poesia, tradução

Robert Walser (1878-1956)

SCHWEIZ LITERATUR ROBERT WALSER 1939

— O senhor está sendo irônico?
— É, um pouco.
(Walser, “Batidas”).

escamandro pode gerar uma dúvida, pelo seu subtítulo — poesia, tradução, crítica — quanto à divisão entre poesia & prosa. fico me perguntando se essa ingenuidade nos moveu de início. talvez tenhamos de assumir que sim. porém, de algum modo, sempre esteve muitíssimo claro que a divisão prosa-poesia não operava de fato, & que essas questões já estvam formalmente explícitas na escrita moderna pelo menos desde os poemas em prosa de baudelaire & bertrand,  desde a prosa poética de rimbaud & lautréamont, desde o verso versicular de whitman, desde a quase arte de mallarmé, &c. cientes disso, nós até fizemos, aqui & ali, alguns posts que extrapolavam a poesia tout court: tivemos um conto de pavese, o wake de james joyce, ou mesmo trechos da bíblia (que estruturalmente já extrapola nossa polarização tradicional). a partir de agora, espero, essa continuidade entre prosa & poesia ficará mais clara, com uma série de postagens sobre prosadores — claro, agora não pensamos propriamente na prosa, e sim numa poética da prosa, como bem nomeia o famoso livro de tzvetan todorov.

comecemos portanto com robert walser, esse suíço impressionante de língua alemã. nascido em biel, no ano de 1878, walser tem uma produção imensa que consta de vários volumes de textos breves, textos de jornal & 3 romances: os irmãos tanner  (1907, sua estreia), o ajudante (1908, com trad. de josé pedro antunes, pela arx) & jakob von gunnen (1908, com trad. de sergio tellaroli, pela cia. das letras). sua produção será intensa até 1925, quando sai seu último livro publicado em vida, a rosa. a partir de 1929, walser se interna na clínica psiquiátrica waldau, próximo a berna; depois, em 1933, muda-se para outra insituição em appenzell, onde ficará até sua morte, em 1956.

se já estávamos razoavelmente bem servidos dos romances, foi ano passado que saiu a primeira antologia de textos breves, absolutamente nada e outras histórias, com tradução de sergio tellaroli, pela editora 34. nesse volume, podemos ver a capacidade poética de sua escrita: são contos, ensaios, cartas, ou contos-ensaios, cartas-ensaios, contos-cartas, ensaios-cartas, &c. cada gênero se desdobra em outros, os personagens de fato ganham vozes peculiares, mesmo aqueles que não são nomeados, mesmo quando o personagem parece ser o próprio walser. em cada ponto, há um cuidado de minúcia com as ninharias do mundo, as figuras apagadas dos anônimos ou socialmente irrelevantes, que então ganham nova luz — algo que o aproxima da pintura de cézanne (tema do último livro texto da coletânea, “pensamentos sobre cézanne”). luz que é sempre cruzada pelo jogo da ironia constante, uma ambiguidade que certamente desconcerta o leitor que espera sentidos diretos, unívocos para cada texto, quando a poética dessa prosa parece julgar ser “refinado ter opinião a mais ambígua possível sobre obras de arte” (de “escravas branca”). mas, ao mesmo tempo, não se trata do vazio – sempre arriscado, sempre tão possível & iminente – ao uso da ironia. no fundo, o que parece se desvelar na escrita de walser, na sua variedade escorregadia, é a força de quem “aprecia toda a carência de liberdade existente no interior da liberdade” (de “ensaio sobre a liberdade”).

seguem abaixo duas traduções tiradas de absolutamente nada e outras histórias, com tradução de sergio tellaroli, que já verteu ao português também obras de canetti, burckhardt, bernhard, goethe, freud &c.

guilherme gontijo flores

* * *

Resposta a uma pergunta [Beantwortung einer Anfrage]

O senhor me pergunta se eu teria alguma ideia a partir da qual esboçar-lhe uma espécie de esquete, uma peça de teatro, uma dança, pantomima ou outra coisa do gênero que pudesse utilizar, na qual pudesse se apoiar. Minha ideia mais é ou menos a seguinte: providencie máscaras, meia dúzia de narizes, testas, tufos de cabelo, sobrancelhas e vinte vozes. Se possível, vá a um pintor que seja também alfaiate, mande confeccionar uma série de fantasias e trate de adquirir algumas boas e sólidas peças de cenário, a fim de que, envolto em um casaco negro, o senhor possa descer uma escada ou olhar para fora por uma janela e soltar um urro, um urro breve, leonino, denso, pesado, de modo a fazer com que de fato acreditem que uma alma que urra, um peito humano.

