crítica, poesia, tradução

Archibald MacLeish por Levi Freitas

 

archibald-macleish

Archibald MacLeish (1892 – 1982) foi poeta, dramaturgo, ensaísta e membro da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, que, infelizmente, não tem sido muito traduzido para o português. Temos um livro inteiro só – uma peça de teatro em verso chamada J. B., que reconta a narrativa bíblica de Jó e que foi traduzida para o português por Lélia Coelho Frota para a Agir Editora (1971) – e alguns poemas esparsos, como o seu famoso “Ars Poetica”, traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos, presente no volume Rosa do Mundo, da ed. Assírio & Alvim, com seus 2000 poemas de 2000 poetas.

José Olivir Freitas (1987, Óliver, Levi ou Olivetta, para os íntimos) é bacharel em Estudos Literários pela UFPR e funcionário público e nos mandou essa bela contribuição, com traduções de 6 poemas de MacLeish e um breve ensaio introdutório (por isso que eu não vou dizer mais sobre o poeta aqui, sob o risco de soar redundante), que compartilho com vocês abaixo.

Adriano Scandolara

 

Archibald MacLeish – político, poeta e celebridade.

Archibald Macleish é um poeta americano bastante ovacionado pelos seus gentios. O cara foi premiado com o Pulitzer três vezes, duas pela obra poética e uma por uma peça de teatro, intitulada J. B.. Mas fique calmo, a fama é ainda maior que isso. MacLeish foi nomeado bibliotecário da Biblioteca do Congresso por Theodore Roosevelt, um cargo importante nos cenários da política e da literatura dos Estados Unidos, geralmente ocupado por um bibliotecário. Não bastasse ter despertado a ira dos bibliotecários da nação, o escritor recebeu também um Oscar por um documentário de longa metragem chamado A história de Eleanor Roosevelt. Nascido em Ilinois, em 1892, MacLeish viveu a maior parte de sua vida nos Estados Unidos, tendo passado uma temporada “exilado” em Paris. MacLeish esteve em contato com gente como Gertrude Stein, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald. Aparentemente, ele era fã de T. S. Eliot e Ezra Pound.

MacLeish curtia um tinteiro. Publicou vinte e dois livros de poesia e antologias, quinze peças de teatro e vários trabalhos em biblioteconomia, literatura e política. Recebeu vários prêmios, até aquele Oscar, minha gente. De seu trabalho poético, o mais famoso é “Ars poetica” (1926), no qual a persona exprime, em doze dísticos, algumas ideias caras ao modernismo americano:

 

Ars Poetica

Um poema deve ser palpável e mudo
Como redondo fruto,

Quieto
Como velhos vinténs no dedo,

Silencioso como a pedra desgastada
Do batente das janelas onde o musgo faz morada –

Um poema deve ser sem palavras
Como o voo da passarada.

Um poema deve ser imóvel no tempo
Como a lua ascende,

Deixando, conforme a lua liberta
Galho a galho árvores pela noite encobertas,

Deixando, como a lua as folhas de inverno ausenta,
Memória por memória a mente –

Um poema deve ser imóvel no tempo
Como a lua ascende.

Um poema deve ser igual a:
Não há.

Por toda a história da dor
Uma soleira vazia e uma folha de bordo.

Por amor
A relva leniente e duas luzes sobre o mar –

Um poema não deve significar
Mas ser.

 

Ars Poetica

A poem should be palpable and mute
As a globed fruit,

Dumb
As old medallions to the thumb,

Silent as the sleeve-worn stone
Of casement ledges where the moss has grown –

A poem should be wordless
As the flight of birds.

A poem should be motionless in time
As the moon climbs,

Leaving, as the moon releases
Twig by twig the night-entangled trees,

Leaving, as the moon behind the winter leaves,   
Memory by memory the mind –

A poem should be motionless in time   
As the moon climbs.

A poem should be equal to:
Not true.

For all the history of grief
An empty doorway and a maple leaf.

For love
The leaning grasses and two lights above the sea –

A poem should not mean   
But be.

