tradução

John Wieners (1934-2002), por Rafael Mantovani

wieners

John Wieners, New York, Novembro de 1993. Foto: Allen Ginsberg.

John Wieners (1934 – 2002) foi um poeta estadunidense associado à geração Beat. Nascido numa família de classe média-baixa no Massachusetts, partiu muito jovem para a Costa Oeste e teve uma vida errante por vários anos, participando de comunidades experimentais de poetas, dentre as quais o Black Mountain College.

Seu primeiro livro, The Hotel Wentley Poems — escrito aos 24 anos, supostamente em menos de uma semana, logo após o rompimento com um homem que ele ainda amava — foi publicado em 1958 e recebeu atenção já na época, entre outros motivos, por sua franqueza e antimoralismo no trato com a homossexualidade e o uso de drogas. Nos mais de dez livros que publicou desde então, seus poemas dão corpo a um nomadismo corajoso e melancólico, presenciando a vida noturna de San Francisco com seus artistas boêmios, restaurantes chineses e bares queer, as visões conduzidas pela heroína e outros psicoativos, os amantes masculinos como entidades de força e revelação — tanto em paixões duradouras quanto no prazer clandestino e estigmatizado do cruising em ruas, banheiros e cenários escondidos do habitat urbano. Nesses contextos o amor aparece sobretudo como devoção, transporte para o êxtase e também para o sofrimento extremo, abarcados numa linguagem explicitamente religiosa como explicitamente sexual.

Por seus encontros com a loucura e sua pouca aptidão ou interesse por propósitos práticos (como manter empregos que lhe forneciam renda), Wieners passou grandes partes da vida em penúria financeira e instabilidade mental, sendo internado algumas vezes em instituições psiquiátricas e vivendo com o apoio de amigos.

Conviveu com (e era admirado por) poetas como Robert Creeley, Frank O’Hara e Allen Ginsberg, embora não tenha recebido — nem em vida, nem (ainda) na posteridade — a difusão e reconhecimento que sua obra fascinante merece. O único material um pouco mais extenso (que encontrei) sobre sua vida e seu trabalho é uma reportagem de Pamela Petro publicada em 2000 na Boston College Magazine (clique aqui).

Rafael Mantovani

* * *

Cocaína

Porque eu vi o amor
e o rosto dele é Heart of Hearts do mais seleto,
carne de puro fogo, fundindo-se a partir do centro
onde todo Movimento é um.

E conheci
o desespero de que o Rosto parou de olhar
para mim com a Rosa do mundo
mas sim está encolhido

num paraíso artificial onde entrar é um Inferno.
Se eu soubesse que você está aí
cairia de joelhos e imploraria a Deus
para te entregar de novo nos meus braços.

Mas é estupidez tentar.
Só o que se pode é tomar medidas para diminuir a tristeza,
confundir as sensações para que este Rosto,
o que dói no coração e faz cada re-

começo menos perto da fonte do desejo,
se dissipe da carne que incendeia a noite,
com sonhos e vontade infinita.

Cocaine

For I have seen love
and his face is choice Heart of Hearts,
a flesh of pure fire, fusing from the center
where all Motion is one.

And I have known
despair that the Face has ceased to stare
at me with the Rose of the world
but lies furled

in an artificial paradise it is Hell to get into.
If I knew you were there
I would fall upon my knees and plead to God
to deliver you in my arms once again.

But it is senseless to try.
One can only take means to reduce misery,
confuse the sensations so that this Face,
what aches in the heart and makes each new

start less close to the source of desire,
fade from the flesh that fires the night,
with dreams and infinite longing.

§

 

As Garbos e Dietrichs

Deslizando feito um sonho por Ibiza
cruzando as cidades noturnas do mundo
comprando os sonhos dos homens/e seus corações
para pendurar nos camarins, quantos enfeites
para vestir no jantar, em suntuosas ceias egoístas —

este pecado não se vê à luz de velas, os filhos delas
não ouvem esse grito na noite, curiosas gravidezes
abortos não contam, rostos despedaçados
corações arrancados abandonados no porto
quando seus navios partem.

Estou falando de suicidas lançados à corrente.
De remédios para dormir que acalmam a dor da mente.
De amantes que elas assassinaram, tão condescendentes.
Tudo para continuarem belas e não verem
Os homens que viraram porcos na sua frente.

The Garbos and Dietrichs

Moving like a dream through Ibiza
through midnight cities of the world
buying dreams of men/and their hearts
to hang at dressing tables, how many ornaments
to wear for dinner, or selfish supper parties —

this sin does not show by candlelight, their children
do not hear that cry in the night, odd pregnancies
abortions are not counted, smashed faces
wrenched hearts left behind at harborside
when their ships pull out.

I speak of suicides, men dropped at tide.
I speak of sleeping pills that still our aching mind.
I speak of lovers they murdered because they are so kind.
Anything to stay beautiful and remain blind
To those men they turn into swine.

§

 

Ato nº 2

para Marlene Dietrich

Levei o amor para casa comigo,
nós picamos noite adentro e
afundamos num clarão ardente.

¼ grão de amor
………………………..que tínhamos,
2 homens numa cama de campanha, uma manta
de seda e um pano verde
cobrindo o abajur.
………………………..A música era perfeita.
Chupei ele que nem uma sinfonia
…………..que flutuava e
………………………..ele desceu
a rua comigo e
………………………..me deixou ali.
3 da manhã. Nenhum sinal.

só uma van subindo
a Van Ness Avenue.

Nunca foi assim na Foster’s.

Vou caminhar para casa, subindo
……………os mesmos morros que
………………………..descemos.
Ele nunca vai voltar,
……………não vai ter cavalo
……………amanhã nem beque
………………………..hoje para fumar até o amanhecer.

Ele foi embora e levou
minha morfina
Oh Johnny. Mulheres na
noite gemem o seu nome

Act #2

for Marlene Dietrich

I took love home with me,
we fixed in the night and
sank into a stinging flash.

¼ grain of love
………………………..we had,
2 men on a cot, a silk
cover and a green cloth
over the lamp.
………………………..The music was just right.
I blew him like a symphony,
……………it floated and
………………………..he took me
down the street and
………………………..left me here.
3 AM. No sign.

only a moving van
up Van Ness Avenue.

Foster’s was never like this.

I’ll walk home, up the
……………same hills we
………………………..came down.
He’ll never come back,
……………there’ll be no horse
……………tomorrow nor pot
………………………..tonight to smoke till dawn.

He’s gone and taken
my morphine with him
Oh Johnny. Women in
the night moan yr. name

Padrão
poesia, tradução

Três mulheres, de Sylvia Plath, por Rafael Zacca

Louise Bourgeois, “The Feeding Frenzy”. 

SOBRE A TRADUÇÃO

Sylvia Plath (1932-1963) compôs Três mulheres como um livro-poema radiofônico. Nesse sentido, não foi escrito para ser lido individualmente, em silêncio, mas para ser falado. Inclui, em sua própria forma, um desejo comunitário.

Trata-se, de fato, de uma comunidade de incomuns. As três Vozes do poema são de mulheres que tomaram rumos distintos com relação a uma situação de possível maternidade.

(Sobre a questão da maternidade tanto em Três mulheres quanto em outros poemas de Plath, conferir o artigo de Marina Della Valle que acompanha a tradução da mesma autora em “‘Três mulheres’: Sylvia Plath e a maternidade”, nos Cadernos de Literatura em Tradução n. 8 da USP.)

O poema, encomendado pela BBC, é transmitido pela primeira vez em 1962, no mesmo ano em que nasce o segundo filho da poeta e de sua separação de Ted Hughes.

Muitos viram nos temas que surgem no poema para três Vozes questões centrais na obra posterior de Plath.

Outra chave de leitura possível seria considerar Três mulheres ao lado de outros poemas que tematizam o universo do hospital, como “Acordando no inverno”, “Tulipas” e “Febre 40 graus”, relativamente contemporâneos ao poema radiofônico.

Essa leitura permitiria, talvez, conjugar os pares solidão / comunidade e corpo / incomum com a lei das metáforas em Plath, em sua relação com os pares natureza / cultura. Mas, sobretudo, permitira ver na sua forma de metaforização um duelo entre um corpo que vai morrer e um corpo que insiste em viver.

Sobre a tradução de Três mulheres: o poema de Plath possui poucas versões em língua portuguesa. Em todas elas, um problema central se coloca: como traduzir o uso que Plath faz da palavra “flat” mantendo: a sua conotação simbólica de oposição entre vazio e cheio; a sua sonoridade gerativa (nas semelhanças sonoras produzidas pela palavra em versos como: “Blunt and flat enough to feel no lack. I feel a lack”); e a sua brevidade fonética.

Ana Gabriela Macedo, que traduziu o livro para o português de Portugal pela editora Relógio D’Água, opta pela variação do termo. Às vezes o traduz por “vazio”, às vezes por “raso”, por exemplo, para manter uma polissemia lida pela autora como contradição entre esterilidade e vazio masculino e fertilidade feminina. Já Marina Della Valle alerta que a escolha de um único vocábulo para substituir “flat” também não se apresenta como solução possível sem que algo de muito valioso se perca. Procurou, não obstante, manter suas escolhas vocabulares próximas ao termo “reto”, escolha fundamentada nas leituras que a autora fez dos estudos de Kroll e Folson.

Não consegui localizar uma tradução de Marcia Cavendish Wanderley, que aparentemente está concluída, mas uma versão preliminar pode ser lida no blog “Convite a palavra”, na publicação de 25 de dezembro de 2008, com o título de “TRÊS MULHERES de Sylvia Plath”. Também há variação do termo.

Optei aqui pela insistência no termo “raso” como tradução para “flat”. Isso fez com que eu tivesse de transformar também a tradução de vocábulos vizinhos, que produziam relações sonoras com “flat”, em outras palavras. Também transformei alguns vocábulos derivados de “flat” em outros semelhantes a raso, mas de significado completamente diferente. Em alguns casos, a operação beira a arbitrariedade.

No entanto, como contraprova, quero advertir que procurei no universo simbólico do poema (como no duelo entre natureza e cultura, bem como na ambivalência do caráter gentil e do violento alternado entre as Vozes) a resposta para o gesto transcriativo. Como no caso de “flat, flatness”, em que optei pelo par “raso, restinga”. Antes de receber as duras críticas de quem lê esta tradução, quero chamar a atenção para o contraste que a segunda Voz faz com a primeira, por exemplo, quando se refere a valores em jogo no mundo natural e no mundo social.

Não quero com isso propor que a dimensão sonora é a mais determinante na forma do poema – mas decidi privilegiá-la para fornecer uma tradução de caráter por assim dizer mais radiofônico.

Não ignorei, tampouco, a dimensão gráfica. Não me parece gratuito, por exemplo, que na descrição de uma cena de enfermaria, Plath faça um verso comparando aquelas mulheres a montanhas, de acordo com o seu desenho debaixo dos lençóis, fazendo uso de letras que escritas remetem ao desenho de subidas e descidas, “m” e w” (“I am a mountain now, among mountainy women” – para manter a isomorfia, optei pela tradução “Sou uma montanha neste momento, misturada a mulheres montanhosas”).

