantomime.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.

V
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.

VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?

VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.

§

 

Anedota do Jarro

No Tennessee pousei um jarro;
Arredondado, sobre um monte.
E fez a selva revolta
Cercar o monte.

A selva se elevou em seu entorno,
E se espalhou, não mais selvagem.
O jarro era redondo sobre o campo
Era alto e de um porto em ar.

Dominou todo o lugar.
O jarro era cinza e vulgar.
Não dava ave ou árvore.
Como nada mais no Tennessee.

Anecdote of the Jar

I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.

The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.

It took dominion everywhere.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.

§

 

Infanta Marina

Seu terraço era a areia
E as palmeiras e o poente.

Fez dos meneios de sua mão
Gestos grandiosos
Do seu pensar.

O plissar das plumas
Desta criatura da noite
Veio a ser devaneio de velas
Sobre o mar.

E assim andava
Nas andanças de seu leque,

Partilhando do mar,
Partilhando da noite,
Enquanto fluíam em derredor,
E emitiam seu ruído derradeiro.

Infanta Marina

Her terrace was the sand
And the palms and the twilight.

She made of the motions of her wrist
The grandiose gestures
Of her thought.

The rumpling of the plumes
Of this creature of the evening
Came to be sleights of sails
Over the sea.

And thus she roamed
In the roamings of her fan,

Partaking of the sea,
And of the evening,
As they flowed around
And uttered their subsiding sound.

§

 

O Homem de Neve

É preciso uma mente de inverno
Para ver a geada e os galhos
Dos pinheiros cobertos de neve;

E ter-se há tempos no frio
Para olhar o cedro escarpado em gelo,
E abetos brutos no brilho distante

Do Sol de janeiro; e não pensar
Em toda a desgraça no ruído do vento,
No ruído de algumas folhas,

Que é o próprio ruído da terra
Cheia do mesmo vento,
Que sopra no mesmo ponto nu

Para o ouvinte, que ouve na neve,
E, ele nada, contempla
Nada que não está lá e o nada que está.

The Snow Man

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.

§

 

A Carga de Cana-de-Açúcar

O sulcar da jangada
É como água corrente;

Como água corrente
Pelos juncos de jade
Sob os arco-íris;

Sob os arco-íris
Que são como aves,
Revoando, ataviadas,

Sempre que silvam sopros,
Como as saracuras,

Quando se alçam
Ao turbante vermelho
Do barqueiro.

The Load Of Sugar-Cane

The going of the glade-boat
Is like water flowing;

Like water flowing
Through the green saw-grass
Under the rainbows;

Under the rainbows
That are like birds,
Turning, bedizened,

While the wind still whistles
As kildeer do,

When they rise
At the red turban
Of the boatman.

§

 

Hibisco nas praias soníferas

Te digo, Hernando, que naquele dia
A mente flanava como as falenas
Por entre as flores além da areia aberta;

Que qualquer ruído que uma onda fazia
Sobre as algas e nas cobertas penhas
Não perturbava nem o mais vão ouvido.

E eis que aquela infernal falena,
Há pouco recolhida contra o azul
E o corado púrpura do mar vadio,

Que cochilara pelas praias ósseas,
Alheia ao grulhar do mover das águas,
Soergueu-se aspersa perseguindo o rubro-flama

Com amarelo pólen – rubro tão rubro
Quanto o emblema sobre o velho café –
E por lá flanou toda a tarde estúpida.

Hibiscus on the Sleeping Shores

I say now, Fernando, that on that day
The mind roamed as a moth roams,
Among the blooms beyond the open sand;

And that whatever noise the motion of the waves
Made on the sea-weeds and the covered stones
Disturbed not even the most idle ear.

Then it was that that monstered moth
Which had lain folded against the blue
And the colored purple of the lazy sea,

And which had drowsed along the bony shores,
Shut to the blather that the water made,
Rose up besprent and sought the flaming red

Dabbled with yellow pollen – red as red
As the flag above the old cafe –
And roamed there all the stupid afternoon.

Padrão
poesia, tradução

Jack Spicer, por Victor H. Azevedo

Jack Spicer nasceu em janeiro de 1925, em Los Angeles, Califórnia.

Uma boa introdução sobre o poeta, feita pelo Ricardo Domeneck, já foi feita na revista Modo de Usar (http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2008/06/jack-spicer-1925-1965.html), por isso não vou me ater a arremedar uma outra introdução sobre o poeta.

Entretanto, Spicer era um tipo interessante, de uma poética igualmente interessante, mas ainda sim pouco traduzido ao português – traduções dele temos as da Patrícia Lino (http://makelove-notbeds.blogspot.com.br/2014/07/jack-spicer-tres-poemas-three-poems.html ), do já mencionado Ricardo Domeneck, do Guilherme Gontijo Flores (http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2015/02/traducao-de-guilherme-gontijo-flores.html) e algumas minhas (http://guarita.tumblr.com/post/159372718350/poemas-de-amor-por-jack-spicer).

Nessas traduções abaixo selecionei alguns poemas em fases diferentes da sua vida, a exemplo dos escritos durante a Berkeley Renaissance (“UM POEMA PARA O DADA DAY AT THE PLACE, 1 ABRIL, 1955” e “NÓS ACHAMOS O CORPO DIFÍCIL DE FALAR…”), alguns textos do seu livro After Lorca (“BALADA DA GAROTINHA QUE INVENTOU O UNIVERSO”, “PASSEIO DE BUSTER KEATON”, “UM DIAMANTE” e uma “carta” enviada a Federico García Lorca, e QUATRO POEMAS PARA RAMPARTS”, presente no seu livro, BOOK OF MAGAZINE VERSE.

– victor h. azevedo

* * *

  “Nós achamos o corpo difícil de falar…”

Nós achamos o corpo difícil de falar,
O rosto muito duro de entreouvir,
Achamos que olhos ao beijar gaguejam
E essas pesadas virilhas erguidas
Balbuciam como idiotas.
Sexo é uma dor na boca. O
Rangido que os nossos corpos fazem
Quando eles esfregam suas bocas umas nas outras
Tentando falar.
Como crianças caladas abraçamos
Doendo juntos.
E o amor é um vazio no ouvido. Como cura
Nós colocamos um rosto contra o ouvido
E o escutamos como se fosse uma concha,
acalentada por seus rugidos.
Nós achamos o corpo difícil, e falamos
através da sua parede como estranhos.

“We find the body difficult to speak . . .”

We find the body difficult to speak,
The face too hard to hear through,
We find that eyes in kissing stammer
And that heaving groins
Babble like idiots.
Sex is an ache of mouth. The
Squeak our bodies make
When they rub mouths against each other
Trying to talk.
Like silent little children we embrace,
Aching together.
And love is emptiness of ear. As cure
We put a face against our ear
And listen to it as we would a shell,
Soothed by its roar.
We find the body difficult, and speak
Across its wall like strangers.

