poesia, tradução

o moretum [pseudo-virgílio].

vaso da beócia

vaso da beócia

uma das coisas que mais me deixa curioso na literatura é a existência – imensa – dos textos que cercam o eixo central do cânone, que tentam invadi-lo pela atribuição da auctoritas ao texto, mas que costumam perverter esse mesmo cânone por apresentarem processos literários distantes desse eixo, ou seja, movimentos que expressam a falta de uniformidade nos sistemas literários (se ainda pretendermos ficar com esse conceito). em geral, isso acontece quando temos um texto anônimo atribuído a um autor central; como é o caso da appendix vergiliana, onde temos os supostos poemas de juventude do vate romano, autor da eneida.

como poema de juventude, independente da sua autoria, o que interessa ao leitor atual é, provavelmente, o seu tom programaticamente menor, sua chave irônica, longe dos maiores desejos do império. a tradução do latinista márcio meirelles gouvêa júnior (tradutor das argonáuticas de valério flaco), feita em dodecassílabos, para verter o hexâmetro datílico original, tenta capturar esse movimento entre o registro formal sério e o tom leve. além disso, está precedida por uma brevíssima intro, que pelo menos pode situar o leitor leigo.

guilherme gontijo flores

Apresentação

Atribuído precariamente a Virgílio, como um dos poemas de sua juventude, o Moretum é a narrativa de um fazendeiro que, ao se levantar pela manhã, prepara, com sua escrava africana, a própria refeição. Trata-se de um pão chato, sem fermento, sobre o qual são espalhados queijo seco, alho, ervas diversas e azeite.

o moretum, em receita de site alemão

Esta tradução foi feita a partir do texto estabelecido por Fairclough, conforme a edição da Loeb, de 2001.

H.R. Fairclough, rev. G.P. Goold, Virgil, Volume II: Aeneid Books 7-12, Appendix Vergiliana, Loeb Classical Library (Cambridge, MA 2001)