Seria bom poder ouvir o poema no rádio, de toda forma.

Também porque o que se anuncia nessa tradução é uma proposição: o som em Três mulheres (como nos poemas “hospitalares” de Plath) é uma máquina de produção de semelhanças, a partir de uma comunidade incomum não apenas entre personagens, mas entre as esferas da linguagem verbal e da produção de sentido do mundo por corpos que se confrontam muito diretamente com as questões fundamentais de vida e de morte.

Rafael Zacca

Aqui o link para o texto em inglês

* * *

Três Mulheres
Um Poema para Três Vozes
Cenário: Enfermaria da Maternidade e entorno

PRIMEIRA VOZ:
Sou lenta como o planeta. Sou muito paciente,
contornam meu tempo adentro sol e estrelas
observando com atenção.
A lua se interessa mais de perto:
vai e vem, luminosa como uma enfermeira.
Sente muito pelo que está prestes a acontecer? Acho que não.
Só está atônita com a fertilidade.

Quando saio pra caminhar, sou um grande evento.
Não preciso pensar, nem me preparar.
O que acontecer comigo acontecerá sem alarme.
O faisão espera na colina;
ele ajeita suas penas marrons.
Não posso evitar sorrir pelo que sei.
Folhas e pétalas cuidam de mim. Estou pronta.

SEGUNDA VOZ:
A primeira vez que a vi, a infiltração vermelha, não acreditei.
Vi os homens chegando perto de mim no escritório. Eram tão rasos!
Tinham qualquer coisa de cartolina, e aí eu pesquei,
tão rasos, tão rasos, restinga de onde ideias, destruições,
escavadeiras, guilhotinas, câmaras brancas de guinchos
[procedem
sem fim, procedem – e os anjos gelados, as abstrações.
Sentei na minha mesa com minha meia-calça, meu salto alto,

e o homem pra quem trabalho riu: “Viu algum fantasma?
Está tão branca assim de repente.” E eu não disse nada.
Eu vi a morte entre as árvores nuas, uma privação.
Não podia acreditar. Será tão difícil
para o espírito conceber um rosto, uma boca?
As letras procedem destas teclas pretas, e estas teclas pretas procedem
de meus dedos alfabéticos, ordenando as partes,

partes, pedaços, escarvas, as multiluminosas.
Estou morrendo enquanto estou sentada. Perco a dimensão.
Trens berram nas minhas orelhas, partidas, partidas!
Os trilhos de prata do tempo esvaziam-se na distância,
o céu branco esvazia-se de sua promessa, como uma taça.
Estes são meus pés, estes ecos mecânicos.
Péc, péc, péc, pinos de aço. Encontro-me depenada.

É uma doença o que carrego pra casa, uma morte.
De novo, isto é uma morte. Estão no ar,
as partículas de destruição que eu chupo? Serei um pulso
que diminui e diminui, encarando o anjo gelado?
É este o meu amante, então? Esta morte, esta morte?
Quando criança eu adorava um nome devorado pelo líquen.
É esse o meu pecado, então, esse velho amor morto de morte?

TERCEIRA VOZ:
Eu me lembro do minuto em que tive certeza.
Os salgueiros esfriavam,
O rosto na poça era bonito, mas não meu –
tinha um aspecto consequente, como tudo o mais,
E tudo o que eu podia ver eram perigos: pombas e palavras,
estrelas e chuvas de ouro – fecundações, fecundações!
Eu me lembro de uma asa gelada branca

e do grande cisne, com seu olhar terrível,
vindo a mim, como um castelo, do topo do rio.
Tem uma cobra nos cisnes.
Ele deslizou suspenso; seu olho tinha uma intenção sombria.
Nele vi o mundo – pequeno, mau e sombrio,
cada palavrinha enganchada em cada palavrinha, de ato em ato.
Um dia azul quente desabrochara em alguma coisa.

Eu não estava pronta. As nuvens brancas crescendo
em volta me arrastaram em quatro direções.
Eu não estava pronta.
Não fazia reverências.
Eu pensei que podia negar a consequência –
mas era tarde demais pra isso. Era tarde demais, e o rosto
começou a tomar forma com amor, como se eu estivesse pronta.

SEGUNDA VOZ:
É um mundo de neve agora. Não estou em casa.
Como são brancos estes lençóis. Os rostos não têm traços.
São lisos e impossíveis, como os rostos de minhas crianças,
Pequenos enfermos que se esquivam de meus braços.
Outras crianças não me tocam: são terríveis.
Elas têm muitas cores, muita vida. Não estão assim,
Quietas, como o vazio terrível que carrego.

Tive minhas chances. Eu tentei e tentei.
Eu costurei a vida em mim como um órgão raro,
e andei com cuidado, precariamente, como alguma coisa rara.
Eu tentei não pensar tanto. Tentei ser natural.
Eu tentei ser cega no amor, como as outras mulheres,
cega na cama, com meu cego querido,
evitando procurar, pela densa treva, outro rosto.

Eu não olhei. Mesmo assim o rosto estava lá,
o rosto do abortado que amava suas perfeições,
o rosto do morto que só podia ser perfeito
em sua calma inata, só podia manter-se santo assim.
E tinham outros rostos também. Os rostos de nações,
governos, parlamentos, sociedades,
os rostos sem cara de homens importantes.

São esses homens que me perturbam:
Tão ciumentos de qualquer coisa que não seja rasa! Deuses
[ciumentos
que fariam do mundo todo tábula rasa, por também o serem.
Vejo o Pai conversando com o Filho.
O arrasado não pode ser sagrado.
“Vamos criar um paraíso”, eles dizem.
“Vamos arrasar e lavar o rústico das almas.”

PRIMEIRA VOZ:
Estou calma. Estou calma. A calmaria precede alguma coisa
[medonha:
o minuto amarelo antes do vento que passa, quando as folhas
exibem suas mãos, sua palidez. É tão quieto aqui.
Os lençóis, os rostos, são brancos e parados, como relógios.
Vozes se distanciam e se achatam. Seus hieróglifos visíveis
achatam-se em painéis de pergaminho que desviam o vento.
E pintam seus segredos em Árabe, em Chinês!

Sou muda e marrom. Sou uma semente que irá se arrebentar.
A marronidade é meu eu morto, e se cansa:
não quer ser mais, ou diferente.
O crepúsculo me cobre de azul agora, como Maria.
Ai, cor da distância e do esquecimento! –
quando será, aquele segundo em que o tempo arrebenta
e a eternidade o engole, me afogando totalmente?

Eu converso comigo, só comigo, me afasto –
higienizada e sinistra com desinfetantes, sacrificial.
A espera deita pesada em minhas pálpebras. Deita como o sono,
feito um grande mar. Longe, longe, logo a primeira onda acumula
sua carga de agonia sobre mim, inescapável, mareal.
E eu, uma concha, ecoando nessa praia branca
enfrento as vozes da opressão, esse terrível elemento.

TERCEIRA VOZ:
Sou uma montanha neste momento, misturada a mulheres
[montanhosas.
Os médicos se movem entre nós como se nossa grandeza
apavorasse suas ideias. E sorriem como imbecis.
São os culpados pelo que sou, e sabem disso.
Exibem o que neles é raso como uma espécie de saúde.
E se eles então se surpreendessem, como eu?
Ficariam loucos com isso.

E se duas vidas vazassem por entre minhas coxas?
Eu vi a câmara asséptica e branca com seus instrumentos.
É um lugar de guinchos. Não é feliz.
“É pra cá que você vai vir quando estiver pronta.”
As luzes noturnas são luas rasas vermelhas. Estão embotadas com
[sangue.
Eu não estou pronta para coisa alguma.
Eu devia ter matado isso que me mata.

PRIMEIRA VOZ:
Não há milagre mais cruel que este.
Sou arrastada por cavalos, cascos de ferro.
Resisto. Sobrevivo. Cumpro meu trabalho.
Túnel escuro, através do qual acontecem provações,
as provações, as manifestações, os rostos assustados.
Sou o centro de uma atrocidade.
Que sofrimentos, que tristezas terei de parir e cuidar?

Pode tal inocência matar e matar? Minha vida a amamenta.
As árvores embranquecem nas ruas. A chuva é corrosiva.
Provo um pouco, e os horrores praticáveis,
os horrores sedentários e ociosos, as parteiras diminuídas
com seus corações tique e taque, com suas bolsas e instrumentos.
Hei de ser parede e telhado, protegendo.
Hei de ser céu e colina de bondade: Ai, deixe-me estar!

Um poder cresce em mim, uma tenacidade antiga.
Estou arrebentando como o mundo. Há esta escuridão,
esta escuridão intensa. Cruzo as mãos sobre uma montanha.
O ar é denso. É denso com este trabalho.
Sou usada. Sou usada à força.
Meus olhos são comprimidos pela escuridão.
Não vejo nada.

SEGUNDA VOZ:
Acusam-me. Sonho com massacres.
Sou um jardim de agonias pretas e vermelhas, que bebo,
odiando-me, odiando e temendo. E agora o mundo concebe
seu fim e vai em sua direção, braços embalando o amor.
É um amor de morte que a tudo adoece.
Um sol morto mancha o jornal. É vermelho.
Perco vida atrás de vida. A terra sombria as engole.

Ela é o nosso vampiro. Ela nos mantém
e engorda, é gentil. Sua boca é vermelha.
Eu a conheço. Conheço intimamente –
velha cara-de-inverno, velha estéril, velha bomba relógio.
Homens a enganaram. Ela há de comê-los.
Comê-los, comê-los, comê-los a todos no final.
O sol se pôs. Morro. Simulo uma morte.

PRIMEIRA VOZ:
Quem é ele, esse garoto azul e furioso,
bizarro e brilhante, como se arremessado de uma estrela?
Parece tão zangado!
Voou para o quarto, um berro no tornozelo.
O azul empalidece. Ele é humano, enfim.
Um lótus vermelho se abre em vasilha de sangue;
costuram-me com seda, como se eu fosse um tecido.

O que meus dedos faziam antes de segurá-lo?
O que meu coração fazia, com seu amor?
Eu nunca vi uma coisa tão nítida.
Suas pálpebras feito flores fúcsias
e suave feito mariposa, seu fôlego.
Não o abandonarei.
Não há nele malícia ou urdidura. Que assim permaneça.

SEGUNDA VOZ:
Lá está a lua, na janela alta. Foi-se.
Como o inverno enche minha alma! E essa luz calcária
deitando escamas nas janelas, janelas de escritórios vazios,
salas de aula vazias, igrejas vazias. Ai, quanto vazio!
E essa interrupção. Essa terrível interrupção de tudo.
Esses corpos amontoados me rodeando agora, estes chinelos de neve–
que raio azul e lunar congela seus sonhos?

Sinto seu penetrar gelado, alienígena, como um instrumento.
E do outro lado essa face dura, louca, com sua boca em O
escancarada em seu luto perpétuo.
Ela arrasta o mar de sanguessombra ao redor
mês após mês, com suas vozes de fracasso.
Estou tão desamparada quanto o mar no final do cordão.
Estou insone. Insone e inútil. Também eu gero corpos.