§

QUATRO POEMAS PARA RAMPARTS

1.

Tire essas palavras da sua boca e as coloque dentro do coração. Se não
existe
Um Deus não acredite Nele. “Credo
Quia absurdum,” cria guerras e amores vazios e era
até mesmo em tempos tertulianos uma heresia. Vi ele como uma tartaruga
rastejando pelo vasto deserto da incredulidade.
“As sombras do amor não são as sombras de Deus.”
Essa é a segunda heresia criada pelo homem primevo de Piltdown na
caverna de Platão. Mesmo
O fogo moldando uma sombra ou não.
Balões vermelhos, laranjas e roxos, todos soltos
juntos em um céu chuvoso.
O céu onde os homens choram pelos homens. E sobre o céu uma lua
ou um astronauta sorri na televisão. O amor
Por Deus ou pelo homem transformado em distância.
Essa é a terceira heresia. Dante
foi o primeiro escritor de ficção cientifica. Beatrice
Cintilando no espaço infinito.

2.

Um papa quase morrendo de soluçar. Ou São Pedro
Contando à polícia, “Juro por Deus que não conheço esse homem,”
até que o galo cante três vezes e eles o soltem.
“Uma pedra
Sobre a qual eu construirei uma igreja.”
E ainda está lá. Aceitando a divindade como Jesus aceitou
a humanidade. A contragosto, sem paixão, mas o ponto
mais importante para ver no mundo.
Não acreditamos muito nisso. Deus é uma inverdade palpável. Coisas
espalhando-se pelo universo como lições.
Mas Jesus morreu e retornou com buracos nas mãos.
Como o clima,
E é, espero, para ser alcançado, e é algo para se rezar
E é o Filho de Deus.

3.

Na rubra aurora do Apocalipse (São João não é o Departamento de
Defesa) posso ouvir os soldados se movendo. Papa João
Vestido como o Anticristo é o primeiro a sair do mato
ou seja lá qual selva.
“Pacem in terris,” ele brada como se estivesse cantando “The Eyes Of
Texas Are Upon You” e é atingido imediatamente na cabeça pelo tiro
de um revólver estrondoso.
Há tantos deles nos matos ou em Seja Lá Quais Selvas
(São João) que mal valem a pena serem mortos. Eles são
franco-atiradores disfarçados com os rostos da terra que deveríamos
estar protegendo. Seus japas parecem com nossos japas. Papa João
Parece morto mesmo quando sua fantasia cai.

4.

Mecanicamente nos movemos
no Universo de Deus, Incapazes de fazê-lo
Sem a graça ou ódio Dele.
O centro do ser. Como quase um centro de computadores,
sem graça. Um mundo enfadonho
Sem Seu ódio.
Um centro do ser — não a existência de robôs.
Se Ele quisesse, Ele poderia fazer de uma máquina um Cristo, colocá-lo
na segunda pessoa que é Você.
Por que ele se incomodou com o homem é um mistério que até Jó se Perguntou.
Deus tornando-se humano, tornou-se um assunto para antropólogos,
para história, e todos as outros, miseráveis coceiras de um animal
que de repente (tão de repente?) recebe uma alma.
Quando olho nos olhos e almas daqueles daqueles que amo, eu
(em uma floresta escura entre graça e ódio) duvido de Sua
sabedoria.
Cur Deus Homo, era o título do livro de São Anselmo. Sem
pontos de interrogação.
Graça!

FOUR POEMS FOR RAMPARTS

1.
Get those words out of your mouth and into your heart. If
there isn’t
A God don’t believe in Him. “Credo
Quia absurdum,” creates wars and pointless loves and was
even in Tertullian’s time a heresy. I see him like a tortoise
creeping through a vast desert of unbelief.
“The shadows of love are not the shadows of God.”
This is the second heresy created by the first Piltdown man in
Plato’s cave. Either
The fire casts a shadow or it doesn’t.
Red balloons, orange balloons, purple balloons all cast off
together into a raining sky.
The sky where men weep for men. And above the sky a moon
or an astronaut smiles on television. Love
for God or man transformed to distance.
This is the third heresy. Dante
Was the first writer of science-fiction. Beatrice
Shimmering in infinite space.

2.
A pope almost dying of hiccups. Or St. Peter
Telling the police, “Honest to God I don’t know this man,”
until the cock crowed three times and they released him.
“A rock
Upon which I will build a church.”
And yet it’s there. Accepting divinity as Jesus accepted
humanness. Grudgingly, without passion, but the most
important point to see in the world.
We do not quite believe this. God is palpably untrue. Things
spreading over the universe like lessons.
But Jesus dies and comes back again with holes in his hands.
Like the weather,
And is, I hope, to be reached, and is something to pray to
And is the Son of God.

3.
In the red dawn of the Apocalypse (St. John’s not the Defense
Department’s) I can hear the soldiers moving. Pope John
Dressed like the Antichrist is in first to come out of the bushes
or whatever jungle.
“Pacem in terris,” he shouts as if he were singing “The Eyes Of
Texas Are Upon You.” He is immediately shot in the head
by a loud revolver.
There are so many of them in the bushes or Whatever Jungle
(St. John’s) that they are hardly worth killing. They are
snipers disguised with the faces of the land we ought to be
protecting. Their gooks look like our gooks. Pope John
Looks dead even when his costume has fallen off.

4.
Mechanicly we move
In God’s Universe, Unable to do
Without the grace or hatred of Him.
The center of being. Like almost, without grace, a computer
center. Without His hatred
A barren world.
A center of being—not the existence of robots.
If He wanted to, He could make a machine a Christ, enter it in
its second person which is You.
Why he bothered with man is a mystery even Job wondered.
God becoming human, became a subject for anthropologists,
history, and all the other wretched itchings of an animal
that had suddenly (too suddenly?) been given a soul.
When I look in the eyes and the souls of those of those I love, I
(in a dark forest between grace and hatred) doubt His
wisdom.
Cur Deus Homo, was the title of St. Anselm’s book. Without
question marks.
Grace!

§

UM POEMA PARA O DADA DAY AT THE PLACE, 1 ABRIL, 1955

Querido,
A diferença entre o Dada e o barbarismo
É a diferença entre um aborto e um sonho molhado.
Um aborto
É um sacrifício consciente do passado, a pintura de um bigode
Na Mona Lisa, a rendição
De crianças reais.
O outro, querido, é um sacrifício
Dos filhos de ninguém, é barbarismo, é um Esquimó
Correndo amuado em um museu, é a Boêmia
Renunciando cidades que nunca foram conquistadas.
Um Vândalo feio mijando em uma estátua não é Fídias
mijando em uma estátua. Barbarismo
É menor que um gesto.
Destrua seus próprios deuses se você quer ser Dada:
Desista dos seus vícios, queime sua jukebox,
Desenhe bigodes na música, pinte uma mãe de verdade
em cada tela não-objetiva. Suje somente
Essas coisas que pertencem a você.
“Beleza é uma coisa tão rara,” Pound disse,
“pouquíssimos bebem da minha fonte.”
Você só tem o direito de mijar na fonte
Se você for belo.

