crítica, xanto

XANTO|”Não saber cantar é não ser canto?”, por José Pinto

Casem-se os poetas com a respiração do mundo
Baltasar Lopes (Osvaldo Alcântara), poeta cabo-verdiano

Escrito em 1942, o poema de Paul Éluard hoje conhecido pelo título ‘Liberté’ foi transportado clandestinamente de França, ocupada pelos nazis, para Inglaterra. Em 1943, o poema foi lançado por aviões aliados nos céus da Europa em guerra e refaço o exercício de imaginar o que poderia ter sentido um judeu num dos campos de concentração ao ler este texto, que habita entre os textos de elevada qualidade literária que vivem no álbum ‘I Who Cannot Sing’ da Patrícia Lino, editado em junho passado no Brasil pela Gralha Edições. Ouço-o neste instante. Enquanto nos fazem crer que vivemos agora uma guerra contra o invisível lá fora. Enquanto continuamos a assistir do lado de cá, confinados ao ecrã. A guerra contra o invisível é outra e existe antes do surto: a guerra dentro, a guerra que olha de frente o espelho. E este som dos passarinhos cá mais para os últimos mixes lembra-me que, contra a guerra que olha de frente o espelho, há a festa.

Onde tem lugar o convívio, chamamos de festa, pegando em palavras do surrealista brasileiro Sergio Lima. Imagino a poeta-performer a receber xs convidadxs, a preparar o corpo para a ação performativa de uma dj e diria Vratislav Effenberger que ‘toda experimentação nas propriedades do imaginário é colocação em jogo, sobre o tabuleiro de xadrez da existência, dos poderes profundos que tendem à exaltação da vida’. A performer dá início a um ensaio pós-drama, no qual as linguagens se encontram equitativamente e dialogam na construção de paisagens, neste caso sonoras, e ‘o segredo da beleza da flor é seu jogo de balanceios’, como escreveu Malcolm de Chazal. Os passarinhos que escuto em ‘KKA . RAQUEL NOBRE GUERRA’ lembram-me que, contra a guerra, há a experiência do amor, da poesia e da rebelião: o triângulo sagrado extra-religioso de que Breton haverá falado certa vez, como vivência possível numa coletividade.

Se, por um lado, há festa num sentido de colaboração poética, por outro lado há festa além dos poemas, que podem ser não apenas ouvidos, mas lidos também. Esse outro sentido para a festa é o canto quase coral, em que os poemas são lidos pelos respetivos autores e autoras, antes do processo de construção musical. A poeta-dj prepara-nos com um warm-up intitulado ‘INTRODUÇÃO PARA VÁRIAS VOZES’. O álbum conta com a participação, além da própria Patrícia Lino, de Angélica Freitas, Camila Assad, Cláudia R. Sampaio, Colleen Conroy, Daniel Arelli, Fernanda Magalhães Ferrari, Gregório Camilo, Guilherme Gontijo Flores, Júlia de Carvalho Hansen, Letícia Féres, Luca Argel, Marta Chaves, Miguel Cardoso, Pedro Eiras, Raquel Nobre Guerra, Ricardo Domeneck, Vasco Gato e das vozes vivas dos poetas mortos Frank O’Hara, Paul Éluard e Sylvia Plath.

Diz a poeta que não há nada que possamos inventar hoje que já não tenha sido criado. Há na poética de ‘I Who Cannot Sing’ um revivalismo da tradição de cantar o poema, afinal secular, dado que a poesia e o impulso do canto atravessam a cultura grega, por exemplo, na qual a escrita do poema sofria inclusive alterações quando era cantado em apresentações ao vivo, inscrevendo-se de forma similar na poética de performances, leituras e espetáculos de teatro contemporâneos. Enquanto a proposta para x poeta cantar o seu poema está de pé, há uma outra leitura que a acompanha, que é a leitura e a escuta que a Patrícia faz dos poemas dos autores e das autoras, entrando em diálogo ou relação dialógica com as outras vozes, antecipando a tradução intersemiótica ou adaptação da matéria textual para canção.

Nesse diálogo com os poemas e as leituras, a poeta-tradutora parece repartir a sua atenção sobretudo entre a escuta e a construção dos novos objetos, onde o tom de voz, a projeção vocal e a interpretação dxs poetas influem nas composições musicais. Os arranjos, por sua vez, resultam de colagens de sons retirados de websites de domínio público, programas profissionais de música e mixagem. Editados mais tarde ou não, a Patrícia vai articulando estes sons, beats e acordes com sons corporais ou gravados na rua e outros dos seus instrumentos, como o MIDI, o xilofone, as maracas ou o baixo. Entre ambientes sonoros e paisagens ritmadas, não me arriscarei a escrever a que género pertencem as canções, até porque o exercício de experimentação vai excedendo os seus limites, a partir da confiança da poeta de que falhará e falhará sempre melhor, acabando por criar um objeto interartístico que parece sedimentar-se a partir de um pensamento e defesa da diversidade em múltiplos sentidos.

