poesia, tradução

As “pensagens” de Laura Riding (1901 – 1991)

laura-ridingLaura Riding é uma dessas figuras polêmicas, porém subestimadas, do modernismo norte-americano. Nascida Laura Reichental, em 1901, numa família de judeus austríacos do Brooklyn, seus primeiros poemas começam a circular em revistas literárias na década de 20, assinados com o nome Laura Riding Gottschalk (“Gottschalk” sendo o sobrenome do marido à época, Loius Gottschalk; o “Riding” foi inteiramente criação dela). A partir de 1924, ela começa a publicar pela The Fugitive, uma das revistas mais importantes da época, e a conhecer outros grandes nomes das letras norte-americanas, como Hart Crane (com quem desenvolve uma forte relação de amizade), e. e. cummings, Malcolm Cowley e Edmund Wilson.

Seu casamento, porém, termina em divórcio, e em 1925 ela parte para a Europa para morar com o poeta, estudioso, tradutor e romancista Robert Graves (e sua esposa e filhos, diga-se de passagem), uma parceria emocional e intelectual que duraria 14 anos e que renderia frutos proveitosíssimos como o ensaio A survey of Modernist poetry (1927), que viria a influenciar o movimento conhecido como Nova Crítica. É em Londres que Laura assume oficialmente (no papel e tudo) o nome de Laura Riding, conhece mais alguns grandes nomes da poesia de língua inglesa (desta vez do além-mar: Eliot, Stein, Yeats, Pound…) e publica seu primeiro livro de poemas The close chaplet (1926), bem como alguns livros de ensaios – não necessariamente literários, como o Anarchism is not enough (1928). Junto com Graves, funda uma editora própria, a Seizin Press, para publicar os seus livros (e mais alguns de outros autores, como a G. Stein) e vai pouco a pouco se impondo na cena londrina hostil (e antissemita, para completar) do entreguerras.

Em 1929, porém, a vida à três tem um fim quando, após uma discussão, Riding e Graves (nessa ordem) tentam suicídio pulando do quarto e terceiro andar do prédio, respectivamente. Os dois sobrevivem, mas o acontecimento repercute em Londres, e Graves se divorcia da esposa, Nancy, para se mudar, junto com Laura, para a ilha de Majorca na Espanha, onde retomam o trabalho com a editora, publicando periódicos como o Epilogue. A Guerra Civil espanhola estoura, porém, em 1936, o que os obriga a retornar a Londres, onde Riding publica sua principal obra poética Collected poems (1938), com os 181 poemas de seus 9 livros anteriores, publicados entre 26 e 38 (os poemas anteriores a 26, publicados em periódicos, porém, não entram nesse volume). No entanto, mal imaginava Laura que ainda outra guerra estava prestes a irromper perto dela outra vez (e, lembremos, ela era judia), e por isso foi muito conveniente que em 1939 ela tivesse recebido o convite de um amigo dos EUA para retornar ao seu país natal. O casal parte, mas Laura rompe com Graves para se casar com o poeta amador Schyuler Jackson, e Graves retorna à Europa logo na sequência.

Como o fez também Paul Auster, famosamente (talvez, não por acaso, ele também um admirador da poesia de Riding), com a publicação de seus Collected poems, Laura renuncia à poesia e à vida pública. Agora Laura Jackson (ela, ao que parece, abandona o sobrenome “Riding”), ela passa a se dedicar, com o novo marido, a cuidar de um negócio de frutas cítricas e a escrever uma forma de dicionário (publicado postumamente, em 1997). É apenas em 1962 que ela retorna à cena literária, agora como prosadora, autora de livros como o meditativo The Telling (1972), dedicado ao marido, que morre em 1968. A partir de 1970, seus livros, sem reedição havia décadas, finalmente voltam a entrar em circulação. Laura morre em setembro de 1991, mesmo ano em que ganha o prêmio Bollingen de poesia. Por fim, em 1992, é lançada postumamente a coletânea First awakenings: the early poems of Laura Riding, reunindo os poemas escritos no período anterior à publicação de seu primeiro livro. Tem entre os seus admiradores nomes como Auden, Yeats, Williams, Pierre Jorris, Auster, Jerome Rothenberg, Pierre Jorris, Sylvia Plath, Charles Bernstein e John Ashbery.

MindscapesEm português, temos um volume traduzido pelo poeta, músico e tradutor Rodrigo Garcia Lopes, intitulado Mindscapes, publicado pela Iluminuras, que reúne 43 poemas da autora de diversos momentos de sua trajetória, do começo ao fim. Uma “mindscape”, um jogo de palavras com o termo “landscape” (paisagem), poderia ser traduzida como uma “paisagem mental”, ou pensagem, como põe Garcia Lopes na introdução do livro (uma belíssima introdução, aliás), e é um conceito importante para começar a abordar a poesia de Riding. O que os versos dela fazem, na maioria das vezes, não é tanto trabalhar com descrições de um referencial externo, mas com os movimentos da própria mente e da própria linguagem: “mapas de uma linguagem desperta, espaços verbais onde a linguagem e o pensamento desejam-se um”, comenta Garcia Lopes, recusando-se a “ser meras descrições de um mundo externo. Ou mesmo um cacho de imagens ou ‘objetos correlativos’ que conduzem a uma epifania. Elas buscam, ao contrário, um radical estranhamento, um questionamento do visível”. E isso tem consequências técnicas muito interessantes, na medida em que o trabalho com a metáfora feito por Riding envolve “submetê-la a um teste no decorrer no poema para assim mostrar a fisicalidade da mente em ação”.

