poesia, tradução

Ana Pérez Cañamares, por Marcelo Reis de Mello

Ana Pérez Cañamares nasceu em 1968 em Santa Cruz de Tenerife, mas desde um ano de idade mora em Madrid. Sua carreira na poesia começa com a publicação em 2007 do livro La alambrada de mi boca, publicado pela editora Baile del Sol. Pela mesma editora publicou seu primeiro livro de contos e seu segundo poemário, Alfabeto de cicatrices, de 2010. Em 2013 o livro Las sumas y los restos foi “V Premio de Poesía Blas de Otero”. Em 2014 publicou Economía de guerra pela Lupercalia editorial.

* * *

GENERACIONES

Antes de morir, mi madre dijo mamá, ven
mientras me miraba sin verme;
yo dije mamá, quédate
abrazando su cuerpo diminuto
envuelto en pañales y olor a talco;
mi hija dijo mamá, no llores
y me acarició la cabeza consolándome.

Cuando mama murió, durante unos segundos
no tuvimos muy claros los lazos que nos unían
no supimos quién se había ido
y quién se había quedado
ni en qué momento de nuestras vidas
estábamos viviendo

o muriendo.

GERAÇÕES

Antes de morrer, minha mãe disse mamãe, vem
enquanto me olhava sem ver-me;
eu disse mamãe, fica
abraçando seu corpo diminuto
envolvido em fraldas e cheiro de talco;
minha filha disse mamãe, não chora
e me acarinhou a cabeça consolando-me.

Quando mamãe morreu, durante alguns segundos
não tivemos muito claros os laços que nos uniam
não soubemos quem havia partido
e quem havia ficado
nem em que momento de nossas vidas
estávamos vivendo.

(La alambrada de mi boca)

§

Los platos que me regaló mi madre
están ya deslucidos y pasados de moda.
Cuando hacemos limpieza
nos miran como enfermos agonizantes
que no entienden qué queremos de ellos.

Pero son los platos que me regaló mi madre
que ya nunca volverá a regalarme
nada.

Si un día nos decidiéramos a tirarlos
intentaré escuchar su voz en mi cabeza:
“las cosas, hija, son sólo cosas“.

Mi madre no está en un plato.
Mi madre está en el pan que como.

Os pratos que me deu minha mãe
estão já sem brilho e fora de moda.
Quando vamos à limpeza
nos olham como doentes agonizantes
que não entendem o que queremos deles.

Mas são os pratos que me deu minha mãe
que nunca voltará a me dar
nada.

Se um dia nos decidíssemos a jogá-los fora
Tentarei escutar a sua voz na minha cabeça:
“as coisas, filha, são só coisas”.

Minha mãe não está em um prato.
Minha mãe está no pão que como.

(Las sumas y los restos)

§

MI PADRE SE LLAMABA DANIEL

Lo primero que pensé fue:
se ha muerto solo
(acompañar en la muerte
es el mejor bálsamo
para la culpa).

Lo segundo que pensé:
no me ha devuelto
mi última llamada
(nunca nos planteamos
que el deseo de independencia
también puede ser hereditario).

Lo tercero: ya no tengo padres
(y al mirar atrás descubrí
que hace ya mucho tiempo
que ninguna mano
sujeta la bici que monto).

Ahora no puedo dejar de pensar:
padre, yo no estoy muerta
pero también me pierdo muchas cosas.

Ya no estoy enfadada contigo.
Cada vez que te pienso
es domingo por la mañana.
Me llevas sobre los hombros
y yo sé que vas a invitarme
a un batido de chocolate
en el bar de la barra de zinc.
Después tu mano grande se abrirá
frente a mis ojos, y me mostrará el tesoro:
una chapa de mirinda y otra de pepsi.

Cuarenta años para descubrir
que allí estaba todo ya dicho.

MEU PAI SE CHAMAVA DANIEL

A primeira coisa que pensei foi:
morreu sozinho
(acompanhar na morte
É o melhor bálsamo
Para a culpa).

A segunda coisa que pensei:
não retornou
minha última chamada
(nunca nos damos conta
de que o desejo de independência
também pode ser hereditário).

Em terceiro: já não tenho pais
(e ao olhar pra trás descobri
que já faz muito tempo
que nenhuma mão
segura a bicicleta que eu monto)

Já não estou chateada contigo.
Sempre que penso em você
é domingo pela manhã.
Você me leva nos ombros
e eu sei que vai me convidar
para uma batida de chocolate
no bar do balcão de zinco.
Depois sua mão grande se abrirá
na frente dos meus olhos, e me mostrará o tesouro:
uma tampa de mirinda e outra de pepsi.

Quarenta anos para descobrir
que ali tudo já estava dito.