A POEM FOR DADA DAY AT THE PLACE, APRIL 1, 1955

Darling,
The difference between Dada and barbarism
Is the difference between an abortion and a wet dream.
An abortion
Is a conscious sacrifice of the past, the painting of a mustache
On Mona Lisa, the surrender
Of real children.
The other, darling, is a sacrifice
Of nobody’s children, is barbarism, is an Eskimo
Running amok in a museum, is Bohemia
Renouncing cities it had never conquered.
An ugly Vandal pissing on a statue is not Phidias
Pissing on a statue. Barbarism
Is something less than a gesture.
Destroy your own gods if you want Dada:
Give up your vices, burn your jukebox,
Draw mustaches on music, paint a real mother
On every non-objective canvas. Befoul only
Those things that belong to you.
“Beauty is so rare a thing,” Pound said,
“So few drink at my fountain.”
You only have the right to piss in the fountain
If you are beautiful.

§

TRÊS ENSAIOS MARXISTAS

HOMOSSEXUALIDADE E MARXISMO

Não deveriam haver regras para isso mas deveria ser simultâneo se fosse pra haver.

Homossexualidade é essencialmente estar só. Que é uma luta contra os patrões capitalistas que não querem
que nós sejamos sós. Sozinhos somos perigosos.

Nossa insatisfação poderia arruinar a América. Nosso amor poderia arruinar o universo se quiséssemos.

Se deixarmos nosso amor florescer na verdadeira revolução ficaremos cheios de ofertas para camas.

OS JATOS E O MARXISMO

Jatos odeiam política. Eles crescem em uma sociedade de gatos gordos onde não houve nenhuma depressão ou guerra. Eles
são contra a pena de morte.

Eles não poderiam se importar menos. Eles usam canivetes atados com fitas. Eles sabem que o que move este país
é uma máquina IBM conectada a uma máquina IBM. Eles nunca pensam em usar seus canivetes contra seus gabinetes de alumínio.

Uma Liga Contra a Juventude e o Fascismo deveria ser formada imediatamente pelo nosso Partido. Eles são nossos convidados. Eles são ignorantes.

OS JATOS E A HOMOSSEXUALIDADE

Certa vez no áureo amanhecer da homossexualidade houve um filósofo que havia dado a fórmula para uma nova sociedade —
“de cada qual, segundo sua capacidade, a cada qual, segundo suas necessidades.”

Essa fórmula aparece no Novo Testamento — a parábola da figueira — e em outros lugares.

Continuar o argumento é infrutífero.

THREE MARXIST ESSAYS

HOMOESEXUALITY AND MARXISM

There should be no rules for this but it should be simultaneous if at all.

Homosexuality is essentially being alone. Which is a fight against the capitalist bosses who do not want us to be alone. Alone we are dangerous.

Our dissatisfaction could ruin America. Our love could ruin the universe if we let it.

If we let our love flower into the true revolution we will be swamped
with offers for beds.

THE JETS AND MARXISM

The Jets hate politics. They grew up in a fat cat society that didn’t even have a depression or a war in it. They are against capital punishment.

They really couldn’t care less. They wear switchblade knives tied with ribbons. They know that which runs this country is an IBM machine connected to an IBM machine. They never think of using their knives against its aluminum casing.

A League Against Youth and Fascism should be formed immediately by our Party. They are our guests. They are ignorant.

THE JETS AND HOMOSEXUALITY

Once in the golden dawn of homosexuality there was a philosopher who gave the formula for a new society—“from each, according to his ability, to each according to his need.”

This formula appears in the New Testament—the parable of the fig tree—and elsewhere.

To continue the argument is fruitless.

§

Balada da Garotinha Que Inventou O Universo
uma tradução para George Stanley

Flor de jasmim e um touro com a garganta cortada.
Calçada infinita. Mapa. Quarto. Harpa. Amanhecer.
Uma garotinha imita um touro feito de jasmim
E o touro é um crepúsculo sangrento que sobe.

Se o céu fosse um garotinho
Os jasmins pegariam metade da noite para si
E o touro uma praça de touros azul só sua
Com o coração ao pé de uma pequena coluna.

Mas o céu é um elefante
E os jasmins são água sem sangue
E a garotinha é um buquê de flores noturnas
Perdida em uma grande calçada escura.

Entre o jasmim e o touro
Ou ganchos das adormecidas pessoas de mármore ou
No jasmim, nuvens e um elefante —
O esqueleto de uma garotinha se virando.

Ballad of the Little Girl Who Invented the Universe
A Translation for George Stanley

Jasmine flower and a bull with his throat slashed.
Infinite sidewalk. Map. Room. Harp. Sunrise.
A little girl pretends a bull made of jasmine
And the bull is a bloody twilight that bellows.

If the sky could be a little boy
The jasmines could take half the night to themselves
And the bull a blue bullring of his own
With his heart at the foot of a small column.

But the sky is an elephant
And the jasmines are water without blood
And the little girl is a bouquet of night flowers
Lost on a big dark sidewalk.

Between the jasmine and the bull
Or the hooks of the sleeping people of marble or
In the jasmine, clouds and an elephant—
The skeleton of a little girl turning.

§

Passeio de Buster Keaton
uma tradução para Melvin Bakkerud

GALO: Cocoricó!

(Buster Keaton entra carregando quatro crianças em seus braços.)

BUSTER KEATON (pega um punhal de madeira e os mata):
Minhas pobres crianças!

GALO: Cocoricó!

BUSTER KEATON (contando os corpos no chão): Um, dois, três, quatro. (Pega uma bicicleta e vai embora.)

(Entre pneus velhos e latas de gasolina um negro come um chapéu de palha)

BUSTER KEATON: Que tarde bonita!

(Um papagaio tremula no céu sem sexo.)

BUSTER KEATON: Gosto de andar de bicicleta.

CORUJA: Hoo hoo.

BUSTER KEATON: Que bonito o canto desses pássaros!

CORUJA: Hoo!

BUSTER KEATON: É lindo!

(Pausa. Buster Keaton inefavelmente cruza juncos e pequenos campos de centeio. A paisagem se encurta sob as rodas da sua máquina. A bicicleta tem uma única dimensão. É capaz de entrar em livros e expandir-se até mesmo em óperas e minas de carvão. A bicicleta de Buster Keaton não tem uma sela de caramelo ou pedais de açúcar como as bicicletas que os homens maus pedalam. É uma bicicleta como todas as outras exceto por uma única chuvarada de inocência. Adão e Eva passam correndo, assustados como se estivessem carregando um vaso cheio de água e, ao passar, acariciam a bicicleta do Buster Keaton.)