Peço-lhe que dedique muita atenção a esse grito, que lhe confira elegância, que o emita com pureza e correção; depois, então, no que me concerne, o senhor pode apanhar um tufo de cabelo e deitá-lo por terra doucement. Quando realizado de maneira graciosa, isso produz um efeito horripilante. Vão pensar que o senhor embruteceu de dor. Para obter um efeito trágico, necessário recorrer tanto aos recursos mais à mão quanto aos meios mais remotos, o que lhe digo para que o senhor compreenda que será bom, agora, enfiar o dedo no nariz e cutucar a valer. Muitos espectadores cairão no choro ao ver uma figura nobre e sombria comportando-se de modo tão grosseiro e lastimável. Tudo dependerá apenas da cara que o senhor fizer e de que lado o iluminarão. Dê uma bela estocada nas costelas de seu iluminador, para que ele se empenhe como deve e, acima de tudo, reúna expressão facial, movimentos das mãos, braços e pernas e boca.

Lembre-se do que eu lhe disse uma vez — e o senhor ainda há de se lembrar, espero —, ou seja, que, com um único olho, aberto ou fechado dessa ou daquela maneira, já é possível transmitir o efeito do temor, da beleza, do pesar, do amor ou do que seja que o senhor queira transmitir. Representar o amor demanda pouca coisa, mas, alguma vez nessa sua vida — Deus do céu! — absolutamente dilacerada, é necessário que o senhor tenha sentido pura e sinceramente o que é o amor e como ele aprecia se comportar. Assim também, claro, com a ira, com o sentimento de inominável pesar, em suma, com cada sentimento humano. De passagem, aliás, aconselho o senhor a fazer frequentes exercícios de ginástica em seu quarto, a caminhar até a floresta, a fortalecer os pulmões, a praticar esportes, mas esportes seletos e comedidos, a ir ao circo e observar os modos do palhaço e, então, a refletir seriamente sobre com que movimento rápido do corpo o senhor poderá simbolizar melhor um espasmo da alma. O palco é a goela aberta e sensual da poesia; com suas pernas, meu caro senhor, estados de alma muito particulares podem ganhar expressão comovente, isso para nem falar no rosto e nas milhares de funções sugestivas que ele desempenha. Seus cabelos precisam prestar-lhe obediência, se, para simbolizar o pavor, eles hão de se levantar e horrorizar os espectadores, banqueiros e mercadores de especiarias.

O senhor, pois, nada terá dito até o momento; absorto em pensamentos, cutucou o nariz como uma criança mal-educada e sem consideração e agora vai começar a falar. Quando, porém, está prestes a fazê-lo, uma fogosa serpente esverdeada se arrasta sibilante para fora de sua boca retorcida de dor, ao que até o senhor parece tremer de pavor por todos os membros. A serpente cai no chão e se enrola no pacífico tufo de cabelos, um grito de medo ecoa por toda a sala, como se saído de uma única boca; o senhor, porém, já oferece algo de novo, enfia uma faca comprida e curva no olho, de tal forma que, jorrando sangue, a ponta da faca reapareça mais abaixo, no pescoço, próxima da garganta; em seguida, acende um cigarro e se mostra tão singularmente à vontade como se, em segredo, algo o divertisse. O sangue que lhe ensopa o corpo transforma-se em estrelas, e as estrelas dançam sedutoras por todo o palco, ardentes e enlouquecidas; o senhor, por sua vez, as apanha todas com a boca aberta, a fim de, uma a uma, fazê-las desaparecer. Com isso, sua arte teatral terá atingido grau considerável de perfeição. Aí, as casas pintadas do cenário começam a ruir qual bêbados medonhos e o sepultam. Vê-se apenas uma das suas mãos erguer-se de debaixo dos escombros fumegantes. A mão ainda se mexe um pouco, e, então, o pano cai.

1907

§

Carta a Therese Breitbach [Brief an Therese Breitbach]

Berna, Thunstrasse, 20/III

Rösi Breitbach!

Minha muito estimada senhorita!

