crítica, poesia

“O tempo é sempre” de Ligia Cademartori, por Marcelo Sandmann 

Ligia Cademartori (com o copo na mão), ao lado de Amanda Müller, em 2014.

Ligia Cademartori (com o copo na mão), ao lado de Amanda Müller, em 2014.

Acabo de ler O tempo é sempre, de Ligia Cademartori, publicado pela 7Letras, do Rio de Janeiro, neste ano de 2015, presente do poeta Adalberto Müller, responsável pelo texto de apresentação. Trata-se da estreia da autora na poesia, uma estreia tardia, vale assinalar, pois Ligia nasceu em 1946. Dela, professora na Universidade de Caxias do Sul e depois na Universidade de Brasília, conhecia até então apenas os estudos acadêmicos. Curioso para ver o que já se escreveu sobre o livro, faço uma rápida pesquisa na rede, atrás de alguma nota ou resenha. Para total surpresa, um dos primeiros textos que encontro é um necrológio, pelas mãos de Graça Ramos, publicado no jornal O Globo, em 4 de agosto último. Ligia Cademartori recém faleceu.

Concluir a leitura de um livro, disposto a escrever sobre ele, imaginando viva a autora, imaginando-me potencial interlocutor, e livro intitulado justamente O tempo é sempre… – difícil explicar o quanto de susto e vertigem!

Pois o “tempo”, como anuncia o título, é assunto fundamental deste trabalho, o tempo em dispersão, que a memória quer reter, que a poesia vai reter. Já num dos primeiros poemas, “Fronteira”, lemos verso como este: “uma gota desprendeu-se da dispersão dos dias”. Relembrando visita à cidade de origem (Ligia é de Santana do Livramento, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, o que pode explicar, em chave biográfica, o título do poema, na ausência de referência toponímica), a poeta registra “um instante”, “um instante tão somente”, em que “tudo o que fui e tive / em sensação veloz me faz visita”. Uma “gota” que salta do rio do tempo, trazendo o vivido concentradamente, revelado em plenitude, para então novamente passar.

O vivido é “bagagem”, como diz o homônimo “Bagagem”, “resíduos de coisas findas, / de tanta gente perdida / e dentro de si contida”. Mas coisas que de repente despertam, para a “desperta sonâmbula” (essa a quem a poeta se refere em terceira pessoa, ela mesma afinal), “a que enlaçava palavras, / via imagens na caverna / e descobria o encanto, / ao mesmo tempo que o espanto”. “Resíduos” trazidos à tona, em “imagens” e “palavras”, para o “encanto” e para o “espanto”: poesia.

O motivo da viagem pela vida, com a bagagem do vivido a reboque, reaparece também nos poemas em que a viagem se dá (agora no emprego habitual do vocábulo) pela geografia. “Embarques”, com seus cantantes heptassílabos, e refinadas rimas toantes, aqui e ali dispostas, é outro que trata, pelo périplo entre os lugares, da passagem do tempo, a que a memória e a poesia procuram resistir. Vale reproduzi-lo na íntegra:

EMBARQUES

Não creia, não é verdade
que os dias todos se esvaem.
O tempo, às vezes, não corre
nem se perde por canais.
Aquele dia em Siena,
na piazza de pedra e riso,
tem ainda cheiro e brilho,
um de sol, outro de vinho.
Ambos tremendo de frio,
à meia-noite vazia,
ainda aguardamos hirtos
o trem que corta Galícia,
para entrar nele, partir
e chegar nunca, jamais.

A viagem, para além do espaço-tempo, pode ser também viagem de auto-descobrimento, de interiorização: “existe via que leve / adentro e não adiante / (…) pois das paredes do dentro / escapa nunca ninguém” (“A Via”). Mas o “dentro” nunca é total clausura, puro ensimesmamento. Permanece a dialética entre exterior e interior, como no poema “Cidade Visível”. Aqui, a poeta, “alegre passante”, percorre a cidade, “entregue à imediata invasão dos sentidos”, aberta ao que vem de fora, ao mesmo tempo absorvendo o espaço exterior e absorvida por ele: “Mesmo agora, que és paisagem interna / quando te visito, não mais estrangeira, / tuas vias se confundem em minhas veias.”