Devo ir-me para o norte. Devo ir-me dentro da longa treva.
Vejo-me feito sombra, nem homem nem mulher,
nem uma mulher feliz por ser um homem, nem um homem
bruto e raso o suficiente para não sentir a falta. Sinto uma falta.
Sustenho meus dedos, dez piquetes brancos.
Vê, a escuridão se infiltra pelas rachaduras.
Não posso contê-la. Não posso conter minha vida.

Serei uma heroína do periférico.
Não serei acusada pelos botões caídos,
buracos na meia-calça, caras mudas e brancas
de cartas não respondidas, confinadas nas gavetas.
Eu não serei acusada. Eu não serei acusada.
O relógio não dará pela minha falta, nem essas estrelas
que rebitam um abismo depois do outro.

TERCEIRA VOZ:
Eu a vejo enquanto durmo, rubra, terrível garota.
Ela chora através do vidro que nos separa.
Ela chora, e ela é furiosa.
Seu choro é um gancho que agarra e arranha feito um gato.
É com esse gancho que ela escala até minha vista.
Ela chora no escuro, ou nas estrelas
que distantes de nós brilham e retorcem.

Acho que sua cabeça é esculpida em madeira,
em rubra e dura madeira, olhos fechados e boca escancarada.
A boca aberta emite gritos agudos
furando meu sono como flechas,
furando meu sono, perfurando até o meu lado.
Minha filha não tem dentes. Sua boca é larga.
E emite sons tão trevosos que não pode ser boa.

PRIMEIRA VOZ:
O que é que a nós nos arremessa essas almas inocentes?
Olha, estão tão exaustos, estão arrasados
em seus berços de lona, nomes amarrados a seus punhos,
os pequenos troféus de prata pelos quais vieram de tão longe.
Alguns têm os cabelos pretos e densos, outros são carecas.
Suas peles são rosas ou pálidas, pardas ou vermelhas;
e começam a lembrar de suas diferenças.

Acho que são feitos de água; não têm expressão.
Seu aspecto é de sono, como luz na água calma.
São verdadeiros monges e freiras com suas vestes idênticas.
Vejo-os chovendo como estrelas sobre a Terra –
na Índia, na África, na América, esses pequenos milagres,
essas miúdas e nítidas imagens. Cheiram a leite.
A sola de seus pés está intocada. São caminhantes do ar.

Pode o nada ser tão prodigioso?
Este é meu filho.
Seus olhos abertos são um azul raso e genérico.
Ele se vira para mim feito uma miúda, muda e mansa planta.
Um berro. Ele é o gancho ao qual me agarro.
E eu, um rio de leite.
Sou uma colina quente.

SEGUNDA VOZ:
Não sou feia. Sou até bonita.
O espelho devolve uma mulher sem deformidades.
As enfermeiras devolvem minhas roupas, e uma identidade.
É normal, elas dizem, que coisas assim aconteçam.
É normal na minha vida, e na vida de outras.
Eu sou uma em cinco, qualquer coisa do tipo. Não estou perdida.
Eu sou bonita como estatística. Aqui o meu batom.

Desenho na boca velha.
A boca vermelha que entreguei com minha identidade
um, dois, três dias atrás. Era uma sexta-feira.
E eu nem preciso de um feriado; posso ir ao trabalho hoje.
Posso amar meu marido, ele irá compreender.
E me amar através do borrão de minha deformidade
como eu tivesse perdido um olho, uma perna, uma língua.

Levanto-me, então, um pouco cega. E ando
com rodas, não com pernas; servem-me da mesma forma.
E aprendo a falar com os dedos, não com as línguas.
O corpo está cheio de recursos.
O corpo de uma estrela-do-mar pode regenerar os braços
e as salamandras são pródigas em pernas. Que eu também
Seja pródiga naquilo que me falta.

TERCEIRA VOZ:
Ela é uma pequena ilha, adormecida e pacífica,
E eu um navio branco apitando: Adeus, adeus.
O dia está fervendo. É triste demais.
As flores neste quarto são vermelhas e tropicais.
Elas viveram por trás de vidros toda a vida, cuidadas com ternura.
Agora enfrentam o inverno de lençóis brancos, rostos brancos.
Tenho pouquíssimas coisas na mala.

Tenho roupas de uma mulher gorda que eu não conheço.
Tenho pente e escova. Tenho um vazio.
Estou vulnerável de repente.
Sou uma ferida que foge do hospital.
Sou uma ferida que deixam partir.
Deixo minha saúde para trás. Deixo alguém
que iria aderir-se a mim: desfaço seus dedos como bandagens: vou.

SEGUNDA VOZ:
Eu sou eu mesma de novo. Não há caminhos sem saída.
Sangrei e estou branca como cera, não tenho compromissos.
Sou rasa e virginal, isto significa que nada aconteceu,
nada que não possa ser apagado, extirpado e descartado, um novo
[começo.
Estes pequenos ramos não pensam em florescer,
nem estas secas, secas calhas sonham com a chuva.
Esta mulher que me encontra na janela – é pura.
Tão pura que transparente, como um espírito.
Quão timidamente ela superpõe sua pureza
no inferno de laranjas africanas, e porcos presos pelo calcanhar.
Ela adia a realidade.
Sou eu mesma. Sou eu mesma –
provando a amargura entre os dentes.
A maldade diária incalculável.

PRIMEIRA VOZ:
Por quanto tempo posso ser uma parede, bloqueando o vento?
Por quanto tempo posso ser
abrandando o sol com a sombra de minha mão,
interceptando os dardos azuis de uma lua gelada?
As vozes da solidão, as vozes da tristeza
rondam-me inelutavelmente.
Como é que isso pode suavizá-las, essa cançãozinha de ninar?

Por quanto tempo posso ser um muro ao redor de minha verde
[propriedade?
Por quanto tempo podem minhas mãos
serem bandagem para suas feridas, e minhas palavras
pássaros pairando no céu, consolando, consolando?
É uma coisa terrível
esta desproteção: como se meu coração
pusesse uma cara e caminhasse pro mundo.

TERCEIRA VOZ:
Hoje as faculdades estão bêbadas com a primavera.
Minha beca preta é um pequeno funeral:
mostra que estou séria.
Os livros que trago se comprimem do meu lado.
Certa vez tive uma velha ferida, mas está curando.
Sonhei com uma ilha rubra de gritos.
Era um sonho, não significava nada.

PRIMEIRA VOZ:
A alvorada flore o grande ulmeiro fora de casa.
As andorinhas voltaram. Estão gritando como foguetes de papel.
Escuto o som das horas
dilatando e morrendo nas cercanias. Escuto o mugido das vacas.
As cores se recuperam, e o feno
úmido ferve ao sol.
Os narcisos abrem seus rostos brancos no pomar.

Estou tranquila. Estou tranquila.
Estas são as cores vívidas do berçário,
os patos falantes, os cordeiros alegres.
Sou simples de novo. Acredito em milagres.
Eu não acredito nessas crianças terríveis
que perturbam meu sono com olhos brancos e mãos sem dedos.
Não são minhas. Não me pertencem.

Devo meditar sobre a normalidade.
Devo meditar sobre meu filhinho.
Ele não caminha. Não fala uma palavra.
Ainda está enrolado em faixas brancas.
Mas é rosa e perfeito. Ele sorri com tanta frequência.
Enchi esse quarto com rosas no papel de parede,
e pintei corações em tudo.

Não quero que seja excepcional.
É a exceção que interessa o diabo.
É a exceção que escala a colina da tristeza
ou se senta no deserto e machuca o coração de sua mãe.
Eu o quero comum,
para amar-me e por mim ser amado,
para que se case com quem e onde queira.

TERCEIRA VOZ:
Meio-dia quente nos prados. Os botões-de-ouro
abafam e derretem, e os amantes
passam e passam.
São pretos e rasos como sombras.
É tão bonito não ter de apegar-se!
Sou solitária como a grama. O que é esta saudade?
Saberei algum dia, seja lá o que for?

Os cisnes se foram. Mesmo assim o rio
se lembra de como eram brancos.
Tenta encontrá-los nas luzes.
Observa suas formas nas nuvens.
O que é esse pássaro que grita
com tanta tristeza na voz?
Estou mais jovem do que nunca, ele diz. O que é esta saudade?

SEGUNDA VOZ:
Estou em casa sob a luz da lâmpada. As tardes se alongam.
Remendo a barra da seda: meu marido lê.
Como é bonita a luz incidindo sobre tudo.
Tem uma espécie de fumaça no ar primaveral,
uma fumaça que colore de rosa os parques,
as pequenas estátuas, como a ternura acordasse,
a ternura que não se cansa, que cura.

Aguardo e padeço. Creio que estou sendo curada.
Há mais o que fazer. Minhas mãos
podem coser com cuidado este material. Meu marido
pode virar e virar as páginas de um livro.
E assim estamos juntos em casa, por horas.
É só o tempo que pesa sobre nossas mãos.
É só o tempo, e isso não é material.

As ruas podem se tornar papel subitamente, mas eu me recupero
de minha longa queda, e me encontro na cama,
a salvo no colchão, mãos cruzadas, como pressentisse a queda.
Encontro-me novamente. Não sou uma sombra
ainda que haja uma sombra que saia de meus pés. Sou uma esposa.
A cidade aguarda e padece. As graminhas
crescem nas pedras, e estão verdes de vida.

Padrão
poesia, tradução

Patti Smith, por Nina Rizzi

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Patti Smith nasceu em Chicago em 1946. É poeta, cantora, fotógrafa, escritora, compositora e musicista, conhecida como “poeta do punk” e “madrinha do punk”. Seu álbum de estreia, Horses (1975), que mistura rock, punk e poesia recitada, é considerado por muitos como o melhor álbum de estréia já lançado por um artista; ele começa com uma cover da música Gloria de Van Morrison e as palavras de abertura recitadas por Smith são umas das mais famosas na história do rock: “Jesus died for somebody’s sins… but not mine” (Jesus morreu pelos pecados de alguém…mas não pelos meus). Com composições feministas e influências poéticas variadas, sobretudo Arthur Rimbaud e William Blake, é uma artista vigorosíssima.

Autora dos volumes de poesia: Babel, Early Work, compilação inúmeros volumes de poemas publicados no início da década de 1970, The Coral Sea, uma extensa elegia a Robert Mapplethorpe e Patti Smith Complete, uma coletânea de suas composições musicais. No Brasil, estão publicados “Só garotos” (2010), “Linha M” (2016), “Devoção” (2019), e “O ano do Macaco” (2019), todos pela Companhia das Letras.

Como a maioria dos artistas do punk, Patti Smith se engajou em diversas lutas políticas, por exemplo: foi contra a invasão chinesa no Tibete, contra a Guerra no Iraque e a favor do impeachment do presidente George W. Bush. E esta semana, publicou em sua conta no instagram uma poema apoiando a mobilização que acontece no Chile e que deseja acabar com injustiças e desigualdades.

Quem conhece a cantora, já vai sentindo a sonoridade peculiar e balançando os pés, as mãos, chamando umas distorções, uma percussão mental – algo próximo, talvez, de People Have the Power escrita por Patti e seu então companheiro Fred “Sonic” Smith e lançada em 1988 como single principal do álbum Dream of Life, cuja fotografia é de Robert Mapplethorpe, assim como a de Horses.

