poesia, tradução

Stefan George (1868 – 1933)

Stefan_George_(fotografado_por_Jacob_Hilsdorf)

Confesso que só recentemente vim a conhecer o tradutor e poeta simbolista alemão Stefan George (1868 – 1933) e por causa da crítica Marjorie Perloff, que o menciona em seu livro autobiográfico The Vienna Paradox – e ela lamenta, inclusive, o quanto o poeta é pouco conhecido fora do mundo germanófono, em parte por conta de certos probleminhas ideológicos, como veremos na sequência aqui, e em parte por conta da dificuldade de traduzi-lo. Nesse livro, a autora, nascida na Áustria, trata de sua fuga da cidade de Viena logo após a Anschluss em 1938 que resultou na anexação do país pela Alemanha nazista. George era um poeta extremamente influente à época, tendo frequentado o círculo de Mallarmé e fundado e editado por anos a fio uma revista literária chamada Blätter für die Kunst, chegando a ser até mesmo o centro de um círculo literário e acadêmico chamado de George-Kreis, do qual participaram vários nomes importantes como o acadêmico Friedrich Gundolf e o filósofo Ludwig Klages (o próprio pai de Perloff, Maximilian Mintz, e seus amigos, como ela relembra, o admiravam e se tornaram “estetas fervorosos” também por causa dele, mas, por serem de uma geração seguinte, eles integraram não o George-Kreis, mas um outro círculo intelectual posterior, chamado Geistkreis). Ela cita em seu livro um poema de George, retirado de seu volume de 1907, Der siebente Ring (O Sétimo Anel):

Im windes-weben
War meine frage
Nur träumerei.
Nur lächeln war
Was du gegeben.
Aus nasser nacht
Ein glanz entfacht –
Nun drängt der Mai:
Nun muss ich gar
Um dein aug und haar
Alle Tage
In sehnen leben.

Trata-se de uma canção lírica, em versos com duas sílabas tônicas cada, organizados numa estrofe com um intrincado esquema de rimas, que se insere num grupo maior de poemas lamentando a morte de Maximilian Kronberger, a quem George chamava carinhosamente de “Maximin”. Maximin era um poeta novíssimo e promissor do seu círculo literário, por quem ele se apaixonou e que morreu de meningite em 1904 com apenas dezesseis anos de idade, um acontecimento que deixou George profundamente abalado – comparável, poderíamos pensar, no quesito impacto em nível pessoal e literário para George, ao que a morte de Beatriz representou para Dante. Apesar de eu normalmente não trabalhar com traduções do alemão (pelo simples fato de que não sei a língua), Perloff aqui me forneceu uma glosa e comentário muito úteis para esboçar eu mesmo uma tradução, tentando manter a mesma estrutura de rimas e os versos bimétricos, para esse belo poema de lamento amoroso:

No tecer-da-brisa o
Meu duvidar
Só era quimera.
O que deste-me fora
Só teu sorriso.
Na orvalhada fria
Um lampejo acendia –
E maio viera:
E assim vivo agora
Por dias afora
Teu cabelo e olhar
São o que eu mais preciso.

Essa, no entanto, é só a primeira faceta da poesia de George. É a esse George de versos líricos de postura aristocrática e pastoral, inspirados por um formalismo grego clássico, das “lindas e perfeitas canções de amor” que Walter Benjamin dava sua predileção, mas tinha ressalvas em relação a sua produção posterior, visto que a Primeira Guerra viria a trazer uma alteração terrível sobre a sua poesia e toda a sua postura. Em 1914 ele já previa o pior para o país e começou a escrever então o poema pessimista Der Krieg (A Guerra), que completou em 1916. Essa mudança passa a ser observável nos seus dois livros seguintes, Der Stern des Bundes (A estrela da aliança, 1914) e Das neue Reich (O novo reino, 1928), em que Stefan George deixa de ser um esteta de fin-de-siècle para se tornar um “profeta nietzschiano do fim dos tempos” – tons nietzschianos que já são óbvios em poemas como “Nietzsche” e “O Anticristo” de Der siebente Ring, do qual citei o poema amoroso acima, “Im windes-weben”, o que poderia apontar para esse livro como uma espécie de momento de transição, talvez, entre os dois Georges. Seu objetivo sempre foi, mallarmaicamente, como comenta Perloff, “purificar a língua alemã, livrá-la de todo solecismo, todos os termos estrangeiros e palavras-valise” (e, em alguns pontos, ele me parece se aproximar muito do que fazia Yeats na Irlanda nessa mesma época, ainda que não acredito que um tenha lido o outro), mas esse projeto ganha um novo significado nesse contexto da Alemanha do começo do século XX. Ele também passa a defender uma “Alemanha secreta” (Geheimes Deutschland), “uma nova e jovem elite que defenderia os devidos valores espirituais alemães contra a investida de uma modernidade tecnológica opressora”, que, assim, vista em retrospecto, nos soa algo ideologicamente suspeita. Talvez não por acaso, quando os nazistas tomam o poder em 1933, eles tentaram recrutar George, e me parece que não há dúvidas sobre qual Reich seria, para eles, o neue Reich de que ele falava em seu livro de 1928. Eles lhe ofereceram prêmios, dinheiro e publicidade, mas, porque George não era o Marinetti, ele recusou tudo isso e fugiu do país. Já enfermo e desiludido, ele morre no mesmo ano na Suíça.

