crítica, poesia, tradução

“A descida de Inana ao mundo dos mortos”

Relevo mesopotâmio em terracota,em exposição no British Museum conhecido como "Rainha da Noite", que, acredita-se, seria uma representação da deusa Inana/Ishtar

Relevo mesopotâmio em terracota,em exposição no British Museum conhecido como “Rainha da Noite”, que, acredita-se, seria uma representação da deusa Inana/Ištar, ou, possivelmente, sua irmã Ereškigal

“A descida de Inana ao mundo dos mortos” é o principal texto por trás de um dos mitos mais célebres do Oriente Médio: a narrativa de Tâmuz e Ištar. Como se sabe, Tâmuz era um deus da vegetação, consorte da deusa do amor, do sexo, da fertilidade e da guerra, e a cada ano, ao chegar o solstício de verão, quando ele morre e renasce, seus ritos envolveriam lamentos pela sua morte, e as águas do rio Adônis (hoje chamado Ibrahim), no Líbano, próxima à cidade antiga de Biblos (hoje Jubayl), avermelhadas por causa da lama, seriam manchadas por seu sangue. Essa é a narrativa padrão que temos e que, não por acaso, encontra ecos depois no mito grego de Vênus e Adônis (segundo o qual, o deus seria partilhado, durante meses diferentes, por Vênus e por Prosérpina, passando metade do ano no mundo dos vivos e metade no mundo dos mortos, segundo o ciclo das estações), um mito muito possivelmente importado através dos fenícios, considerando como Adônis, como o nome clássico do rio Ibrahim, é uma palavra de origem semítica, partilhando da mesma raiz ‘A-D-N que Adonai, com o sentido de “senhor”. Em todo caso, porém, se formos olhar bem o mapa do Oriente Médio, podemos observar que a Mesopotâmia fica a alguns bons quilômetros de distância de Biblos, e, uma vez que o mito de Tâmuz é originalmente sumério, observa-se que ele deve ter feito uma bela viagem para sair das margens dos rios Tigre e Eufrates e chegar ao rio Adônis. Mas há mais algumas coisas curiosas ainda em torno dessa história, que pretendo comentar aqui como introdução para a minha tradução do poema.

Antes de mais nada, alguns detalhes sobre nomes: Tâmuz é o nome que chega a nós pelo viés hebraico (תמוז). Até hoje ele é o nome do mês do calendário judaico equivalente a junho/julho – pleno verão, portanto – que os judeus derivaram a partir de um mês chamado Du’uzu do calendário babilônico, que homenageava o deus. Como se sabe, porém, a língua falada na Babilônia, especialmente à época do exílio dos judeus, não era o sumério, mas uma língua semítica, como o hebraico e o aramaico, que era o acádio (em que foi escrita a versão mais completa que temos do Épico de Gilgámeš), e Du’uzu seria um empréstimo de Dumuzi/Dumuzid – do sumério significando “filho (dumu) legítimo (zid)”. Além de uma divindade, Dumuzid também teria sido um rei do período pré-dinástico da Suméria, assim como Gilgámeš (conhecido em sumério como Bilgameš). O nome Ištar é também um nome acádio, e, assim como Vênus é um sincretismo feito pelos latinos com base na Afrodite grega, ela se baseia na deusa Inana dos sumérios, que residia em Úruk e que também estava associada ao planeta que hoje chamamos Vênus e que era conhecido entre os babilônios pelo nome Dilbat.

Dito isso, imagino que o mais surpreendente seja descobrir que o que parece ser um dos principais elementos do mito à primeira vista (a morte e renascimento do deus), é, na verdade, um elemento secundário que quase não aparece nas tabuletas que chegaram a nós. A situação é tão confusa que, quando traduziram pela primeira vez a tabuleta contendo “A descida de Inana ao mundo dos mortos”, o consenso inicial era que a deusa Inana estaria indo buscar o seu amado nos infernos, como faz o Orfeu grego. Porém, muito pelo contrário, ocorre é que Inana estava na verdade indo ao submundo por outros motivos – em sua maior parte desconhecidos, mas há autores que presumem que fosse uma tentativa de ampliar sua esfera de influência – e que, ao fracassar em sua empreitada, morrendo no caminho (por pouco não permanentemente), ela acaba era causando a morte do marido. Para dar mais detalhes, o problema é que não é permitido a ninguém (nem mesmo a uma deusa consideravelmente poderosa como Inana) voltar dos infernos, ou pelo menos não sem mandar alguém no seu lugar – e esse alguém acaba sendo Dumuzid, por ele não ter chorado a morte dela. Esse é o principal assunto do poema: a preparação de Inana para descer ao mundo dos mortos, sua morte ao tentar sentar no trono de sua irmã, Ereškigal, rainha dos mortos, e seu renascimento com Dumuzid sendo escolhido como substituto.