A cantora e poeta estará no Chile para um concerto dia 18 de novembro, após sua passagem pelo Brasil, quem sabe não apresenta uma versão musical para a poema. Caso não, do it yourself! Deixamos três versões escritas pra inspirar: português e espanhol vertidas por mim e em inglês conforme escrito por Patti Smith e publicado em sua rede social 😉

nina rizzi

*

O REINO MAPUCHE 

Este é
o reino da coragem
o reino da convicção
o reino da unidade
Um milhão de pessoas
em Santiago, Chile.
Exigindo igualdade
Exigindo do governo
responsabilidade.
Exigindo um Chile
tão unido quanto eles,
tomando as ruas.
Este é o reino
de cidadãos ativistas,
que estão sendo vistos
e ouvidos pelo mundo.
Mostrando-nos como
O povo tem o poder.

EL REINO MAPUCHE

Este es
el reino del coraje
el reino de la convicción
el reino de la unidad
Un millón de personas
en Santiago, Chile.
Exigiendo igualdad
Exigiendo al gobierno
responsabilidad.
Exigiendo un Chile
tan unido como ellos,
tomándose las calles.
Este es el reino
de los ciudadanos activistas,
que están siendo vistos
y oídos por el mundo.
Mostrándonos como
el pueblo tiene el poder.

This is
the realm of courage
the realm of conviction
the realm of unity.
One million people
in Santiago, Chile.
Calling for Equality.
Calling for government
accountability.
Calling for a Chile
as unfied as they,
taking the streets.
This is the realm
of Citzen Activists,
who are being seen
and heard globally.
Showing us all how
people have the power.

***

Padrão
tradução

1 poema de Anne Boyer por Isabella Martino

Anne Boyer

Anne Boyer (nascida em 1973) já apareceu aqui antes na escamandro, em tradução de Rafael Mantovani (clique aqui). O poema abaixo pertence a um de seus principais livros: “Garments Against Women” (2015), uma obra híbrida que passa pelo ensaio poético, poemas em prosa e narrativos. Uma poeta que encara o problema filosófico e material de escrever e, em extensão, de sobreviver nesse mundo contemporâneo, em uma entrevista para a Poetry Foundation, ela declara: “Eu gostaria de descobrir algum jeito de viver que fosse mais do que só informação. Eu gostaria de descobrir algum jeito de escrever aquilo que necessitamos sem que se transformasse em pornografia ou algo muito particular. Gostaria de escrever que estamos alienados, inseguros, que o nosso próximo mês é tão regularmente pior do mês vigente. Há muitas coisas em comum para muitos de nós, são essas coisas difíceis e comuns da vida que nenhuma exibição algorítmica de afeto pode suavizar.”

Isabella Martino nasceu em São Paulo, 1988, é poeta, pesquisadora e tradutora.

* * *

Não estou escrevendo
Quando não estou escrevendo eu não estou escrevendo um romance chamado 1994 sobre uma jovem
mulher de uma cidade provinciana que tem um emprego em um centro empresarial recortando e
colando o tempo. Não estou escrevendo um romance chamado Nero sobre a
artista-estrela no espaço. Não estou escrevendo um livro chamado A Melancolia de Kansas City. Não estou escrevendo a continuação de A Melancolia de Kansas City chamada Maldoror das Putas. Não estou
escrevendo um livro de filosofia política chamado Questões para Poetas. Não estou
escrevendo memórias escandalosas. Não estou escrevendo um livro de memórias patético. Não estou
escrevendo memórias sobre poesia ou amor. Não estou escrevendo memórias de
pobreza, cobrança de dívidas ou bancarrota. Não estou escrevendo sobre a vara
de família. Eu não estou escrevendo memórias porque memórias são para os proprietários
e nem estou escrevendo memórias sobre proibições de memórias.

Quando não estou escrevendo memórias eu também não estou escrevendo poesia de qualquer tipo
nem poemas contemporâneos em prosa ou de outra forma, nem poemas em fragmentos,
nem poemas apertados ou compactos, nem afrouxados ou conversacionais,
nem poemas conceituais, nem poemas virtuosísticos empregando muitos tipos diferentes
de dispositivos eufônicos, nem poemas com epifanias e nem
poemas sem epifanias, nem poemas documentais sobre os últimos momentos políticos,
nem poemas carregados de alusões à teoria crítica e música popular.

Eu não estou escrevendo “Estação Atocha” por Anne Boyer e certamente
não estou escrevendo “Nadja” por Anne Boyer, no entanto, gostaria de escrever “Dívida”
por Anne Boyer, no entanto, eu também não estou escrevendo “A Ideologia Alemã” por
Anne Boyer e nem escrevendo um roteiro chamado “Espartaquistas”.

Não estou escrevendo considerações a meu respeito mais miseráveis que as de Rousseau.
Não estou escrevendo considerações mais inocentes que as de Blake.

Não estou escrevendo poesia épica apesar de gostar do que Milton disse sobre poetas líricos
beberem vinho enquanto poetas épicos devessem beber água em uma tigela de madeira.
Eu gostaria de beber vinho em uma tigela de madeira, ou beber água
direto de uma garrafa vazia de vinho.

Eu não estou escrevendo um livro sobre compras, o que é uma mulher fazendo compras.
Eu não estou escrevendo relatos de sonhos meus ou de qualquer outra pessoa.
Eu não estou escrevendo reconstituições históricas de nenhuma literatura duracional.

Eu não estou escrevendo coisa alguma que alguém me tenha pedido ou que esteja esperando,
nem um ensaio poético ou qualquer tipo de ensaio, nem uma resposta de mesa redonda,
nem respostas de entrevistas, nem escrevendo motes para que escritores mais jovens desenvolvam,
nem meus pensamentos sobre crítica literária ou canções populares.

Eu não estou escrevendo uma nova constituição para a república de nenhuma história.
Eu não estou escrevendo um testamento ou um boletim médico.

Não estou escrevendo posts no Facebook. Não estou escrevendo notas de agradecimento ou de desculpas.
Não estou escrevendo anais de conferência. Não estou escrevendo
resenhas de livros. Não estou escrevendo sinopses.

Eu não estou escrevendo sobre arte contemporânea. Eu não estou escrevendo relatos das
minhas viagens. Eu não estou escrevendo resenhas para a “The New Inquiry” e nem
artigos para a “Triple Canopy” e nem escrevendo para a “Fence”. Não estou
escrevendo anotações diárias das minhas leituras, atividades e ideias. Não estou
escrevendo ficções científicas sobre o problema da ideia de autonomia
na arte e nem ficções científicas problematizando uma sociedade
com apenas uma lei que é o consentimento. Eu não estou escrevendo histórias baseadas

nas ideias de histórias não escritas por Nathaniel Hawthorne. Não estou escrevendo perfis
para sites de relacionamento. Não estou escrevendo comunicados anônimos. Não estou escrevendo
livros didáticos.

Eu não estou escrevendo a história desses tempos ou dos tempos passados ou de tempo futuro algum
e nem mesmo a história dessas visões que estão comigo os dias todos
e as noites todas.

§

 

Not Writing

When I am not writing I am not writing a novel called 1994 about a young
woman in an office park in a provincial town who has a job cutting and
pasting time. I am not writing a novel called Nero about the world’s richest
art star in space. I am not writing a book called Kansas City Spleen. I am
not writing a sequel to Kansas City Spleen called Bitch’s Maldoror. I am not
writing a book of political philosophy called Questions for Poets. I am not
writing a scandalous memoir. I am not writing a pathetic memoir. I am not
writing a memoir about poetry or love. I am not writing a memoir about
poverty, debt collection, or bankruptcy. I am not writing about family
court. I am not writing a memoir because memoirs are for property owners
and not writing a memoir about prohibitions of memoirs.

When I am not writing a memoir I am also not writing any kind of poetry,
not prose poems contemporary or otherwise, not poems made of frag-
ments, not tightened and compressed poems, not loosened and conversa-
tional poems, not conceptual poems, not virtuosic poems employing many
different types of euphonious devices, not poems with epiphanies and not
poems without, not documentary poems about recent political moments,
not poems heavy with allusions to critical theory and popular song.

I am not writing “Leaving the Atocha Station” by Anne Boyer and certain-
ly not writing “Nadja” by Anne Boyer though would like to write “Debt”
by Anne Boyer though am not writing also “The German Ideology” by
Anne Boyer and not writing a screenplay called “Sparticists.”

I am not writing an account of myself more miserable than Rousseau.
I am not writing an account of myself more innocent than Blake.

I am not writing epic poetry although I like what Milton said about lyric
poets drinking wine while epic poets should drink water from a wooden
bowl. I would like to drink wine from a wooden bowl or to drink water
from an emptied bottle of wine.

I am not writing a book about shopping, which is a woman shopping.
I am not writing accounts of dreams, not my own or anyone else’s.
I am not writing historical re-enactments of any durational literature.

I am not writing anything that anyone has requested of me or is waiting
on, not a poetics essay or any other sort of essay, not a roundtable re-
sponse, not interview responses, not writing prompts for younger writers,
not my thoughts about critical theory or popular songs.

I am not writing a new constitution for the republic of no history.
I am not writing a will or a medical report.

I am not writing Facebook status updates. I am not writing thank-you
notes or apologies. I am not writing conference papers. I am not writing
book reviews. I am not writing blurbs.

I am not writing about contemporary art. I am not writing accounts of
my travels. I am not writing reviews for The New Inquiry and not writ-
ing pieces for Triple Canopy and not writing anything for Fence. I am not
writing a daily accounting of my reading, activities, and ideas. I am not
writing science fiction novels about the problem of the idea of the au-
tonomy of art and science fiction novels about the problem of a society
with only one law which is consent. I am not writing stories based on

Nathaniel Hawthorne’s unwritten story ideas. I am not writing online dat-
ing profiles. I am not writing anonymous communiqués. I am not writing
textbooks.

I am not writing a history of these times or of past times or of any future
times and not even the history of these visions which are with me all day
and all of the night.

