crítica, poesia, tradução

“Ode: prenúncios de imortalidade”, de Wordsworth, por Mavericco

A abadia de Tintern, tema de outro poema famoso de Wordsworth

A abadia de Tintern, tema de outro poema famoso de Wordsworth

Já vimos poemas de Coleridge, Blake, Byron, Shelley & Keats aqui no escamandro: agora William Wordsworth, Poeta da Natureza, é o último dos grandes românticos ingleses que faltava para dar as caras em nosso blogue – last but not least, claro, dada a imensa influência que ele foi para todos os outros e para toda a poesia inglesa, senão a poesia do ocidente em geral. Gostaria de poder ter feito as honras de apresentá-lo eu mesmo aos nossos leitores (faz um tempo que eu estou de olho no “The Old Cumberland Beggar” e no “Tintern Abbey”, mas falta tempo). Porém o Matheus Mavericco, nome já conhecido aqui por estas bandas, se adiantou e o fez antes de mim com um verdadeiro trabalho de fôlego, traduzindo sua famosa “Ode: Intimations of Immortality”. Na verdade, o que ele preparou foi uma postagem dúplice: a Ode de Wordsworth se baseia num poema anterior de Coleridge, “Dejection: an Ode”, que Mavericco também traduziu e comentou e que vocês verão na semana que vem.

Pessoalmente, eu arriscaria dizer que a obra de Wordsworth parece ser o tipo de poesia que só poderia ser produzida naquele período em que ele viveu, na aurora da Revolução Industrial na Grã Bretanha. Os poetas que vieram antes de Wordsworth conheciam o mundo natural, mas desconheciam a modernidade (digo, pelo menos essa experiência de modernidade exacerbada pela revolução industrial, a modernidade do mundo cosmopolita, das viagens e das trocas de toda natureza altamente acelaradas, da vida marcada pelo ritmo do capitalismo tardio), e os poetas que vieram depois já estavam por demais inseridos nessa modernidade para terem essa experiência do natural sem que ela o mediasse (e os poetas do simbolismo francês, por exemplo, ilustram muito bem isso, com as expressões de ódio ao natural e louvor do artifício que são observáveis em Baudelaire e Huysmans). Falar de natureza antes disso era uma coisa, que virou outra depois, num processo análogo ao da perda da inocência, e viria a se tornar ainda outra completamente distinta hoje – discurso que invariavelmente vai precisar tratar do problema que é a humanidade ter ambientalmente dado um tiro no próprio pé. Assim sendo, fica a impressão de que a poética de Wordsworth é esse retrato, muito preciso, de um momento de limiar – que é, talvez, arriscando a banalidade da frase de efeito, aquilo que dá relevância às figuras que reconhecemos como grandes poetas. “Não dá mais pra você dizer isso desse jeito”, diz um poema de Ashbery, e ao ler Wordsworth, sente-se que ele encarnou esse espírito com perfeição.

No mais, porém, passo a palavra para o Mavericco.

(Adriano Scandolara)

Retrato de Wordsworth por Benjamin Robert Haydon (1842)

Retrato de Wordsworth por Benjamin Robert Haydon (1842)

William Wordsworth (1770 – 1850) foi um dos capitães do Romantismo inglês. Em 1790 conhecera Samuel Taylor Coleridge (1772 – 1834), no que se tornaram BFFs e foram responsáveis pela publicação de Lyrical Ballads em 1798, um livro que mudou o rumo da poesia anglófona. E de fato: é um livro porreta. Se você lançar uma olhada mais detida na poesia do período anterior, neoclassicista, vai poder notar a diferença profunda que Lyrical Ballads incutiu: ao invés de pensar a poesia e o poeta a partir de sua posição social dentro de uma concepção racionalista e mecanicista do mundo, o que explica a precisão e sobriedade dos dísticos de Pope bem como sua condução silogística, Wordsworth e Coleridge batem de frente e brandem o ímpeto do Eu e o esplendor da Natureza.