 

"Me and the Moon" (1937), de Arthur Dove (1880 - 1946)

“Me and the Moon” (1937), de Arthur Dove (1880 – 1946)

MacLeish e sua esposa passaram um tempo na França. A temporada do casal no estrangeiro começou em 1923, tão logo MacLeish abandonou o exercício da advocacia. Retornaram aos Estados Unidos em 1928. O fato de MacLeish ter morado por um tempo na França pode invocar a ideia de que ele seria um “poeta do exílio”. Essa é uma maneira interessante de classificar poetas e ligar a vida do poeta-autor com a ação do poeta-personagem. Quando há sincronia entre o tempo da escrita do texto pelo autor fora de casa e as argumentações e filosofias do eu-lírico, é comum que espelhemos o texto poético na biografia do escritor. Quando um autor é apontado como poeta ou ficcionista expatriado, sua reputação entre compatriotas permanece intocada, haja vista que não mancha o sentimento de pertença à nacionalidade e mantém, para todos os efeitos de uma leitura sociológica, a escrita ligada ao país de onde veio quem produziu o texto. Expatriate pode tanto ser o estrangeiro residente em relação ao país onde vive como o exilado, isto é, aquele que foi banido de seu país fisicamente, mas não ideologicamente. Elizabeth Bishop é considerada baluarte da poesia estadunidense, mesmo tendo escrito boa parte de sua obra no Brasil. Ela foi uma expatriate. Para nós, brasileiros, isso pode significar tanto que a poeta escreveu à moda de Gonçalves Dias, cantando das aves que gorjeiam melhor nas terras ianques, como também que Bishop arquitetou uma construção sensorial da vivência no estrangeiro, passando a declarar sua ligação com o Outro geograficamente, como o faz em “One Art” (1979):

Uma Arte

[…]
Perdi duas cidades, adoráveis. E, pior,
uns reinos que tive, dois rios, um continente
Saudades, mas não fora um dissabor
[…]

[…]
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent
I miss them, but it wasn’t a disaster
[…]

Assim como Bishop, MacLeish não pode ser lido como apenas um poeta do exílio. Além de ambos terem mesclado o eu-lírico exilado, o estrangeiro residente e o poeta na sua terra ao longo de toda sua produção, a comparação da trajetória pessoal com o desenvolvimento das personas na obra do autor não pode ser a única fonte de interpretação de um poema ou, melhor, de uma obra poética. A discussão sobre a confusão entre pessoa e persona é importante porque os poemas de MacLeish traduzidos aqui podem ser lidos, em alguma medida, como exemplares do cadafalso que encontramos quando lemos determinada obra poética considerando a biografia do poeta. Por mais hipócrita que pareça, faremos uma breve descrição histórica do autor, de modo que possamos evidenciar, considerando elementos textuais e paratextuais dos poemas escolhidos, que é possível, ainda que precariamente, demonstrar uma virtual unificação que resulta no poeta-persona, isto é, na inserção de elementos biográficos do autor na ação do eu-lírico.

MacLeish escreveu por bastante tempo. Seu primeiro livro saiu em 1915, tinha 23 anos. Com poucos intervalos mais longos, escreveu até 1980. Em 1983, foi publicada uma coletânea com suas cartas de 1907 a 1982, ano em que morreu. Em novembro de 1980, Macleish e outros coetâneos saíram em uma antologia na revista Poetry. Uma breve antologia reuniu poemas inéditos de MacLeish e de outros autores. MacLeish figurou ao lado de vários nomes, entre iniciantes e veteranos, como John Ciardi, Andrew Weiman, May Swenson, Leslie Fiedler e David Wagoner. A capa da edição ainda apresentava, em fonte menor, os nomes de Amy Clampitt, Tony Connor, Robert Dorsett, Josephine Jacobsen, Jack Matthews e Linda Pastan, além de resenhas feitas por Robert Pinsky e Ben Howard.

