crítica, poesia, tradução

lord byron: prometheus (1816)

LordByronGeorge Gordon Byron (1788-1824) é um dos mais destacados poetas britânicos do romantismo – talvez o mais – assim como um dos símbolos maiores da poesia romântica. Junto com Shelley, incorpora vastamente em sua obra os sentimentos de rebeldia, melancolia e deslocamento da figura do artista com relação ao convívio social. Não é por acaso que o titã Prometeu – e Jesus Cristo também – torna-se para essa geração um tipo de símbolo de conduta rebelde. No Brasil oitocentista, foi muito grande a influência dessas obras na poética de Joaquim de Sousândrade, como podemos ver no épico O Guesa. Nesta obra, Sousândrade dialoga muito de perto com o Childe Harold’s Pilgrimage, de Byron, além de incorporar no Guesa valores claramente atribuídos também a Jesus Cristo e a Prometeu, citados em diversas passagens. Entre outros poetas influenciados por Byron, poderíamos lembrar também de Álvares de Azevedo e Bernardo Guimarães.

Sobre as traduções de Byron no Brasil, creio que o cenário não seja tão favorável assim. Fala-se muito mais do autor do que se lê dele de fato. Atualmente, por exemplo, há apenas dois livros de traduções de poemas disponíveis em grandes lojas online, sendo um deles uma coletânea reunida e traduzida por Péricles Eugênio da Silva Ramos, além da já mencionada – aqui, no post do Adriano sobre Shelley – tradução de Augusto de Campos. Além disso, pela web é possível encontrar algumas traduções realizadas por Castro Alves, embora sua circulação já possa ser considerada bastante restrita. Até agora não tive acesso a esses traduções, então não posso julgá-las com cuidado. Comentários sobre elas serão bem-vindos.

E sobre a minha tradução, finalmente, explicito que o meu esforço foi o de me manter bastante enraizado no que o texto original nos traz. Minha preocupação foi principalmente a de manter uma ordenação rímica coerente com o texto base – coisa pela qual não se pode passar por cima em uma tradução desse tipo, a meu ver – além de adaptar o metro a uma melhor fluência em língua portuguesa. Por isso, como provavelmente eu perderia muita coisa com apenas oito sílabas métricas – a desgraça da tradução do inglês –, utilizei o decassílabo. Aliás, não conheço nenhuma outra tradução do Prometheus para o português. Procurei bastante para fins de comparação, mas nada.

Para quem quiser conferir o texto no original em inglês, pode ler aqui.
E para quem quiser dar uma conferida no que anda fazendo o Byron hoje em dia, clique aqui.
(trata-se de um episódio da série de TV Highlander chamado Modern Prometheus, onde Byron está vivo até hoje na pele de um rockstar com cara de zémané)

prometheus 
Prometeu (1816)

Titã! a cujos olhos imortais
          os sofrimentos da mortalidade
          vistos em crua e triste realidade
não eram coisas para um deus banais;
qual foi a recompensa da clemência?
um silente sofrer, de força intensa;
a rocha, o abutre, os elos da corrente,
tudo o que um ser de orgulho na dor sente,
de agonia não mostram um semblante,
do senso de infortúnio, sufocante,
          que surge apenas junto à solidão,
e é invejoso, p’ra não ter o céu
ouvidos, nem sairá suspiro seu
          até que a sua voz ressoe em vão.

Titã! foi dado a ti combate intenso
          em meio ao sofrimento e ao querer,
          tortura o que não pode perecer;
o inexorável Paraíso, imenso,
e o Fado em sua surda tirania,
que sobre o Ódio exerce primazia,
que criou em regozijo e alegria
as coisas tantas que aniquilaria,
recusou-te até a morte, uma piedade:
o dote desditoso – Eternidade –
foi teu – e bem pudeste suportar.
O que de ti torceu o Trovejante
foi a ameaça alçada que volveu
nele os tormentos do suplício teu;
o destino tão bem viste adiante,
mas contar não faria ele abrandar;
e em teu Silêncio estava sua Sentença,
e em sua Alma uma oca penitência,
e o assombro tão mal ele escondia,
que em sua mão o raio até tremia.

Teu Divo crime ousou ser complacente,
          ousou diminuir com teus preceitos
          a miséria de humanos imperfeitos,
e o Homem fortalecer co’a própria mente;
mas como foste do alto deslocado,
contido em energia resignado,
em dura resistência, e na repulsa
          do espírito que nada dá a entrever,
que Céu nem Terra abalam, nem convulsam,
          feroz lição podemos apreender:
és símbolo, és sinal, és estandarte
          para os Mortais de sua força e fado;
é como ti o Humano, divo em parte,
          de uma nascente o fluxo indo intrincado;
o Homem em partes pode antes ter tino
de seu fado, do fúnebre destino;
da sua própria miséria e resistência,
e a sua entristecida, órfã existência:
a que o Espírito se possa opor
e igual a tudo o que lhe é amargor,
          e firme arbítrio, vasta consciência,
que pode discernir ‘té em dor notória
          sua própria ajuntada recompensa,
Triunfante onde ousa rebelar-se em glória,
tornando a Morte um signo da Vitória.

(trad. Vinicius Ferreira Barth)

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8 comentários sobre “lord byron: prometheus (1816)

  1. Muito bom, Vinicius!

    Acrescente-se à bibliografia byroniana atual:

    As trevas e outros poemas. [org. Cid Vale Ferreira] —
    São Paulo: Saraiva, 2007 — (Clássicos Saraiva) Vários tradutores

    e o ainda encontrável:

    Beppo: uma história veneziana [trad. Paulo Henriques Britto]
    2a. ed.
    Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

    do primeiro, uma interessante publicação didática,
    retransmito aqui duas referências da seção “Byron na internet”,
    as quais devem valer uma visita:

    http://www.internationalbyronsociety.org

    http://englishhistory.net/byron

    Byron´s not dead!

    Ivan

  2. André Dick disse:

    Prezado Vinicius,

    parabéns pela tradução de “Prometeu”, de Byron. Fico curioso para conhecer a que fará de Keats, anunciada na sua gentil mensagem ao Dado Acaso. E parabéns pelo trabalho poético do Escamandro.

    Um abraço
    André Dick

    • vinicius ferreira barth disse:

      sim, danyelle. cheguei a comentar aí no texto algo sobre as traduções feitas por castro alves que podemos achar na net. esse site, aliás, foi um dos que eu encontrei.
      em todo caso, muito obrigado pela dica. um abraço.

    • adriano scandolara disse:

      Só para confirmar: no livro “Espumas flutuantes” do Castro Alves tem uma tradução de “A uma taça feita de um crânio humano” do Byron, que é essa mesma que está no link (as outras eu não cheguei a verificar). O curioso é que é possível que Castro Alves não tivesse tido acesso ao texto em inglês e tivesse recebido por via francesa. Quando, por exemplo, ele cita Shakespeare na epígrafe do poema “Boa noite” (mesmo livro), ele cita em francês.

      • vinicius ferreira barth disse:

        sim adriano, a hipótese da leitura via francês é mesmo bem provável.

      • adriano scandolara disse:

        Eu fui até verificar agora, haha. No século XIX teve pelo menos 3 tradutores franceses que verteram a obra inteira do Byron p/ o francês: Amedée Pichot, Paulin Paris e Benjamin Laroche. A tradução do Laroche é diferente demais e eu ainda não achei a do Pichot, mas suspeito que possa ser a do Paulin, até porque ele traduziu em prosa, e a métrica do Castro Alves é bem diferente da do original. Se pá, essa discussão rendia um post.

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