Ora, essa defesa da diversidade, espelhada no processo de criação do álbum, marca uma voz própria, que não a das leituras e dos poemas individualmente, mas que rumoreja ao longo de todo este trabalho, como um coro a ressoar. Uma voz comprometida com a obra passível de ser construída para espelhar, uma vez mais até ao limite, o que não é dito nos interstícios do quotidiano, já que capitalistas, unha e carne com as reminiscências e práticas colonialistas de hoje, saíram da quarentena mais arrogantes e desumanos. Enquanto resplandecem à luz do dia com a máscara em pedaços, poderão ter entrado em desespero, ao ver que as minorias juntas têm uma ação muito mais transformadora no mundo? O tempo em que vivemos parece ser a metáfora e ‘I Who Cannot Sing’ releva-se da indiferença para se tornar uma possibilidade de nos reposicionarmos de encontro aos novos mecanismos de controlo que estão de facto à nossa frente.

Num outro sentido da diversidade, entre os sons e tons delicados, de suspense, da natureza, da rua, humorísticos, hostis, mais interventivos e mais intimistas, a poeta abre-nos a viagens em loops que transmitem a sensação de transes dentro de transes dentro de transes, num ciclo não circular mas em espiral, com frestas por onde caberá ao ouvinte e à ouvinte decidir perder-se. O que poderá encontrar? Em ‘MANHÃ SEGUINTE . MIGUEL CARDOSO’, a Patrícia pinta um amanhecer de notas musicais para que Miguel Cardoso comece a ler ‘As manhãs seguintes / vêem-se de cima’. Em ‘JÁ NADA É COMO SOÍA . PEDRO EIRAS’, a batida tensa adverte que ‘Já nada é como soía / ainda nem há cinco minutos, / antes de todas as coisas desvalorizarem / subitamente’. A tonalidade grave e entrópica com que começa ‘TO DIE IS AN ART . SYLVIA PLATH’ ganha em certo momento a força que respira do vitalismo do texto, lido na própria e hipnótica voz da poeta.

J’ÉCRIS TON NOM . PAUL ÉLUARD’ imersa numa batida assertiva e anunciadora que vai crescendo ao longo da canção até culminar nos versos finais ‘Et par le pouvoir d’un mot / Je recommence ma vie / Je suis né pour te connaître / Pour te nommer // Liberté’. Em tradução livre: ‘E pelo poder de uma palavra / Recomeço a minha vida / Nasci para conhecer-te / Para nomear-te // Liberdade’. Porventura a Patrícia poderá querer anunciar ao que veio e porque está aqui? E pelo que estaríamos nós aqui? Que seria do canto – entenda-se agora canto poético – sem o ser, como tanto procura Rilke na sua obra literária, enlaçada à vida quanto o fruto à árvore e a criatura ao sopro criador? Não escreveu ele nas Elegias de Duíno que ‘Aqui é o tempo do dizível, aqui a sua pátria’ e ‘Depois da pátria / primeira, é-lhe a segunda híbrida e vento’? Possa Rilke ter encontrado uma resposta à sua inquietação no verso ‘Celebrar, isso mesmo! Ser destinado a celebrar’, d’Os Sonetos a Orfeu. Possa a Patrícia ter encontrado respostas nesta festa, em que é anfitriã, poeta, performer e tradutora.

Não haverá, suponho, em ‘I Who Cannot Sing’ um programa revolucionário em curso. Antes, uma interpretação de sentido livre e amplo do que poesia significa, no criar, fazendo, etimologicamente falando. Mesmo que a Patrícia não saiba cantar, é a falha que se entreabre ao longo do álbum e vai revelando neste novo objeto uma experiência de presença corporal e espiritual que Octavio Paz designa presença amada. Resultado de uma poética em que nenhuma linguagem artística procura impor-se a, mas jogar com outras linguagens, em pé de igualdade no que respeita à criação de sentidos, explorando também a poesia no território da web, no qual o álbum está acessível a toda a gente e inclui os materiais em separado. Isto é, inclui o álbum, os textos e os vídeo poemas, possibilitando que essas diferentes linguagens correspondam a diferentes sensibilidades recetivas do público. Em plena guerra que olha de frente o espelho, estes poemas lançados para dentro das redes do ciberespaço, olhos nos olhos.

José Pinto

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