crítica, poesia, tradução

Shelley – Hinos de Apolo & Pã

(Para mini-biografia e mais informações sobre Percy Bysshe Shelley, conferir meu post anterior no blogue, com o poema Ode ao Céu)

Os dois poemas que posto abaixo, em tradução minha, têm uma história interessante que eu gostaria de contar e fazer um pequeno comentário a respeito.

Mary Shelley, por volta de 1820, escrevia uma peça em versos intitulada Midas, que, como esperado, tinha a temática do rei mitológico. Que Midas era o rei a quem havia sido concedido o dom de transformar tudo que tocasse em ouro já é um lugar-comum, mas o episódio mitológico que Mary Shelley explorava era o relatado em Ovídio (Metamorfoses, livro XI) de que Pã havia desafiado Apolo para ver quem era o cantor mais talentoso. Tmolo, o espírito de uma montanha da antiga região da Lídia, serviu de juiz divino, e Midas, como juiz humano. Tmolo decide a favor de Apolo, mas Midas prefere a canção de Pã, e, por isso, é castigado por Apolo com orelhas de asno.

Dentro do drama de Mary Shelley, então, as canções dos dois deuses foram escritas por seu marido, Percy Shelley. Infelizmente Mary não conseguiu achar quem publicasse sua peça, por isso acabou publicando os dois hinos separadamente na edição de poemas póstumos de seu marido de 1824.

Cada um dos hinos é uma apresentação do próprio deus que o canta (o que faz com que eles sejam, algo bizarramente, hinos de e para si próprios): Apolo, como deus do sol, da razão, da poesia, da medicina e de tudo que o engenho humano possa produzir, e Pã, como deus da natureza, do universo, do todo (lembrando que “pan”, em grego, significa “tudo”). Há, assim, distinções muito bem marcadas no que eles cantam e no modo como cantam, que, no fundo, representam uma separação entre o humano e o divino.

A canção de Apolo é uma canção do eterno, do ideal e do imutável. De suas 6 estrofes, 5 tratam de descrever seu trajeto no céu, como o trajeto do sol, da alvorada ao crepúsculo, terminando com uma chave de ouro que resume sua função divina. Ela é também mais egocêntrica e nela predomina a primeira pessoa do singular, conforme ele descreve tudo que faz: ele se levanta, ele fulmina a maldade com sua luz, ele desce e ele conforta as nuvens, toda luz de tudo pertence a ele. E sua história também é eterna: ele, invariavelmente, se levanta e se deita todos os dias.

Pã, por outro lado, canta a partir de uma experiência muito mais próxima da humana. Primeiro, que sua história começa a partir de quando Apolo se retira, quando a cena é “pela tarde” a do “sol moribundo,”. Segundo, que ele canta não de uma terra afastada, mas de uma terra dedálea (remetendo ao personagem mitológico de Dédalo, pai de Ícaro), i.e., como um labirinto, no qual ele próprio se encontra, apesar de ser também um deus. Ao contrário de Apolo,  que interage com todas as coisas, mas se mantém isolado por conta de sua divindade que o separa do reino da mutabilidade a que todos os mortais estão sujeitos, Pã é inclusivo. Assim, o segundo verso diz “chegamos, chegamos” (“we come, we come”), e ele constantemente faz referência aos seus interlocutores: Tmolo, Apolo e até uma segunda pessoa do plural que engloba quem quer se seja o leitor/ouvinte.

Sua proximidade do mundo mortal também se reflete na história narrada, na terceira estrofe, que é a história de um amor frustrado, o episódio de Pã e a ninfa Siringe, que se torna um caniço para fugir dele (e é desse caniço que o deus faz a flauta com que toca suas canções). E, novamente, ao contrário da narrativa de Apolo, sua história é um acontecimento único, e que opõe desejo e realidade – daí, portanto, a dor de seu “doce flauteio”, que faz com que o poema seja de um tom mais irregular. Apolo é constante no tom celebratório que domina o poema inteiro, enquanto Pã, como ele mesmo diz, muda seu flauteio e fica mais melancólico na terceira estrofe, ao tratar dessa temática dolorosa.