Padrão
poesia, tradução

Denise Duhamel, por Miriam Adelman

denise-duhamel
Denise Duhamel nasceu no estado de Rhode Island, na costa do leste dos EUA, em 1961. Quando conheci seu livro Kinky (1997), já virei leitora convicta sua, o que me permitiu um profundo mergulho numa obra hoje muito vasta, cada livro um tesouro de densidade e deleite próprios. Mas fui realmente tomada pela obsessão por produzir versões dos poemas que compõem esse livro que representou minha primeira introdução à poeta: Kinky, verdadeira caixa de surpresas, ode à e desconstrução da cultura e política dos EUA, torvelino de criações – sendo cada uma, uma posta em cena da ícone cultural da Barbie. Ali, a Barbie passa por quase infinitas metamorfoses, vamos dizer que do mesmo tamanho da sua quase onipresença social.  E Duhamel, sempre irônica, nunca tem medo de apontar diretamente para os impasses de nosso tempo, e nos revelar um ângulo – ou uma armadilha – diferente.
Miriam Adelman
*

Como ajudar as crianças em tempos de guerra 

Mister Rogers recomenda dizer às crianças americanas
que a tristeza faz parte.  Apresente então para elas o globo
em lugar do mapa ordinário,  para mostrar e dizer
quão longe realmente fica o Oriente Médio.  Enfatize que
assistir meteorologia da TV Saudita não quer dizer
que se chega lá de carro. Enfatize para elas o que
seu presidente lhes garante:  que toda vida é preciosa,
a de uma criança iraquiana igual à do soldado americano.
Diga isto para seus filhos, acreditando ou não
nas palavras dele.  Fale para as crianças que seus pais
sejam civis ou soldados, as amam, seja qual for
o chão que habitem. Considere descrever para elas
a guerra como ela é,
mas se sua filha jogar Nintendo, não lhe sirva
sangue em lugar de leite no cereal matinal.  Se seu filho
andar numa gangue perigosa, então deixe que ele
te explique a guerra.  Aos pequeninhos, sugira
que levem seus jogos de química para a areia do parquinho.
Se você ensina arte, explique eventos atuais
com bonecos de papel.  Uma corrente de homens de cartolina vermelha:
George Bush, Dick Cheney, Sadam Hussein, et cetera.
Peça para os aluninhos que amassem um dos bonecos,
que lhe deem o nome Noriega. Que o joguem num copo de papel
que representa a cadeia.  Nesse momento pode fazer perguntas
para que percebam o quanto um boneco se parece
com o outro.  Peça para cada criançinha
escolher um que seja seu favorito.
É esse que devem retalhar, os pedaços mais minúsculos
que suas tesourinhas permitam.
Talvez alguns aluninhos se inquietem, se polvilhando uns
aos outros com os pedaçinhos cor carmim.   Permita isso:
confete, carnificina, neve vermelha, bombas.

How to Help Children Through Wartime

Mister Rogers says to tell your American young
it’s OK to be sad.  Present them a globe
rather than a flat map to show-and-tell
how far away the Middle East really is.  Stress
that the TV Saudi weather report
doesn´t mean the country is within driving distance.  Stress
that their U.S. president assures them that all life is precious,
an Iraqi child’s equal to that of an American soldier.
Tell your children this, whether or not
you yourself believe him.  Tell children that parents,
be they civilian or soldier, love them regardless
of what soil they’re on.  Consider letting children know
what the war is really like,
but if your daughter has Nintendo, do not pour blood
instead of milk on her Cheerios.   If your son
is in a dangerous gang, let him explain
war to you instead.  Encourage all elementary schoolers
to take their chemistry sets to the sandbox.
If you teach art, explain current events
with paper dolls.  A strand of red construction paper men:
George Bush, Dick Cheney, Sadam Hussein, et cetera.
Have students crumple up one doll and name him
Noriega. They may throw him in a Dixie cup
that represents a jail. Then you may ask questions
that lead students to notice the resemblance
of one paper man to the next.  Have each of the children
pick a doll who represents their favorite.
Instruct them to cut that man up into the teeniest pieces
their safety paper scissors will permit.
Members of the class may begin to get restless, to sprinkle
each other with the crimson bits.  Allow this:
confetti, bloodshed, red snow, bombs.

§

Barbie Oriental 

Ela pode ser do Japão, do Hong Kong, da China,
das Filipinas, do Vietnã, da Tailândia o da Coréia.
A menininha que brinca com ela pode decidir:
O sul, o norte, uma província
nebulosa. Tanto faz, segundo a Mattel, que relata
que esta Barbie continua tendo “olhos arredondados”
porém “boca e busto menores” do que
sua irmã dos EUA. As meninas, como alguns homens já crescidos
gostam da variedade, desde que bonita, desde que
haja cabelo comprido para mexer.
Num comercial nas horas noturnas, a Manhattan Cable
oferece um serviço de acompanhantes “Geishas to Go”
garotas do “Oriente, onde os homens são rei…”
O Ken Branco deita barriga para baixo
enquanto uma Barbie Oriental caminha sobre suas costas.
Ou é uma mulher de verdade pisando no Ken?
Ou uma Barbie Oriental pisando num homem real?
Você precisa viajar ao Japão
para comprar esta Barbie específica. Uma garota geisha
pode chegar à porta do teu apartamento em Nova Iorque
em menos de uma hora. Por sinal,
não existe um Ken Oriental.
Os que estudam o delicado equilíbrio
do comércio e câmbio americanos
entenderão.

Oriental Barbie

She could be from Japan, Hong Kong, China,
the Phillipines, Vietnam, Thailand or Korea.
The little girl who plays with her can decide.
The south, the north, a nebulous
province. It´s all the same, according to Mattel, who says
this Barbie still has “round eyes”
but “a smaller mouth and bust”
than her U.S. sister. Girls, like some grown men,
like variety, as long as it’s pretty, as long
as there’s long hair to play with.
On a late night Manhattan Cable commercial
One escort service sells Geishas to Go,
girls from “the Orient, where men are kings…”
White Ken lies on his stomach
while an Oriental Barbie walks on his back.
Or is it a real woman stepping on Ken?
Or Oriental Barbie stepping on a real man?
You have to travel to Japan
to buy this particular Barbie doll. A geisha girl
can be at your door of your New York apartment
in less than an hour. Of course,
there is no Oriental Ken.
Those who study the delicate balance
of American commerce and trade understand.
§

Barbie bicentenária 

Por ser a boneca mais popular
do século XX, a Barbie é enterrada
numa cápsula do tempo na Filadélfia
no dia 4 de julho, 1976. Ela é espremida entre
uma embalagem vazia de Kentucky Fried Chicken
e uma lata cheia de Coca-Cola, pois virou
ícone cultural e agora tem que pagar o preço.
Ela se lembra de um tempo
em que ainda poucas meninas a conheciam
e não precisava fazer tanta pose.
Agora, sendo verdadeiro item para colecionador,
precisa garantir – cada cabelo no seu lugar!
Eu acabo de ser eleita
Garota Personalidade, uma categoria superlativa
do anuário escolar. Posso
posar para foto com o fofinho
do Garoto Personalidade, o primeiro
e único jogador do time de futebol
que quer sair comigo.
Ele diz querer namorar firme comigo
e com outra garota ao mesmo tempo.
Não acho justo, mas sendo Garota Personalidade
demoro demais para o conseguir dizer.
Veja, eu já passei da idade de brincar de boneca,
mas por algum motivo se implantaram no meu subconsciente.
Eu não me pareço nada com a Barbie,
então talvez nem mereça um namorado todo meu. Pior ainda, a meu ver,
minha rival lembra uma delas.
Quando finalmente, constrangida, escrevo um bilhete
para o Garoto Personalidade, o enfio na fresta do
armário errado. O garoto-ninguém que o encontra
não quer devolver, nem quando peço
muito educadamente. Logo todos vão saber
que não sou sempre bem-humorada.
Temendo um escândalo, peço conselhos
aos Mais Bem-vestidos e Os com Maior Probabilidade
de Sucesso na Vida. Estes dizem não se importar
com o que as massas pensam. Sinto que mentem –
mas podem retirar meu título Garota Personalidade,
nem ligo mais. Pelo menos estou melhor
que aquela Barbie Bicentenária que ficará
numa abafada cápsula até o ano 2076.
Talvez ao final, a pressão terá sido excessiva.
Talvez – como eu – , poderá se expressar.
Talvez venha a piscar para a lata de Coca-Cola
antes de sacudirem, explodirem, detonarem
com tudo.

Bicentennial Barbie

Because she is the most popular doll
of the twentieth century, Barbie
is buried in a time capsule in Philadelphia
on July 4, 1976. She is scrunched between an empty Kentucky
Fried Chicken bucket and a full Coca- Cola can.
She’s become a cultural icon and now she has to pay
the price. She remembers a time
when just a few girls knew her
and she didn´t have to put on such airs.
Now a full-fledged collectible, she has to make sure
every hair is always in place. I’ve just been voted
Best Personality, a superlative category
in our junior high yearbook. I’m able to pose
for a picture with the cute Best Personality boy,
the first and only football player
to ever ask me on a date.
He says he wants to go steady with me
and another girl at the same time.
I don’t think it’s fair but being the Best Personality girl,
it takes me a long time to say that.
You see, it’s turned out that although I’m too old
to still play with fashion dolls, they’ve somehow become implanted
in my subconscious. I don’t look anything like Barbie so maybe I don’t deserve
a boyfriend of my own. And to make things worse, in my mind,
my rival resembles Barbie quite a bit
When I finally write the Best Personality boy
an angry note, flustered, I slip it between the slots
of the wrong locker. The nobody boy who finds it
won’t give it back, even when I ask him politely.
Soon everyone will know I’m not always in a good mood.
Fearing a scandal, I ask advice
of the Best Dressed and Most Likely to Succeed.
They say they don’t care what the masses think –
and though I sense they’re not telling the truth-
suddenly it doesn’t matter if my class
takes my Best Personality honor away or not.
At least I know I’m better off
than that one repressed Bicentennial Barbie
who’ll be stuck in that stuffy time capsule
until the year 2076. Maybe
when she finally comes out, the pressure
will have been too much. Maybe she’ll be able, like me,
to express herself. Maybe she’ll wink at the Coca-Cola can
before they both shake, explode, make a mess.
§

Barbie como mafiosa
Para Dangerous Diane

Quando lhe repassam o saquinho de cocaína,
Barbie foge para seu beco preferido.
Ela tira sua cabeça e se preenche com o pó
Como se fosse tão inocente quanto um saleiro de curvas gostosas.
Os malandros deixam o tráfico de pequenas coisas para ela-
e enquanto ela desliza pelos aeroportos internacionais
ou os agitados cais dos portos, ninguém lá em cima
se enerva. Seja aninhada entre o receptor
e a base do telefone de um automóvel, ou guardadinha
na gaveta de uma cômoda com um pequeno gravador no
seu torso oco, Barbie ama o divertimento e o tesão da aventura.
Mas por ser uma boneca muito séria, ela também sabe dar o beijo
da morte se precisar.  Seus ousados lábios
se recusam a abrir, tornando-a a mais perfeita guardadora de segredos.
Nas conferências de imprensa, ela negará todas as afiliações.
Só estou brincando, dirá ela, ou
Vocês não conseguem provar nada.  Mal tenho cérebro.
Quando a Barbie fica assim tão na cara, por vezes
o poderoso chefão passa apertos. Sua mulher fica com ciúmes,
se perguntando porque a Barbie liga para o marido não-boneco de outra
de cabines telefônicas no meio da noite.
Os detalhes das senhas, dos sapatos de cimento e das propostas irrecusáveis,
todos precisam ser bem pensados. O chefão
vai acalmar sua esposa, argumentando que é só ela
que ele ama:  esta Barbie nem sequer é uma dama de verdade.
Não sei porque você se preocupa.
A esposa admite que se sente tola, mas ao voltar
para a cama fica de olho aberto. Os policiais
se sentem tolos também, prendendo brinquedos.
Por isso a Barbie anda por onde ela quiser tendo a audácia
de deixar seus óculos escuros em casa.   Ela freqüenta
clubes privados enfumaçados e senta à janela nas mesas
dos cafés de Little Italy.  Mas são as praias dos resorts
que ela mais gosta,  onde pode realmente espairecer
e ser ela mesma. Sua pequena caixa de isopor  segura o cantinho
da sua toalha de praia de marca. Ela observa seu namorado loiro
Malibu Ken, mexendo com seus pé-de-pato e óculos.
Ela o ama porque ele não sabe de nada –
mera peça acessória para seus crimes.