Ao que me parece, curiosamente, essa descrição de sua poética é muito semelhante à que a crítica Megan O’Rourke faz em um comentário sobre a poesia de John Ashbery publicado na revista Slate, que ela vê como uma poesia difícil de se falar a respeito, porque o assunto dessa poética é a própria “consciência estética”, a “experiência da experiência”, também sem uma referência externa propriamente. Ashbery, não por acaso, foi um dos principais poetas influenciados por Riding (apesar de que ele, como nos aponta O’Rourke, parece-nos ter mais resquícios de anseios românticos do que Riding, mais radicalmente pós-romântica). Em português, apesar de que eu não arriscaria falar em influências, poderíamos talvez pensar numa relação entre a sua obra e a de Júlio Castañon Guimarães, no que se refere a esse metapensamento e a reflexão sobre a percepção.

Compartilho com vocês cinco poemas, então, do Mindscapes, como um aperitivo do restante do livro. Eu gostaria de uma hora, quando me sobrar tempo, também poder pegar alguns poemas da autora para traduzir pessoalmente. Tem um volume, disponível na Amazon, que me parece interessante e com um preço acessível, intitulado The Poems of Laura Riding: A Newly Revised Edition of the 1938/1980 Collection, que há de me servir de referência. É uma prepotência da minha parte, em alguma medida, já que, como Garcia Lopes comenta na introdução, foram oito anos de contato com a poesia de Riding até ele se sentir seguro das suas traduções (mas, de qualquer modo, acredito, todo ato de tradução de poesia é  um ato de hybris).

Adriano Scandolara

           

ENCARNAÇÕES

Não renegue,
Não renegue, coisa vinda de coisa,
Não renegue nessa vaidade nova
O velho pó original.

De que cova, de que passado de carne e osso
Sonhando, sonhando jazo
Debaixo da maldição auspiciosa,
Enfeitiçada, viva, esquecendo minha matéria-prima…
A morte não me permite um instante para lembrar

Temendo que, tal pedra de estátua transmutada demais,
Grão por grão eu recorde o pó original
E, olhando para baixo num degrau da memória, repita:
Eu nunca fui isso.

           

INCARNATIONS

Do not deny,
Do not deny, thing out of thing,
Do not deny in the new vanity
The old, original dust.

From what grave, what past of flesh and bone
Dreaming, dreaming I lie
Under the fortunate curse,
Bewitched, alive, forgetting the first stuff…
Death does not give a moment to remember in

Lest, like a statue’s too transmuted stone
I grain by grain recall the original dust
And, looking down a stair of memory, keep saying:
This was never I.

           

O MAPA DOS LUGARES

O mapa dos lugares passa.
A realidade do papel se rasga.
Onde terra e água estão,
Estão apenas onde já estavam
Quando palavras se liam aqui e aqui
Antes de navios acontecerem ali.

Agora de pé sobre nomes nus,
Sem geografias na mão,
E o papel é lido como antigamente,
E os navios no mar
Dão voltas e voltas.
Tudo sabido, tudo encontrado.
A morte cruza consigo por toda parte.
Buracos nos mapas dão em lugar nenhum.

           

THE MAP OF PLACES

The map of places passes.
The reality of paper tears.
Land and water where they are
Are only where they were
When words read here and here
Before ships happened there.

Now on naked names feet stand,
No geographies in the hand,
And paper reads anciently,
And ships at sea
Turn round and round.
All is known, all is found.
Death meets itself everywhere.
Holes in maps look through to nowhere.

           

FIM DO MUNDO

O tímpano está no fim.
A íris ficou transparente.
O sentido se desgasta.
Até o sentido está transparente.
A pressa alcança a pressa.
A terra arredonda a terra.
A mente encosta a mente.
Claro espetáculo: cadê o olho?

Tudo perdido, nenhum perigo
Força a mão heróica.
Corpos não se opõem mais
Um contra o outro. O mundo acabado
É semelhança em toda parte.
Caem os nomes do contraste
No centro que se expande.
O mar seco estende o universal.

Nem súplica nem negativa
Perturbam a evidência geral.
A lógica tem lógica, e eles ficam
Trancados nos braços um do outro,
Senão seriam loucos,
Com tudo perdido e nada que prove
Que até o nada sobrevive ao amor.

           

WORLD’S END

The tympanum is worn thin.
The iris is become transparent.
The sense has overlasted.
Sense itself is transparent.
Speed has caught up with speed.
Earth rounds out earth.
The mind puts the mind by.
Clear spectacle: where is the eye?

All is lost, no danger
Forces the heroic hand.
No bodies in bodies stand
Oppositely. The complete world
Is likeness in every corner.
The names of contrast fall
Into the widening centre.
A dry sea extends the universal.

