tradução

giuseppe ungaretti

pra mim, a coisa é simples: o poeta egipto-italiano giuseppe ungaretti (1888-1970) não é um gênio (nós temos gênios demais à solta, ou, relembrando uma passagem do homem sem qualidade de musil, estamos num tempo em que até cavalos são geniais…), não, ungaretti não é um gênio; ele é um mestre; pra mim, ele é uma entidade da poesia.

Digo isso porque sua poesia não me atinge nas ideias, no cérebro, ela pega nalgum lugar da medula, afeta o sistema nervoso por um ponto que eu não posso prever, interfere completamente nesse corpo sem precisar passar pelo processamento intelectual. por isso o costume de designá-lo como poeta “hermético” por causa da sua escola ermetismo dos primeirs livros, como l’allegria, não me agrada. Não vejo grande hermetismo na poesia dele, é muito mais superfície, a superfície própria da vivência, da alegria e da dor.

Resultado da compulsão tradutória durante mais uma leitura de ungaretti, aproveito então para postar três poemas de il dolore (1947), essa expressão profunda da dor da guerra, da perda do filho, da idade que chega, mas que só serve para aumentar ainda mais a vontade de vida. & não seria essa a função maior do poeta?

resta agradecer imenso à leitura de simone petry, cuidadosa em seus pitacos.

pra quem quiser conferir o original, il dolore.
& um breve vídeo em que ungaretti fala do processo criativo.

TUDO PERDI

Tudo perdi daquela infância
Não poderei jamais
Deslembrar-me num grito.

A infância eu soterrei
no profundo das noites
e hoje, espada invisível,
me separa de tudo.

De mim recordo que exultava amando-te,
E encontro-me perdido
no infinito das noites.

Um desespero que incessante aumenta
A vida não mais tenho,
Presa no fundo da garganta
Há uma rocha de gritos.

SE TU MEU IRMÃO

Se tu me reencontrasse ainda vivo,
Com a mão aberta,
Ainda  poderia,
num ímpeto do oblívio, reapertar
irmãozinho, uma mão.

Mas de ti, de ti mais não me circundam
Que sonhos, vislumbres,
Os fogos já sem fogo do passado.

A memória desvela só imagens
E a mim mesmo eu mesmo
já não sou mais
Que o aniquilante nada do pensar.

O TEMPO É MUDO

O tempo é mudo em canaviais imóveis…

Longe do porto errava uma canoa…
Cansado, inerte o remador… O céu
Já decaído ao fundo das fumaças…
Avanço em vão na orla das lembranças,
Cair talvez seria bênção… 

Não soube

Que é a mesma ilusão: o mundo e a mente,
Que no mistério das suas próprias ondas
Cada terrena voz faz seu naufrágio.

(trad. guilherme gontijo flores)

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