Barbie as Mafiosa
– for Dangerous Diane

When she’s slipped the bag of cocaine,
Barbie ducks into her favorite alley.
She pulls her head off and fills herself up
As though she’s as innocent as a shapely salt shaker.
The wise guys leave the trafficking of small things to her –
and as she glides through international airports
or bustling loading docks, no one at the top’s
disappointed. Whether nestled between the receiver
and base of a car phone, or tucked into a bedroom drawer
with a tiny tape recorder in her hollow torso,
Barbie loves fun and the thrill of adventure.
But being a no-nonsense doll, she can also give a kiss
of death if she has to. Her sassy lips
refuse to part, making her the perfect keeper of secrets.
At the press conferences, she’ll deny all affiliations.
I’m just playing, she’ll say, or
you can’t prove a thing. I barely even have a brain.
When Barbie is this visible, sometimes
the big boss sweats. His wife gets jealous,
wondering why Barbie calls another woman’s non-doll husband
from phone booths in the middle of the night.
The details of passwords, cement shoes and unrefusable offers
I’m just playing, she’ll say, or
you can’t prove a thing. I barely even have a brain.
When Barbie is this visible, sometimes
the big boss sweats. His wife gets jealous,
wondering why Barbie calls another woman’s non-doll husband
from phone booths in the middle of the night.
The details of passwords, cement shoes and unrefusable offers
all have to be worked out. The mob leader
will try to calm his spouse, claiming she’s the only one
he loves: this Barbie dame’s not even a real dame.
I don’t know what you’re so worried about.
The wife admits she feels silly, but when she returns
to bed, she keeps one eye open.
The cops feel silly, too, arresting toys,
so Barbie goes everywhere with the gall
of leaving her sunglasses at home. She frequents
the smoky private clubs and gets window tables
in Little Italy cafés. But it’s the resort beaches
she likes best, where she can really unwind
and be herself. Her little cooler weighs down the corner
of her tiny designer towel. She watches her blond boyfriend
Malibu Ken fiddles with his flippers and goggles.
She loves him because he knows nothing –
a mere fashion accessory to Barbie’s crimes
§

Casamento 

Barbie imagina se seria traição
sonhar com namorados, bonecos que
Mattel nunca fabricou para suas brincadeiras.
Um com dreads rastafári feitos de pelúcia
Em lugar de duros arcos de plástico,
Outro gordinho, meio calvo
Com óculos de John Lennon
E um terceiro com um nariz grande e sexy
como Gerard Depardieu.
Porém, supõe ela, seu Ken é mesmo inofensivo
Peitoral todo sarado afastado por rígidos seios
que não cedem ao toque
e ele não pode lhe obrigar à nada
quando ela não está
com vontade.
Ela se lembra das últimas palavras
da descontinuada boneca Midge,
“Hey Barbie, não complique,
É um casamento, não é?”
Desde o outro lado do corredor
Entre o monte de brinquedos pra menino
O Soldado Joe de vez em quando olha pra ela
Mas não faz exatamente seu tipo.
Ela na sua caixa, com elásticos que prendem
Seus braços.
A capa de plástico distorce sua visão
Do mundo.
Não é só aventura romântica o que ela deseja::
Há passeios de balão,
Aulas no curso noturno, trabalho de caridade.
Barbie se consola, reconhecendo que não é
Muito diferente do resto de nós, de como jogamos:
Entre gratidão e ambição,
Passividade e culpa.

Marriage

Barbie wonders if it’s cheating
when she dreams of fashion doll boyfriends
Mattel never made for her to play with.
One with Rastafarian dreadlocks –
spun with fuzz, not stiff
like the arcs of a plastic Jello mold.
Another chubby and balding
with John Lennon glasses.
And a third with a big sexy nose
like Gerard Depardieu.
Still, she supposes, Ken is harmless enough.
His pecs kept at bay by her stiff unyielding breasts.
And there is nothing he can force on her
When she’s not in the mood.
She remembers discontinued Midge’s last words:
“Hey Barbie, it’s a marriage, don’t knock it.”
From the stack of boy’s toys across the aisle,
GI Joe occasionally gives Barbie the eye,
though he’s not exactly what she has in mind.
In her box, elastic bands hold back her arms
And the plastic overlay she peers through
distorts her view of the world.
It’s not only a romantic fling she desires:
there are hot air balloon rides,
night school classes, charity work.
Barbie comforts herself
knowing she’s not much different
from the rest of us, juggling gratitude,
ambition, passivity and guilt.
§

Destino Manifesto

Nas Filipinas
as trabalhadoras das fábricas
de bonecas de moda
recebem um bônus em dinheiro
se se esterilizam. Nas esteiras,
rodam com excesso de velocidade
pedaços de corpos.
Nada a ver com o famoso episódio da tv
quando Lucy e Ethel experimentam
um dia de trabalho, botando chocolates dentro de caixas
numa linha de produção nos Estados Unidos. Elas
enchem suas bocas com uma boa parte
dos doces que vêm velozmente, dão risadas
de baba marrom quando são despedidas porque
realmente não tem importância –
Ricky e Fred têm bons empregos.
Para provar que são eles mesmos
os que devem trabalhar,
os garotos fazem uma bagunça na cozinha
da Lucy, uma panela de arroz explodindo
como um vulcão branco. As mulheres
nas Filipinas e noutros lugares ponderam
o big business, os benefícios de descontinuar
a própria linhagem. Nos seus sonhos
estas mulheres embalam úteros de Toys R Us
enquanto uma Barbie estéril, seu cabelo preso
sob um capacete de Lucite, finca a bandeira da Mattel
numa lua que pouco convence.

 

Manifest Destiny

In the Philippines
women workers in fashion doll factories
are given cash incentives
for sterilization. Body parts roll
too fast on conveyor belts.
It’s not like the famous episode
in which Lucy and Ethel
try a day of work, boxing chocolates
on an assembly line in the U.S. They stuff
most of the quick-coming candy
into their mouths, laugh brown drool
when they are fired because it really doesn’t matter –
Ricky and Fred have good jobs.
To prove they’re the ones
who belong at work, the men on t.v.
make a mess in Lucy’s kitchen,
a pot of rice exploding
like a white volcano. The women
in the Philippines and elsewhere ponder
big business, the benefits
of discontinuing its own children. In dreams
these women package Toys “R” Us Uteruses
while a sterile Barbie, her hair tucked up
inside her Lucite helmet, plants
a flag for Mattel on the cheesiest moon.
§

O corpo é meu!

“Era-se um tempo em que a Barbie nem podia dobrar
os joelhos”, eu falo para minhas sobrinhas Kerri e Katie
que sentam na minha frente no chão da sala
desta América de colarinho azul e rosa. Estão abrochando as minúsculas
calças de courino
nas suas Barbies Roqueiras
e grandes guitarras pretas
sobre seus ossudos quadris de relâmpago. Katie me entrega
sua boneca porque precisa da minha ajuda
com os pequenos botões que serpenteiam nas costas
da blusinha tomara que caia da Barbie. “Minha primeira Barbie
nem podia mover a cintura”. Eu estou falando como alguém
que já vivesse o suficiente
para ver mudanças significativas. Minhas sobrinhas
estão de costas para a TV que parece estar sempre ligada,
onde eu estiver. E atrás de suas cabecinhas
loiras inocentes, Jessica Hahn
faz uma aparência-relâmpago num vídeo da MTV.
Ela roda como uma sexy bola de pinball ,
e tenta desesperadamente sair de uma jaula côncava.
“O corpo é meu”, recentemente ouvi ela dizer
numa entrevista matinal na TV. Ela começou
justificando suas fotos nuas na Playboy.
“O corpo é meu”, ela repete
como uma boneca Chatty Cathy
com um disco arranhado enfiado nas costas.
“O corpo é meu”, ela começava a responder
a toda e qualquer pergunta do entrevistador –
onde ela cresceu, se ainda vai à igreja.
“O corpo é meu?”
Ainda assim as palavras eram as mesmas,
mas quanto mais acusações, mais mudavam
suas inflexões. Jessica olhava para além
do set onde alguém lhe parecia estar dando
pistas. Meu namorado dava risada.
“Que tal pôr um pouco de convicção nisso, Jessica?”,
ele falava para a TV. Então, tentando estimular
mais a conversa, ele me dizia, “Olha, meu bem,
ela nem parece saber se o corpo é seu
ou não!” Ele tinha razão
mas sabia enquanto o colocava
que tinha escolhido as palavras erradas.
Eu tinha bebido muito café. Encontrei-me
defendendo Jessica energicamente,
culpando sua desorientação
como resposta a nossa sociedade misógina –
o deslocamento que todas as mulheres sentem
do seu eu corporal.
E depois com todas essas teorias que eu vinha lendo!
Ele foi trabalhar mais ou menos concordando
mas dizia também que o tinha deixado exaurido.
E agora minha irmã me culpa da mesma coisa
porque assinalo para Katie que ela está errada
ao pensar que só meninos devem sujar-se
e só meninas usarem brincos.
“As pessoas devem fazer qualquer coisa que desejarem”.
Discorro sobre minha amiga que usa capacete
quando vai ao trabalho onde mexe
com eletricidade igual seu pai.
Katie brinca com seus cadarços
e pede suquinho. Minha irmã diz,
“Deixe ela em paz. Nem entrou no primário ainda”.
Kerri, a maior, se concentra, tentando
passar um grande pente para humanos
no cabelo sintético cheio de gel
da boneca. Por tanta força que exige desemaranhá-lo
de repente, sem querer, sai a cabeça da Barbie,
e uma menor, sem rosto, suporte apenas,
emerge do pescoço. Por um instante
nós todas – dois pares de irmãs, com um
intervalo de vinte anos – compartimos a epifania
sobre Mattel: lavagem cerebral, pedaço de plástico
que nos diz quem Barbie é. Mas logo
o rosto de Kerri é todo pânico, como esperando um castigo.
As lágrimas despontam no canto dos seus olhos.
Faço um resgate rápido,
enfiando a cabecinha moldada
de novo no corpo, seus traços maleáveis
se distorcendo sob meu polegar. Apesar de boneca adulta,
sua moleira ainda está aberta. Sob a pressão
do meu toque, seu rosto esmaga, como alguém
que se olha na casa dos espelhos.
Mas ao soltá-la, ela imediatamente volta,
o sorrisinho educado, o nariz perfeito
e pronta para pôr tudo em seu lugar:
a Barbie pertence à América –
metade vítima, metade pequeno soldado
cor-de-rosa.