Mas seria injusto encerrar a notinha biográfica de George aqui nesses termos, como se ele fosse alguma forma de proto-nazista sem coragem de assumir as consequências de sua própria postura ética/estética… as coisas são um pouco mais cinzentas do que isso, acredito. Havia judeus no George-Kreis, como Karl Wolfskehl e Ernst Kantorowicz (apesar de que o próprio George escreve em correspondência que não gostaria que eles se tornassem maioria no círculo), e um dos seus frequentadores e admiradores mais dedicados foi ninguém menos que o homem responsável pela tentativa de 20 de julho de assassinar Hitler, Claus von Stauffenberg, na chamada Operação Valquíria. Definitivamente, se trata de uma figura das mais curiosas. Sua influência também foi sentida entre os compositores do período, Arnold Schoenberg e Anton Webern, que escreveram peças sobre seus poemas ou os musicaram diretamente, como foi o caso de Das Buch der hängenden Gärten (O livro dos jardins suspensos, 1909).

Em português, temos um volume publicado em 2000 pela Iluminuras, intitulado Crepúsculo, com poemas selecionados e traduzidos por Eduardo de Campos Valadares. O tradutor fez um trabalho que me parece muito bom como resultado e no condizente a respeitar os aspectos formais complexos de George (ele é, afinal, como reconhece Perloff, um poeta difícil de traduzir), mas infelizmente a minha ignorância da língua me impede de tecer alguns comentários mais profundos sobre ele. Em todo caso, é um voluminho valioso, com poemas de quase todos os livros do poeta, de 1897 até 1928. É dele então que eu transcrevo esses seis poemas abaixo que eu gostaria de compartilhar com vocês agora, de modo a dar uma ideia básica dessa trajetória percorrida por esse poeta tão controverso que foi Stefan George, como não podia deixar de ser nenhum autor influente inserido no olho do furacão daquilo que foi o momento mais traumático do século XX.

(Adriano Scandolara)

 

Paz do entardecer

Já lacerada pela labareda
Exausta descansa a seca vereda

E a escura e sulfurina nuvem cai
Uma muralha esconde e o mastro esvai.

Os jardins arquejam com o perfume ·
A sombra invade os caminhos sem lume.

As ternas vozes suspiram e calam ·
As altas em zumbido se resvalam.

Se visões atraem a rica festa
A selvagem luta atrai luz funesta.

Na névoa densa só são escutados
Os débeis sons de mundos dominados.

 

Friedensabend

Vom langen dulden sengend heisser stiche
Erholen sich die bleichen länderstriche

Und wolken schwarz und schwefelgelb belasten
Die kahlen mauern und die starren masten.

Die gärten atmen schwer von duft beladen,
Die scahtten wachsen fester in den pfaden.

Die zarten stimmen schlummern und verstummen,
Die hohen mildern sich in sanftes summen.

Wie schemen locken nur die festgepränge
die wilden schlachten lauten untergänge.

Im dichten dunste dringt nur dumpf und selten
Ein ton herauf aus unterworfnen welten

(de Die Bücher der Hirten- und Preisgedichte, der Sagen und Sänge und der hängenden Gärten, 1895)

 

Vem ao parque tido por morto e admira:
O vislumbre de praias sorridentes ·
O súbito azul na nuvem conspira
Ilumina ilha e trilha iridescentes.

Lá toma o cinza · o amarelo vívido
Do arbusto e bétula · o ar é tépido ·
A rosa tardia ainda floresce ·
Beija a eleita e uma coroa tece ·

A última gérbera não esqueças ·
A púrpura no silvestre sarmento ·
Também o resto de verde ornamento
Nessa outonal face te reconheças.

 

Komm in den totgesagten park und schau:
Der schimmer ferner lächelnder gestade ·
Der reinen wolken unverhofftes blau
Erhellt die weiher und die bunten pfade.

Dort nimm das tiefe gelb · das weiche grau
Von birken und von buchs · der wind ist lau ·
Die späten rosen welkten noch nicht ganz ·
Erlese küsse sie und flicht den kranz ·

Vergiss auch diese letzten astern nicht·
Den purpur um die ranken wilder reben ·
Und auch was übrig blieb von grünem leben
Verwinde leicht im herbstlichen gesicht.

(de Das Jahr der Seele, 1897)

Canto Noturno I

Mel e medo
Sou avesso
Orla e rumo
Meu destino.

Chuva e outono
Com a morte
Brilho e flor
Com a vida.

O que fiz
O que ardi
O que sei
O que sou:

Um incêndio
Que se apaga
Uma canção
Que se acaba.

 

Nachtgesang I

Mild und trüb
Ist mir fern
Saum und fahrt
Mein geschick.