A esse respeito, o prefácio que Wordsworth escreveu ao livro é bastante explicativo. Ele tem um significado parecido com o prefácio que Victor Hugo (1802 – 1885) escreveria depois à sua peça Cromwell (1827): súmula do Romantismo. Veja-se, do começo do quinto parágrafo: “O principal objetivo, então, destes Poemas foi o de escolher incidentes e situações da vida comum e relatá-los ou descrevê-los, por inteiro, até onde fosse possível uma seleção da linguagem realmente usada pelos homens comuns, e, ao mesmo tempo, lançar sobre eles um certo colorido da imaginação, de modo que as coisas ordinárias se apresentariam à mente num aspecto inusual; e adiante, e acima de tudo, fazer destes incidentes e situações interessantes traçando neles, verdadeira embora não luxuosamente, as leis primeiras de nossa natureza: marcadamente, até que se considere as maneiras com que associamos ideias num estado de excitamento.” Outra passagem famosa do prefácio é quando Wordsworth diz que não existe nenhuma diferença essencial entre a linguagem metrificada e a linguagem em prosa.

Mas isto é preâmbulo. Poetas havia antes de Wordsworth e Coleridge que já denunciavam rupturas ao padrão neoclássico, como Blake, Burns ou o Sturm und Drang alemão, o que, claro, não muda a força poética da dupla dinâmica. O poema que traduzo abaixo não foi incluso nas Lyrical Ballads. Conserva em grande parte seus princípio, inclusive radicalizando alguns deles se notarmos em especial a turbulência de seus volteios sintáticos. Foi escrito em 1802, ano em que Wordsworth deu uma forte guinada autobiográfica em sua obra. Em 27 de março ele havia escrito uma versão menorzinha do poema, que parava na estrofe quatro, e, depois de prosear um pouco com compadre Coleridge em abril do mesmo ano, ficou cheio de ideias. Na verdade, Coleridge também, e tanto que Coleridge escreveu depois o poema “Dejection: a Ode”, que é em grande medida influenciado pelo poema do amigo: e, pra terminarmos o bate-bola, o poema de Wordsworth também é influenciado pela poesia de Coleridge, em especial os chamados conversational poems, primos dos monólogos que basicamente funcionam como se o eu lírico conversasse com alguém que não o responde. De Coleridge, o mais famoso desses conversational poems é “The Nightingale”, mas existem também outros como “Frost at Midnight” e o próprio “Dejection”.

Mas Wordsworth só foi retomar o trabalho em 1804, quando terminou o poema e começou seu famoso poema longo The Prelude, em 14 livros. The Prelude é centrado na figura do poeta, só que sem uma jornada teológica à maneira de Dante nem uma estruturação epopaica. Amplia o tema de que no nosso fim está nosso começo, ou seja, isso de atar as duas pontas da vida, pra me valer da expressão de nosso Bentinho. E essa citação de Machado de Assis não é gratuita, visto que Machado sempre incorporou com grande felicidade muitos temas wordsworthianos: o capítulo XI de Brás Cubas, por exemplo, é uma citação do poema de Wordsworth que ele mesmo usa pra epigrafar sua Ode.

Ela foi publicada em 1807 na coletânea Poems, in Two Volumes. Uma das epígrafes anteriores do poema era tirada da quarta écloga de Virgílio (aquela, famosa!, em que Virgílio teria previsto o nascimento de Cristo sob a figura de um menino que levaria a humanidade a uma nova Idade de Ouro…), “paulò majora canamus” (cantemos algo mais nobre). Depois retirou-a e fez por bem pôr os três versos finais que me referi há pouco, vindos deste poema:

Quando vejo o arco-íris
Eu me aposso de um tumulto:
Assim tudo teve início;
Assim hoje eu sou adulto;
Assim eu ficarei velho;
Ou que eu morra!
A Criança é pai do Adulto.
Que os anos sejam enlaçados
E venham a ser perdoados.

[“My heart leaps up when I behold  / A rainbow in the sky: / So was it when my life began; / So is it now I am a man; / So be it when I shall grow old, / Or let me die! / The Child is father of the Man; / I could wish my days to be / Bound each to each by natural piety.”]

