poesia, tradução

Três poemas de Emily Dickinson, por Adalberto Müller

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3 POEMAS DE EMILY DICKINSON

É sempre difícil escolher textos de Emily Dickinson, dentro de um universo de cerca de 1800 poemas. Os três aqui escolhidos apontam para três caminhos de leitura: o primeiro é quase uma carta a Sue Gilbert, amiga de juventude, com quem Emily teve uma relação afetiva intensa, e que acabou se tornando sua cunhada. O segundo, uma pequena joia, apresenta o embate tenso de Emily com a fé: para ela, acreditar em Deus significa poder dialogar com ele em língua de poesia. O terceiro mostra aquele equilíbrio perfeito entre imagem, ritmo e pensamento, que torna a sua poesia tão difícil de ser traduzida. Estas traduções (parte de um projeto em andamento, de traduzir da poesia completa e as cartas) seguem a edição crítica de R.W. Franklin e os manuscritos do Emily Dickinson Archive. O primeiro poema tem 4 versões diferentes. Escolhi a primeira, por ser o que estava na carta enviada a Sue. Respeitei a grafia estranha de algumas palavras tal como usada por Emily (esp. “Buenos Ayre”).

Adalberto Müller

* * *

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Manuscrito com o poema “Your Riches – taught me – poverty!”

Your – Riches – taught me – poverty!
[F418A; J299]

Your – Riches – taught me – poverty!
Myself – a “Millionaire”
In little – wealths – as Girls – can boast
Till broad as Buenos Ayre –
You drifted your Dominions –
A Different – Peru –
And I esteemed – all Poverty –
For Life’s Estate – with you –

Of “Mines” – I little know, myself –
But just the names, of Gems
The Colors – of the Commonest
And scarce of Diadems –
So much – that did I meet the Queen
Her glory – I should know –
But this, must be a different wealth –
To miss it – beggars – so!

I’m sure ‘tis “India” – all day –
To those who look on you –
Without a stint – without a blame –
Might I – but be the Jew!
I’m sure it is “Golconda”
Beyond my power to dream –
To have a smile – for Mine – each day –
How better – than a Gem!

At least – it solaces – to know –
That there exists – a Gold
Altho’ I prove it – just in time –
Its distance – to behold –
Its far – far – Treasure – to surmise –
And estimate – the Pearl –
That slipped – my simple fingers – thro’
While yet – a Girl – at school!

Dear Sue –
You see I remember.
……….Emily
[1862]

Rica – me ensinastes – pobreza!
Eu mesma – com “Donaires”
De dama – que toda Menina –
Ostenta – uma “Buenos Ayres” –
Estendestes teus Domínios –
Ao Peru – Antigo –
Estimei – toda pobreza –
Imóvel de Viver – contigo!

De “Minas” – pouco sei –
Apenas os nomes – das Gemas
As Cores – das mais Comuns
Uns poucos Diademas –
Tanto – que encontrei A Rainha
Devia saber – sua glória –
Mas esta – é uma outra riqueza
Mendigos sabem – a história!

Certo – é uma “Índia” – todo dia –
A quem vê o rosto teu –
Sem parcelas – sem queixas –
Só posso ser – o teu Judeu!
Sei que é uma “Golconda” –
Pra tal sonho – sou pequena –
Ter um sorriso – teu – e sempre –
Muito melhor – que uma Gema!

Ao menos – consola – saber –
Que lá existe – um Ouro
Embora eu saiba, a tempo –
A distância – do Tesouro!
Longe – longe – não agarro –
Esta pérola – não se estima –
Que escorreu-me entre os dedos –
Ainda – na escola – de Menina!

Querida Sue –
Como vês
Eu me lembro.
……….Emily

[1862]

§

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Manuscrito de “Bind me – I still can sing”

Bind me I still can sing
[F1005A; J1005]

Bind me – I still can sing –
Banish – my mandolin
Strikes true, within –

Slay – and my Soul shall rise
Chanting to Paradise –
Still thine –

[1865]

Me ata – canto mesmo assim
Proíbe – meu bandolim –
Toca dentro, de mim –

Me mata – e a Alma flutua
Cantando ao Paraíso –
Sou Tua –

[1865]

§

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Manuscrito de “Time’s wily Chargers will not wait”

Time’s wily Chargers will not wait
[F1498A; J1458]

Time’s wily

Chargers will

not wait

At any Gate

but Woe’s –

But there – so

gloat to hesitate

They will not

stir for blows –

[1879]

Astutos Corcéis do Tempo
Param – e não vão embora –
Na Porta do Tormento –
Nem que lhes metam espora –

[1879]

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4 comentários sobre “Três poemas de Emily Dickinson, por Adalberto Müller

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