crítica, poesia

sonetos de frei agostinho da cruz

frei agostinho da cruz (1540-1619)

frei agostinho da cruz (nascido agostinho pimenta, em 1540, em ponte da barca, morto em 1619, em serra da arrábida), irmão do também poeta diogo bernardes, recebeu ainda pouca atenção crítica. sua poesia mística foi escrita toda no final da vida, quando, depois de 45 anos no convento de santa cruz da serra de cintra, como monge franciscano, decidiu tornar-se anacoreta em serra da arrábida – onde ficou 14 anos, até morrer. uma bela imagem dessa busca por silêncio está na elegia II, vv. 22-36:

Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?

Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando

Nos pés de outros mais verdes arvoredos.

Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.

Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.

Ferido de tamanhos sentimentos
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.

nesse momento de radicalização da sua fé, ele declara ter queimado toda a sua produção anterior (cf. soneto II), para iniciar uma nova produção, nos momentos livres. embora ela seja desigual, escolhi aqui alguns dos sonetos mais impactantes da sua produção. É interessante a seguinte descrição do ambiente arrábido, feita por antónio gil rafael:

No aspecto religioso, os frades capuchos estavam imbuídos de um espírito ascético-místico, quase visionário, espirito não já próprio da piedade humanista, mas sim dos fins da Idade Média, em que o acento tónico era posto na rigidez das observâncias e na espiritualização da sua vida religiosa (p. 33).

porém, apesar do temperamento medieval dos capuchos, a poesia de agostinho da cruz estava diretamente ligada ao seu tempo, com um estilo maneirista já beirando o barroco, cheio de jogos conceituais (cf. XLV ou XLIV); é portanto entre esses dois ambientes que se instaura a sua poesia – entre fervor e técnica, paixão religiosa e virtuose da linguagem.um exemplo notável é o soneto LXIV “ao pecado original”, onde vemos um jogo conceitual sobre o desnível na propensão ao pecado, entre adão (o primeiro homem, anterior ao mal) e o poeta (nascido no mal, portanto muito inferior). a primeira oração, aparentemente simples em seu jogo de rimas, é complexa na sintaxe, quando percebemos que o soneto já principia por um enjambement, para chegar a sua oração principal – “pecou” – apenas no terceiro verso; aí podemos julgar que a escolha de rimas em particípios – rimas banais – retomam o estado perfectum, ou seja, já acabado, do crime passado, que paira sobre toda humanidade, além de formar uma espécie de “acorde semântico” em formado-nascido-concebido-pecado, num eixo entre a criação do homem e sua degradação. na segunda estrofe, o poeta desenvolve o tema do pecado original em sua relação com o fruto proibido  (mais uma vez reforçado pelas rimas em contraposição: “vedado”/”concedido” & “caido”/”levantado”); em contraposição as últimas duas estrofes desenvolvem a “fome de pureza” do homem de caído em oposição à fome de pecado do primeiro homem, que se resolvem na cena magistral do cristão como um cão que ladra, mas não consegue morder o fruto da salvação.

infelizmente, sua obra está repleta de problemas editoriais – como as obras da maioria dos autores dos séculos XV-XVII em portugal – mas ainda mais por não ter publicado em vida. o que temos é, portanto, um conjunto de textos feito mais de um século depois da sua morte, a partir de manuscritos que se encontravam em pontos diversos de portugal.

os sonetos foram tirados da edição crítica e anotada do português antónio gil rafael, intitulada sonetos e elegias, que saiu pela editora hiena, em 1994. Sigo a ortografia e a pontuação dessa edição.

guilherme gontijo flores

p.s.: fiquei sabendo de um edição de 2010, intitulada poemas da montanha, a cargo de dalila da costa, mas infelizmente não pude consutá-la.

serra da arrábida

II

Os versos, que cantei importunado
Da mocidade cega a quem seguia,
Queimei (como vergonha me pedia)
Chorando, por haver tão mal cantado.

Se nestes não ficar tão desculpado
Quanto mais alto estilo merecia,
Não me podem negar a melhoria
Da mudança, que diz dum noutro estado.

Que vai que sejam bem ou mal aceitos?
Pois não os escrevi para louvores
Humanos, pelo menos perigosos,

Senão para plantar em tenros peitos
Desejos de colher divinas flores
À força de suspiros saudosos.

XXIX
Da emenda

Concluido me tendo a mi comigo
De deixar o caminho que levava,
Vendo com razões claras quanto errava
Em não me desviar do mais antigo.

Pois no trabalho seu, no mor perigo,
Meu amigo consigo a mi me achava;
E quando no meu mal algum buscava,
Achava-me comigo sem amigo.