Essa oposição entre regularidade e irregularidade também se traduz na forma: enquanto o hino de Apolo obedece um ideal mais abstrato de simetria, com seus 36 versos dispostos em 6 estrofes bastante convencionais de 6 versos cada uma, em pentâmetro jâmbico e esquema de rimas ababcc, Pã se permite uma liberdade maior. Com o mesmo número de versos totais, ele faz 3 estrofes de 12 versos em esquema ababxcdcdeex, onde x representa o verso que serve refrão, terminando sempre com a palavra “pipings” (“flauteio”). Sua métrica também é radicalmente distinta: em vez de versos fechados e bem definidos,  temos versos cuja medida depende do número de sílabas fortes por verso, e o poema começa com versos curtos, de poucas tônicas, que rapidamente se alongam, conforme o poema corre, criando um efeito visual fluido e bastante diferente da regularidade do hino apolíneo.

Sendo assim, não deve ser nenhuma surpresa que Midas, humano, tenha preferido a canção de Pã: ao cantar da experiência, da dor e da mutabilidade, Pã se faz muito mais facilmente comunicável aos mortais do que Apolo com sua perfeição divina. O modo como Shelley dá voz aos dois deuses, no entanto – que também remete ao trabalho dialógico de John Milton com os poemas “L’Allegro” e “Il Penseroso” – é magistral, e fiz meus melhores esforços para reproduzir, em tradução, seu trabalho que, nos mínimos detalhes, permitem diferenciar os dois deuses.

Para quem, por acaso, estiver interessado em se aprofundar um pouco mais no assunto, indico o artigo “Poetry of Skepticism” do crítico Earl Wasserman, presente na Norton Critical Edition da Poesia e Prosa de Shelley. Sem mais delongas, seguem-se os poemas.

Hino de Apolo

As vigilantes Horas que me assistem,
Na textura de estrelas cortinado
Dos raios do luar que inda persistem,
E abanam o meu sonho deslumbrado, —
Despertam-me se a Mãe, cinzenta aurora,
Diz que os sonhos e a lua vão-se embora.

Pois me alço e galgo a cúpula Celeste,
Caminhando nas ondas e montanhas,
Nas escumas meu manto deixo, ao leste;
Meus passos calçam nuvens com suas chamas;
Grutas acendem-se comigo, e o ar
Desnuda a terra para eu a abraçar.

A luz do sol, meus dardos, é letal
Ao logro, que ama a noite e teme o dia,
Todo homem que planeja ou faz o mal
Me evita e minha glória luzidia.
Boas mentes e ações se fortalecem,
E no reino da Noite então fenecem.

Nutro a nuvem, e o arco-íris e a flor
Com as cores etéreas que lhes tingem;
Astros e a lua, com seu esplendor,
Com meu poder, qual manto, pois se cingem;
Quaisquer lâmpadas sobre a Terra ou Céu
São porções de um poder somente, o meu.

No Céu, ao meio-dia, subo ao pico,
Contrafeito depois, faço a descida
Para as nuvens do entardecer atlântico,
A franzir e chorar minha partida:
Quem mais amável do que eu sorridente,
Ao confortá-las na ilha do poente?

Sou o olho com o qual todo o Universo
Se vê e conhece sua feição divina;
Toda harmonia de instrumento e verso
É minha, todo augúrio e medicina,
Luz da arte ou mundo; — tem nesta canção
Por si só glória e comemoração.

Hino de Pã

Das florestas e fragas,
     Chegamos, chegamos;
Das ilhas fluviais onde as vagas
     Vão se calando
               Por ouvirem meu doce flauteio.
O vento nas canas e juncos,
     Abelhas nas flores de timo,
As aves e os murtos juntos,
     Cigarras nas copas ao cimo,
          E os lagartos embaixo no solo,
          Emudecem igual ao vetusto Tmolo,
               Por ouvirem meu doce flauteio.