BUSTER KEATON: Ah, amor, amor!

(Buster Keaton cai no chão. A bicicleta escapa dele. Corre até atrás de duas enormes borboletas cinzentas. E roça loucamente meio centímetro no chão.)

BUSTER KEATON: Eu não quero falar. Alguém por favor diga algo?

UMA VOZ: Imbecil!

(Ele continua andando. Seus olhos, infinitos e tristes como um animal recém-nascido, sonho de lírios e anjos e cintos sedosos. Seus olhos que são como o fundo de um vaso. Seus olhos d’uma criança louca. Quais são os mais fiéis. Quais são os mais belos. Os olhos de um avestruz. Seus olhos humanos de uma equivalência segura com melancolia. A Filadélfia é vista ao longe. Os habitantes dessa cidade agora sabem que o antigo poeta de uma máquina Singer é capaz de circular as grandes rosas da estufa mas não de todo, para compreender a diferença poética entre uma tigela de chá quente e uma tigela de chá gelado. A Filadélfia brilha ao longe.)

(Uma menina americana com olhos de celuloide surge da grama.)

A AMERICANA: Olá.

(Buster Keaton sorri e olha para os sapatos da garota. Que sapatos! Nós não temos que admirar seus sapatos. Seria preciso um crocodilo para usá-los.)

BUSTER KEATON: Eu gostaria de—

A AMERICANA (sem fôlego): Você carrega uma espada adornada de folhas de murta?

(Buster Keaton dá de ombros e levanta o pé direito.)

A AMERICANA: Você tem um anel de pedra envenenada?

(Buster Keaton se entorta lentamente e levanta uma perna inquirida)

A AMERICANA: Bem?

(Quatro anjos com asas de um celestial balão de gás mijam entre as flores. As senhoras da cidade tocam num piano como se estivesse pedalando uma bicicleta. A valsa, a lua, e dezessete canoas indianas balançam o precioso coração do nosso amigo. Como a maior surpresa de todas, o outono invade o jardim como a água que explode um amontoado geométrico de açúcar.)

BUSTER KEATON (suspirando): Eu gostaria de ter sido um cisne. Mas eu não posso fazer o que eu gosto. Porque — O que aconteceu com o meu chapéu? Onde está meu colarinho de passarinhos e minha gravata mohair? Que desgraça!

(Uma moça com uma cintura de vespa e um colarinho alto surge montada em uma bicicleta. Ela tem a cabeça de um rouxinol.)

MOÇA: Quem tenho a honra de saudar?

BUSTER KEATON (com um arco): Buster Keaton.

(A moça desmaia e cai da bicicleta. Suas pernas no chão tremem como duas najas agonizantes. Um gramofone toca milhares de versões da mesma canção — “Na Filadélfia eles não têm rouxinóis”.)

BUSTER KEATON (ajoelhado): Querida Srta. Eleanor, pardon me! (mais baixo) Querida (ainda baixo) Querida (mais baixo) Querida.

(As luzes da Filadélfia piscam e saem do rosto de milhares de policiais.)

§

Um Diamante
uma tradução para Robert Jones

Existe
Um diamante
No coração da lua ou dos ramos ou da minha nudez
E não há nada no universo como um diamante
Nada em toda a mente.

O poema é uma gaivota descansando em um cais no fim do oceano.

Um cão uiva na lua
Um cão uiva nos ramos
Um cão uiva na nudez
Um cão uivando com a mente pura.

Peço ao poema que ele seja tão puro quanto a barriga de uma gaivota.

O universo desmorona e revela um diamante
Duas palavras chamadas gaivota estão pacificamente flutuando lá onde as ondas estão.
O cão está morto lá com a lua, com os ramos, com minha nudez
E não há nada no universo como um diamante
Nada em toda a mente.

Diamond
A Translation for Robert Jones

A diamond
Is there
At the heart of the moon or the branches or my nakedness
And there is nothing in the universe like Diamond
Nothing in the whole mind.

The poem is a seagull resting on a pier at the end of the ocean.

A dog howls at the moon
A dog howls at the branches
A dog howls at the nakedness
A dog howling with pure mind.

I ask for the poem to be as pure as a seagull’s belly.

The universe falls apart and discloses a diamond
Two words called seagull are peacefully floating out where the
waves are.
The dog is dead there with the moon, with the branches, with
my nakedness
And there is nothing in the universe like Diamond
Nothing in the whole mind.

§

CINCO PALAVRAS PARA JOE DUNN SOBRE SEU VIGÉSIMO-SEGUNDO ANIVERSÁRIO

Te devo cinco palavras de aniversário.
A primeira palavra é anthropos
Aquele que celebra aniversários.
Ele está mirrado e rijo e cego, tagarela
Das velhas guerras e da beleza morta.
Ele está lá pela calma do teu coração quando os dias correm
E as guerras se perdem e as rosas murcham.
Ele pode derrotar todos os inimigos que te atingirem.
Ele pode lembrar de toda beleza que possa morrer em teu coração.

A segunda palavra é andros
Aquele que se orgulha de seu gênero
Que se veste como um galo de rinha, ereto
Através da meia-noite do tempo
Como uma vela de aniversário.
Ele te dar sabedoria assim como um Tolo
Se esconde nos lombos
Chorando pela deselegância
De tudo isso que não é sagrado.

A terceira palavra é eros
Aquele que se apega a ti a cada nascimento
Trazendo ao teu coração sustância.
Seja lá quem for que você toque ele irá te amar,
Sentirá o apego do Seu toque
Como a luz do sol dispersa sobre um espelho antigo.

A quarta palavra é thanatos, o ventre negro
Que devora aniversários.
Eu não te dou thanatos. Eu te trago a palavra para chamá-lo
Thanatos, devorador de rapazes, mordedor cardíaco, lambedor de ossos.
Olhe, Ele se esgueira quando você o chama.
Chame-o! Thanatos.

A última palavra é agape,
A dançarina que põe aniversários em movimento.
Ela está lá para conduzir as palavras.
Contrariando tudo, Ela faz as palavras
Girarem ao Seu redor. Palavras dançam.
Veja. Anthropos perene,
Andros tornado virgem, Eros irrefletível
Thanatos devorado.
Agape, Agape, mestra de cerimônias,
Ame
Isso que vem para além dos aniversários,
Isso que faz poesia
E move estrelas.