Desejando que a senhorita, sendo-lhe isso possível, pura, simples e amavelmente repasse minhas cartas a seus pais, para que também eles as leiam, eu gostaria de lhe contar que, por aqui,  passei algum tempo sem dispor de mais nenhum material literário, uma vez que já escrevi tanto — a senhorita me compreenderá. Li, então, ao acaso, um livrinho pequeno e bobo, desses que a gente compra na banca por 30 centavos, e essa leitura proporcionou-me divertimento muito agradável. Já estava um tanto farto de ler bons livros. Posso supor que a senhorita entende o que quero dizer com isso? Sendo esse o caso, seria muita gentileza de sua parte.  Todas as moças daqui me acham muitíssimo aborrecido, porque são, todas elas, enormemente animalhadas por rapazes impetuosos e geniais.  Nosso mundo masculino dispõe de ampla segurança no modo de se portar. Certa feita, permiti[-me], por exemplo, em sinal de admiração, enviar a uma cantora de nosso louvável teatro municipal um exemplar do meu Aufsätze publicado pela editora Kurt Wolff.  O livro me foi devolvido com a observação  de que eu ainda não era capaz nem mesmo de escrever em alemão. De modo geral, tomam-me aqui por imaturo, em todos os aspectos. O próprio Thomas Mann — a senhorita sabe, aquele gigante do romance — julga-me uma criança, ainda que muito inteligente. Certa vez, ia ler trechos de minhas obras em Zurique, mas o presidente do círculo literário afirmou que nem falar alemão eu sabia. Por um tempo, consideraram-me louco e, ao passar por mim em nossas arcadas, as pessoas diziam em voz alta: “O lugar dele é no hospício”. Nosso grande literato suíço Conrad Ferdinand Meyer, que a senhorita com certeza conhece, passou também um tempo em uma instituição para aqueles que já não se encontram propriamente no ápice de suas faculdades mentais. Agora, comemoram o centésimo aniversário de nascimento do pobre homem com discursos e declamações. Outrora, ele mal ousava tomar da pena, com receio de que pudesse ser uma nulidade miserável. Um dia, fui ao um café e me apaixonei por uma mocinha de aparência muito romanesca, o que foi uma grande tolice de minha parte. Todas as naturezas pragmáticas precipitaram-se sobre mim para me lembrar dos deveres amargos de meu ofício tão belo e precioso, que possui a peculiaridade de não render um tostão. Eu amava aquela bela e jovem mocinha, que já parecia tender à corpulência, e a amava por causa da música que ouvia diariamente no café. O poder da música, afinal, é muito grande, avassalador mesmo. De repente, tudo mudou; conheci uma mocinha atendente, isto é, uma garçonete, e, daí em diante, a primeira passou a só existir em parte, ou mesmo a nem mais existir para mim. Amor e o que chamam de paixão são estados muito, muito diferentes, são mundos diferentes. Passei a visitar com frequência a natureza, ou seja, a paisagem do campo, e muita coisa me veio à cabeça, muitas ideias, nas quais trabalhei. Enquanto fazia isso, a mocinha deixou o salão no qual servia, e desde então nunca mais a vi. Depois disso, cantei-a em versos, e agora há muita gente aqui, e decerto aí também, que é da opinião de que escrever poemas não é trabalho, e sim uma atividade cômica, por assim dizer, digna de desprezo. Sempre foi assim na terra dos poetas e pensadores, e vai continuar sendo. Nossa cidade é muito bonita. Hoje, tomando um solzinho fraco e delicado, banhei-me na água encantadoramente gelada do rio cintilante que contorna a cidade feito serpente. Por certo, ninguém sabe da moça de que, em parte, escarneci terrivelmente em prosa e que, em parte, idolatrei em versos. Já morei em quartos nos quais não conseguia pregar o olho a noite inteira, de medo. Agora, a situação é a seguinte: não sei mais dizer com muita exatidão se ainda a amo. Pode-se muito bem, minha cara senhorita, manter despertos os sentimentos ou deixá-los congelar, negligenciá-los. De resto, sempre há muitas outras coisas que despertam interesse. Na esperança de que a senhorita esteja alegre, de que seus dias transcorram prazerosos e de que esta carta lhe traga algum contentamento, mas também, se possível, algum descontentamento, eu me despeço cordialmente e, claro, por assim dizer, com o mais elevado respeito.

Robert Walser

1925 

(trad. de Sergio Tellaroli)

 

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