O poema tem uma maneira mais ou menos regular a princípio, seguindo um padrão de rimas alternadas que se assemelhava à ode pindárica, até se tornar algo bem bagunçado. As mudanças métricas não são de assustar pois bastará folhearmos Suspiros Poéticos e Saudades (1836), do nosso Gonçalves de Magalhães, para notarmos como este era um procedimento comum para o temperamento romântico: ou seja, o de que, ao invés de tomar emprestado fôrmas poéticas já prontas (vide as epopeias), ele escrevesse o poema de acordo com suas variações sentimentais. Não quer dizer que toda a obra de Wordsworth é assim, nem que toda ela se valha de um instrumental popular. Wordsworth foi, por exemplo, um dos maiores sonetistas de língua inglesa, e é dele aquela frase, “Scorn not the sonnet“.

casa de Wordsworth em Rydal Mount

casa de Wordsworth em Rydal Mount

Um dos aspectos que mais intrigaram e ainda intrigam os comentadores é a filosofia de Wordsworth, disso da criança ser uma espécie de Deus em meio à Natureza, o que amplia ainda mais a dor da reminiscência que o poema expõe. No quinto livro de The Prelude, Wordsworth narra de quando adormecera e vira, num sonho, a figura de um cavaleiro árabe de beduínas tribos. Numa arma ele trazia uma pedra, símbolo dos Elementos Euclidianos, e na outra uma concha. Quando o eu lírico põe a concha no ouvido, ele escuta: “Uma Ode, apaixonada, que predisse / Destruição às crianças desta terra / Num dilúvio iminente.” (v. 96-98: “An Ode, in passion uttered, which foretold / Destruction to the children of the earth / By deluge, now at hand.“) É tudo muito figurado, mas a lição no final das contas parece ser a de que a Infância e a Natureza são de capital importância para nós: tanto que, nos versos 506 a 509, ele dirá: “Nossa infância, / Simples infância, senta-se num trono / Com mais poder que todos elementos.” (“Our childhood sits, / Our simple childhood, sits upon a throne / That hath more power than all the elements.“)

Harold Bloom, em seu Abaixo as Verdades Sagradas (trad. Alípio Correia Neto e Heitor Ferreira Costa, Cia das Letras, 1993), localiza Wordsworth no topo do ágon do sublime. Para Bloom, citando Weiskel, o sublime é uma alegação essencial de que o homem pode transcender o humano (p. 137). Num livro que analisa a relação entre poesia e crença, os comentários de Bloom sobre Wordsworth são de grande argúcia. Pois, com efeito, Wordsworth demarcaria um limite para a razão iluminista ao mesmo tempo que sua visão da natureza “leva ao ápice o programa iluminista para a razão” (p. 156). É que “Quando fala das obras de seu espírito, Wordsworth não descreve uma crença de que algo seja assim, mas uma crença numa aliança, uma aliança estabelecida entre sua mente e uma presença dominadora não inteiramente distinta do seu melhor aspecto.” (p. 161) Bloom não deixa claro que presença dominadora seria esta (não podemos dizer que é Deus pois Wordsworth, como Freud, buscam “substituir um deus moribundo por um novo, o deus do ser interior em perpétuo crescimento“, p. 154); mas o fato é que essa espécie de solipsismo wordsworthiano radicaliza sua percepção de mundo a tal ponto que o poeta celebra sua natureza divina (idem).

Mas não quero me demorar muito numa interpretação do poema. A esse respeito, incluo, além do dito cujo, o comentário que o próprio Wordsworth escreveu sobre ele.

Minha tradução buscou manter ao máximo as variações métricas de Wordsworth, tentando seguir o original passo a passo. Vali-me de um verso de doze sílabas para traduzir o pentâmetro, o que é de certa maneira um problema pois, com exceção dos alexandrinos espanhóis de Castro Alves, não tivemos muitos versos de doze sílabas em nosso Romantismo. Mas em minha defesa cito que 1) os românticos possuíam uma plêiade de recursos métricos, e não ter sido amplamente usado em nossas terras não desabona seu uso, mesmo porque o alexandrino francês, sistematizado por Castilho e amplamente usado pelos parnasianos, foi uma reação ao alexandrino espanhol (e à escansão espanhola de modo geral), o que quer dizer que o lastro dodecassilábico era perceptível; 2) Augusto de Campos, a meu ver padrão de excelência para a tradução de românticos, usou o dodecassílabo para traduzir Keats; e 3) como o poema de Wordsworth se vale de interrupções bruscas, o verso de doze sílabas julguei mais capaz de incutí-las que o de dez.

As cesuras desse meu verso de doze buscaram, quem sabe no inconsciente, sopesar o padrão 6-12 e o padrão 4-8-12, este último marcadamente romântico. Mas existem também casos em que a cesura saiu do padrão. Creio que foram poucos, embora, a esse respeito, eu tenha a impressão de que meu poema ficou mais regular metricamente que o próprio original de Wordsworth… Já a respeito das rimas, busquei seguir estritamente o esquema rímico do original. Se alguns versos saíram não rimados, é porque, sinceramente, não encontrei eles rimando no original.

