poesia, tradução

Ashbery: Down by the station, early in the morning

John Ashbery é um poeta americano contemporâneo, autor de mais de 20 volumes de poesia, vencedor de trocentos prêmios literários na gringolândia e xodó da crítica, inclusive de Harold Bloom.

Ele nasceu em 192John Ashbery - A Wave7 e, não só ainda está vivo, como também foi, aparentemente, o primeiro poeta ainda vivo a ser publicado em antologia pela Library of America, i.e. aquelas edições de capa dura com papel bom e dustjacket preta, que, de poesia, já publicaram volumes de Whitman, Pound, Bishop, entre outros grandes nomes. Em português (mas só no português de Portugal), temos uma pequena antologia chamada Auto-retrato num Espelho Convexo e Outros Poemas, pela editora Relógio d’Água, que reúne poemas de diversos livros do autor. Contudo, o poema abaixo, oriundo do livro A Wave, publicado pela primeira vez em 1984, e traduzido agora por este que vos fala, é inédito em português.

Pela estação, de manhã cedo

Tudo desgasta. Vivo me dizendo isso, mas
Nunca acredito em mim, embora os outros o façam. Até as coisas o fazem.
E as coisas que fazem. Como a raspa da seda, ou certa
Oclusiva glotal em sua voz ao me dizer que você
Não teve tempo de escovar os dentes e fez gargarejo com Listerine
Em vez disso. Cada uma é uma base que se pode desejar tocar outra vez

Antes de morrer. Há o momento, anos atrás, na estação em Venice,
A tarde escura e chuvosa na quarta série, e os sapatos assim
Feitos de um couro marrom embotado rugoso que não existe mais
E nada existe, até que você o nomeie, lembrando, e, ainda assim,
Pode não ter existido, ou existido só como resultado
Da disfunção perceptual que você tem carregado por anos a fio.
O resultado é mágica, depois terror, depois dó do vazio,
O ar gradualmente banhando e preenchendo o vazio enquanto vaza,
Se comovendo sobre algo que é provavelmente mera reportagem
Mas de qualquer modo gosta que se comovam. E, assim, cada dia
Culmina em regozijo, bem como o profundo choque como se elétrico,

Conforme a bola de demolição estoura a parede com as estantes
Espalhando as obras de autores famosos, bem como aquelas
Dos mais obscuros, e livros sem autor, deixando entrar
Espaço, e um balbucio estranho da rua
Confirmando o valor novo que o centro oco tem outra vez, a luz
Do farol que protege enquanto nos distancia.

(tradução de Adriano Scandolara)

 

Down by the station, early in the morning

It all wears out. I keep telling myself this, but
I can never believe me, though others do. Even things do.
And the things they do. Like the rasp of silk, or a certain
Glottal stop in your voice as you are telling me how you
Didn’t have time to brush your teeth but gargled with Listerine
Instead. Each is a base one might wish to touch once more

Before dying. There’s the moment years ago in the station in Venice,
The dark rainy afternoon in fourth grade, and the shoes then,
Made of a dull crinkled brown leather that no longer exists.
And nothing does, until you name it, remembering, and even then
It may not have existed, or existed only as a result
Of the perceptual dysfunction you’ve been carrying around for years.
The result is magic, then terror, then pity at the emptiness,
Then air gradually bathing and filling the emptiness as it leaks,
Emoting all over something that is probably mere reportage
But nevertheless likes being emoted on. And so each day
Culminates in merriment as well as a deep shock like an electric one,

As the wrecking ball bursts through the wall with the bookshelves
Scattering the works of famous authors as well as those
Of more obscure ones, and books with no author, letting in
Space, and an extraneous babble from the street
Confirming the new value the hollow core has again, the light
From the lighthouse that protects as it pushes us away.

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