No suit and no denial
Disturb the general proof.
Logic has logic, they remain
Locked in each other’s arms,
Or were otherwise insane,
With all lost and nothing to prove
That even nothing can live through love.

           

OCEANO, FILOSOFIA FALSA

Primeiro de todas as falsas filosofias,
O oceano arenga para os doidos,
Os lógicos possessos do romance.
Seu olhar oscilante, essa massa oscilante,
Se abraçam em perda perpétua
Oceano é pó rejeitado
Peneirado numa metáfora
Por uma fina renúncia,
É uma lenta diluição.

À deriva, ritmos mesmerizam
O livro mudo de sonhos.
As linhas entoam mas tão inaudíveis
O trajeto é veraz demais e não conhece
Nem naufrágio nem seqüela.

Otimismos em desespero
Embarcam nesse apático frenesi.
Cérebros frustrados em seus olhos
Descansam nessa imagem de monotonia
E desmaiam, agradecidos.
Ah, corações tão peculiarmente íntegros,
O Céu vos proteja, diante de tal argumento,
Para que continueis persuadidos e íntegros,
O Céu vos proteja, se puder,
Enquanto visões se ampliam até um zero aquoso
E a profecia se expande até a extinção.

           

SEA, FALSE PHILOSOPHY

Foremost of false philosophies,
The sea harangues the daft,
The possessed logicians of romance.
Their swaying gaze, that swaying mass
Embrace in everlasting loss—
Sea is the spurned dust
Sifted with fine renunciation
Into a metaphor,
A slow dilution.

The drifting rhythms mesmerize
The speechless book of dreams.
The lines intone but are not audible.
The course is overtrue and knows
Neither a wreckage nor a sequel.

Optimisms in despair
Embark upon this apathetic frenzy.
Brains baffled in their eyes
Rest on this picture of monotony
And swoon with thanks.
Ah, hearts whole so peculiarly,
Heaven keep you by such argument
Persuaded and unbroken,
Heaven keep you if it can
As visions widen to a watery zero
And prophecy expands into extinction.

           

O VENTO, O RELÓGIO, O NÓS

Enfim o vento entrou no relógio
Cada minuto por si.
Não há mais sessenta,
Não há mais doze,
É tão tarde quanto cedo.

A chuva desbotou os números.
As árvores nem ligam para o que acontece.
O tempo virou uma paisagem
De folhas suicidas e galhos estóicos
Que se despintam tão logo pintam.
Ou talvez seja exagero dizer isso,
Com o relógio se devorando
E os minutos com licença para morrer.

O mar não tem imagem alguma.
Ao mar, então, que agora é tempo,
E cada coração mortal um marinheiro
Jurado a se vingar do vento,
A relançar a vida aos dentes frágeis
De onde saiu o primeiro sopro,
Um desafio idiota ao que não sabia
Berrando ao redor do relógio estudioso.

Agora não há tic-tacs nem brisa.
O barco foi a pique com seus homens,
O mar com o barco, o vento com o mar.
O vento enfim entrou no relógio,
O relógio enfim entrou no vento,
O mundo enfim saiu de si.
Podemos enfim fazer sentido, eu e vocês,
Sobreviventes solitárias no papel,
A ousadia do vento e o zelo do relógio
Viram uma linguagem muda,
E eu a história que nela se calou
Algo mais a ser dito sobre mim?
Direi mais que a falsidade que se afoga
Possa repetir-me palavra por palavra,
Sem que o escrito se altere por um hálito
De querer dizer talvez outra coisa?

           

THE WIND, THE CLOCK, THE WE

The wind has at last got into the clock
Every minute for itself.
There’s no more sixty,
There’s no more twelve,
It’s as late as it’s early.

The rain has washed out the numbers.
The trees don’t care what happens.
Time has become a landscape
Of suicidal leaves and stoic branches
Unpainted as fast as painted.
Or perhaps that’s too much to say,
With the clock devouring itself
And the minutes given leave to die.

The sea’s no picture at all.
To sea, then: that’s time now,
And every mortal heart’s a sailor
Sworn to vengeance on the wind,
To hurl life back into the thin teeth
Out of which first it whistled,
An idiotic defiance of it knew not what
Screeching round the studying clock.

Now there’s neither ticking nor blowing.
The ship has gone down with its men,
The sea with the ship, the wind with the sea.
The wind at last got into the clock,
The clock at last got into the wind,
The world at last got out of myself.

At last we can make sense, you and I,
You lone survivors on paper,
The wind’s boldness and the clock’s care
Become a voiceless language,
And I the story hushed in it
Is more to say of me?
Do I say more than self-choked falsity
Can repeat word for word after me,
The script not altered by a breath
Of perhaps meaning otherwise?

           

(poemas de Laura Riding, traduções de Rodrigo Garcia Lopes)

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4 comentários sobre “As “pensagens” de Laura Riding (1901 – 1991)

  1. hay tan pocos poemas de Laura Riding en castellano!!!
    Lamento mucho no comprender bien ningún idioma salvo el mío 😦
    Igual te agradezco este acercamiento.
    Saludos desde Argentina

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