o_tempo_e_sempre

A viagem pelo tempo, pelos lugares, pela própria subjetividade acaba sempre por pressupor o “outro”, como aquele companheiro em Siena e no trem para a Galícia do poema “Embarques”. É a esse outro que a poeta estende as mãos, em “Translinear”, oferecendo-lhe a linha da vida como leitura: “Palmas à vista, oferenda e entrega, / estendo as mãos como quem entrega a vida. / Quem sabe, leias, entre cruzadas linhas, / presságios, que não decifro nem creio (…)”. É do outro que vem também a carícia: “Teus dedos escorrem / na parte interna e extrema / da roupa que roça a pele / do meu pé. / Carícia breve (…) / disfarçada intimidade.” Mas a experiência amorosa é apenas insinuada, aqui e ali, num e outro poema, jamais escancarada. Por vezes o par que se define pode não se ajustar muito bem, como, com algum humor, lemos no poema “Ímpar”: “Um levanta, o outro mergulha. / Um é cinza, o outro fagulha. / Um se assombra, o outro é sol. // (…) De onde tamanha alegria / em dupla tão desigual?” Outras vezes, vive-se o franco confronto, como em “Duelo”: “E se ficarmos assim por horas, / um frente ao outro, sem nada dizer?” Mas o outro, e tudo o que ele provoca de encontro e desencontro, será sempre necessário: “Alerta para o que disse Duras: / precisa-se do outro para barrar / (precisa-se do outro para causar) / a grande invasão da nossa loucura.” (“Insone”).

O poema “Dissolução” articula bem a relação do eu/outro com a experiência do tempo: presença que se fragmenta, que se faz ausência, logo mais apenas memória, mas, como memória, de alguma forma ainda presença, até o limite da vida e a total dispersão. Vale conferir o poema integralmente, outro belo momento, com seus decassílabos de acentuação variada, de ritmo tão bem urdido, que mal se sente o metro fixo:

DISSOLUÇÃO

Pedaços de ti caem e eu recolho
como partes de um mosaico partido,
fração de carta que já se perdeu.
Restos e rastros, palavras, silêncios,
traços, vestígios do que já foi teu.
Antes que evapore a gota no ar,
preservo sobras da sobra das horas
amargas, alegres, tristes, ardentes,
presentes, mesmo se tu não estás.
Até lavar os cestos, é vindima.

A vida é como “vindima”, com o fruto que se há de colher. Depois de lavrado o campo, é “lavar os cestos”, e esse depois é já o momento em que a “indesejada das gentes” (para lembrar Manuel Bandeira, em seu “Consoada”) deixa-se entrever. Em “Cerco”, posto não nomeada, é a morte que “ronda a casa e, às vezes, deita na cama”: “Usará punhal? Envenena aos poucos? / Vai sugar a pouca força encontrada / no corpo já partido, definhado?” E é então outra a viagem que se prepara: “Talvez, compadecida com o cansaço / (…) ela encurte o ato, / e rompa logo o cordame dos cabos, / livrando o barco para, enfim, zarpar.” Em “Senhora”, pode ser a enigmática “senhora” que adentra a casa e se senta para o chá: “Sua presença / deploro, desagradável. / Sei, inevitável…” E em “Velório”, surge explícita já desde o título: “Estendido instante, alargadas horas, / essa morte não cessa de morrer.”

A ideia da morte, da dissolução, ocorre em vários poemas articuladamente ao motivo da “água”, esse solvente universal, e suas representações. A água, em movimento, torna-se rio, símbolo do fluir da vida, também do correr para a morte. Contida, em lago, como um espelho, convida à contemplação, por vezes narcísica, também à introspecção, em busca da morada do eu, quem sabe conforto, ou autonegação, morte enfim.

Em “Mergulho”, encontramos a morte por afogamento, concreto ou metafórico, e suas alusões literárias, remetendo a arquétipos do feminino, de que a água também é símbolo: “Hoje flutua na água negra / o corpo inchado de uma mulher. / (…) Aquática imagem tão antiga, / traz mil mulheres dentro de si. / A quem o nome pergunta digo / Ofélia, Virgínia, Hermínia, Léa, / as dores afogadas por fim.” O imbricamento água/escuridão é amplificado em “Noite”, com a evocação da “divina Nyx dos gregos”, conduzida por “cavalo sombrios”: “A água ganhou cor de tinta. / Mergulho na imensidão, / só negrume me embala, / o escuro silêncio nina.” E na terceira parte do tríptico “Lago”, temos outra variação dos mesmos motivos, em versos curtos, centralizados, formados por única palavra. Na verticalidade e no estreitamento da mancha tipográfica, iconiza-se o mergulho derradeiro:

(…)
O lago
embala,
acolhe,
promete
repouso,
retorno,
regaço
ou
morada
e
morte.