FIVE WORDS FOR JOE DUNN ON HIS TWENTY-SECOND BIRTHDAY

I shall give you five words for your birthday.
The first word is anthropos
Who celebrates birthdays.
He is withered and tough and blind, babbler
Of old wars and dead beauty.
He is there for the calmness of your heart as the days race
And the wars are lost and the roses wither.
No enemy can strike you that he has not defeated.
No beauty can die in your heart that he will not remember.

The second word is andros
Who is proud of his gender
Wears it like a gamecock, erects it
Through the midnight of time
Like a birthday candle.
He will give you wisdom like a Fool
Hidden in the loins
Crying out against the inelegance
Of all that is not sacred.

The third word is eros
Who will cling to you every birthnight
Bringing your heart substance.
Whomever you touch will love you,
Will feel the cling of His touch upon you
Like sunlight scattered over an ancient mirror.

The fourth word is thanatos, the black belly
That eats birthdays.
I do not give you thanatos. I bring you a word to call Him
Thanatos, devourer of young men, heart-biter, bone-licker.
Look, He slinks away when you name Him.
Name Him! Thanatos.

The last word is agape,
The dancer that puts birthdays in motion.
She is there to lead words.
Counter to everything, She makes words
Circle around Her. Words dance.
See them. Anthropos ageless,
Andros made virgin, Eros unmirrored,
Thanatos devoured.
Agape, Agape, ring-mistress,
Love
That comes from beyond birthdays,
That makes poetry
And moves stars.

§

PSICANÁLISE: UMA ELEGIA

No que você está pensando?

Estou pensando no começo do verão.
Estou pensando em colinas molhadas de chuva
Água correndo. Derramando-se
Em hectares vazios de carvalho e manzanita
Na velha e verde moita emaranhada ao sol,
Chaparral, sálvia e mostarda-marrom.
Ou no vento quente que vem de Santa Ana
Vindo pelas montanhas como louco,
Um vento veloz com um pouco de poeira nele
Ferindo tudo e tornando as sementes doces.
Ou na cidade onde os pessegueiros
São estranhos como cavalos novos,
E onde pipas ficam presas nas fiações
Sobre os postes das ruas,
E os bueiros estão todos engasgados de arbustos mortos.

No que você está pensando?

Estou pensando que gostaria de escrever um poema que fosse lento como um verão
Que lentamente fosse começando
Como 4 de Julho em algum lugar pelo meio da segunda estrofe
Depois de muita chuva inusitada
A Califórnia parece maior no verão.
Eu gostaria de escrever um poema tão comprido quanto a Califórnia
E tão lento quanto um verão.
Você me entende, Doutor? Tem que ser tão lento
Quanto cada ponta do verão.
Tão lenta quanto o verão
Em um dia quente bebendo cerveja fora de Riverside
Ou parado no meio de uma estrada branca e quente
Entre Bakersfield e o Inferno
Esperando pelo Papai Noel

No que você está pensando agora?

Estou pensando que ela é bem parecida com a Califórnia.
Quando ela ainda está de vestido é como um mapa das estradas. Rodovias
Indo de cima a baixo na sua pele
Estradas longas e vazias
Com a lua perseguindo lebres
Nas noites quentes de verão.
Estou pensando que seu corpo poderia ser a Califórnia
E eu um turista do oriente, rico,
Perdido em algum lugar entre o Inferno e o Texas
Olhando para um mapa de uma Califórnia comprida, molhada e dançante
Que eu nunca vi.
Envie alguns cartões postais baratos, moça,
Envie.
Cada peito de cada fotografado parecendo
Com curiosos monumentos nacionais,
Um do seu corpo extenso como uma rodovia de três pistas
Vinte e sete milhas de uma noite hospedado
No hotel mais antigo do mundo.

No que você está pensando?

Estou pensando em quantas vezes esse poema
Será repetido. Quantos verões
Irão torturar a Califórnia
Até que os malditos mapas queimem
Até que o cartógrafo louco
Caia no chão e possua
A doce e dura terra da qual ele estava se escondendo.

No que você está pensando agora?

Estou pensando que um poema poderia continuar para sempre.

PSYCHOANALYSIS: AN ELEGY

What are you thinking about?

I am thinking of an early summer.
I am thinking of wet hills in the rain
Pouring water. Shedding it
Down empty acres of oak and manzanita
Down to the old green brush tangled in the sun,
Greasewood, sage, and spring mustard.
Or the hot wind coming down from Santa Ana
Driving the hills crazy,
A fast wind with a bit of dust in it
Bruising everything and making the seed sweet.
Or down in the city where the peach trees
Are awkward as young horses,
And there are kites caught on the wires
Up above the street lamps,
And the storm drains are all choked with dead branches.

What are you thinking?

I think that I would like to write a poem that is slow as a summer
As slow getting started
As 4th of July somewhere around the middle of the second stanza
After a lot of unusual rain
California seems long in the summer.
I would like to write a poem as long as California
And as slow as a summer.
Do you get me, Doctor? It would have to be as slow
As the very tip of summer.
As slow as the summer seems
On a hot day drinking beer outside Riverside
Or standing in the middle of a white-hot road
Between Bakersfield and Hell
Waiting for Santa Claus.

What are you thinking now?

I’m thinking that she is very much like California.
When she is still her dress is like a roadmap. Highways
Traveling up and down her skin
Long empty highways
With the moon chasing jackrabbits across them
On hot summer nights.
I am thinking that her body could be California
And I a rich Eastern tourist
Lost somewhere between Hell and Texas
Looking at a map of a long, wet, dancing California
That I have never seen.
Send me some penny picture-postcards, lady,
Send them.
One of each breast photographed looking
Like curious national monuments,
One of your body sweeping like a three-lane highway
Twenty-seven miles from a night’s lodging
In the world’s oldest hotel.

What are you thinking?

I am thinking of how many times this poem
Will be repeated. How many summers
Will torture California
Until the damned maps burn
Until the mad cartographer
Falls to the ground and possesses
The sweet thick earth from which he has been hiding.

What are you thinking now?

I am thinking that a poem could go on forever.