estrela-de-Inana

A estrela de Inana, um dos símbolos da deusa

Outras tabuletas – como “O sonho de Dumuzid” e “Dumuzid e Ĝeštinana” – relatam outros episódios do ciclo do mito, como a premonição de Dumuzid antes de os demônios aparecerem para buscá-lo e a perseguição que se deu, mas não consegui encontrar fontes sumérias que tratem mais longamente da parte posterior, sobre seu retorno, em que sua irmã Ĝeštinana, deusa do vinho (“Ĝešti” (diz-se Nheshti) é “videira” em sumério), acompanhada por uma Inana bastante arrependida, faz um acordo com Ereškigal, de modo que os dois irmãos passariam a se revezar no inferno ao longo do ano, introduzindo o aspecto de ciclos sazonais no mito, pelo qual ele viria a ser conhecido. Esse acordo está presente nos versos 404-410 da tabuleta, onde há menção a cada um passar uma metade do ano entre os mortos, mas, diferente de outras obras literárias que tratam de deuses de vegetação e ciclos sazonais, como, por exemplo, em grego, o “Hino Homérico a Deméter” (do século VII ou VI a.C.), a relação disso com o revezamento dos deuses não está bem explícita, e o papel exato de Dumuzid, que a princípio era um deus pastor, também fica obscuro.

Esse mesmo mito é recontado depois no poema em acádio “A descida de Ištar ao mundo dos mortos”, uma releitura contendo menos da metade dos versos do original sumério, que encurta consideravelmente a narrativa. “A descida de Ištar” também introduz alguns elementos importantes para a caracterização dos deuses, um dos quais é o de que nele a morte de Ištar faz com que todo tipo de fertilidade e desejo sexual cessem enquanto ela estiver no inferno, assim como, no mito grego, o tempo que Perséfone/Prosérpina passa no Hades faz com que venha o inverno. Ao que tudo indica, porém, há vários séculos que separam um poema do outro. “A descida de Ištar” foi escrito no período neo-assírio (entre 911 e 612 a.C., aproximadamente), ao passo que o original sumério teria algo entre sete e quatorze séculos a mais. E, falando em datas, como expõe Marie-Louise Thomsen em The Sumerian Language, há três períodos de história da produção textual suméria: o período do Antigo Sumério (2600 – 2200 a.C.), cujos textos são quase ilegíveis, porque o cuneiforme era usado apenas como auxílio mnemônico (o que faz com que detalhes gramaticais sejam ausentes nesses textos); o período Neossumério (2200-2000 a.C.), do qual faz parte a 3ª dinastia de Ur, que produziu textos como “A canção de amor de Šu-sin” e os poemas de Enheduana; e, por fim, o chamado Pós-sumério ou Paleobabilônico (2000 – 1600 a.C.), do qual datam a maioria dos textos do corpus poético que temos à disposição. É por causa de elementos gramaticais que Thomsen identifica que “A descida de Inana” só poderia ter sido escrito no período Paleobabilônico – e, de fato, é notável como os textos dessa época são mais complexos do que os das épocas anteriores.

Considerando então os comentários do profeta bíblico Ezequiel (que viveu em torno do século VI a.C.), condenando o culto idólatra a Tâmuz (Ez. 8:14-15), que já incorporava os elementos rituais de lamento pelo deus morto, temos aí, entre os anos 2000/1600 e 600 a.C., uns bons mil anos para o culto se disseminar e se desenvolver. Outra data importante é o ano de 1750 a.C., quando é instituído o calendário babilônico, como uma tentativa de aperfeiçoar o calendário sumério (que era lunar e no qual faltavam alguns dias para bater a contagem dos dias com a órbita da Terra), dividindo um ano de 354 dias em 12 meses, começando a partir da primavera, com um 13º mês sendo eventualmente decretado pelo rei para compensar as disparidades e corrigir o calendário. O fato de que Tâmuz ganha um mês dedicado a ele – e justo o mês em que se passariam os ritos relacionados ao lamento por sua morte – parece significativo, portanto, visto que outros deuses importantes do panteão babilônico – como Ánu, Ea, Sin, Šámaš e Ištar – também têm um mês dedicado a cada um.