Sturm und herbst
Mit dem tod
Glanz und mai
Mit dem glück.

Was ich tat
Was ich litt
Was ich sann
Was ich bin:

Wie ein brand
Der verraucht
Wie ein sang
Der verklingt.

(de Der Teppich des Lebens und die Lieder von Traum und Tod, 1899)

 

 O Anticristo

>Lá vem ele das montanhas · lá está ele nos bosques!
Com nossos próprios olhos o vimos ·
Converte água em vinho e ressuscita os mortos!

Ó podem escutar meu riso na escuridão:
É chegada a hora · avoluma-se a rede ·
À isca afluem peixes em profusão.

Sábios e tolos – alucinado amotina-se o povo ·
Cortem as árvores pela raiz · triturem os grãos ·
Abram caminho para o cortejo de Eleitos.

Toda a obra divina está ao meu alcance
Um simples toque · e seus espíritos embotados
Não perceberão diferença alguma.

Feitos notáveis e raros realizo
Algo Trivial · barro virar ouro ·
Perfume seiva ou condimento –

E o jamais ousado pelo grande profeta:
O cultivo sem desmate semeio ou colheita
Basta sugar a energia disponível.

O Príncipe dos Animais amplia o seu reino
Nada o detém · nada · nem a alegria o abranda··
Arrasem com o resto de amotinados!

Encantam-se com prazer ante o brilho demoníaco ·
Dissipiam em orgias o que ainda resta de néctar
E apenas próximos do fim pressentem a miséria.

Lambem então o cocho seco ·
Como gado erram pelo curral em chamas ··
E terrível ressoa a trombeta.

 

Der Widerchrist

‘Dort kommt er vom berge · dort steht er im hain!
Wir sahen es selber · er wandelt in wein
Das wasser und spricht mit den toten.’

O könntet ihr hören mein lachen bei nacht:
Nun schlug meine stunde · nun füllt sich das garn ·
Nun strömen die fische zum hamen.

Die weisen die toren – toll wältzt sich das volk ·
Entwurzelt die bäume · zerklittert das korn ·
Macht bahn fur den zug des Erstandnen.

Kein werk ist des himmels das ich euch nicht tu.
Ein haarbreit nur fehlt · und ihr merkt nicht den trug
Mit euren geschlagenen sinnen.

Ich schaff euch für alles was selten und schwer
Das Leichte · ein ding das wie gold ist aus lehm ·
Wie duft ist und saft ist und würze –

Und was sich der grosse profet nicht getraut:
Die kunst ohne roden und säen und baun
Zu saugen gespeicherte kräfte.

Der Fürst des Geziefers verbreitet sein reich
Kein schatz der ihm mangelt · kein gluck das ihm weicht . .
Zu grund mit dem rest der empörer!

Ihr jauchzet · entzückt von dem teuflischen schein ·
Verprasset was blieb von dem früheren seim
Und fühlt erst die not vor dem ende.

Dan hängt ihr die zunge am trocknenden trog ·
Irrt ratlos wie vieh durch den brennenden hof . .
Und schrecklich erschallt die posaune.

(de Der siebente Ring, 1907)

Senhores de tudo sabedores de tudo e suspiram:
>Pobre vida! Flagelo e miséria em toda parte!
Nem sinal de abundância!<
Vejo em todo celeiro
Montes logo repostos do grão que some
Ninguém os come ..
Tonéis transbordam em toda próspera quinta
E na areia se perde o precioso vinho
Ninguém o bebe ..
Toneladas de ouro puro em meio ao pó:
O povo maltrapilho varre com os trapos
Ninguém percebe.

 

Alles habend alles wissend seufzen sie:
›Karges leben! drang und hunger überall!
Fülle fehlt!‹
Speicher weiss ich über jedem haus
Voll von korn das fliegt und neu sich häuft –
Keiner nimmt ..
Keller unter jedem hof wo siegt
Und im sand verströmt der edelwein –
Keiner trinkt..
Tonnen puren golds verstreut im staub:
Volk in lumpen streift es mit dem saum –
Keiner sieht.

(de Der Stern des Bundes, 1914)

O que ainda tramo o que ainda clamo
O que ainda amo traz a mesma chama

Que passo leve e ousado
Ao reino insólito leva
O éden da eva primeva?

Que toque de acordar
Corneteiro veemente
Corre toda a Saga dormente?

Qual aragem secreta
Na alma sutilmente instala
A última angústia que cala?

 

Was ich noch sinne und was ich noch füge
Was ich noch liebe trägt die gleichen züge

Welch ein kühn-leichter schritt
Wandert durchs eigenste reich
Des märchengartens der ahnin?

Welch einen weckruf jagt
Bläser mit silbernem horn
Ins schlummernde dickicht der Sage?

Welch ein heimlicher hauch
Schmiegt in die seele sich ein
Der jüngst-vergangenen schwermut?

(de Das neue Reich, 1928)

(poemas de Stefan George, tradução de Eduardo de Campos Valadares)

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