poesia, tradução

“a canção de amor de j. alfred prufrock”, por rodrigo t. gonçalves

thomas sterns eliot (1888 – 1965), prodigioso poeta do modernismo inglês, também dramaturgo, crítico e  discípulo de ezra pound, é um desses autores que dispensam apresentações. seu longo poema the waste land, de 1922, é um dos grandes poemas do século XX e todos os leitores de poesia já devem ter, pelo menos, ouvido falar dele. outros grandes poemas dele incluem “the hollow men” (famoso pelos versos “this is the way the world ends / not with a bang but a whimper”), “ash wednesday” e o foco deste post, “the love song of j. alfred prufrock”, publicado pela primeira vez em 1915.

composto na forma de um monólogo dramático, “prufrock” é um retrato doloroso do homem moderno, uma figura que oscila entre o grandiloquente e o patético, as preocupações metafísicas da percepção da mortalidade e a frivolidade do cotidiano, da vida medida em colherinhas de café, como ele mesmo põe. é também uma excelente introdução à poesia de t. s. eliot, menos hermético que os seus outros grandes poemas, com uma influência profunda daquilo que edmund wilson chamou “estilo coloquial irônico” do simbolismo francês, identificado nas obras de laforgue e corbière: a complexidade do poema de eliot está exatamente no tratamento irônico (reforçado pela rima, em muitos momentos) dado a um sentimento doloroso e “assincerado” – já que “sincero” não seria o melhor termo para se tratar de eliot.

em português, várias traduções já foram feitas: idelma ribeiro de faria (t. s. eliot. poemas: 1910-1930), ivan junqueira (poesia), jorge wanderley (22 ingleses modernos, uma antologia poética), além de joão almeida flor, alex severino e rodolfo jaruga, disponíveis em seus respectivos links. a elas acrescentamos agora a de rodrigo tadeu gonçalves (jaú, 1981), tradutor e professor da ufpr que já apareceu aqui anteriormente com um dos nossos vários carrinhos de mão vermelho, e agora faz o seu debut solo com “a canção de amor de j. alfred prufrock”.

como jorge wanderley e idelma ribeiro de faria, rodrigo se esforça para manter os jogos sonoros do original, que fazem perder muito da ironia na tradução sem rima e sem métrica, por exemplo, de ivan junqueira. é um clichê comum pensar o modernismo como rompendo com as tradições de métrica e rima… porém, uma leitura mesmo que rasa do “prufrock” já nos mostra imediatamente o trabalho de assimétrico de rimas da primeira estrofe com “I“/”sky“, “street/retreat“, etc, bem como o efeito cômico, por conta de sua frivolidade, no refrão “in the room the women come and go / talking of michelangelo.”, que rodrigo traduz por “na saleta, as moças em deâmbulo /falam de michelangelo.”  as últimas estrofes também substituem o verso livre por tercetos rimados, porém com um efeito lírico mais sério. ao atentar para essas nuances do jogo entre liberdade de forma e uso (irônico ou não) da tradição, temos aqui uma bela contribuição às traduções de eliot.

adriano scandolara / guilherme gontijo flores.

a canção de amor de j. alfred prufrock

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo
Questa fiamma staria sensa piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero
Sensa tema d’infamia ti rispondo.

vamos lá, você e eu
quando a noite está espalhada contra o céu
tal paciente eterizado sobre a mesa
vamos nós, por tais semi-desertas alamedas
as quebras quietas
de inquieta noite insone na espeluncas de uma noite
bistrôs baratos com jornal no chão:
ruas que seguem tal tedioso argumento
de perigosa pretensão:
levá-lo a uma pergunta arrasadora…
ah, “qual seria?”, não insista,
vamos lá à nossa visita.

na saleta, as moças em deâmbulo
falam de michelangelo.

a névoa espessa roça as costas nas venezianas
fumaça espessa que o focinho roça nas venezianas
raspando a língua nas esquinas do anoitecer
demora sobre as poças sobre os ralos
derruba em suas costas cinzas lá das chaminés
desliza no terraço, faz-se reerguer
e vendo que era noite calma de um outubro
em volta enrosca a casa a adormecer.

e é certo, o tempo vai chegar
para o fumo espesso errante pela rua,
que esfrega as costas nas venezianas;
o tempo vai chegar e vai chegar
de preparar a cara a ver as caras conhecidas suas;
vai chegar o tempo de criar e de matar
e o tempo dos trabalhos e os dias e as mãos
que erguem e jogam a dúvida em seu prato;
tempo pra você e para mim,
e tempo pra mais cem indecisões,
e mais cem visões e revisões,
antes da hora de tomar chá com torrada.

na saleta, as moças em deâmbulo
falam de michelangelo.

e é certo, o tempo vai chegar
em que se possa perguntar, “eu ousaria?”
tempo para voltar e descer a escadaria,
e a mancha calva no meio da cabeça já se via –
(vão dizer: “como o cabelo dele vai rareando!)
meu fraque e o colarinho bem alto abotoando,
minha gravata honesta e rica, com uma só prega fechando
(vão dizer: mas como as pernas e os braços dele tão afinando!”)
ousaria
o universo perturbar?
num minuto há muito tempo
em que o minuto as decisões e revisões pode abortar.