Fluido, o Peneu corria,
     E todo o Tempe fundo
À sombra do Pélion cobria,
     Pela tarde, o sol moribundo,
               Veloz com meu doce flauteio.
Os Faunos, Silvanos, Silenos,
     E as Ninfas do mar e silvados,
Às margens de aquosos terrenos,
     E o limiar de grotões orvalhados,
          E todos que, atentos, me favoreceram,
          Por amor, como vós, Apolo, emudeceram,
               A invejar meu doce flauteio.

Cantei da dedálea terra,
     Cantei dos astros em dança,
E o Céu — e a gigântea guerra
     E Amor e Morte e Esperança —
          E então mudei meu flauteio,—
Cantando como encalcei a donzela
     No menáleo vale e agarrei um caniço.
Deuses e homens, eis nossa mazela!
     O logro que o cor faz sangrar, quebradiço:
          Fora vós, o olhar de todos mareja,
          Não tivésseis frio o sangue por anos e inveja,
               Pela dor do meu doce flauteio.

(texto e traduções de Adriano Scandolara)

Hymn of Apollo

The sleepless Hours who watch me as I lie,
Curtained with star-inwoven tapestries
From the broad moonlight of the sky,
Fanning the busy dreams from my dim eyes,—
Waken me when their Mother, the gray Dawn,
Tells them that dreams and that the moon is gone.

Then I arise, and climbing Heaven’s blue dome,
I walk over the mountains and the waves,
Leaving my robe upon the ocean foam;
My footsteps pave the clouds with fire; the caves
Are filled with my bright presence, and the air
Leaves the green Earth to my embraces bare.

The sunbeams are my shafts, with which I kill
Deceit, that loves the night and fears the day;
All men who do or even imagine ill
Fly me, and from the glory of my ray
Good minds and open actions take new might,
Until diminished by the reign of Night.

I feed the clouds, the rainbows and the flowers
With their aethereal colours; the moon’s globe
And the pure stars in their eternal bowers
Are cinctured with my power as with a robe;
Whatever lamps on Earth or Heaven may shine
Are portions of one power, which is mine.

I stand at noon upon the peak of Heaven,
Then with unwilling steps I wander down
Into the clouds of the Atlantic even;
For grief that I depart they weep and frown:
What look is more delightful than the smile
With which I soothe them from the western isle?

I am the eye with which the Universe
Beholds itself and knows itself divine;
All harmony of instrument or verse,
All prophecy, all medicine is mine,
All light of art or nature;— to my song
Victory and praise in its own right belong.

Hymn of Pan

From the forests and highlands
     We come, we come;
From the river-girt islands,
     Where loud waves are dumb
               Listening to my sweet pipings.
The wind in the reeds and the rushes,
     The bees on the bells of thyme,
The birds on the myrtle bushes,
     The cicale above in the lime,
          And the lizards below in the grass,
          Were as silent as ever old Tmolus was,
               Listening to my sweet pipings.

Liquid Peneus was flowing,
     And all dark Tempe lay
In Pelion’s shadow, outgrowing
     The light of the dying day,
               Speeded by my sweet pipings.
The Sileni, and Sylvans, and Fauns,
     And the Nymphs of the woods and the waves,
To the edge of the moist river-lawns,
     And the brink of the dewy caves,
          And all that did then attend and follow,
          Were silent with love, as you now, Apollo,
               With envy of my sweet pipings.

I sang of the dancing stars,
     I sang of the daedal Earth,
And of Heaven — and the giant wars,
     And Love, and Death, and Birth,—
               And then I changed my pipings,—
Singing how down the vale of Maenalus
     I pursued a maiden and clasped a reed.
Gods and men, we are all deluded thus!
     It breaks in our bosom and then we bleed:
          All wept, as I think both ye now would,
          If envy or age had not frozen your blood,
               At the sorrow of my sweet pipings.

Padrão

2 comentários sobre “Shelley – Hinos de Apolo & Pã

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s