poesia, tradução

Luciano R. Mendes

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Luciano R. Mendes é um idichista, poeta, tradutor e editor que nasceu em Curitiba, em 1986. É a mente por trás da Editora Dybbuk – pela qual publicou seu primeiro livro de poemas, O Livro do Yom Kippur. Nasceu em Curitiba mas hoje vive debaixo do Sol, em Fortaleza. No momento pesquisa e traduz a obra do poeta iídiche Abraham Sutskever, além de trabalhar em seu segundo livro – ainda sem título, mas que será bilíngue, em iídiche e português.

* * *

Estradas

As estradas até aqui foram longas: e ainda o são: por um momento duvidei ter pernas que bastassem e fôlego
que
desse
conta
do
ar
causticante carregado
por tantos anos por tantas vezes em que tentei me suicidar já perdi até a conta mesmo que muitas vezes não
tivesse feito declarações explícitas
não tivesse dito coisas como ‘hoje vou cortar meus pulsos’ só depois eu ia saber que se você quer
mesmo matar-se
verdadeiramente nunca vai usar um modo tão infantil tão batido
tirado de algum livro meloso
ou filme ruim ou ainda pecinha de teatro mequetrefe
não tivesse dito coisas como ‘vou beber até meu fígado derreter
meus miolos e minhas mais íntimas mágoas morrerem
afogadas – isso se eu não morrer afogado primeiro numa poça do próprio vômito
imitando umas estrelas do rock’
muitas vezes eu não disse coisa nenhum e mesmo assim fiz
essas coisas das quais falei.
Eu sou tão sortudo: nunca o sol veio ter comigo como se eu fosse O’Hara ou Herbert
mas depois de todos esses anos
eu ainda posso respirar eu ainda não estou acabado
na verdade de vez em quando parece
é que acabei de começar como
num êxtase místico só agora o mundo se abrisse diante de meus olhos
como se o mundo todo fosse algo novo
se cada folha de relva fosse um novo gênesis
como se cada palavra fosse
yehi ‘or genethos phos fiat lux let there be light.
Uma vida feita de
mantras
revoluções
um corpo de matéria e onda
a dimensão do tempo passando ao longo do espaço
os dedos que tocam e sentem apenas
a distância que faz com
que tudo
desapareça como tudo o que fomos exceto pelos números que nos nomeavam
ante aqueles que nunca souberam nenhuma dessas coisas
as coisas que importam eu quis dizer o timbre da voz a cor dos olhos
ou o prato favorito.
Os dedos só sentem isso mas nos punhos
muitas outras coisas reverberam
é quase doloroso uma espécie de sinfonia
bom ou mau augúrio
que se instala na base do meu crânio
que salta de meu corpo.

As estradas até aqui foram longas:
e ainda o são.
busco
em versos
alheios as
respostas
que não consigo encontrar
perscrutando esse silêncio
resignado
esse silêncio forçoso

§

busco
em línguas
distantes as
imagens
que não consigo construir
mastigando as consoantes
tão suaves
as vogais abertas

abro uma página ao acaso
pálpebra que rufla
qual asa negra
de pássaro agourento
esse maio amargo
no papel molhado a tinta
rasteja
como chaga
rascante

§

Os tambores da revolução

é chegada a hora de rufarmos
os tambores da revolução
marcharmos contra os soldados
vestindo nossos farrapos:
o crânio mais frágil
do que os capacetes
um colete feito das
próprias costelas
atirando palavra após palavra
da ponta da caneta
declamando explosões
a plenos pulmões
o sangue queimando
como napalm

é chegada a hora de rufarmos
os tambores da revolução
marcharmos contra os soldados
armados de nossos braços magros
sustentados nessas pernas finas
que quebram com tanta facilidade
é chegada a hora de morrermos
gritando é chegada a hora de sermos
massacrados mas ainda assim
não capitular e nem abrandar o tom
precisamos dos coquetéis molotov
precisamos dos explosivos caseiros
e de explosivos de todos os tipos
precisamos das canções das barricadas
dos poemas de Maiakóvski e de Jacques Roumain
é chegada a hora de queimar
as bandeiras, os bancos, as bolsas de valores,
os símbolos todos tornados cinzas
na queimada que antecede o gérmen
de uma nova civilização

é chegada a hora de rufarmos
os tambores da utopia

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