Agora dei a volta por caminhos
De solitarios bosques enramados,
De feras bravas mansos passarinhos;

Que ainda que entre espinhos conversados,
Mais quero pé descalço entre espinhos,
Que dos homens humanos espinhados.

XLV
Finis eiusque mali principium est futuri

Do fim de qualquer mal, que me persegue,
O principio de outro se me apega,
Porque quando um de mim se desapega,
Outro no mesmo instante se me apegue.

Assi do que se acaba outro se segue,
E àquele, que por vir está, me entrega,
E inda este não se vai, já outro chega,
Sem que para acabar-me nenhum chegue.

E pois, quando um acaba, outro começa,
De um só (se d’ambos não) fico forçado
A que de novo sempre me entristeça.

Já que tão mal me tenho aproveitado,
Que não faltando males, que padeça,
Na minha paciencia haja faltado.

LI
À morte

Os correos da morte são chegados,
Por caminhos antigos, impedidos,
Mal com meus olhos, mal com meus ouvidos,
Mal com meus pés, do chão mal levantados.

E mal, por não chorar bem meus pecados,
Que sendo sete, e cinco, meus sentidos,
Por serem tantas vezes repetidos,
Impossivel será serem contados.

Se não viera a morte acompanhada
Da conta, que dar devo tão estreita,
Não fora tão penosa imaginada.

Mas a que vivo ou morto tenho feita,
Tenho com meu Senhor na cruz pregada,
Onde o ladrão contrito não se enjeita.

LIII

Ó montes altos, vales abatidos,
Verdes ribeiras de correntes rios,
Ora por baixo de bosques sombrios,
Ora por largos campos estendidos;

Onde mais claro vejo repetidos
Meus mal considerados desvarios
De pensamentos vãos, baixos e frios,
Emendados tão mal, quão mal sentidos.

Passei a mocidade sem proveito,
Antes contra meu Deos acrescentando
Culpas a quantas culpas tenho feito;

Cuja pena a velhice está pejando
Para passar da morte o passo estreito,
Se não se no seu sangue for nadando.

LXIV
Ao pecado original

Se sendo, meu Senhor, por vós formado
Adão, antes de ser o mal nascido,
Pecou, que fará quem foi concebido
Nas entranhas, que já tinham pecado?

Comer de um fruito só lhe foi vedado,
Tudo o mais a seu gosto concedido,
E por uma só vez haver caido,
Por muitas ser não posso levantado.

Tão fraca ficou minha natureza,
Que levantar não deixa o pensamento
Da terra, a que está atada e presa,

Tão imiga do meu merecimento,
Que se morder não pode na pureza,
Não deixa de ladrar um só momento.

LXI
Ipse dixit et facta sunt

Se bastou só dizer para ser feito,
E mandar para ser tudo criado,
O que tambem a mim me está mandado,
Como não tem em mim o mesmo efeito?

E que seja maior este preceito
De ser Deos sobre tudo mais amado,
E que em mim só não seja efeituado,
Que tal deve de ser o meu defeito!

Dous extremos daqui fico notando,
Que confundem o meu entendimento
As causas dos efeitos discursando.

Não vejo quanto pode o mandamento
Noutro quão pouco em mim só fica obrando,
E de ambos falta em si o sentimento.

§

Perdi-me dentro em mim, como em deserto,
Minha alma está metida em labirinto,
Contino contradigo o que consinto,
Cem mil discursos faço, em nada acerto.

Vejo seguro o dano, o bem incerto;
Comigo porfiando me desminto,
O que mais atormenta, menos sinto,
O que me foge, quando está mais certo.

E se as asas levanta o pensamento
Àquela parte, onde está escondida
A causa deste vario movimento,

Transforma-se por não ser conhecida,
Porque quer a pesar do sofrimento
Pôr as armas da morte em mão da vida.

A Santa Maria Magdalena (Soneto de autoria duvidosa)

Perdido el nombre, del peccado esclava,
Esclava de Dios se hizo de limpieza,
Limpieza abraça y dexa la torpeza,
Torpeza juzga al mundo y lo que amava.

Amava el mundo que la despeñava,
Despeñava el sentido en su bruteza,
Bruteza le ofuscava la nobleza,
Nobleza hoy le declara quanto errava.

Errava Magdalena, el blanco errando,
Errando acierta y vive de amor llena,
Llena de un fuego, en otro se resuelve;

Resuelvesse en amar, y ama llorando,
Llorando lava, y mata culpa y pena;
Pena por ella el cielo, a quien se buelve.

(frei agostinho da cruz)

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