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Inana e Dumuzid

A coisa toda fica ainda mais complicada quando lembramos que existia um outro deus, chamado Damu, que também morre e renasce e que, diferente de Dumuzid, que era um pastor, seria um deus da vegetação propriamente. Ele é mencionado no poema “Jornada de Niĝišzida ao mundo dos mortos”, que, ao que parece, a julgar pela complexidade do texto, deve datar do mesmo período que “A descida de Inana”. Segundo diversos autores, Damu e Dumuzid poderiam ser identificados um com o outro, de modo a representar diferentes aspectos – opostos-complementares, inclusive, vide a relação Caim e Abel, que parece encarnada de forma mais harmônica em Damu/Dumuzid – de uma mesma divindade. Enfim, é provavelmente impossível dizer como o mito de Inana e Dumuzid se desenvolveu até assumir a forma que viria a ser associada ao culto de Tâmuz. Fora “A descida” e os poemas em torno de sua narrativa, há 33 outros poemas sobreviventes sobre o casal, em estados diversos de conservação, tematizando o amor ou os jogos de sedução entre os dois deuses. Um deles (4.08.16 no ETCSL, o balbale a Inana (Dumuzid-Inana P), acessível clicando aqui), aliás, é particularmente digno de nota, ao representar um diálogo bastante pitoresco em que a deusa descreve seu sexo como um “campo úmido e bem regado”, pedindo para que Dumuzid venha lavrá-lo. Por isso é estranho que, com tantos poemas (e tão variados), nenhum deles que tenha sobrevivido trate mais longamente do trecho final do mito. Pode parecer um pouco obsessivo de minha parte (e, de fato, é), mas, para traçarmos uma comparação, o que acontece com o culto de Tâmuz/Dumuzid parece ser mais ou menos como se Jesus viesse a ser conhecido não pelo episódio da sua morte na cruz e ressurreição, descritos em todos os quatro evangelhos, mas pelo milagre mais obscuro da moeda na boca de um peixe para pagar o imposto do templo (Mateus 17:24-27) e se tornasse então o deus do pagamento de imposto. De quebra ainda, “A descida de Inana” termina com um verso dedicado não a Inana, heroína do poema, ou a Dumuzid, sua vítima, ou mesmo Ĝeštinana, por ter se sacrificado pelo irmão, mas a Ereškigal, que é quase a vilã da história: “Divina Ereškigal / doce é louvar-te”. Pois é.

Agora, sobre o poema em si: a história que ele narra, como é comum entre poemas de mitos, é bastante esquemática e apresentada segundo as convenções que parecem típicas da literatura suméria, como as fórmulas e repetições. Ele começa dizendo:

“Do vasto céu, voltou-se à terra vasta.
Do vasto céu, a deusa voltou-se à terra vasta.
Do vasto céu, Inana voltou-se à terra vasta.”

…onde se observa a mesma estrutura dos versos que abrem “O sonho de Dumuzid”:

“Ia ao campo, com o peito cheio de pesares.
O jovem ia ao campo, com o peito cheio de pesares.
Dumuzid ia ao campo, com o peito cheio de pesares.”

O primeiro verso anuncia o mote dos poemas (Inana, que rege os céus, se interessa pela terra, Dumuzid sai perturbado porque teve um sonho profético sobre sua morte), mas sem anunciar quem é o seu protagonista. O segundo alude ao protagonista por um título (diĝir, “divindade”, e ĝereš, “jovem”) e só no terceiro vemos o seu nome completo.