pois eu já as conheci a todas elas, todas elas –
conheço as noites, tardes e manhãs, até,
eu medi a minha vida em colherinhas de café
conheço as vozes abafadas se apagando
em meio à música de um quarto distante.
como é que eu ia adivinhar?

e eu conheci os olhos todos, todos eles –
os olhos que lhe pregam numa frase formulada,
e quando eu, formulado, num alfinete a estrebuchar,
quando eu estou pregado e me espalhando na parede,
como é que eu ia começar a
cuspir bitucas dos dias e vias?
como é que eu ia adivinhar?

pois eu já conheci os braços todos, todos eles –
braceletados braços, brancos e desnudos
(à meia luz, porém, cobertos com ruiva penugem!)
será o perfume de um vestido
que me faz assim perdido?
braços jogados sobre as mesas, ou nos xales enrolados.
então como é que eu ia adivinhar?
como eu podia começar?

***

e eu direi que andei ruelas pelo anoitecer
que vi a fumaça fugindo dos cachimbos
de uns homens solitários de pijama nas janelas?

eu devia era ter sido um par de diras garras
pairando pelos leitos de quietos oceanos.

***

e o entardecer, o anoitecer, dorme em tanta paz!
por longos dedos acariciado
dormindo… cansado… ou finge dor,
espichado aqui no chão, do meu lado e do seu,
devia eu, depois do licorzinho nesse cálice,
ter força de forçar o instante até seu ápice?
embora eu tenha feito reza, cena e até quaresma,
embora eu tenha visto minha cabeça (já meio careca) trazida na bandeja,
não sou profeta – e aqui deixo pro azar;
eu vi o meu momento de grandeza tremular,
e eu vi o Lacaio eterno com o meu terno e um riso abafar,
e, resumindo, eu tive medo.

e valeria a pena, ao fim de tudo,
das xícaras, do chá e das geleias,
em meio às porcelanas e íntimas trocas de ideias,
teria, ao fim, valido alguma pena
ter encerrado num sorriso nossa cena,
e espremer o universo numa bola
rolá-lo a uma pergunta arrasadora,
dizer “eu sou lázaro, vindo dos mortos
retorno para lhes dizer tudo, direi tudo” –
se então, ajeitando o travesseiro em sua cabeça
alguém dissesse: “não é nada disso tudo;
não é isso, eu juro.”

e valeria a pena, ao fim de tudo,
e valeria alguma pena
depois do pôr-do-sol e das soleiras e das ruas respingadas,
depois dos livros e dos chás, depois das saias que se arrastam pelo chão –
e disso e muito mais então? –
é impossível dizer tudo o que eu quero!
mas como se a lanterna mágica lançasse seus padrões num anteparo:
valeria alguma pena
se alguém, ajeitando o travesseiro ou enrolando um xale,
ao virar-se pra janela, enfim dissesse:
“não foi isso, eu juro,
fui incompreendida em tudo.”

***

não! não sou príncipe hamlet, nem era para ser
sou um nobre figurante, que vai só servir
pra inchar a comitiva, uma cena ou mais abrir,
aconselhar o príncipe, decerto, papel simples,
deferente, feliz por ser de auxílio,
sagaz, meticuloso e precavido;
cheio de frases feitas, mas meio perdido;
às vezes, até, quase ridículo –
às vezes, quase, o Tolo.

envelheço… envelheço…
vou dobrar as barras da minha calça eu mesmo.

ousarei comer um pêssego? reparto meu cabelo pra trás?
vou por calças de flanela branca e sair pra andar na praia.
ouvi o canto das sereias, e cantavam entre si.

não acho que elas vão cantar pra mim.

e as vi cortando as ondas para o mar
partindo as cãs das ondas para trás
quando o vento sopra as alvinegras águas.

passeamos nos palácios do oceano
co’ondinas coroadas de algas rubras
té que com humanas vozes despertando,
morramos afogados.

(trad. rodrigo t. gonçalves, curitiba 08/01/2009//17/05/2012 paris)

 

 

The Love Song of J. Alfred Prufrock – 1917

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo
Questa fiamma staria sensa piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero
Sensa tema d’infamia ti rispondo.

Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question . . .
Oh, do not ask, ‘What is it?’
Let us go and make our visit.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes,
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.
And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.
In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.
And indeed there will be time
To wonder, ‘Do I dare?’ and, ‘Do I dare?’
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair—
[They will say: ‘How his hair is growing thin!’]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin—
[They will say: ‘But how his arms and legs are thin!’]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.
For I have known them all already, known them all—
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?
And I have known the eyes already, known them all—
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?
And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?
. . . . .

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . . .
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
. . . . .

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head [grown slightly bald] brought in upon a platter
I am no prophet—and here’s no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.
And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: ‘I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all’—
If one, settling a pillow by her head,
Should say: ‘That is not what I meant at all.
That is not it, at all.’
And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
‘That is not it at all,
That is not what I meant at all.’
No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.
I grow old . . . I grow old . . .
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.
I do not think that they will sing to me.
I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and

(t. s. eliot)

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3 comentários sobre ““a canção de amor de j. alfred prufrock”, por rodrigo t. gonçalves

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