A Poetry é uma bem conceituada revista sediada em Chicago, Illinois. A revista publicou, desde 1912, inúmeros poetas, como os nomes acima bem exemplificam. Vários desses nomes, como Jacobsen, Connor, Howard, Pinsky e Swenson, eram ou passaram a ser badalados escritores nacionais. Outros, nem tanto. No trecho da edição de 1980 da Poetry disponível para visualização na internet, a microantologia de MacLeish recebeu duplo título. Da capa da edição consta o título “Cinco Poemas Perdidos (Five Lost Poems). Já na seção onde estão os poemas o título é “Cinco poemas dos anos 1920” (Five poems from the 1920s). Os dois títulos reafirmam o caráter de novidade dos trabalhos que ali figuram. São novidade porque ganharam público mais de cinquenta anos depois de ter sido escritos. Ao mesmo tempo, ambos os títulos da seleção se apresentam como marcas da reinvenção do poeta. Se ele de fato escreveu tais poemas nos anos 1920 e se eles realmente estavam perdidos, não faz diferença saber. A memória invocada pelos títulos é eficaz. Podemos conectar os cinco poemas perdidos à produção do poeta no mesmo período citado no outro título. Podemos, ainda, extrair dos poemas os estertores de memória do poeta no fim da vida. Os perdidos tanto podem ser fantasmas daquele passado, Paris inclusa, como podem ser de fato produtos do mesmo passado, recuperados pelo autor num ataque de autocomiseração pela própria escrita poética.

Os livros de MacLeish andam, ainda que na língua original, longe das estantes brasileiras não virtuais. A microantologia da Poetry serve como pretexto e vitrine para o autor. Este texto aqui também. Vamos a ela.

Vernissage

No dia da abertura do show de automóveis o bem-
Conhecido Presidente da República Francesa com seu
Alto escalão (com senadores) levantou do real trono
Na Grande Escadaria e se moveu sobre pés invibrantes
Desceu o Corredor Triunfal para a gradual aglomeração
Da fanfarra enquanto a quase inaudível batida
De suas válvulas de assento subia o ar e caía.

Os automóveis foram, contudo, indiferentes. Os mais
Caros modelos preservaram seu decoro, mas quatro
Citroens tossiram. Houve risos, assobios, gargalhadas
Mesmo a alta cilíndrica preta brilhante
Cartola do chefe de Estado dos Gaul-
eses não conseguiu impressionar. Não houve aplauso.

 

Vernissage

On the opening day of the automobile show the well-
Known President of the French Republic complete
In high body (with senators) rose from the royal seat
In the Grand Stair and moved on vibrationless feet
Down the Triumphal Aisle to the gradual swell
Of the brass band while the all but inaudible beat
Of his sleeveless valves rose in the air and fell.

The automobiles were however indifferent. The more
Expensive models preserved their decorum but four
Citroens coughed. There were giggles, cat-calls, guffaws
Even the shiny black cylindrical tall
Top hat of the chief of state of the Gall-
ic People failed to impress. There was no applause.

 

Nascimento eventual de Vênus

Levantada pelo mar
Pela sétima onda
Além do alcance do mar
Nos escombros de erva e de
Galho úmido
A ainda não anfíbia
Animalcula
Suspira e serpeia na praia
Reúne seus longos cabelos d’ouro sobre ela
E contempla com puros olhos
O mundo desconhecido

 

Birth of eventually Venus

Cast up by the sea
By the seventh wave
Beyond the sea reach
In the rubble of weed and
Wet twig
The not yet amphibious
Animalcula
Gasps and wiggles on the beach
Gathering her long gold hair about her
And gazing with pure eyes
Upon the unknown world

 

Poema

                   Quem de todos nós terá visto a
Nudeza?
Inclinando-se sobre as pedras lavadas do rio
A saia se enrola perto do joelho, os seios mostram

Aquilo, ou um braço arredado enquanto a porta fecha

Mas os colãs são animais deitados em folhas,
A barriga é secreta como tigres correndo sob raios do sol
Quem entre nós já viu essas meninas nuas mais do que vimos
A forma do vento sob a seda da soleira?

 

Poem

                   Who of us all have seen
Nakedness?
Leaning above the wash stones by the river
The skirt pulls close at the knee, the breasts show

That, or an arm withdrawn as the door closes

But the bare tights are animals lying in leaves,
The belly is secret as tigers running in sun ripple

Who among us have seen these nude girls more than we’ve seen
The wind’s shape under the silk in the doorway?