§

Caro Lorca,

Quando traduzo um de seus poemas e encontro palavras que não entendo, sempre deduzo os seus significados. Estou inevitavelmente certo. Uma poema realmente perfeito (ninguém escreveu ainda um) poderia ser facilmente traduzido por uma pessoa que não sabe uma palavra do idioma em que foi escrito. Um poema realmente perfeito tem um vocabulário infinitamente pequeno.
É dificílimo. Queremos transferir o objeto imediato, a emoção imediata para o poema — e no entanto o imediato sempre tem centenas de palavras próprias agarradas a ele, de vida curta e tenazes como cracas. E é errado escalpelá-las ou substituir por outras. Um poeta é um mecânico do tempo não um embalsamador. As palavras ao redor desse murchar imediato e decaído como carne ao redor do corpo. Nenhum trapo de múmia da tradição pode ser usado para parar o processo. Objetos, palavras devem ser conduzidas através do tempo, não preservadas contra ele.
Eu grito “Merda” sob um penhasco próximo do oceano. Mesmo na minha vida o imediatismo dessa palavra irá desaparecer. Estará morta como “Alas”. Mas se eu colocar o penhasco verdadeiro e o oceano verdadeiro dentro do poema, a palavra “Merda” irá perdurar com ele, viajando na máquina do tempo até que os penhascos e os oceanos desapareçam.
A maioria dos meus amigos gosta muito de palavras. Eles as colocam sob a luz cega do poema e tentam extrair toda e qualquer conotação possível de cada uma delas, cada trocadilho temporário, cada conexão direta ou indireta — como se uma palavra pudesse se tornar um objeto por mera adição de consequências. Outros pegam palavras das ruas, dos seus bares, dos seus escritórios e os exibem com orgulho em seus poemas como se estivessem berrando, “Veja o que peguei da Língua Americana. Olhe para minhas borboletas, meus selos, meus velhos sapatos!” O que alguém faz com toda essa bosta?
Palavras são o que aderem ao real. Nós usamos elas para impulsionar o real, para arrastar o real para o poema. Elas são o que temos, nada mais. Elas são tão valiosas em si próprias como uma corda com nada a ser amarrada.

Repito — O poema perfeito tem um vocabulário infinitamente pequeno.

Com amor,

Jack.

Dear Lorca,

When I translate one of your poems and I come across words I do not understand, I Always guess at their meanings. I am inevitably right. A really perfect poem (no one yet has written one) could be perfectly translated by a person who did not know one word of the language it
was written in. A really perfect poem has an infinitely small vocabulary.

It is very difficult. We want to transfer the immediate object, the immediate emotion to the poem—and yet the immediate always has hundreds of its own words clinging to it, short-lived and tenacious as barnacles. And it is wrong to scrape them off and substitute others. A poet is a time mechanic not an embalmer. The words around the immediate shrivel and decay like flesh around the body. No mummysheet of tradition can be used to stop the process. Objects, words must be led across time not preserved against it.

I yell “Shit” down a cliff at an ocean. Even in my lifetime the immediacy of that word will fade. It will be dead as “Alas.” But if I put the real cliff and the real ocean into the poem, the word “Shit” will ride along with them, travel the time-machine until cliffs and oceans disappear.

Most of my friends like words too well. They set them under the blinding light of the poem and try to extract every possible connotation from each of them, every temporary pun, every direct or indirect connection—as if a word could become an object by mere addition of consequences. Others pick up words from the street, from their bars, from their offices and display them proudly in their poems as if they were shouting, “See what I have collected from the American language. Look at my butterflies, my stamps, my old shoes!” What does one do with all this crap?

Words are what sticks to the real. We use them to push the real, to drag the real into the poem. They are what we hold on with, nothing else. They are as valuable in themselves as rope with nothing to be tied to.

I repeat—the perfect poem has an infinitely small vocabulary.

Love,
Jack

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crítica, poesia, tradução

Raymond Carver, por Cide Piquet (& uma orelha de Angélica Freitas)

Apesar de ser mais conhecido como escritor de contos, Raymond Carver começou sua carreira literária publicando uma coleção de poemas, Near Klammath, em 1968. Em entrevista à Paris Review, Carver afirmou que a única explicação para ter começado a escrever foram todos os relatos que havia escutado de seu pai: aventuras nos bosques e viagens clandestinas em trens, e também histórias de família, como a do bisavô que lutara na Guerra Civil americana, pelos dois lados, um verdadeiro vira-casacas.

Essas histórias do pai, um trabalhador encarregado de cuidar das lâminas de uma serraria, povoaram o imaginário do jovem Raymond, que por sua vez encontrou nas caçadas e pescarias da juventude os primeiros temas que lhe emocionaram. Ele queria contar sobre o peixe que havia pescado, mas também sobre o que havia escapulido.

Suas escolhas na vida adulta moldaram ainda mais a sua forma de ver o mundo. Uma série de empregos menores e mal pagos, como o de faxineiro num hospital, aguçaram seu olhar e sensibilidade. Trabalhadores pobres, grupo no qual se incluía, são muitas vezes os personagens principais de seus poemas. Com estilo direto e conciso, em que cada palavra é necessária, retratou como poucos a precariedade e os fracassos dessas vidas.

Talvez um dos poemas mais exemplares desta obra seja “O Padeiro”, no qual um homem que teve sua mulher tomada por um pistoleiro foge à noite, humilhado, carregando suas botas para não acordá-lo. “Ele é o herói deste poema”, escreve. Os garotos que entregam jornais, o funcionário do cemitério de Montparnasse que não quer pensar na morte, e os engolidores de fogo das ruas da cidade do México são, também, à sua maneira, heróis de outros poemas.

Os detalhes desse mundo precário, tão bem observados, partem o coração. “Pressionamos os lábios contra a borda esmaltada das xícaras/ e sabemos que essa gordura que boia sobre o café/ um dia irá parar nossos corações./ Olhos e dedos tombam sobre a prataria/ que não é prataria” (“De manhã, pensando no império”). Outro exemplo: “Partimos à meia-noite, com um caminhão de mudança e uma lanterna/ Quem sabe o que passou pela cabeça dos vizinhos ao verem uma família abandonar sua casa no meio da noite” (“Nossa primeira casa em Sacramento”).

A morte está presente em sua obra, mas os cemitérios, quando aparecem nos poemas, servem como lembrete de que é melhor não se demorar neles e que a vida está acontecendo em todos os lugares o tempo inteiro.

Os poemas de Raymond Carver também estão cheios de esperança e da capacidade de se maravilhar. “Existe algo mais maravilhoso do que uma nascente?”, pergunta, em “Onde a água se junta a outra água”. E a sensação que temos, após lê-los, é que se ficarmos muito quietos com nossas xícaras de café, atentos ao que se passa dentro de nós e ao nosso redor, alguma coisa bonita pode acontecer.

Angélica Freitas, na orelha de Esta vida: poemas escolhidos, organização e tradução de Cide Piquet, que acaba de sair pela Editora 34.

* * *

O Padeiro

Então Pancho villa chegou à cidade
enforcou o prefeito
e convocou o velho e enfermo
conde Vronski para jantar.
Pancho lhe apresentou sua nova namorada,
ao lado do marido de avental branco,
mostrou a Vronski sua pistola,
depois lhe pediu que falasse
sobre seu triste exílio no México.
Mais tarde, a conversa foi sobre mulheres e cavalos.
Ambos eram peritos.
A namorada sorria
e brincava com os botões de pérola
da camisa de Pancho, até que,
prontamente à meia-noite, Pancho adormeceu
com a cabeça sobre a mesa.
O marido fez o sinal da cruz
e deixou a casa carregando suas botas
sem nem mesmo acenar
para sua mulher ou para o conde.
Esse marido anônimo, descalço,
humilhado, tentando salvar sua vida, ele
é o herói deste poema.

