poesia, tradução

serge núñez tolin (1961), por júlio castañon guimarães

1Serge Nunez Tolin1

num post muito recente de seu blog na deutsche welle, enquanto comentava a recente tradução de famosa na sua cabeça, da irlandesa mairéad byrne, feita por dirceu villa, ricardo domeneck comentou como, em termos de tradução, sempre precisamos de todos, de tudo, mas sobretudo dos vivos, esse caso ainda um pouco raro, talvez pela preguiça de leitura de outros vivos, ou pela covardia geral (principalmente) das grandes editoras em publicar poesia viva de gente viva e de correr o risco — diz já o adágio de um vivo, “poesia é risco”.

assino embaixo. de augusto e de ricardo.

nó dadoassino embaixo enquanto já penso num poeta e ensaísta forte, como júlio castañon guimarães, que parece ter se voltado com regularidade a esse ofício ingrato da tradução viva. enquanto penso na lumme editora, uma dessas que ainda vive em/de risco na poesia. já comentei, há não tanto tempo atrás, uma dobradinha entre a lumme e JCG, com a poesia de jean-pierre lemaire, aqui. saiu no fim do ano passado, 2015, mais um momento desses, nó dado por ninguém (noeud noué par personne), de um poeta pouquíssimo conhecido por estas bandas, serge núñez tolin (1961—), belga de pais espanhóis.

meu plano aqui não é fazer uma resenha, nem analisar aspectos da poesia de tolin, mas apenas chamar atenção para isso que agora surge. tolin é quase poeta bissexto, publicou talvez poucos livros, para quem já passou dos cinquenta anos de idade: silo (2001), silo II (2002), silo III (2004), l’interminable évidence de se taire (2006), l’ardent silence (2010), noeud noué par personne (2012) e fou, dans ma hâte (2015). JCG optou, creio que muito acertadamente, por traduzir um livro inteiro, em vez de nos dar uma antologia. digo isso não por pensar que antologias valem pouco, mas por ver que noeud noué par personne é um livro em inteireza: todos os poemas giram em torno de um mesmo tema (a saber, a tarefa árdua de relacionar as palavras e as coisas, num mundo depois de as palavras e as coisas de foucault) e de uma poética da prosa minimalista, do poema que é também um ensaio. antologizar alguns poemas fora do contexto pode ser um risco, como que inevitavelmente corro aqui, para apenas mostrar o livro. por isso, verter uma obra inteira é talvez o melhor modo de fazer jus à poética de uma obra inteira que não se vê para além deste livro. tradução também é risco.

dito isso, deixo com vocês quatro poemas (?) desse nó dado por ninguém.

guilherme gontijo flores

* * *

Hasarder la nuit dans la nuit devant soi, ce n’est plus finalement écrire ces mots, c’est s’avancer dans ce qu’ils ne sont pas à même se dire. Solitude qui nous façonnerait jusqu’à être un mot, si maintenant tout n’appelait au silence.

Aventurar-se na noite dentro da noite diante de si não é mais, por fim, escrever estas palavras, é avançar naquilo que elas não têm condição de dizer. Solidão que nos moldaria até sermos uma palavra, se agora tudo não convocasse ao silêncio.

§

Dire, aussi loin que les mots peuvent porter vers ce qui les excède, ce qui n’est pas dans leur ordre de dire.

Les mots indéfiniment ouverts: noeud noué par personne, dont la limite s’évanouit avec le mouvement de s’enclore.

Dizer, até onde as palavras podem levar em direção ao que as excede, o que não está em sua ordem dizer.

As palavras indefinidamente abertas: nó dado por ninguém, cujo limite se desvanece com o movimento de se fechar.

§

Pluie au passage de laquelle fleurir ramasse en soi toute idée de pluie.

Cette idée vive que l’on se fait d’une fleur.

Chuva em cuja passagem florescer colhe em si qualquer ideia de chuva.

Essa ideia vivia que se faz de uma flor.

§

L’usage des mots affame.

Sans doute, est-ce là ce que maintenant j’entends par silence. Le guet tendu de la spirale.

Indébrouillable noeud où je suis pris: noeud noué par personne.

O uso das palavras reduz à fome.

Sem dúvida, está aí o que agora entendo por silêncio. A espreita tensa da espiral.

Indeslindável nó em que estou preso: nó dado por ninguém.

(serge núñez tolin, trad. de júlio castañon guimarães)

Padrão

Um comentário sobre “serge núñez tolin (1961), por júlio castañon guimarães

  1. Pingback: O mundo depois das palavras | O Devir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s