Afora isto, faço notar o uso das maiúsculas que, embora praticamente apenas para com substantivos, representa uma forma de realce textual clássica em Wordsworth e na poesia de maneira geral, algo com uma forte precedência neoclássica que foi radicalizada por Wordsworth quando ele, por exemplo, grifa todos os elementos naturais do primeiro verso da última estrofe em maiúsculas (e note que na primeira estrofe ele não o faz). Faço notar também, na estrofe 6, o termo “humorous stage“, que em minha tradução, por questões rímicas e, pelo memos até onde sei, práticas (ou seja, não encontrei um termo que o traduza, o que, é claro, pode muito bem ser deficiência minha), foi transformado em “farsa”. “Humorous stage“, conforme a nota da The Norton Anthology of Poetry (1970, p. 603), que é a que me usei, é encenar personagens com variados temperamentos, os chamados “humores” para os elisabetanos. Com “farsa”, me aproximo do final da estrofe e não dos versos precedentes, visto que  ideia de que todos esses papéis seriam falsos ou exagerados, máscaras em suma, está conotada no termo.

Além de minha tradução, sei de uma feita por John Milton e Alberto Marsicano, inclusa no livro O Olho Imóvel Pela Força da Harmonia, editora Ateliê, 2007. É uma excelente seleção.

The Forest of Bere (1808), por J. M. W. Turner (1775 - 1851)

The Forest of Bere (1808), por J. M. W. Turner (1775 – 1851)

§§§

ODE.

PRENÚNCIOS DE IMORTALIDADE RECOLHIDOS DA MAIS TENRA INFÂNCIA.

I

Houve um tempo em que a relva, a fonte, o rio, a mata
         E o horizonte se vestiam
                  De uma luz grata,
         — Visto que assim me pareciam —,
E da opulência que nos sonhos é inata.
Hoje está sendo tal como foi outrora;—
         Seja o que for, eu,
         Na luz ou breu,
Eu não verei jamais o que se foi embora.

II

                  O arco-íris vai, vem,
                  E a rosa nos faz bem;
                  Alegre, a lua nota
Que o céu está completamente nu; à luz
                  De estrelas, a água brota
         E é belo o que ela reproduz;
         A aurora é sempre um nascimento;
         E contudo, eu sei muito bem
Que a glória passou por nós em algum momento.

III

Agora, enquanto as aves cantam de contento
         E enquanto o cordeirinho salta
                  Ao som do que o exalta,
A mim apenas veio uma ideia de dor:
Enunciei-o e de repente ela passou,
                  E me encho de alento:
Trombeteiam cascatas frente ao precipício;
Minha dor não mais matará o clima opulento;
Ouço o Eco que vem das grutas e ouço o Vento
Que encerra em si o sono tal como um resquício,
         E alegre é a terra;
                  Todo o mar
         Vem a se ufanar
                  E a Fera se aferra
         Ao sono na serra;—
                  Você, Criança,
Menino pastor, grite até onde, Ó Criança, o grito alcança!

IV

E vocês, Criaturas, eu escuto afinal
         O que dizem entre vocês
E vejo o céu que frui também vossa altivez;
         Meu ser em vosso festival,
                  Coroado, o total
De vossa dádiva — ah!, eu sinto… Ó mal!,
                  Fosse eu soturno enquanto
                  A Terra se adornasse,
                           Manhã de Maio face
                  A qual a infância nasce
                           No Mundo,
                  No vale remoto e fecundo;
                  Enquanto o sol nos acalora
E o Bebê sobe aos braços da Mãe: — ouço agora!
                  Com alegria eu ouço, eu ouço!
                  — Mas uma, uma Árvore existe,
Uma Planície que em minh’alma inda persiste,
Lembrando o que se foi e hoje e me deixa triste:
                  E o Amor-Perfeito
                  Diz: Que foi feito
         Do vislumbre visionário?
         Dos sonhos? Do esplendor vário?