Moreto

Dez horas invernais já a noite completara
e o galo anunciara o dia com seu canto
quando o cultivador de poucas terras, Símulo,
temendo o cruel jejum do dia que chegava,
ergue do leito vil o corpo, pouco a pouco,
e co’ansiosa mão, explora o quieto escuro;
procura o lume e, enfim, o sente ao se ferir.
No graveto queimado, a fumaça mantinha-se
e a luz da brasa se ocultava sob as cinzas;
ele, cabeça baixa, adiante move a lâmpada
e tira, com u’a agulha a ressecada estopa;
co’um forte sopro anima o fogo enlanguescido.
Enfim, as trevas retrocedem ante o brilho
e ele, co’a mão, protege a luz do vento e abre
co’a chave a porta do casebre, à qual divisa.
Um montinho de grãos sobre a terra espalhava-se:
daí, toma para si o quanto se mostrava,
que pesa mais que duas vezes oito libras.
Vai, se aproxima do moinho e, numa tábua,
que, presa ao muro, se guardava àqueles usos,
coloca a luz fiel. Então, despe os dois braços
e, envolto em pele de felpuda cabra, varre
co’espanador a pedra e o meio do moinho.
Então, põe mãos à obra, as duas repartindo:
a esquerda p’ra ajudar no trabalho a direita
que, num contínuo, gira a roda e a movimenta.
Moída, Ceres cai da pedra, aos golpes rápidos;
a mão esquerda exausta, amiúde, segue a irmã
e alterna o esforço. Ele já canta canções rústicas
e, com a agreste voz, o trabalho alivia.
A Esquíbale ele chama; a sua única criada
era africana – sua figura atesta a pátria:
cabelos crespos, lábios grossos e a cor fosca.
Tem caídas mamas, peito grande e ventre inchado,
as pernas finas, prodigiosos largos pés
e calcanhares enrijados pelas trincas.
Ele lhe ordena pôr no ardor do fogo a lenha
e na chama esquentar os líquidos gelados.
Quando o trabalho de moer alcança o fim,
ele, co’as mãos, põe a farinha na peneira
e sacode; a impureza em cima permanece
e Ceres, limpa e depurada, cai do crivo.
Ligeiro, então, rapidamente, a põe na mesa,
joga por cima as águas tépidas. Agora,
amassa as águas misturadas co’a farinha;
co’a rija mão, vai e vem; e estando preso o líquido,
espalha os grãos de sal. Ergue a sovada massa
e alarga, co’a palma, a forma arredondada.
Iguais quadrados corta nela e os põe no fogo –
antes Esquíbale limpara o lugar próprio.
Com telhas ele o cobre e, em cima, deita as brasas.
Enquanto cumprem sua função Vulcano e Vesta,
durante o vago tempo, Símulo não para –
busca outros meios. Como Ceres ao palato
só não agrada, apresta víveres que ajunte.
Não lhe sobravam carnes presas sobre o lume,
nem lombo ou pés de porco em sal endurecidos.
Apenas queijo trespassado por u’a corda
e um molho atado de endro seco, pendurados.
O previdente herói tem p’ra si outros meios.
Havia ao pé da choça u’a horta, que o perene
caniço, o leve junco e vimes protegiam:
u’exíguo espaço, mas em muitas ervas fértil.
Não lhe faltava o que exigia a vida simples;
pedia o rico, amiúde, ao pobre os seus produtos.
Não era sua obra de luxo, mas bem feita.
Se ocioso em casa festa ou chuvas o prendiam,
ou se o labor do arado às vezes terminava,
no horto ia trabalhar. Sabia cultivar
várias plantas, confiar os grãos à terra oculta
e, em volta, controlar os arroios vizinhos.
Couves, acelgas de amplos braços, abundantes
labaças, ênulas e malvas ali viçam,
a chirivia, o alho-poró (que deve o nome
ao broto), a gélida papoula malfazeja
e a alface, que termina as nobres refeições
brotam ali; em pontas crescem alcaçuzes
e a grande abóbora, que deita o largo ventre.
Não era dele a produção (quem era, enfim,
mais pobre que ele?); mas p’r’o povo; ele levava
nos dias de feira, no ombro a carga para a vila.
Voltava, então, co’o bolso cheio e as costas leves
trazendo, às vezes, do mercado, algum produto –
rubras cebolas e alhos matam sua fome,
com o mastruz que faz o rosto contrair-se,
a endívia e o rinchão, que reanima Vênus.
Então, entrou no horto pensando nessas coisas:
co’os leves dedos, da afofada terra tira,
primeiro, quatro alhos, co’as fibras bem espessas;
depois, arranca as tenras folhas de aipo, a arruda
hirta e os coentros, que num fino galho tremem.
Tendo os colhido, alegre senta junto ao fogo
e, co’alta voz, pede à criada o seu pilão.
Desnuda cada alho do corpo emaranhado,
as cascas tira e com desdém no chão as joga
e enjeita. Co’água molha os bulbos conservados
e os põe no bojo do pilão. Deita ali grãos
de sal, ajunta um queijo duro pela salga
e espalha em cima as ditas ervas. Co’a canhota,
segura as vestes sob o ventre cabeludo
e, co’a direita, pila os alhos perfumados.
Então, mói tudo com os sucos misturados
e gira a mão. Aos poucos, cada planta perde
as próprias forças, e u’a só cor se faz de muitas –
nem toda verde, pois se opõem as brancas partes;
nem toda branca, pois as ervas a matizam.
Às vezes, o acre aroma atinge-lhe as narinas
e sua comida causa nele uma careta;
co’a mão, às vezes, limpa os olhos lacrimosos
e xinga, enfurecido, a inocente fumaça.
A obra seguia. Já não mais rude, qual antes,
ia o pilão, pesadamente, em voltas lentas.
Pinga, daí, gotas do azeite de Minerva
e espalha em cima um pouco a força do vinagre.
Liga tudo outra vez e, então, tira a mistura.
Com dois dedos, enfim, contorna o pilão todo
e numa massa só ajunta as partes soltas
P’ra conseguir o nome e o aspecto do moreto.
No entanto, Esquíbale, zelosa, tira o pão
e ele, na mão, alegre o toma. Sem temer
já a fome, Símulo, tranqüilo aquele dia,
veste as calças de couro e, co’o chapéu de palha,
põe sob o jugo das correias dóceis bois;
parte p’r’os campos e na terra enfia o arado.

(trad. Márcio Meirelles Gouvêa Júnior)