It’s My Body

“There was a time when Barbie couldn’t even
bend her knees,” I told my nieces Kerri and Katie
who sit before me on a living room floor
in blue and pink collar America.
They are strapping their Rock-n-Roll Barbies
into tiny leatherette pants
and big black guitars
with jagged lightning hips. Katie hands me
her doll because she needs help
with the tiny buttons that snake the back
of Barbie’s off-the-shoulder blouse. “My first Barbie
couldn´t even twist her waist”. I am talking
like a person who has lived long enough
to see significant change. My nieces
have their backs to the TV which seems always on,
wherever I am. And behind their blond
innocent heads, Jessica Hahn
makes a cameo appearance on an MTV video.
She rolls like a sexy pinball,
then tries to claw herself out of a concave cage.
“It’s my body”, I recently heard her say
on a morning talk show. She started
by defending her nude poses in Playboy.
“It’s my body”, she repeated
like a Chatty Cathy doll
with a skipping record stuck in her back.
“It’s my body,” she began to answer
her interviewer’s every inquiry –
where she grew up, if she still went to church.
“It’s my body?”
The words stayed the same,
but as more accusations came, her inflections
changed. Jessica looked beyond the studio set
where somebody seemed to be cueing her
that message. My lover was laughing.
“How about a little conviction there, Jessica?”,
he said to the TV. Then, trying to coax
more conversation, he addressed me, “Look,
honey, she doesn’t even seem to know if it’s her body
or not.” He was right,
but he knew as he brought it up,
it was the wrong thing to say.
I’d had too much coffee.
I found myself energetically defending Jessica,
blaming her disorientation
as a response to our misogynous society-
the dislocation all women feel
from their physical selves.
And then came the theories I’d been reading.
He left for work kind of agreeing
but also complaining that I’d made him exhausted.
And now my sister is blaming me for the same thing
because I am pointing out to Katie that she is mistaken
to think only boys should get dirty
and only girls should wear earrings.
“People should be able to do whatever they want.”
I lecture her about my friend who wears a hard hat
when she goes to her job and works
with electricity, just like her daddy.
Katie fiddles with her shoelaces
and asks for juice. My sister says,
“Give the kid a break. She’s only in kindergarten.”
Older Kerri is concentrating, trying
to get a big comb for humans
through her doll’s Moussed synthetic hair.
Because untangling the snarls needs so much force,
suddenly, accidentally, Barbie’s head pops off,
and a smaller one, a faceless socket,
emerges from her neck. For an instant
we all –two sets of sisters, our ages
twenty years apart – share a small epiphany
about Mattel: this brainwashed piece of plastic cerebrum
is underneath who Barbie is. But soon
Kerri’s face is all panic, like she will be punished.
The tears begin in the corner of her eyes.
I make a fast rescue attempt,
spearing Barbie’s molded head
back on her body, her malleable features distorting
under my thumb. Although a grown doll,
the soft spot at the top of her skull
still hasn’t closed. Under the pressure
of my touch, her face is squashed, someone
posing in a fun house mirror.
But the instant I let go, she snaps back
into a polite smile, her perfect nose
erect and ready to make everything
right: Barbie is America’s –
half victim, half little pink soldier.

§

Miriam Adelman, nasceu em 1955 em Milwaukee, Wisconsin. Aos 19 anos encontrou seus primeiros caminhos “para o mundo”, indo para o México, onde permaneceu por 9 anos, dedicando-se, entre outras coisas, aos estudos em sociologia na Universidad Nacional Autónoma de México. Mora em Curitiba, Brasil desde 1991; é professora da UFPR desde 1992. Além de lecionar nos programas de pós-graduação em Sociologia e Estudos Literários dessa instituição, dedica-se às paixões literárias, à fotografia, ao feminismo e às atividades equestres. Seu primeiro livro de poemas encontra-se no prelo e deve ser lançado ainda em 2019.
*
Padrão
poesia, tradução

“O Palácio”, de Kaveh Akbar, por Layla Oliveira

Os poemas de Kaveh Akbar foram publicados em jornais como The New Yorker, Poetry, Paris Review, Best American Poetry, The New York Times, e muitos outros. Ele é o autor de duas coletâneas completas: Pilgrim Bell (Graywolf, 2021) and Calling a Wolf a Wolf (Alice James, 2017). Ganhador do Prêmio Levis Reading, múltiplos prêmios Pushcart, e Ruth Lilly and Dorothy Sargent Rosenberg Poetry Fellowship, Kaveh é o editor-fundador do Divedapper, site de entrevistas com as maiores vozes da poesia contemporânea. Nascido no Teerã, Iran, leciona na Universidade de Purdue e nos programas de baixa residência do MFA no Randolph College e Warren Wilson. O site dele é http://kavehakbar.com/#/.

Layla Gabriel de Oliveira é poeta, atriz e estudante de Letras na Universidade Federal do Paraná. Está atualmente traduzindo o livro inédito do poeta Kaveh Akbar, Pilgrim Bell, para publicação simultânea nas duas línguas. Concluiu o seu primeiro projeto de pesquisa na Iniciação Científica, sobre tradução e recepção de teatro grego, na área de clássicas.

original: https://www.newyorker.com/magazine/poems/kaveh-akbar-the-palace

* * *

O Palácio

É difícil lembrar com quem estou falando
e o porquê. O palácio queima, o palácio
é fogo
e meu trono é cômodo e
quadrado.

Lembra: o velho rei convidou seus súditos para casa
para se deliciarem com estoques de tortas de maçã e cordeiro doce.
[Para se deliciarem com cordeiro doce de estórias. Ele acreditou

que eles o amavam, que a sua bondade
tinha feito ele merecer a bondade deles.

A bondade deles o arrastou para a rua
e despedaçou

seus braços, arrancou
a sua bondade, arrancou os seus dedos
feito penas.

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Não há bons reis.
Só há belos palácios.

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Quem aqui poderia alegar ser meramente culpado?
Os meros.

Minha vida
ficando monstruosa
com facilidade.

Para ser um Americano meu pai deixou seus irmãos
pensando
que nunca os veria de novo. Meu pai
queria ser o Mick Jagger. Meu pai
virou fantasma,
acabou trabalhando em granjas por trinta anos, certa vez
[um sono
um sofá
ele cospe uma pena.

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América poderia ser uma metáfora, mas não é.
Dormindo no sofá, ele cuspiu uma pena branca de pato.

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Não há portas na América.
Só buracos king-size.

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Ser um Americano é ser um especialista
em oportunidade.

Oportunidade custa.

Cada laranja que eu como desaparece os milhares de
pêssegos, ameixas, peras que eu poderia ter comido

mas não comi.

No céu, oportunidade custa.
No céu dela

minha mãe planta
pêssegos, ameixas, peras, e eu como até desmaiar

e acordar no céu;

acordar, e comer um pouco mais. Eu não poderia sonhar em fazer
[nada
pela metade. Seja o que for, eu quero o ramo
todo. Por favor. E rápido.

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Você ainda está ouvindo?
Cada pessoa que toco
me custa dez milhões que eu nunca vou conhecer. Pessoas e pessoas,

dentro de cada
um palácio em chamas. Dentro de cada

Mick Jagger usando um casaco de pele de gorila coberto de penas de
[avestruz.
Ele chama de “glamouflagem”.

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O que se foi, mas permanece visto?

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Soldados sem sorte,
o lápis atravessa lentamente o tríceps do meu irmão.

(O que se foi, mas permanece visto?)

Ele não gritou, só deixou os olhos lacrimejarem.
Se eu sorrir, mesmo que um pouco: eles começam a afiar as espadas.
E estão certos. Agora não é hora de alegria.

Agora não é hora. O palácio queima.
O lápis atravessa lentamente o irmão do meu irmão.

(O que permanece, mas visto que se foi?)

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Um rei governa melhor
no escuro, onde não dá pra ver suas mãos se mexendo. Um rei

não nos vê
assistindo o rei.

Costuramos as iniciais de Deus nas nossas roupas de trabalho

enquanto nossos bebês emagrecem.
Os bebês não nos veem

assistindo nossos bebês
emagrecerem.

Nossos bebês nascidos viciados em medo de bebês.
Nossos bebês mastigando maçãs sob o sol.

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América? a lápide quebrada.
América? longe o bastante de si mesma.

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Alô, aqui é o Kaveh falando:
Eu queria ser o Keats
(mas já vivi quatro anos mais)

Alô, aqui é o Keats falando:
seria um absurdo dizer alguma coisa agora
(muito menos alguma coisa nova)

Alô, aqui é ninguém falando:
floradas de hibisco, penas molhadas,
(um pequeno polegar de cinzas.)

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Ser Americano é ser um caçador.

Ser Americano. Quem pode ser Americano?

Ser Americano é ser? O que? Um caçador? Um caçador
que só atira grana.
Não, grana não –
grana.

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Eu tenho um aparelho de cozinha
que me permite secar alface.
Não tem jeito elegante
de dizer isso – pessoas
com corações vivos
que caberiam no meu peito
querem derreter a cidade onde eu nasci.

Na sua escola, num subúrbio americano,
a camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”

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Na sua escola, num subúrbio americano,
a camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”

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O troféu:
bode assado ganindo no espeto.

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A camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”
Pedem para ele virar a camiseta do avesso.
Pedem? Ele, do avesso.

Depois que ele obedece, seus pais processam a secretaria de
[educação.
Nossas almas querem saber
como foram feitas
o que devem.

Esses pais querem que o menino
queira derreter a minha família,
e eu vivo entre eles.

O trono do palácio. Aconchegante, em chamas.
Eu o desenho sem levantar minha caneta.
Eu o desenho gordo como a criação–
vazio como uma pegada.

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Como viver? lendo poemas, respirando curto,
secando alface.

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América, a respiração curta
como viver?

A armadilha curta, América
capturando

só o que é pequeno demais para comer.

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Os mortos se mantêm aquecidos sob a América
enquanto minha mãe frita berinjela no fogão.

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Eu não estou lá.
Eu estou em algum outro lugar da América (eu sempre estou
em algum outro lugar da América) escrevendo isso, escrevendo isso,
[escrevendo isso, inglês
é a primeira língua da minha mãe,
mas não é a minha.
Eu poderia ter dito bademjan.
Eu poderia ter dito khodafez.

Óleo escaldante, grandes punhos de fumaça, escrevendo isso.

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O primeiro inseto desenhado pelo homem foi o gafanhoto.
Arte é onde o que nós sobrevivemos sobrevive.

Óleo escaldante, grandes punhos de fumaça. Arte. Óleo escaldante. Arte.
Minha mãe frita berinjela. O primeiro

inseto desenhado pelo homem sobrevive.

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Quem vai beijar a rainha do baile?
Cérebro pulsando como uma ostra.

Quem vai ganhar a guerra?
América emerge

coberta dos
miúdos grãos daquilo de que é feita:

Pão fresco inchado com pó de farinha.

Ao escrever um e-mail, eu cometo um erro de digitação:
Eu te chamo tanto hoje,

e deixo assim.

Piedades proibidas, moinhos de vento girando
feito jovens bêbados.

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Qualquer documento de uma civilização é também um documento
[de barbárie
diz o palácio, em chamas.

Eu, um homem
sou tudo que eu não digo.

América, eu te garanto, se você me convidar para a sua casa
Eu vou ficar,

chamando, beijando meus amados com franqueza,
colhendo rabanetes
e tampando todas as suas canetas.

Não há bons reis,
só palácios em chamas.

Me chame hoje, tanto.

* * *

*‘The Palace’ from Calling a Wolf a Wolf,Copyright © 2019 by Kaveh Akbar.