V

Nosso nascer não passa de sono e de oblívio:
A Alma que nasce com nós, nosso Astro Vital,
         Vive longe de onde vive o
                  Trajeto de seu fanal;
         Não no esquecimento inteiro
         Nem na nudez por inteiro,
Mas, arrastando nuvens de glória, viemos
         De Deus — nele vivemos —:
É o Céu que a nós circunda e a nossa meninice!
As sombras da prisão começam a cobrir
                  O Menino que cresce;
Mas ele vê a luz, sabe aonde ela vai ir
                  E sabe que ela o acresce;
A Juventude, em sacerdócio à Natureza,
         Viaja ao Leste numa empresa
                  Guiada pela
                  Visão mais bela;
E ao largo o Homem vê que sua vida acaba
E que na luz do hábito ela enfim desaba.

VI

A Terra enche o colo com prazeres seus;
A Terra possui ânsias que ela mesma mantém,
E, possuindo um algo maternal também,
                  E honesta em seu intuito,
         A Terra, ama-de-leite, empenha-se
P’ra que o filho adotivo, a Humanidade, abstenha-se
         De todos seus apogeus
E do que nele for trajetória e for muito.

VII

Aprecie a Criança e a plêiade de encantos,
Tesouro de seis anos menor que um pigmeu!
Contemple a paz com que ele enfim adormeceu,
Preocupado co’os beijos de sua mãe, tantos!,
E as tantas bênçãos que seu pai lhe concedeu!
Veja, a seus pés, alguma tabela infantil,
Algum fragmento de seu sonho de ser humano,
Moldado graças a uma arte ainda pueril;
         Um casamento ou um festival,
         Um lamento ou um funeral;
                  E a isto ele é servil,
E nisto ele forma seu canto:
                  Assim afinar-se-á enquanto
Dialoga sobre o amor, o sucesso ou o dano;
                  Não demorará tanto
                  Até que largue isto
                  E de novo, e imprevisto,
Com alegria o Ator mirim faça outro ardil;
Enchendo pouco a pouco sua própria “farsa”
De Personagens, ‘té que a Vida fique esparsa
E, colocando-o na barca, a Vida o ressarça;
                  Como se imitar fosse
                  Tudo o que ele fosse.

VIII

Você, cujo semblante exterior desmente
                  Teu valor inerente;
Você, grande Filósofo, que mantém ainda
A herança; você, que é a Visão entre a cegueira,
Que, surdo e mudo, lê a profundeza infinda
Sempre assombrada pela mente altaneira, —
                  Ó Vidente!, Ó Profeta!
                  Que a verdade afeta
E a quem nós procuramos de qualquer maneira,
Por toda a vida, presos no escuro da cova;
Você, sobre quem flui a Fonte da Existência
Que escraviza ao mesmo tempo que renova,
Algo impossível de se ignorar a presença;
                  A quem a cova
É cama solitária sem sentido ou luz
                  Do que lá fora luz,
Um lugar onde se descansa e onde se pensa;
Você, Criança, ainda ilustre na amplitude
Da aérea liberdade de tua atitude,
P’ra quê, com dores tão solenes, provocar
Os anos a te darem o que eles vão te dar,
Assim tão cega e santa imersa na batalha?
Não tarda e teu espírito cai no retardo
De uma rotina que imporá a ti um fardo
Que pese e quase como a vida se equivalha!

IX

                  Alegria!, que em nós
                  Inda palpita
                  E repercute a voz —
                  E nos evita!
Pensar no meu passado faz com que em mim nasça
Uma bênção perpétua: não aquela graça
Que glorifica aquele a quem ela agracia —
Prazer e liberdade, o credo que perpassa
A Infância inteira, na labuta ou calmaria,
Pleno do tatalar da fé que se atavia:—
                  Nem por estes elevo
                  Canções de louvor e enlevo;
         Mas pelas questões obstinadas
         De senso e coisas externadas
         Distantes de nós, sublimadas;
         Vagos temores da Criatura
Que vaga em meio a mundos não realizados,
Altos instintos onde a efêmera Figura
Treme tal como tremem os Sentenciados:
                  Por tais afetos prévios
                  E recordações breves, o
         Que vierem a ser, sejam,
Pois são fontes de luz e nos clarejam,
Pois são pontos de luz de nosso olhar;
         Guarde a estima por nós, guardando o seu poder
De que a turba dos anos se encurte no Ser
Da Calmaria imorredoura: o despertar
                  P’ra vida eterna:
O que a surdez e a insânia que às vezes governa,
                  O Pai, o Filho
E o que vê na alegria um odioso empecilho,
Não poderão matar nem retirar o brilho!
         Assim, sendo o clima propício,
                  Por distantes que estejamos,
Sentimos sempre aquele mar sem fim ou início
                  Que nos trouxe aonde estamos,
E vemos sempre a Infância que brinca na areia,
E ouvimos sempre o som do mar que assenhoreia.