(Alfabeto de cicatrices)

§

Si un día me oyes
-después de una noche
en la que he resultado ser
encantadora:
de esas mujeres que beben
y se ponen graciosas
contando anécdotas
de bares y ácidos y viajes
y camas y cabrones
con el pelo despeinado
para mejor
y el carmín corrido
como si viniera
de morrearme en el baño
con el tío más guapo
del garito-
si un día
después de una de estas noches
en las que ejerzo
de encantadora de serpientes
al despedirme
me oyes decir
que sólo soy un fraude
compadéceme:
los adictos a los aplausos
también necesitamos testigos
cuando nos quitamos
el maquillaje.

Se um dia você me escuta
-depois de uma noite
em que acabei por ser
encantadora;
uma dessas mulheres que bebem
e ficam engraçadas
contando piadas
de bares e ácidos e viagens
e camas e patifes
com o cabelo despenteado
para melhor
e o batom excessivo
como se viesse
de beijar de língua no banho
o patrão mais bonito
do bordel-
se um dia
depois de uma destas noites
nas quais banco
a encantadora de serpentes
ao me despedir
me ouves dizer
que sou só uma fraude
e se compadece:
os viciado em aplausos
também precisamos de testemunhas
quando tiramos a maquiagem.

(Alfabeto de cicatrices)

§

Pocos saben que tengo otra hermana.
El azar nos separó al nacer.
Yo mamaba la leche de mi madre
mientras ella se secaba al sol.
Cuando perforaron mis orejas
ella recibió la ablación del clítoris.
Follé con hombres y sufrí por todos;
a manos de uno solo se quebró ella.
Me separé, lloré, abandoné mis sueños.
Ella murió unas cuantas veces
bajo piedras, ácido, sida y malaria.
Su cuerpo se deshizo y se recompuso.
En una o dos ocasiones fue feliz de morir.
Mi hija creció; mi hermana murió en el parto.
Años después parió una niña y se la quitaron.
Yo veo mi cuerpo envejecer; ella no tiene espejo.
Me pongo cremas antiarrugas
pero toda ella es un surco.
Yo hago listas de lo que le duele:

pero ella es la que administra su dolor.

Poucos sabem que tenho outra irmã.
O azar nos separou ao nascer.
Eu mamava o leite da minha mãe
enquanto ela se secava ao sol.
Quando furaram as minhas orelhas
ela recebeu a ablação do clitóris.
Trepei com homens e sofri por todos;
nas mãos de um só ela se quebrou.
Me separei, chorei, abandonei meus sonhos.
Ela morreu umas quantas vezes
Debaixo de pedras, ácido, aids e malária.
Seu corpo se desfez e se recompôs.
Em uma ou duas ocasiões foi feliz de morrer.
Minha filha cresceu; minha irmã morreu no parto.
Anos depois pariu uma menina e a tiraram dela.
Eu vejo meu corpo envelhecer; ela não tem espelho.
Passo cremes antirrugas
Mas ela toda é um sulco.
Eu faço listas do que nela dói:

mas é ela quem administra a sua dor.

(Las sumas y los restos)

§

Para todos mis gatos

A mis gatas yo les doy agua
ellas me traen rumores de selva
y belleza indómita.
Les doy comida
ellas libertad irrenunciable
pactos de respeto entre especies.
Les doy calor
ellas ponen límites a mi arrogancia
cuando intento traducirlas.
Les doy caricias
ellas enseñan astucia de samuráis.
Les doy cobijo
a las embajadoras de lo lejano y posible.
Al final un arañazo para dejar bien claro
que la ternura no es una mercancía.

Para todos os meus gatos

Às minhas gatas dou água
elas me trazem rumores da selva
e beleza indômita.
Dou-lhes comida
elas liberdade irrenunciável
pacto de respeito entre espécies.
Dou-lhes calor
elas põem limites na minha arrogância
quando tento traduzi-las.
Dou-lhes carinho
elas ensinam astúcia de samurais.
Dou abrigo
às embaixadoras do distante e possível.
Por fim um arranhão para deixar bem claro
que a ternura não é uma mercadoria.

(Las sumas y los restos)

§

Para Talo, mi primer novio

Estoy en el lugar donde fuiste a morir
aunque no conozca el cruce exacto
y no importa, yo sé que el nombre de este pueblo
está guardando tu muerte.

Nunca he visitado tu tumba ni sé dónde está.
Hablé con una de tus hermanas y me contó
que nos recordaba perfectamente
bailando una canción lenta con los ojos
cerrados, mirando hacia nuestro futuro.

Así que sé que en alguna parte estamos vivos y juntos
desafiando las leyes de la vida y la muerte
en una casa nuestra levantada en la memoria.

En un rincón de tu ataúd aún se yergue el instituto
hay un partido de baloncesto que nunca termina
nos cogemos borracheras sin resaca
y sigo teniendo tentaciones de romper aquel vaso
y rasgarme la muñeca, para parar el futuro
que un día nos separará.

Estaremos juntos siempre, me dijiste.
De alguna forma, era cierto.
Mi adolescencia fue la tuya.
Está tan muerta como tú, impresa en la piel
como un libro que no habrá que leer nunca más
porque los dos lo conocemos
palabra por palabra.