The Baker

Then Pancho villa came to town,
hanged the mayor
and summoned the old and infirm
Count Vronsky to supper.
Pancho introduced his new girl friend,
along with her husband in his white apron,
showed Vronsky his pistol,
then asked the Count to tell him
about his unhappy exile in Mexico.
Later, the talk was of women and horses.
Both were experts.
The girl friend giggled
and fussed with the pearl buttons
on Pancho’s shirt until,
promptly at midnight, Pancho went to sleep
with his head on the table.
The husband crossed himself
and left the house holding his boots without so much as a sign
to his wife or Vronsky.
That anonymous husband, barefooted,
humiliated, trying to save his life, he
is the hero of this poem.

Baratinhas

para Mona Simpson

O seu bolo de rum com amêndoas, que parecia
delicioso, foi entregue em mãos na minha porta
esta manhã. O motorista estacionou no pé
do morro e subiu o caminho inclinado.
Nada mais se movia naquela paisagem congelada.
Fazia frio dentro e fora. Assinei
o recibo, agradeci e voltei para dentro.
Então removi a grossa fita, arranquei
os grampos da sacola, e lá dentro
encontrei a vasilha que você tinha enchido de bolo.
Rasguei com a unha o adesivo da tampa.
Removi a tampa. Desdobrei o papel-alumínio.
E senti a primeira lufada daquela doçura!

Foi então que apareceu a baratinha
vinda das úmidas profundezas. Uma baratinha
dentro do seu bolo. Bêbada
de rum. Ela contornou a borda da vasilha
e atravessou selvagemente a mesa para
buscar abrigo na fruteira. Não a matei.
Não nesse momento. Tomado que estava por sentimentos
conflitantes. Nojo, é claro. Mas também
espanto. Até admiração. Aquela criatura
tinha feito uma viagem de 3 mil milhas, atravessado a noite
no ar, cercada por bolo, lascas de amêndoas
e o cheiro opressivo do rum. Depois
foi levada de caminhão por uma estrada nas montanhas e
carregada morro acima, no frio, até uma casa
com vista para o Oceano Pacífico. Uma baratinha.
Vou deixá-la viver, pensei. O que é uma a mais,
ou a menos, no mundo? Esta, talvez,
seja especial. Abençoada seja sua estranha cabeça.

Ergui a vasilha de seu invólucro de alumínio
e outras três baratinhas correram sobre a borda
da vasilha! Por um momento fiquei tão
surpreso que não sabia se devia matá-las
ou o quê. Então fui tomado de cólera
e as esmaguei. Espremi a vida de seus corpos
antes que pudessem escapar. Foi um massacre.
Enquanto estava nisso, encontrei e destruí
também a outra, por fim.
Mal comecei e tudo já tinha terminado.
O que quero dizer é que poderia ter simplesmente continuado
a exterminá-las. Se é verdade
que o homem é lobo do homem, o que pode uma mera baratinha
esperar quando brota a sede de sangue?

Sentei, tentando acalmar meu coração.
O ar bufando pelo nariz. Olhei
em volta da mesa, lentamente. Pronto
para o que fosse. Mona, lamento dizer isso,
mas não consegui comer nada do seu bolo.
Guardei-o para mais tarde, quem sabe.
Mesmo assim, obrigado. Você foi doce em se lembrar
de mim, sozinho aqui nesse inverno.
Vivendo sozinho.
Quase como um animal.

Earwigs

for Mona Simpson

Your delicious-looking rum cake, covered with
almonds, was hand-carried to my door
this morning. the driver parked at the foot
of the hill, and climbed the steep path.
Nothing else moved in that frozen landscape.
It was cold inside and out. i signed
for it, thanked him, went back in.
Where i stripped off the heavy tape, tore
the staples from the bag, and inside
found the canister you’d lled with cake.
I scratched adhesive from the lid.
Prized it open. Folded back the aluminum foil.
To catch the rst whiff of that sweetness!

It was then the earwig appeared
from the moist depths. An earwig
stuffed on your cake. Drunk
from it. He went over the side of the can.
Scurried wildly across the table to take
refuge in the fruit bowl. I didn’t kill it.
Not then. Filled as I was with conflicting
feelings. Disgust, of course. But
amazement. Even admiration. This creature
that’d just made a 3,000-mile, overnight trip
by air, surrounded by cake, shaved almonds,
and the overpowering odor of rum. Carried
then in a truck over a mountain road and
packed uphill in freezing weather to a house
overlooking the Paci c ocean. An earwig.
I’ll let him live, i thought. What’s one more,
or less, in the world? This one’s special,
maybe. Blessings on its strange head.

I lifted the cake from its foil wrapping
and three more earwigs went over the side
of the can! For a minute i was so taken
aback i didn’t know if i should kill them,
or what. Then rage seized me, and
I plastered them. Crushed the life from them
before any could get away. It was a massacre.
While I was at it, I found and destroyed
the other one utterly.
I was just beginning when it was all over.
I’m saying I could have gone on and on,
rending them. If it’s true
that man is wolf to man, what can mere earwigs
expect when bloodlust is up?

I sat down, trying to quieten my heart.
Breath rushing from my nose. I looked
around the table, slowly. Ready
for anything. Mona, I’m sorry to say this,
but i couldn’t eat any of your cake.
I’ve put it away for later, maybe.
Anyway, thanks. You’re sweet to remember
me out here alone this winter.
Living alone.
Like an animal, I think.

§

Seu Cachorro Morre

é atropelado por uma van.
você o encontra na beira da estrada
e o enterra.
você fica triste por isso.
você fica triste por si mesmo,
mas também pela sua filha,
porque era o bichinho dela
e ela o amava tanto.
ela costumava sussurrar para ele
e o deixava dormir com ela na cama.
você escreve um poema sobre isso
e diz que é um poema para sua filha,
sobre o cachorro que foi atropelado por uma van
e como você cuidou de tudo,
como o levou para o bosque
e o enterrou fundo, fundo,
e o poema fica tão bom
que você quase se alegra porque o cachorrinho
foi atropelado, senão você nunca
teria escrito aquele bom poema.
então você se senta para escrever
um poema sobre escrever um poema
sobre a morte do cachorro
mas enquanto você está escrevendo
você escuta uma mulher gritar
o seu nome, seu primeiro nome,
as duas sílabas,
e o seu coração para.
depois de um minuto, você volta a escrever.
ela grita outra vez.
você se pergunta quanto tempo isso pode durar.