X

Pois cantem, Aves, cantem canções de contento!
                  E que o Cordeiro salte,
                  Alegre, ao som que o exalte!
Nossas vozes serão uma só em pensamento,
         Você que brinca ou flauteia
         E que tem na sua veia
         O agrado que Maio alardeia!
Pois muito embora a glória, que antes cintilara,
Tenha tornado-se distante e coisa rara,
         E embora nada traga novamente a hora
Do esplendor no relvado, ou da flor que vigora;
                  Nós não vamos chorar; iremos
                  Achar forças no que tivemos
                  Um dia; no afeto primeiro
                  Que ainda se mantém inteiro;
                  No pensamento que consola
                  E medra quando a dor desola;
                  Na fé que enxerga além da morte
E na sabedoria do que nós vivemos.

XI

E vocês, Bosques, Fontes, Picos, Matagais,
Não previram que o amor já não seria mais!
E entanto, o coração de meu coração sente
O poder de vocês; eu abandonei somente
Um prazer p’ra viver vosso ciclo usual.
Amo o rio que em seu canal se convulsiona,
Mais do que quando, assim como ele, eu fui frugal;
A luz da Aurora é pura e, como habitual,
                  Emociona;
As nuvens que rodeiam o pôr-do-sol ganham
O tom-de-cor daquele olhar que mantivera
Vigília sobre nossa tênue Primavera;
Outras raças têm sido, e outras glórias se apanham.
Graças ao coração, que fizemos morada,
Graças a todo o seu temor, carinho e encanto,
Sei que da flor mais simples pode ser gerada
Meditação profunda demais para o pranto.

§§§

Isto foi composto durante minha estada em Town-End, Grasmere. Dois anos passei, pelo menos, escrevendo as primeiras quatro estrofes e as partes restantes. Ao leitor atento e competente o todo é autoexplicativo, mas não há mal algum que me refira aqui aos sentimentos particulares ou experiências que tive em minha mente e as quais a estrutura do poema parcialmente guarda. Nada foi mais difícil pra mim na infância que admitir a noção de morte como um estado aplicável a meu próprio ser. Eu havia dito em algum lugar:

          Uma criança
Que apenas respire forte,
Enchendo-se de vigor,
Que sabe ela sobre a morte?

[A simple child, / That lightly draws its breath, / And feels its life in every limb, / What should it know of death?]

Mas não era nem tanto da raiz da vivacidade animal que minha dificuldade veio como um sentido de indomabilidade do espírito em mim. Costumava refletir sobre as histórias de Enoque e Elias, e quase havia me persuadido que, seja lá o que fosse feito dos outros, eu deveria ser trasladado da mesma maneira para o céu. Com um sentimento congenial a este, com frequência eu era incapaz de pensar as coisas externas como tendo uma existência externa, e comungava com tudo o que via como algo não à parte, mas inerente à minha própria natureza imaterial. Muitas vezes enquanto ia pra escola eu abraçava uma parede ou árvore pra me lembrar deste abismo de idealismo para com a realidade. Num certo momento tive medo de processos assim. Em períodos posteriores da vida deplorei, como nós todos temos razão de deplorar, o subjugamento de uma índole oposta, e me regojizava com lembranças, conforme expresso nos versos, “Questões obstinadas” &c [estrofe IX]. Para a vivacidade onírica e esplendor que se investiam em cada objeto da infância, eu acreditava, se olhasse pra trás, que poderia assim tomar testemunho sem precisar ter de morar lá; mas, tendo no Poema uma espécie de evidência presuntiva de um estado de coisas anterior, eu pensava que era certo protestar contra a conclusão que afligia algumas pessoas boas e pias, a quem eu tencionava inculcar tais crenças. É de longe uma noção mais sombria de ser recomendada à fé do que um elemento em nossos instintos de imortalidade. Mas tenhamos em mente que, embora a ideia não seja avançada na Revelação, há aí algo que a contradiz, e a queda do homem apresenta uma analogia a favor. Pois de fato, um estado pré-existente entrou no credo popular de muitas nações, e entre todas as pessoas experimentadas em literatura clássica é sabido que este é um ingrediente da filosofia platônica. Arquimedes disse que ele podia mudar o mundo se tivesse onde apoiar sua máquina. Quem nunca sentiu as mesmas aspirações como dizendo respeito ao mundo de sua própria mente? Tendo de exercer alguns dos elementos quando fui impelido a escrever este poema sobre a “Imortalidade da Alma”, eu tomei a noção da pré-existência como tendo fundamentos suficientes na humanidade pra que me autorizassem a fazer de meu propósito o melhor uso que udesse fazer enquanto Poeta.