Padrão
tradução

Quatro mulheres: Nina Simone por Nina Rizzi & um bis de Sueli Carneiro

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“Four Women” é uma canção escrita pela cantora, compositora, pianista e arranjadora e militante pelos direitos civis dos negros Nina Simone. Gravada em abril de 1965 com produção de Hal Mooney e lançada em 1966 no álbum Wild Is the Wind (Philips Records), conta a história de quatro mulheres afro-americanas diferentes, onde cada uma das quatro personagens representa um arquétipo afro-americano. Thulani Davis, no The Village Voice, chamou a canção de “uma análise instantaneamente acessível do legado condenatório da escravidão, que tornou iconográficas as mulheres reais que conhecíamos […] um hino afirmando nossa existência, nossa sanidade e nossa luta para sobreviver a uma cultura que nos considera anti-femininas. Reconheceu a perda da infância entre as mulheres afro-americanas, nossa invisibilidade, exploração, desafios, e lembrou que na escravidão e no patriarcado, seu nome é o que eles chamam de coisa”.

A primeira das quatro mulheres descritas na canção é “Tia Sarah”, uma personagem que representa a escravidão afro-americana. A descrição da mulher enfatiza os aspectos fortes e resilientes da mulher negra, “forte o suficiente para suportar a dor”, assim como o sofrimento a longo prazo que teve que suportar “, infligida novamente e novamente”.

A segunda mulher que aparece na canção é  “Saffronia”, uma mulher miscigenada (“minha pele é amarela”) forçada a viver “entre dois mundos”. Ela é retratada como uma mulher oprimida e sua história é mais uma vez usada para destacar o sofrimento da mulher negra nas mãos de pessoas brancas em posições de poder (“Meu pai era rico e branco / Ele forçou minha mãe até tarde da noite”).

A terceira mulher é uma prostituta conhecida como “Coisinha Doce”. Ela encontra aceitação tanto entre negros como brancos, não apenas porque “meu cabelo é bom”, mas também porque ela fornece gratificação sexual (“De quem é a menininha?/ Qualquer um que tenha dinheiro para comprar”).

A quarta e última mulher é rude, amargurada pelas gerações de opressão e sofrimento impostos ao seu povo (“Sou terrivelmente amarga hoje em dia porque meus pais eram escravos”). Nina Simone finalmente revela o nome da mulher depois de um final dramático durante o qual ela grita: “Meu nome é Buceta!”

Musicalmente falando, a canção tem uma melodia simples com um groove acompanhado de piano, flauta, guitarra elétrica e baixo, que gradualmente se desenvolve em intensidade à medida que progride e atinge um clímax durante a quarta e última seção. O vocal de Nina Simone torna-se mais apaixonado, rachando de emoção e seu piano estável se torna frenético e às vezes dissonante, para refletir a angústia da personagem. A música termina com Nina Simone alcançando uma nota altíssima, quase chorando ao cantar o nome “Peaches”.

Apesar de não haver redes sociais na época, má-interpretação de texto já existia, para desgosto de Nina! Apesar de sua intenção de destacar a injustiça na sociedade e o sofrimento dos afro-americanos, alguns ouvintes interpretaram a música como racista. Eles acreditavam que se baseava em estereótipos negros, tendo a música sido banida de várias estações de rádio importantes.

Dentre os diversos covers de Four Women destacamos  a adaptação da canção pela cineasta Julie Dash em um curta experimental de 1978 com o mesmo nome; e a peça de 2016, Nina Simone: Four Women, de Christina Ham; no espetáculo, Nina Simone conhece as três primeiras mulheres (ela é a quarta) no local do atentado à Igreja Batista da 16th Street, e elas se tornam as personagens de sua música.

[Comentário traduzido e adaptado da página da canção na wikipédia/EUA e páginas citadas na mesma]

nina rizzi

*

QUATRO MULHERES

Minha pele é negra
Meus braços são longos
Meu cabelo é de algodão
Minhas costas são fortes
Fortes o suficiente pra suportar a dor
Infligida novamente e novamente
Como eles me chamam
Meu nome é TIA SARAH
Meu nome é tia Sarah

Minha pele é amarela
Meu cabelo é longo
Entre dois mundos
Não pertenço a nenhum
Meu pai era rico e branco
Ele forçou minha mãe até tarde da noite
Como eles me chamam
Meu nome é SAFFRONIA
Meu nome é Saffronia

Minha pele é bronzeada
Meu cabelo é bom
Meus quadris te convidam
Minha boca é como o vinho
De quem é a menininha?
Qualquer um que tenha dinheiro pra comprar
Como eles me chamam
Meu nome é COISINHA DOCE
Meu nome é Coisinha Doce

Minha pele é marrom
Meus modos são rudes
Eu mato a primeira mãe que vejo
Minha vida tem sido muito dura
Sou terrivelmente amarga hoje em dia
Porque meus pais eram escravos
Como eles me chamam
Meu nome é BUCETA!

FOUR WOMEN

My skin is black
My arms are long
My hair is woolly
My back is strong
Strong enough to take the pain
inflicted again and again
What do they call me
My name is AUNT SARAH
My name is Aunt Sarah

My skin is yellow
My hair is long
Between two worlds
I do belong
My father was rich and white
He forced my mother late one night
What do they call me
My name is SAFFRONIA
My name is Saffronia

My skin is tan
My hair is fine
My hips invite you
my mouth like wine
Whose little girl am I?
Anyone who has money to buy
What do they call me
My name is SWEET THING
My name is Sweet Thing

My skin is brown
my manner is tough
I’ll kill the first mother I see
my life has been too rough
I’m awfully bitter these days
because my parents were slaves
What do they call me
My name is PEACHES
§


NEGROS DE PELE CLARA

Sueli Carneiro

Vários veículos de imprensa publicaram com destaque fotos dos candidatos selecionados que vão concorrer às vagas para negros da Universidade de Brasília (UnB). Veículos que vêm se posicionando contra essa política percebem, no largo espectro cromático desses alunos, mais uma oportunidade para desqualificar o critério racial que a orienta.

Uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva para os racialmente hegemônicos o privilégio de serem representados em sua diversidade. Assim, para os publicitários, por exemplo, basta enfiar um negro no meio de uma multidão de brancos em um comercial para assegurar suposto respeito e valorização da diversidade étnica e racial e livrar-se de possíveis acusações de exclusão racial das minorias. Um negro ou japonês solitários em uma propaganda povoada de brancos representam o conjunto de suas coletividades. Afinal, negro e japonês são todos iguais, não é?

Brancos não. São individualidades, são múltiplos, complexos e assim devem ser representados. Isso é demarcado também no nível fenotípico em que é valorizada a diversidade da branquitude: morenos de cabelos castanhos ou pretos, loiros, ruivos, são diferentes matizes da branquitude que estão perfeitamente incluídos no interior da racialidade branca, mesmo quando apresentam alto grau de morenice, como ocorre com alguns descendentes de espanhóis, italianos ou portugueses que, nem por isso, deixam de ser considerados ou de se sentirem brancos. A branquitude é, portanto, diversa e multicromática. No entanto, a negritude padece de toda sorte de indagações.

Insisto em contar a forma pela qual foi assegurada, no registro de nascimento de minha filha Luanda, a sua identidade negra. O pai, branco, vai ao cartório, o escrivão preenche o registro e, no campo destinado à cor, escreve: branca. O pai diz ao escrivão que a cor está errada, porque a mãe da criança é negra. O escrivão, resistente, corrige o erro e planta a nova cor: parda. O pai novamente reage e diz que sua filha não é parda. O escrivão irritado pergunta, “Então qual a cor de sua filha”. O pai responde, “Negra”. O escrivão retruca, “Mas ela não puxou nem um pouquinho ao senhor? É assim que se vão clareando as pessoas no Brasil e o Brasil. Esse pai, brasileiro naturalizado e de fenótipo ariano, não tem, como branco que de fato é, as dúvidas metafísicas que assombram a racialidade no Brasil, um país percebido por ele e pela maioria de estrangeiros brancos como de maioria negra. Não fosse a providência e insistência paterna, minha filha pagaria eternamente o mico de, com sua vasta carapinha, ter o registro de branca, como ocorre com filhos de um famoso jogador de futebol negro.

Porém, independentemente da miscigenação de primeiro grau decorrente de casamentos inter-raciais, as famílias negras apresentam grande variedade cromática em seu interior, herança de miscigenações passadas que têm sido historicamente utilizadas para enfraquecer a identidade racial dos negros. Faz-se isso pelo deslocamento da negritude, que oferece aos negros de pele clara as múltiplas classificações de cor que por aqui circulam e que, neste momento, prestam-se à desqualificação da política de cotas.

Segundo essa lógica, devemos instituir divisões raciais no interior da maioria das famílias negras com todas as implicações conflituosas que decorrem dessa partição do pertencimento racial. Assim teríamos, por exemplo, em uma situação esdrúxula, a família Pitanga, em que Camila Pitanga (negra de pele clara como sua mãe), e Rocco Pitanga (um dos atores da novela “Da cor do pecado”), embora irmãos e filhos dos mesmos pais seriam, ela e a mãe brancas, e ele e o pai negros. Não é gratuito, pois, que a consciência racial da família Pitanga sempre fez com que Camila recusasse as constantes tentativas de expropriá-la de sua identidade racial e familiar negra.

De igual maneira, importantes lideranças do Movimento Negro Brasileiro, negros de pele clara, através do franco engajamento na questão racial, vêm demarcando a resistência que historicamente tem sido empreendida por parcela desse segmento de nossa gente aos acenos de traição à negritude, que são sempre oferecidos aos mais claros.

Há quase duas décadas, parcela significativa de jovens negros inseridos no Movimento Hip Hop politicamente cunhou para si a autodefinição de pretos e o slogan PPP (Poder para o Povo Preto) em oposição a essas classificações cromáticas que instituem diferenças no interior da negritude, sendo esses jovens, em sua maioria, negros de pele clara como um dos seus principais ídolos e líderes, Mano Brown, dos Racionais MCs. O que esses jovens sabem pela experiência cotidiana é que o policial nunca se engana, sejam eles mais claros ou escuros.

No entanto, as redefinições da identidade racial, que vêm sendo empreendidas pelo avanço da consciência negra e que já são perceptíveis em levantamentos estatísticos, tendem a ser atribuídas apenas a um suposto ou real oportunismo promovido pelas políticas de cotas, fenômeno recente que não explica a totalidade do processo em curso.

A fuga da negritude tem sido a medida da consciência de sua rejeição social e o desembarque dela sempre foi incentivado e visto com bons olhos pelo conjunto da sociedade. Cada negro claro ou escuro que celebra sua mestiçagem ou suposta morenidade contra a sua identidade negra tem aceitação garantida. O mesmo ocorre com aquele que afirma que o problema é somente de classe e não de raça. Esses são os discursos politicamente corretos de nossa sociedade. São os discursos que o branco brasileiro nos ensinou, gosta de ouvir e que o negro que tem juízo obedece e repete. Mas as coisas estão mudando…

In: CARNEIRO, Sueli. Racsimo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011. pp. 70-73. Disponível aqui.]

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