Em “Alice Não Veio”, quatro mulheres jogam cartas (um “jogo antigo”), mulheres de alguma idade, ao que tudo indica (“dedos cheios de nós”, “pés” que “furaram o chão” e “criaram raízes fundas”), ou que estão talvez ali há muito tempo, ou já quase para além do tempo. É dos versos finais deste poema que a autora extrai o título do livro, versos que bem concentram boa parte do que se disse até aqui: “O que é feito, o que se faz, / dissolveu-se, não é mais. / Diz se agora o tempo é sempre, / ou se, nu, ele foi deposto, / foi morto, o punhal atrás?”

Tempo decorrido, vida vivida, memória que se agarra, corpo em dissolução. A poesia, ao cabo, surge como um meio de tentar dobrar o tempo, quem sabe apreendê-lo e dar-lhe sentido, quem sabe suspendê-lo, para sempre, por quanto tempo?

A lírica de Ligia Cadermatori enfrenta alguns dos temas fundamentais da tradição da poesia, de maneira densa, mas sem perder leveza, que a agilidade dos versos, a brevidade dos poemas, uma certa naturalidade de tom acabam por proporcionar. Conversa de perto com os grandes líricos do nosso Modernismo, Bandeira certamente, em boa medida também Drummond, entre outros que se queira lembrar.

Publicando seu primeiro livro de poemas à beira dos setenta anos, em plena madureza intelectual, não seria de se esperar frivolidades no enfrentamento dos grandes temas da vida. Mas se há sabedoria nos poemas, de quem viveu e bem viveu, ela vem muitas vezes temperada com uma nota de graça, leve humor, ou mesmo ironia, algo que desarme o que poderia se tornar excessiva circunspecção. Ainda um poema:

VIDA SECA

Ah, pare com tantos ais,
que a vida não é mais que isso.
Tem o duro, o bruto, o presto,
brilho, riso é só resto.
Não busque o que não se acha.
Não lamente. Já, já passa.
E uma outra agonia se acha.
Não entre na dor tão fundo,
nem queira tanto do mundo.
Veja a cadela Baleia
e a lição que ela nos dá.
Foi somente ao morrer que,
feliz, vislumbrou preás.

“Vida Seca”, em conversa com Graciliano Ramos, é balanço final e aconselhamento, em momento derradeiro, num tom que tangencia amargura, desencanto, auto-ironia, gracejo e resignação. Não é o último poema do livro, mas bem poderia ter sido o último escrito pela autora. Se há algo a vislumbrar no momento da morte, confesso que não sei. Ficam, para aqueles que ficam, os poemas que se escreve e que (pois O tempo é sempre, diz-nos Ligia) é sempre tempo de ler.

24 de agosto de 2015

Marcelo Sandmann

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2 comentários sobre ““O tempo é sempre” de Ligia Cademartori, por Marcelo Sandmann 

  1. DIANA MARIA GALLICCHIO DOMINGUES disse:

    Maravilhoso este escrito. Parabéns pela autoria. Fui colega de aula, vizinha de cadeira da Ligia no Curso de Letras , e primeira amiga em Caxias do Sul. Compartilhamos os melhores momentos, em casa e na vida profisiona. Ela sempre foi um brilho só. Viva, perspicaz e sincera. No fim, somente recebi escritas frases que falavam dos momentos difíceis. E muita saudades! Ela nos deixou esse livro que chegamos a comentar em email específico, no final de maio.Comunicou o lançamento com uma mensagem cheia de “vaidadezinha”. Assim se definiu. Linda, querida a nossa Ligia poeta! O livro foi uma despedida a moda Garcia Marques: uma morte anunciada.

  2. Marcelo Sandmann disse:

    Fico feliz com a leitura do texto e com o comentário. Não conhecia a poesia de Lígia Cademartori, como disse. Achei o livro lindíssimo. E tentei formular, criticamente, exatamente isso.

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