Moretum

Iam nox hibernas bis quinque peregerat horas
excubitorque diem cantu praedixerat ales,
Simulus exigui cultor cum rusticus agri,
tristia uenturae metuens ieiunia lucis,
membra leuat uili sensim demissa grabato
sollicitaque manu tenebras explorat inertes
uestigatque focum, laesus quem denique sensit.
paruulus exusto remanebat stipite fomes
et cinis obductae celabat lumina prunae;
admouet his pronam summissa fronte lucernam
et producit acu stuppas umore carentis,
excitat et crebris languentem flatibus ignem.
tandem concepto, sed uix, fulgore recedit
oppositaque manu lumen defendit ab aura
et reserat clausae qua peruidet ostia clauis.
fusus erat terra frumenti pauper aceruus:
hinc sibi depromit quantum mensura patebat,
quae bis in octonas excurrit pondere libras.
inde abit adsistitque molae paruaque tabella,
quam fixam paries illos seruabat in usus,
lumina fida locat; geminos tunc ueste lacertos
liberat et cinctus uillosae tergore caprae
peruerrit cauda silices gremiumque molarum.
aduocat inde manus operi, partitus utroque:
laeua ministerio, dextra est intenta labori.
haec rotat adsiduum gyris et concitat orbem
(tunsa Ceres silicum rapido decurrit ab ictu),
interdum fessae succedit laeua sorori
alternatque uices. modo rustica carmina cantat
agrestique suum solatur uoce laborem,
interdum clamat Scybalen. erat unica custos,
Afra genus, tota patriam testante figura,
torta comam labroque tumens et fusca colore,
pectore lata, iacens mammis, compressior aluo,
cruribus exilis, spatiosa prodiga planta.
Continuis rimis calcanea scissa rigebant.
hanc uocat atque arsura focis imponere ligna;
imperat et flamma gelidos adolere liquores.
postquam impleuit opus iustum uersatile finem,
transfert inde manu fusas in cribra farinas
et quatit; ac remanent summo purgamina dorso,
subsidit sincera foraminibusque liquatur
emundata Ceres. leui tum protinus illam
componit tabula, tepidas super ingerit undas,
contrahit admixtos nunc fontes atque farinas,
transuersat durata manu liquidoque coacta,
interdum grumos spargit sale. iamque subactum
leuat opus palmisque suum dilatat in orbem
et notat impressis aequo discrimine quadris.
infert inde foco (Scybale mundauerat aptum
ante locum) testisque tegit, super aggerat ignis.
dumque suas peragit Vulcanus Vestaque partes,
Simulus interea uacua non cessat in hora,
uerum aliam sibi quaerit opem, neu sola palato
sit non grata Ceres, quas iungat comparat escas.
non illi suspensa focum carnaria iuxta
durati sale terga suis truncique uacabant,
traiectus medium sparto sed caseus orbem
et uetus adstricti fascis pendebat anethi:
ergo aliam molitur opem sibi prouidus heros.
hortus erat iunctus casulae, quem uimina pauca
et calamo rediuiua leui munibat harundo,
exiguus spatio, uariis sed fertilis herbis.
nil illi deerat quod pauperis exigit usus;
interdum locuples a paupere plura petebat.
nec sumptus erat ullius opus sed regula curae:
si quando uacuum casula pluuiaeue tenebant
festaue lux, si forte labor cessabat aratri,
horti opus illud erat. uarias disponere plantas
norat et occultae committere semina terrae
uicinosque apte circa summittere riuos.
hic holus, hic late fundentes bracchia betae
fecundusque rumex maluaeque inulaeque uirebant,
hic siser et nomen capiti debentia porra.
Hic etiam nocum capiti gelidum papaver
grataque nobilium requies lactuca ciborum,
plurimo surgit ibi crescitque in acumina radix,
et grauis in latum dimissa cucurbita uentrem.
uerum hic non domini (quis enim contractior illo?)
sed populi prouentus erat, nonisque diebus
uenalis umero fasces portabat in urbem,
inde domum ceruice leuis, grauis aere redibat
uix umquam urbani comitatus merce macelli:
cepa rubens sectique famem domat area porri
quaeque trahunt acri uultus nasturtia morsu
intibaque et Venerem reuocans eruca morantem.
tum quoque tale aliquid meditans intrauerat hortum;
ac primum leuiter digitis tellure refossa
quattuor educit cum spissis alia fibris,
inde comas apii graciles rutamque rigentem
uellit et exiguo coriandra trementia filo.
haec ubi collegit, laetum consedit ad ignem
et clara famulam poscit mortaria uoce.
singula tum capitum nodoso corpore nudat
et summis spoliat coriis contemptaque passim
spargit humi atque abicit; seruatum gramine bulbum
tinguit aqua lapidisque cauum demittit in orbem.
his salis inspargit micas, sale durus adeso
caseus adicitur, dictas super ingerit herbas,
et laeua uestem saetosa sub inguina fulcit,
dextera pistillo primum fragrantia mollit
alia, tum pariter mixto terit omnia suco.
it manus in gyrum: paulatim singula uires
deperdunt proprias, color est e pluribus unus,
nec totus uiridis, quia lactea frusta repugnant,
nec de lacte nitens, quia tot uariatur ab herbis.
saepe uiri nares acer iaculatur apertas
spiritus et simo damnat sua prandia uultu,
saepe manu summa lacrimantia lumina terget
immeritoque furens dicit conuicia fumo.
procedebat opus; nec iam salebrosus, ut ante,
sed grauior lentos ibat pistillus in orbis.
ergo Palladii guttas instillat oliui
exiguique super uires infundit aceti
atque iterum commiscet opus mixtumque retractat.
tum demum digitis mortaria tota duobus
circuit inque globum distantia contrahit unum,
constet ut effecti species nomenque moreti.
eruit interea Scybale quoque sedula panem,
quem laetus recipit manibus, pulsoque timore
iam famis inque diem securus Simulus illam
ambit crura ocreis paribus tectusque galero
sub iuga parentes cogit lorata iuuencos
atque agit in segetes et terrae condit aratrum.

[atribuído a Virgílio]

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