§§§

ODE.

INTIMATIONS OF IMMORTALITY FROM RECOLLECTIONS OF EARLY CHILDHOOD.

 

I

There was a time when meadow, grove, and stream,
         The earth, and every common sight,
                  To me did seem
                  Apparell’d in celestial light,
The glory and the freshness of a dream.
It is not now as it hath been of yore;—
                  Turn wheresoe’er I may,
                  By night or day,
The things which I have seen I now can see no more.

 

II

                  The rainbow comes and goes,
                  And lovely is the rose;
                  The moon doth with delight
Look round her when the heavens are bare;
                  Waters on a starry night
         Are beautiful and fair;
         The sunshine is a glorious birth;
But yet I know, where’er I go,
That there hath pass’d away a glory from the earth.

 

III

Now, while the birds thus sing a joyous song,
         And while the young lambs bound
                  As to the tabor’s sound,
To me alone there came a thought of grief:
A timely utterance gave that thought relief,
                  And I again am strong:
The cataracts blow their trumpets from the steep;
No more shall grief of mine the season wrong;
I hear the echoes through the mountains throng,
The winds come to me from the fields of sleep,
         And all the earth is gay;
                  Land and sea
         Give themselves up to jollity,
         And with the heart of May
Doth every beast keep holiday;—
                  Thou Child of Joy,
Shout round me, let me hear thy shouts, thou happy
         Shepherd-boy!

 

IV

Ye blessèd creatures, I have heard the call
         Ye to each other make; I see
The heavens laugh with you in your jubilee;
         My heart is at your festival,
                  My head hath its coronal,
The fulness of your bliss, I feel—I feel it all.
                  O evil day! if I were sullen
                  While Earth herself is adorning,
                           This sweet May-morning,
                  And the children are culling
                           On every side,
                  In a thousand valleys far and wide,
                  Fresh flowers; while the sun shines warm,
And the babe leaps up on his mother’s arm:—
                  I hear, I hear, with joy I hear!
                  —But there’s a tree, of many, one,
A single field which I have look’d upon,
Both of them speak of something that is gone:
                  The pansy at my feet
                  Doth the same tale repeat:
Whither is fled the visionary gleam?
Where is it now, the glory and the dream?

 

V

Our birth is but a sleep and a forgetting:
The Soul that rises with us, our life’s Star,
                  Hath had elsewhere its setting,
                           And cometh from afar:
                  Not in entire forgetfulness,
                  And not in utter nakedness,
But trailing clouds of glory do we come
                  From God, who is our home:
Heaven lies about us in our infancy!
Shades of the prison-house begin to close
                  Upon the growing Boy,
But he beholds the light, and whence it flows,
                  He sees it in his joy;
The Youth, who daily farther from the east
                  Must travel, still is Nature’s priest,
                           And by the vision splendid
                           Is on his way attended;
At length the Man perceives it die away,
And fade into the light of common day.

 

VI

Earth fills her lap with pleasures of her own;
Yearnings she hath in her own natural kind,
And, even with something of a mother’s mind,
                           And no unworthy aim,
                  The homely nurse doth all she can
To make her foster-child, her Inmate Man,
                  Forget the glories he hath known,
And that imperial palace whence he came.

 

VII

Behold the Child among his new-born blisses,
A six years’ darling of a pigmy size!
See, where ‘mid work of his own hand he lies,
Fretted by sallies of his mother’s kisses,
With light upon him from his father’s eyes!
See, at his feet, some little plan or chart,
Some fragment from his dream of human life,
Shaped by himself with newly-learnèd art;
         A wedding or a festival,
         A mourning or a funeral;
                  And this hath now his heart,
         And unto this he frames his song:
                  Then will he fit his tongue
To dialogues of business, love, or strife;
                  But it will not be long
                  Ere this be thrown aside,
And with new joy and pride
The little actor cons another part;
Filling from time to time his ‘humorous stage’
With all the Persons, down to palsied Age,
That Life brings with her in her equipage;
                  As if his whole vocation
                  Were endless imitation.