Your Dog Dies

it gets run over by a van.
you nd it at the side of the road and bury it.
you feel bad about it.
you feel bad personally,
but you feel bad for your daughter because it was her pet,
and she loved it so.
she used to croon to it
and let it sleep in her bed.
you write a poem about it.
you call it a poem for your daughter,
about the dog getting run over by a van
and how you looked after it,
took it out into the woods
and buried it deep, deep,
and that poem turns out so good
you’re almost glad the little dog
was run over, or else you’d never
have written that good poem.
then you sit down to write
a poem about writing a poem
about the death of that dog,
but while you’re writing you
hear a woman scream
your name, your rst name,
both syllables,
and your heart stops.
after a minute, you continue writing.
she screams again.
you wonder how long this can go on.

§

Fragmento Final

E você teve o que queria
desta vida, apesar de tudo?
Tive.
E o que você queria?
Dizer que fui amado,
me sentir amado sobre a terra.

Late Fragment

And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved,
to feel myself beloved on the earth.

(Raymond Carver, traduções de Cide Piquet)

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poesia, tradução

O amor segundo Robert Creeley, parte 2

Há cinco (5!, gente, 5!) anos atrás, eu declarei aqui, uma vez mais, em tradução, o meu amor. E prometi — os amantes prometem tanto — que continuaria a série O amor segundo Robert Creeley com os dois poemas longos, lindos, loucos, de RC, que não cabiam lá, “The act of love” e “For love”. Como nos erros que a gente faz no amor, larguei esses poemas na gaveta, que hoje saem do limbo simplesmente porque o Italo Diblasi veio me perguntar por eles, veio sem querer me lembrar da existência deles, e das traduções. Sei que também, como todo mundo, já deixei coisas do amor na gaveta, do jeito mais torto, e quero acreditar que vou tirando na hora certa, ainda em tempo, como estes poemas, estas renovações de promessas. Ainda para a Nanda.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Por amor

para Bobbie

Ontem, eu quis falar
dele, o sentido acima
dos outros para mim,
importante porque tudo

que conheço deriva
do que ele me ensina.
Hoje o que é que está
finalmente sem remédio,

diferente, desesperado
da própria afirmação, quer
afastar-se, infinitamente
afastar-se.

Se a lua não . . .
não, se você não,
então nem eu,
mas eu não

faria, que prevenção, que
coisa fácil de parar.
Eis o amor ontem
ou amanhã, não

agora. Posso comer
o que você me der?
Não mereci. Devo
pensar em tudo

como mérito? Agora o amor
também vira um prêmio tão
distante de mim que eu
o fiz somente em minha mente.

Aqui está o tédio,
desespero, um doloroso
senso de isolação e
excêntrico de autocrítica

pomposa. Mas a imagem
pertence à vaga estrutura
da mente, vaga para mim
porque é minha mesma.

Amor, o que eu penso
em dizer, não sei dizê-lo.
O que você virou pra perguntar,
no que eu te transformei,

parceira, boa companhia,
pernas cruzadas de saia, ou
tenro corpo sob
os ossos da cama?

Nada diz algo
senão o que ele deseja
que aconteça, teme
tudo que possa acontecer em

outro lugar, outro
espaço que não este.
Uma voz no meu lugar, um
eco do que é apenas no teu.

Me deixe tropeçar,
não na confissão, mas
na obsessão que agora
eu começo. Por você

também (também)
um tempo além do espaço, ou
espaço além do tempo, sem
mente que reste pra

dizer alguma coisa,
foi-se aquela face, agora.
Na companhia do amor
tudo retorna.

For Love

for Bobbie

Yesterday I wanted to
speak of it, that sense above
the others to me
important because all

that I know derives
from what it teaches me.
Today, what is it that
is finally so helpless,

different, despairs of its own
statement, wants to
turn away, endlessly
to turn away.

If the moon did not …
no, if you did not
I wouldn’t either, but
what would I not

do, what prevention, what
thing so quickly stopped.
That is love yesterday
or tomorrow, not

now. Can I eat
what you give me. I
have not earned it. Must
I think of everything

as earned. Now love also
becomes a reward so
remote from me I have
only made it with my mind.

Here is tedium,
despair, a painful
sense of isolation and
whimsical if pompous

self-regard. But that image
is only of the mind’s
vague structure, vague to me
because it is my own.

Love, what do I think
to say. I cannot say it.
What have you become to ask,
what have I made you into,

companion, good company,
crossed legs with skirt, or
soft body under
the bones of the bed.

Nothing says anything
but that which it wishes
would come true, fears
what else might happen in

some other place, some
other time not this one.
A voice in my place, an
echo of that only in yours.

Let me stumble into
not the confession but
the obsession I begin with
now. For you

also (also)
some time beyond place, or
place beyond time, no
mind left to

say anything at all,
that face gone, now.
Into the company of love
it all returns.

§

O Ato Amoroso

O que constitui
o ato amoroso,
fora o encontro

físico, você
é o meu bem,
não um valor como

o dos bancos –
mas um sentido auto-
suficiente, seco

por vezes como areia,
ou então árvores,
pigando de

chuva. Como alguém,
essa por assim dizer
pessoa, poderia

dizê-lo? Ele
ama, a mente
está ocupada, as

mãos se movem,
escrevem palavras
que lhe vêm
à cabeça.
Mas aqui,
o dia envolve

esse homem,
essa mulher,
sentados a pequena

distância.
O amor não
resolve – mas

aproxima,
sempre, faz
a umidade das

suas bocas e corpos
atuar
ativamente. Se eu

quisesse
uma imagem suja,
seria sempre

a de uma
mulher montada?
Sim

e não, são
opostos verdadeiros,
um você e eu

de non-
sense,
por nosso amor.

Mas, diz
alguém, o vento
alça, o céu

é muito azul, a
água acima
de mim faz

seus sons amáveis.
Você é
o meu

bem, que amá-
vel é todo o
teu corpo, como

todos esses
sentidos se
misturam, pra

que mesmo nos
teus braços eu
pense em você.

The Act of Love

Whatever constitutes
the act of love,
save physical

encounter, you are
dear to me,
not value as

with banks –
but a meaning self-
sufficient, dry

at times as sand,
or else the trees,
dripping with

rain. How shall
one, this so-
called person,

say it? He
loves, his mind
is occupied, his

hands move
writing words
which come

into his head.
Now here,
the day surrounds

this man
and woman
sitting a small

distance apart.
Love will not
solve it – but

draws closer
always, makes
the moisture of their

mouths and bodies
actively
engage. If I

wanted
a dirty picture
would it always

be of a
woman straddled?
Yes

and no, these
are true opposites
a you and me

of non-
sens,
for our love.

Now, one
says, the wind
lifts, the sky

is very blue,
the water just
beyond me makes

its lovely sounds.
How dear
you are

to me, how love-
ly all your
body is, how

all these
senses do
commingle, so

that in your very
arms I still
can think of you.

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