crítica, poesia, tradução

ibn quzman (c. 1078-1160), por michel sleiman

manuscrito de poema de ibn quzman

manuscrito de poema de ibn quzman

nosso blog tenta, na medida do possível & das nossas capacidades de leitura, limitadas aos encontros (fortuitos ou premeditados) com poéticas de outras culturas & tradições. como desconheço o árabe & sua cultura & me contento com um conhecimento vago & com algumas experiências-leituras, optei por apresentar uma tradução de um zejel [ou zahal] de ibn quzman de córdova (ou ben quzman c. 1078-1160), um autor importantíssimo no ambiente do al-andaluz árabe do século XII, por ter escrito no registro do árabe coloquial da sua região. a sua obra ficou preservada num cancioneiro, ou diwan (onde temos quase 150 poemas), & ainda foi pouco traduzida para o português, sobretudo para o brasileiro. felizmente, essa situação andou mudando um pouco, depois de algumas traduções e dos estudos de michel sleiman.

o trabalho de sleiman, tanto no livro citado abaixo como em diversos artigos & ainda em mais um livro (a arte do zahal), é, a meu ver, importantíssimo para interpretar e apresentar essa poesia como poesia aos leitores brasileiros. como se pode imaginar, não estou falando de meramente apresentar uma obra (alguns filólogos & críticos ainda insistem em ver na tradução um ato de mera divulgação literária). como vocês podem ver no comentário depois do poema, feito por ele próprio, o trabalho tradutório de sleiman é um processo crítico de alto nível que, ao invés de explicitar argumentativamente sua interpretação, faz uma recriação (ou transcriação, como ele mesmo usa a partir de haroldo de campos) do texto original, de modo que suas escolhas são criativamente – ou seja, criam um novo texto, dialógico e diverso do original – a crítica do texto árabe. oxalá ele faça escola.

guilheme gontijo flores

"A poesia árabe-andaluza: Ibn Quzman de Córdova", de Michel Sleiman

“A poesia árabe-andaluza: Ibn Quzman de Córdova”, de Michel Sleiman

Panegírico-requebro do Alamim Waxki

0. Amo e temo: o amor enreda e mata.
E posso? Te amar, Waxki, me mata.

1. Amei. E acertaram no boato.
– “Teu caso me deixa estupefato.
Desde agora, aviso, eu te maltrato.”
Topo o trato. Humilha! Me maltrata!

2. Consultei alguns em quem confio.
Contei: – “Por Fulano estou cativo”
– “Caíste na rede? Pula, amigo!”
Um louva bem; do outro os bens – oblata.

3. Definhei de fé e desespero.
Fiquei feito escombro, velho e feio.
Mal me sento em casa e já tonteio
e a parede vira uma almofada.

4. Deus te doou em dobro a beleza.
Junto ao mal te pôs delicadeza:
A boca doce é do doce presa –
tanto almíscar que dele se empapa.

5. Loiro, bom gentil, postura altiva;
mãos de nobre, príncipe e de escriba
e os dedos, biscoito – a massa em tiras
faz com que o doceiro estupefaça.

6. Ordena a cidade: elege e manda!
E o que ouço correr de banda a banda:
“Senhor dos senhores: faz, desmanda!”
é o teu natural – Não te retrata?

7. Digo encanto novo e encanto antigo.
Do feno, estes homens; sou do trigo.
Eu sou eu. E quem faz par comigo?
[O Zejel “Quzman” comigo empata!]

8. Azar de quem frauda ou de quem burla.
Ninguém terá prisão como a sua.
Mal alisa a roupa, apruma a nuca,
o alamim lhe gruda uma chibata.

9. Se eu morrer, o verbo me lamenta:
Cavalos relincham, não inventam.
Volto e esfumo, num só verso-emenda,
quem me tira a prenda. E manda: – “Mata!”.

* * *

Nabkí… Abkí? Mata… Mata!

O TA [Texto Árabe] afirma no prelúdio (0.1) que o amante quer [amar], mas, por temor ao enredamento, chora [NABKÍ, “eu choro”]; contudo, (0.2) o que pode fazer se ele morre de amor por Waxki [WAXKÍ].
Na estrofe 1, o amante reproduz o seu diálogo com o amador: apesar de este avisá-lo de que, a partir de então, só lhe daria maltratos (1.3), o amante aceita de bom grado a condição imposta pelo amado, incitando-o (1.4) “Humilha! Maltrata!” [ANKÍ].
Na última estrofe, porém, o amante – agora um poeta sem igual (7.3), já que os demais relincham como cavalos (9.3) – dirige outro imperativo ao amante (9.1): “Lamenta o meu verbo perfeito” para depois, num tom de pergunta interjeitiva, dizer-lhe (9.4): “por acaso eu ficarei calado enquanto a outros se atiram moedas e a mim se diz “Chora”?” [ABKÍ].
Entre o primeiro e o último “choro” do poema, ocorrem algumas inversões marcantes:

1. o amante que chora, morre por amor e sofre os maltratos do amado vira um poeta exímio e superior;
2. o amado impiedoso, fortemente belo, doce e almiscarado passa a ser um alamim poderoso, um fiscal do comércio fraudulento de Córdova, um zelador da lei islâmica;
3. no decorrer do poema, o amante é descrito como um ser debilitado pelo amor; sua única chance de recuperação é o consentimento amoroso, mas tanto o amado terrível como o fiscal rigoroso, além de implacáveis, não se rebaixaml para se quebrar o impasse, o poema introduz uma terceira figura, a dos poetas menores e comerciantes fradulentos;
4. esses são tomados como bode expiatório: sendo ele o maior poeta, não teria o direito de subjugar os menores, do mesmo modo como o poderoso amado e jurisconsulto do Islão, senhor de todos os senhores, maneja, como bem entende, as leis da religião.

Por isso, quem “chora” no início do zejel já não quer chorar no final, uma vez que o poeta superior pode e deve impor o choro aos inferiores. A arquitertura do zejel é explícita. E esta arquitetura é sonora; é mais uma questão de rima. Os sons de nabkí… waxkí… ankí… abkí… marcam o começo e o fim da metáfora: o meio, o corpo cheio do zejel, é o seu referencial. Para ser sólida essa metáfora, não deve garantir, na coesão do texto, as marcas da coerência?
[…]
No entanto, o Texto Português quer-se dobrar sobre si mesmo. O seu início quer-se ver no fim, e o meio aspira a referente dos extremos. Como traduzir o Texto Árabe senão transcriando, recriando?
[…]
A arquitetura dos sons arrola estes conceitos: MATA, ME MATA, MALTRATA, MATA! Não há choro – como diríamos no Brasil: nem choro nem vela. Fora da rima, o choro não existe a não ser como sintoma de quem sofre o maltrato do amado, ou padece, até a morte, do subjugo amoroso. Dentro da rima, tanto o CHORO do Texto Árabe como O AMOR QUE MATA do Texto Português abrem e fecham um mesmo anunciado: a realidade não é unívoca, e a verdade é complexa, como o jogo da rima que trai o sentido absoluto da palavra, no mínimo por fazê-lo compartilhar da materialidade do som que, para a poesia, é a abstração mais alta e, paradoxalmente, uma trilha concreta para a tradução.

Erro?

O que difere os dois textos no nível do conteúdo – e representa o escândalo para muitos críticos e tradutores – não passa de um diálogo entre textos e sujeitos. De fato, o desvio existe: lá, o poeta se mostra rebelde, negando-se o choro passivo, enquanto os poetas menores ultrajam o verbo criador e perfeito com seus relinchos e, injustamente, recolhem as moedas atiradas, que deveriam parar no bolso dele; aqui, o poeta já nem admite a idéia de ficar calado: quem é condenado ao silêncio são os poetas menores que ele esfuma em um único verso. Lá, é admitida a superioridade do poeta, mas esta é declarada na forma da pergunta interjeitiva; aqui, é a autovanglória que se leva ao extremo. O que acontece? Diálogos! A tradução responde ao original, realiza-se numa outra possibilidade criativa ao texto árabe. Ela pode, na medida em que, pela recriação, tenta surpreender o texto de partida. O choro do amante [nabkí], enfim, ter-se-ia dado por eleição da rima, mais precisamente, do anagrama debuxado por todas as rimas e no interior dos versos, para ecoar o nome de Waxki, o louvado, a quem se endereça, enfim, o panegírico. De modo análogo, o amor que mata também é produto da rima que se pretende parte de um anagrama maior, o maltrato. A tradução se pergunta se o maltrato do amor não pode, de fato, ser tomado como a metáfora do poeta dependente da avareza dos mecenas, cada vez mais raros estes, naqueles dias de decadência almorávida. Nisto, esta interrelação do poema com o Cancioneiro, com o seu referencial histórico, reside a interpretação do tradutor, o seu território, de onde parte a sua mediação até o campo do outro; ou onde se sintetiza e se procura reproduzir o que se gerou no encontro de épocas e textos distintos.

[Michel Sleiman, A poesia Árabe-Andaluza: Ibn Quzman de Córdova. São Paulo, Perspectiva, 2000. (Coleção Signos, 28), pp. 166-7 (tradução) e 185-188 (comentário)]

Padrão

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s