 

VIII

Thou, whose exterior semblance doth belie
                  Thy soul’s immensity;
Thou best philosopher, who yet dost keep
Thy heritage, thou eye among the blind,
That, deaf and silent, read’st the eternal deep,
Haunted for ever by the eternal mind,—
                  Mighty prophet! Seer blest!
                  On whom those truths do rest,
Which we are toiling all our lives to find,
In darkness lost, the darkness of the grave;
Thou, over whom thy Immortality
Broods like the Day, a master o’er a slave,
A presence which is not to be put by;
         To whom the grave
Is but a lonely bed without the sense or sight
         Of day or the warm light,
A place of thought where we in waiting lie;
Thou little Child, yet glorious in the might
Of heaven-born freedom on thy being’s height,
Why with such earnest pains dost thou provoke
The years to bring the inevitable yoke,
Thus blindly with thy blessedness at strife?
Full soon thy soul shall have her earthly freight,
And custom lie upon thee with a weight,
Heavy as frost, and deep almost as life!

 

IX

                  O joy! that in our embers
                  Is something that doth live,
                  That nature yet remembers
                  What was so fugitive!
The thought of our past years in me doth breed
Perpetual benediction: not indeed
For that which is most worthy to be blest—
Delight and liberty, the simple creed
Of childhood, whether busy or at rest,
With new-fledged hope still fluttering in his breast:—
                  Not for these I raise
                  The song of thanks and praise;
         But for those obstinate questionings
         Of sense and outward things,
         Fallings from us, vanishings;
         Blank misgivings of a Creature
Moving about in worlds not realized,
High instincts before which our mortal Nature
Did tremble like a guilty thing surprised:
                  But for those first affections,
                  Those shadowy recollections,
         Which, be they what they may,
Are yet the fountain-light of all our day,
Are yet a master-light of all our seeing;
Uphold us, cherish, and have power to make
Our noisy years seem moments in the being
Of the eternal Silence: truths that wake,
                  To perish never:
Which neither listlessness, nor mad endeavour,
                  Nor Man nor Boy,
Nor all that is at enmity with joy,
Can utterly abolish or destroy!
         Hence in a season of calm weather
                  Though inland far we be,
Our souls have sight of that immortal sea
                  Which brought us hither,
         Can in a moment travel thither,
And see the children sport upon the shore,
And hear the mighty waters rolling evermore.

X

Then sing, ye birds, sing, sing a joyous song!
                  And let the young lambs bound
                  As to the tabor’s sound!
We in thought will join your throng,
                  Ye that pipe and ye that play,
                  Ye that through your hearts to-day
                  Feel the gladness of the May!
What though the radiance which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
         Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
                  We will grieve not, rather find
                  Strength in what remains behind;
                  In the primal sympathy
                  Which having been must ever be;
                  In the soothing thoughts that spring
                  Out of human suffering;
                  In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.

 

XI

And O ye Fountains, Meadows, Hills, and Groves,
Forebode not any severing of our loves!
Yet in my heart of hearts I feel your might;
I only have relinquish’d one delight
To live beneath your more habitual sway.
I love the brooks which down their channels fret,
Even more than when I tripp’d lightly as they;
The innocent brightness of a new-born Day
                  Is lovely yet;
The clouds that gather round the setting sun
Do take a sober colouring from an eye
That hath kept watch o’er man’s mortality;
Another race hath been, and other palms are won.
Thanks to the human heart by which we live,
Thanks to its tenderness, its joys, and fears,
To me the meanest flower that blows can give
Thoughts that do often lie too deep for tears.

(poema de William Wordsworth, comentário e tradução de Matheus Mavericco)

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4 comentários sobre ““Ode: prenúncios de imortalidade”, de Wordsworth, por Mavericco

  1. Muito boa a tradução. Já havia me aventurado com os poemas menores de Wordsworth, mas nunca fui muito fundo. Ele é um escritor que faz falta por essas bandas, e que Eugênio Gomes vaticinou que “não é artigo de exportação”…

  2. Aprofundar o pesar da vida eo sentir , as emoções em sua jornada que se chama vida … Mais ou menos menos assim que sinto …independente das interpretações profissionais que já li … erro ou não é assim que me intercepta , me impregna e me toca …

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