poesia, tradução

Perdidos na tradução: Robert Frost por Rodrigo Madeira

Poetry is what gets lost in translation.
Robert Frost

Embora tenha nascido na Califórnia (São Francisco, 1874) e vivido em diferentes cidades ao longo da vida, a obra e imagística de Robert Frost ficará para sempre associada à paisagem natural e humana da Nova Inglaterra, no nordeste gelado dos Estados Unidos. Frost, ainda que tenha em seus poemas “bucólicos” a mais poderosa expressão de sua inteligência poética, lembra – no comovente registro da solidão e da melancólica fugacidade da vida – os impasses existenciais dos retratos eminentemente urbanos de Edward Hopper.

De fato, “Beto Geada” sempre me pareceu um Hopper da poesia norte-americana (Cummings, o reverso desse anverso, seria, é claro, o Jackson Pollock). Há em um poema como “Nothing Gold Can Stay” a mesma economia de recursos, a mesma e definitiva síntese presente em “Sun in an Empty Room”, de Hopper.

Ao mesmo tempo, a poesia de Frost apresenta, nas dobras do cotidiano, aquelas velhas situações-limite tão caras à psicologia individualista dos norte-americanos: suas encruzilhadas mitológicas, dos desbravadores do Far West e da filosofia de Thoreau às crossroads de bluesmen faustianosNo caso de Frost, um sujeito solitário diante de “portais” (por assim dizer) que se abrem e fecham nos amplos espaços naturais da Nova Inglaterra. Não à toa, ao lado de Walt Whitman, Robert Frost – muito mais do que Pound, Eliot, Carlos Williams ou Wallace Stevens – é o poeta mais popular e amado dos EUA.

No Brasil, no entanto, excluído do paideuma concretista e menoscabado por acadêmicos e tradutores em geral, muito provavelmente em função do tradicionalismo formal de suas formas fixas e de certa atemporalidade temática ao mesmo tempo antiexperimental e antierudita, este autor fundamental do modernismo norte-americano passou ao largo de esforços tradutórios mais sistemáticos – afora traduções esparsas, Frost ganhou versões brasileiras em uma única e longínqua seleção de poemas (“Poemas Escolhidos de Robert Frost”, Editora Lidador, tradução de Marisa Murray, nos idos de 1969).

Vai aqui, portanto, uma pequena mostra de sua obra: seis dos mais emblemáticos poemas frostianos.

Aperte o defrost. Sirva-se à vontade. Experimente na língua portuguesa.  

Rodrigo Madeira

* * *

NADA QUE É DE OURO PERMANECE

O verde mais cedinho é ouro.
Dos tons o mais fugaz tesouro.
A folha então é flor que aflora,
Apenas porém por uma hora.
Depois a folha perde a flor.
Assim é que o Éden virou dor,
Assim enfim o dia cresce.
Nada que é de ouro permanece.

NOTHING GOLD CAN STAY

Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

§

FOGO E GELO

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

FIRE AND ICE

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

§

O CAMINHO NÃO TRILHADO

A estrada se partiu no bosque amarelado
E lamentando não poder seguir por ambas
E ser apenas um, fiquei ali parado
E olhei uma das vias, o olhar alongado,
Até que ela fugisse na curva entre as ramas;

Então tomei a outra, possível também,
E sendo ela talvez a mais convidativa,
Porque clamava a grama pelos pés de alguém,
Mesmo que, em relação a isso, outros vaivéns
A tivessem gastado na mesma medida

E que, aquela manhã, naquelas duas vias
Houvesse ainda tantas folhas por pisar.
Ah, deixei a primeira para um outro dia!
Mas, se um caminho sempre a outros levaria,
Duvidei de que um dia eu pudesse voltar.

Mais à frente hei de dar, saudoso, o meu relato;
Entre o passado e mim, uma distância imensa:
A estrada se partiu no bosque amarelado –
Tomei dos dois caminhos o menos trilhado,
E justamente isso fez a diferença.

THE ROAD NOT TAKEN

Two roads diverged in a yellow wood
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sign
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I –
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

§

PARANDO À MARGEM DA MATA NUMA NOITE DE NEVE

Acho que sei de quem é a mata,
Fica na vila sua casa;
Não me verá, pois, circunspecto,
Olhando essa mata nevada.

Minha égua acha estranho decerto
Parar sem cocheiras por perto
Entre a mata e o lago gelado
Na noite mais negra do inverno.

Em sinos de arreio vibrados,
Minha égua pergunta – algo errado?
E se ouvem, no mais, na calada
Só neves e ventos soprados.

Escura, funda, bela é a mata,
Mas trago a palavra empenhada
E, antes que eu durma, há tanta estrada.
E, antes que eu durma, há tanta estrada.

STOPPING BY WOODS ON A SNOWY EVENING

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and the frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound´s the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

§

JUNTANDO FOLHAS

As pás recolhem as folhas
Como a colher ou a mão,
E um saco cheio de folhas
É leve como um balão.

O dia todo eu farfalho
Fazendo um baita alarido,
Como uma lebre ou um cervo
Que pronto houvessem fugido.

Mas me escapam ao enlace
O que em montes é disposto,
Transbordando dos meus braços
E voando no meu rosto.

Se várias e várias vezes,
Até lotar um galpão,
Eu carrego e descarrego,
Que me resta disso então?

Quase nada têm de peso,
E sendo assim desbotadas
Do contato com a terra,
Têm por cor um quase nada.

Quase nada de proveito.
Mas a safra é safra feita,
E quem há de dizer onde
Vai parar esta colheita? 

GATHERING LEAVES

Spades take up leaves
No better than spoons,
And bags full of leaves
Are light as balloons.

I make a great noise
Of rustling all day
Like rabbit and deer
Running away.

But the mountains I raise
Elude my embrace.
Flowing over my arms
And into my face.

I may load and unload
Again and again
Till I fill the whole shed,
And what have I then?

Next to nothing for weight,
And since they grew duller
From contact with earth,
Next to nothing for color.

Next to nothing for use.
But a crop is a crop,
And who’s to say where
The harvest shall stop?

§

BRAÇADA

Pra cada embrulho que agachando abraço,
Um outro embrulho escorre pelos braços.
E escorregando o litro, o pão francês –
Formas difíceis de abarcar de vez –
Eu nada, ainda assim, deixo pra trás.
O que fazem as mãos e a mente faz,
Ou mesmo o coração, é o meu melhor
Pra equilibrar tijolos como for.
Me agacho pra evitar que caiam todos;
Então me sento, a pilha toda em torno.
Eu tive que soltar tudo na estrada
E começar de novo, outra braçada.

THE ARMFUL

For every parcel I stoop down to seize
I lose some other off my arms and knees,
And the whole pile is slipping, bottles, buns –
Extremes too hard to comprehend at once,
Yet nothing I should care to leave behind.
With all I have to hold with hand and mind
And heart, if need be, I will do my best
To keep their building balanced at my breast.
I crouch down to prevent them as they fall;
Then sit down in the middle of them all.
I had to drop the armful in the road
And try to stack them in a better load. 

Rodrigo Madeira (Foz do Iguaçu, 1979). Poeta e aforista. Vive em Curitiba desde 1992. Autor dos livros Sol sem pálpebras, Pássaro ruim e Baldio.

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3 comentários sobre “Perdidos na tradução: Robert Frost por Rodrigo Madeira

  1. Patricia Freitas disse:

    Rodrigo, há uma dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Letras da USP, em 2016, que contém a tradução de vários poemas do Frost. Como está disponível ao público em geral (banco de teses da USP), vale a pena citar. A autora é Ana Gambarotto.

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