 

Projeto para uma estética
Subtítulo: Luar de um Homem

Sr. e Sra. Longfellow Little que
Desaprovavam o Picasso (tendo – o catálogo errou –
Permitido a si mesmos as emoções apropriadas a
O Guache de um Nu enquanto contemplavam O Esboço da Palavra
Inclinado Com Bananas) que desaprovavam
O Picasso (e não que Picasso fosse Moderno e não
Que Sr. e Sra. Little demorassem a se comover
Com Belas Artes – considerando que reconheceram o que

Era que os tinha comovido – mas como dizer que alguém deve
Admirar uma coisa senão quando puder dizer dela Isso é
Uma taça, Isso é uma moça? Como alguém poderia amar
O que pode ou não ser Importante?) Sr. e Sra.
Little que desaprovavam o Picasso compraram
Uma Natureza Morta. Dava para dizer o que é que estava Morta.

 

Project for an aesthetic
Sub-title: Moonlight of a Man

Mr. and Mrs. Longfellow Little who
Disapproved of Picasso (having – the catalogue erred –
Permitted themselves the emotions appropriate to
The Gouache of a Nude while beholding the Sketch of The Word
Prone With Bananas) who disapproved
Of Picasso (and not that Picasso was Modern and not
That Mr. and Mrs. Little were slow to be moved
By Good Work – provided they recognized what
 
It was they were moved by – but how could one tell if one ought
To admire a thing unless one could say of it This is
A glass, This is a girl? How could one love
What might or might not be Important?) Mr. and Mrs.
Little who disapproved of Picasso bought
A Still Life. One knew what a Life was of.

 

Poema dedicado ao avanço da aviação

Mas está tudo diferente agora. Eles já ajeitaram.
Eles dão prêmios a Artistas Autênticos.
Eles não põem Colley Cibbers{1} em seus compêndios.
Eles botam Homeros e Hacks{2} nos seus lugares.
(Dá para dizer quais as obras de Homero pela orelha)
Eles sabem os ordinários do que não é dela.
Eles nunca o sal e o açúcar misturaram –

Eles sabem demais. E quando tudo estiver pronto e dito,
Quando todas as romancistas mulheres e puras
Poetisas forem (se ainda há) carnes de verme cruas
E nomes em revistas, i.e., falecidos.
Nenhuma cria desconhecida terá coroa triunfal.
Mas hein! Não haverá Keatses que lhes faça mal!

(Notas:
1. Colley Cibber (1671-1757) foi um ator e diretor de teatro. Recebeu críticas por fazer adaptações ruins de peças de Molière e Shakespeare.
2. Hack pode ser referência a hack writer, isto é, um escritor que faz maus trabalhos ou escreve por encomenda. Seria uma anáfora ao nome citado anteriormente no poema. Entretanto, também pode se referir à escritora inglesa de livros infantis Maria Hack (1777-1844).)

Poem dedicated to the advancement of aviation

But that’s all different now. They’ve got it fixed.
They give the prizes to Authentic Artists.
They put no Colley Cibbers in their lists.
They know the Homers and the Hacks apart.
(You tell the works of Homer by the blurbs)
They know the bum ones from what’s not hers.
They never get the salt and sugar mixed –

They know too much. And when all’s done and said,
When all the lady novelists and neat
She-poets are (if worms still be) worm’s meat
And names in magazines, i.e., are dead.
No unknown kid will get laurel stem.
By Yee! They’ll have no Keatses crowding them!

(texto e traduções de Levi Freitas, poemas de Archibald MacLeish)

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2 comentários sobre “Archibald MacLeish por Levi Freitas

  1. Isaias de Faria disse:

    Senhores senhoras e senhoritas, belas traduções por aqui. Por que não lançar um livro? Sei que muito sujeito por aí compraria. Eu por exemplo, rsrs…

    Abraço grande,

    Isaias

    • Olá, Isaías!

      Obrigado pela visita e pelo comentário! Você diz, lançar um livro com as traduções do MacLeish, em específico, ou sobre as traduções no blog em geral? No segundo caso, não sei se deu p/ ver, mas já publicamos uma revista-livro do escamandro, que conta com traduções de alguns autores e pode ser adquirida pelo site da Patuá: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=215

      Já no caso de publicar um livro de traduções do MacLeish mesmo, é complicado porque precisaria de uma editora disposta a bancar o risco de publicar poesia mais o problema que é pagar os direitos de um autor que está morto e ainda não entrou em domínio público, o que significa ter que negociar com a família, o que é sempre problemático!

      Grande abraço!
      A.

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