poesia, tradução

Anne Sexton (1928 – 1974)

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Quando se pensa em poesia confessional, ou confessionalismo, um dos primeiros nomes que vêm à mente (e ao google, diga-se de passagem) é o de Anne Sexton. Nascida em 1928 na cidade de Newton, Massachusetts, a vida de Sexton foi marcada por sua luta contra a depressão, tendências suicidas e outros problemas de saúde mental. Ela começou a escrever em meados da década de 1950, incentivada pelo seu analista, como parte do trabalho de psicoterapia, e depois descobriu a forma do soneto meio que por acidente, através do poeta e crítico I. A. Richards,  quando passou, então, a escrever sonetos prodigiosamente. Foi a partir dessas experiências com o poético que Sexton reuniu os poemas que formam o seu primeiro livro, To Bedlam and Part Way Back (algo como Ao Pinel e Quase de Volta), publicado em 1960, que deu início à sua carreira literária, uma carreira que teve continuidade depois nos livros All My Pretty Ones (1962), Live or Die (1966, ganhador do Prêmio Pulitzer em 1967), Love Poems (1969), Transformations (1971, algo desviante em sua bibliografia por ser uma releitura das fábulas dos irmãos Grimm), The Death Notebooks (1974) e The Awful Rowing Toward God (1975), entre outros. Após várias tentativas de suicídio e internações em hospitais psiquiátricos, porém, ela acabou se suicidando, de fato, em 1974.

Que Sexton tenha explorado temas de natureza profundamente pessoal – como a luta contra a depressão, o suicídio, abuso de remédios, aborto e menstruação (entre outros temas ligados ao “feminino”, por assim dizer) –, com muitos dos temas abordados sendo considerados tabu e vergonhosos para a sociedade da época, lhe rendeu o rótulo algo polêmico de poeta confessional, que Sexton partilha com outros autores e autoras, como W. D. Snodgrass, que foi um dos “mentores” de Sexton, e Sylvia Plath, que começou a escrever poesia inspirada por ela, bem como Robert Lowell, John Berryman, Sharon Olds, entre outros (o rótulo também por vezes é aplicado a Allen Ginsberg e Charles Bukowski). De um ponto de vista crítico, a poesia confessional ocupa um lugar delicado e é motivo de muitos debates, que não convém glosar aqui, mas que acabam por tocar em questões sensíveis como os limites e relações entre o pessoal e o público (afinal, não seriam todos os poemas líricos, em alguma medida, biográficos, confessionais?),  o real e o artificial, a criatividade e a autodestruição, o gênio e a doença mental – e a própria Sexton pareceu oscilar entre rejeitar esse rótulo e adotá-lo.

Em português, porém, Sexton me parece pouquíssimo representada, pelo menos no quesito de poemas publicados em livros impressos (online, temos alguns poemas dela na revista Ellenismos e Germina). Uma procura rápida por livros dela na estante virtual agora me aponta somente exemplares de sua biografia Anne Sexton – a Morte Não é a Vida (no original apenas Anne Sexton: a biography, de 1991), escrita por Diane Middlebrook (1939 – 2007). E, o que é muito curioso, Middlebrook foi professora em Stanford, onde se dedicou a estudos feministas (ironicamente, sua tese de doutorado sobre Whitman e Stevens foi orientada por Harold Bloom) e, aos 41 anos, recebeu um convite dos herdeiros de Sexton para escrever uma biografia sobre a poeta. Nos onze anos entre ela ter recebido o convite e a biografia ser publicada, ela também foi responsável por editar três volumes de poesia, um dos quais é de poemas da própria Sexton, Worlds Into Words: Understanding Modern Poems (1980), Coming to Light: American Women Poets in the 20th Century (1985) e Selected Poems of Anne Sexton (1988). O sucesso de sua biografia, que chegou a fazer parte das listas de best-sellers do New York Times durante oito semanas consecutivas, a levou a ser convidada para escrever também a biografia de Sylvia Plath, Her Husband: Ted Hughes & Sylvia Plath, a Marriage (2003, ainda inédita em português), que se tornou outro best-seller. Parece-me razoável que haja interesse na vida de uma autora desse tipo de poesia, que se desenvolve através da exposição e exploração do que há de mais íntimo da sua vida pessoal, mas é um pouco triste que mais uma vez o biográfico tenha precedência sobre o literário. Mas, enfim, so it goes.

O poema “Her Kind”, que compartilho com vocês abaixo, junto com um vídeo do youtube em que se pode ouvir a própria Sexton recitando-o, parte desse seu primeiro livro, To Bedlam, e foi traduzido por Bernardo Beledeli Perin, que atualmente desenvolve um projeto de iniciação científica sobre Sexton com a professora da UFPR, poeta e tradutora Luci Collin – cujo trabalho como poeta já recebeu um comentário meu no escamandro (clique aqui). Um outro poema de Sexton traduzido por ele foi publicado mês passado no Jornal RelevO, intitulado “Wanting to Die” (clique). O projeto de sua tradução de “Her Kind” aqui consiste em num esforço para reproduzir os aspectos formais do original, tanto no condizente ao uso das rimas quanto à estrutura métrica, que recorre, em inglês, a versos de métrica variável, mas que mantêm todos um padrão de quatro batidas (tônicas) em cada.

Adriano Scandolara

        

      

Desta casta

Tenho saído por aí, bruxa maldita,
assombrado no escuro, na noite bravia;
tramando o mal, minha espécie milita
sobre casas comuns onde a lanterna luzia:
sozinha, doze dedos, de loucura vasta.
Mulheres assim não são mulheres, eu sabia.
Eu tenho sido desta casta.

Tenho achado grutas mornas sob o céu,
enchido-as de potes, entalhes, estantes,
móveis, panos, incontável cacaréu;
para vermes e duendes preparo lanches:
enfileirando-os, queixosa, exausta.
Mulheres assim ninguém entendeu.
Eu tenho sido desta casta.

Tenho andado na sua caleça, cocheiro,
acenado braços nus às vilas que passam,
aprendendo as rotas finais, no fogareiro
sobrevivo às chamas que pernas assam
e fendem ossos, onde a carroça se arrasta.
Mulheres assim de morrer não se vexam.
Eu tenho sido desta casta.

        

Her Kind

I have gone out, a possessed witch,
haunting the black air, braver at night;
dreaming evil, I have done my hitch
over the plain houses, light by light:
lonely thing, twelve-fingered, out of mind.
A woman like that is not a woman, quite.
I have been her kind.

I have found the warm caves in the woods,
filled them with skillets, carvings, shelves,
closets, silks, innumerable goods;
fixed the suppers for the worms and the elves:
whining, rearranging the disaligned.
A woman like that is misunderstood.
I have been her kind.

I have ridden in your cart, driver,
waved my nude arms at villages going by,
learning the last bright routes, survivor
where your flames still bite my thigh
and my ribs crack where your wheels wind.
A woman like that is not ashamed to die.
I have been her kind.

(poema de Anne Sexton, tradução de Bernardo Beledeli Perin)

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5 comentários sobre “Anne Sexton (1928 – 1974)

  1. Pingback: Nem sempre a lápis | Anne Sexton | Scenarium

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