Para Talo, meu primeiro namorado

Estou no lugar aonde você foi pra morrer
Mesmo sem conhecer o ponto exato
e não importa, eu sei que o nome desta vila
está guardando a sua morte.

Nunca visitei a sua tumba nem sei onde está.
Falei com uma das suas irmãs e me contou
que lembrava perfeitamente de nós
dançando uma música lenta com os olhos
fechados, contemplando o nosso futuro.

Por isso eu sei que em algum lugar estamos vivos e juntos
desafiando as leis da vida e da morte
em uma casa nossa levantada na memória.

Em um canto do seu ataúde ainda se ergue a escola
há uma partida de basquete que nunca termina
tomamos uns porres sem ressaca
e continuo tendo tentações de quebrar aquele copo
e rasgar os pulsos, para parar o futuro
que um dia vai nos separar.

Estaremos juntos sempre, você me disse.
De algum modo, era verdade.
Minha adolescência foi a sua.
Está tão morta quanto você, impressa na pele
como um livro que não será preciso ler nunca mais
porque os dois o conhecemos
palavra por palavra.

(Las sumas y los restos)

§

para Cristina Morano

Las gatas buscan atalayas
desde las que contemplar el mundo.

Ellas dormitan sabiéndose a salvo;
yo me amurallo tras un libro.

Dice el poeta Rigo que la última
coraza es la lealtad.

Las hembras nos comprendemos:
el mundo es un peligro a nuestra disposición.

Para Cristina Morano

As gatas procuram guaritas
de onde possam contemplar o mundo.

Elas cochilam sabendo-se a salvo;
eu me amuralho atrás de um livro.

Diz o poeta Rigo que a última
Couraça é a lealdade.

As fêmeas nos entendemos:
o mundo é um perigo à nossa disposição.

(Las sumas y los restos)

§

Mi educación:
no desees nada demasiado
no te vanaglories ante nadie
-mucho menos de ser feliz-
no sueñes sueños imposibles
-tampoco sueñes la posibilidad-
no rías demasiado alto
no enfades a los dioses
      • no creas en ellos ni en sus premios
aunque estarán ahí para castigarte-
no llores delante de los otros
      • la tristeza es otra forma de ser presuntuoso-
no te aferres pero no te sueltes del todo del pasado
no te emborraches sin sufrir por la resaca
no te menosprecies
esperando compasión
no luches
todo está perdido desde siempre.

Y ahora sal al mundo, sostente, sé un ejemplo.

Minha educação:
não deseje nada demais
não se vanglorie diante de ninguém
-muito menos de ser feliz-
não sonhe sonhos impossíveis
-tampouco sonhe a possibilidade-
não ria alto demais
não entedie os deuses
• Não acredite neles e em seus prêmios
ainda estarão aí para te castigar
não core na frente dos outros
• A tristeza é uma outra forma de ser presunçoso-
não se aferre mas não se solte completamente do passado
não se embriague sem sofrer a ressaca
não se menospreze
esperando compaixão
não lute
tudo está perdido desde sempre.

E agora sai pro mundo, se aguenta, seja um exemplo.

(Las sumas y los restos)

§

Me arranco las bragas
negras de la tristeza.
Las dejo al pie de la cama
como un perro roto.
Ya se compondrá después
cuando haya que disfrazarse
para la alegría o la nada.

Arranco-me as pregas
negras da tristeza.
Deixo-as ao pé da cama
como um cachorro cansado.
Logo em seguida irá se recompor
quando tiver que se disfarçar
para a alegria ou o nada.

(Economía de guerra)

§

No soy esta que veis palidecer
bajo el fémur tibio del fluorescente.
Tampoco la mujer que oye dar las tres
como el gong del martillo absolutorio
o la bala de un fusil encasquillado.
Ni la que escribe frases sin amor
y firma igual que quien mata una mosca.

Ocupo mi silla antes de que el sol
me bendiga la frente con un beso
y salgo a la calle infiel y huérfana.
Toso el virus de la resignación
cuando el mar es un rumor clandestino
y los lirios burlas del carcelero.

Soy quien sueña llegar a la vejez
para dejarse adoptar por gallinas
y vivir en la luz de las mañanas
que ahora abandono en la casa de empeños.

Não sou esta que vês empalidecer
sob o fêmur cálido da luz fluorescente.
Tampouco a mulher que ouve dar as três
como o gongo do martelo absolutivo
ou a bala de um fuzil engatilhado.
Nem a que escreve frases sem amor
e assina como quem mata uma mosca.

Ocupo minha cadeira antes que o sol
me bendiga a testa com um beijo
e saio à rua infiel e órfã.
Tusso o vírus da resignação
quando o mar é um rumor clandestino
e os lírios mentiras do carcereiro.

Sou quem sonha chegar à velhice
para deixar-se adotar por galinhas
e viver com a luz das manhãs
que agora abandono na casa de penhores.

(Economía de guerra)

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