Enki

Enki, deus da criação, da sabedoria, da água e do logro

Depois desses versos de abertura, temos uma sequência enumerando todos os locais com templos dedicados à deusa onde ela abandonou o ofício divino para seguir ao mundo dos mortos, que optei por traduzir como “abismo” para manter algo do tom topológico da palavra kur, que em sumério também quer dizer “montanha”, além de “inferno”. Inana se prepara, então, e para isso prepara os sete me para acompanhá-la. Um me é um decreto universal de autoridade divina e é parte da concepção de mundo dos mesopotâmios, que é distribuído aos deuses pelo Pai Enki no poema “Enki e a Ordem do Mundo”. Aqui, porém, eles assumem a forma de peças de roupa, com as quais Inana se veste. A palavra é mencionada também em outros momentos do poema, como quando Enlil e Nana afirmam que “os me do abismo não são me que se deseje”.  Na tradução, para tentar captar esse sentido e evitar salpicar o poema de palavras sem tradução, optei por verter consistentemente a palavra me por “dom”/”dons”, que, acredito, capta algo dessa conotação religiosa do termo.

Na sequência, Inana se vira para Ninšubur, sua sukkal (algo como “cortesã”, “mensageira”), e lhe dá as instruções para o que ela deve fazer em sua ausência. Primeiro temos os atos de luto, depois o pedido de que Ninšubur visite Enlil, um dos deuses supremos, e Nana, deus da lua, pai de Inana e de seu irmão Utu, deus do sol (Šámaš em acádio), e, caso eles não possam ajudar, por fim, Enki, que conhece a erva da vida e a água da vida e poderá trazer Inana do mundo dos mortos, caso ela não retorne. Dito isso, ela parte e vem bater na porta de Ganzir, o palácio do mundo dos mortos, sendo atendida pelo porteiro Neti. Ela diz que vem visitar Ereškigal, sua irmã, que está de luto pela morte de seu marido Gugalana – literalmente “Grande Touro do Céu”. No Épico de Gilgámeš, como vimos na tábua 6 na tradução de Jacyntho Lins Brandão (clique aqui), Gugalana tem um papel importante, pois Ištar, após ser recusada pelo herói por causa do que aconteceu com Dumuzid e a outros heróis, pede a Ánu para que solte a imensa besta para vingá-la, mas o animal é morto por Gilgámeš e seu parceiro Enkídu. O Épico de Gilgámeš, porém, é um poema acádio, organizado primeiramente no período Paleobabilônico a partir de tabuletas anteriores individuais, que não formavam um todo coeso, mas um ciclo de episódios em torno do herói sumério, só depois ainda (1200 a.C.) assumindo a forma que conhecemos como definitiva. Na tabuleta original que trata do episódio de Gugalana, Inana está furiosa com Gilgámeš, mas o motivo é desconhecido e pode ter se perdido nas avarias sofridas pela argila. Em todo caso, não parece haver menção a Dumuzid – o que criaria um paradoxo curioso, pois Dumuzid morre porque Inana desce aos infernos, mas Inana só desce aos infernos após a morte de Gugalana, morto por Gilgámeš após Inana soltá-lo, porque Gilgámeš a recusou por não querer que lhe acontecesse… o que aconteceu (aliás, acontecerá!) com Dumuzid, amante de Inana!

Mas estou digredindo… em todo caso, Gugalana é só a desculpa dada por Inana, e uma desculpa que Ereškigal não engole. Suspeitando da irmã, ela manda Neti preparar sete portões, com cada um só se abrindo para ela após ela se despir de uma de suas sete peças de roupa (seus me, portanto). Passados todos os portões, ela chega aos infernos nua – e, mais do que isso, desprotegida. Ao tentar sentar-se sobre o trono de sua irmã, porém, Inana é julgada pelos juízes infernais, os Anuna, ou Anunaki (como os 3 juízes do Hades grego, só que 7 em vez de 3), e se transforma imediatamente num cadáver, pendurado num gancho.

Enquanto isso, Ninšubur suspeita que algo tenha dado errado e vai consultar os deuses. O único que a ajuda, como esperado, é Enki, criando da terra debaixo das suas unhas duas criaturas, que manda atrás de Inana, chamadas gala-tura e kur-ĝara, levando a erva da vida e a água da vida até ela. Os dois nomes são termos também para tipos de sacerdotes que aparentemente deviam cantar e dançar durante os ritos religiosos sumérios. De novo, para evitar cobrir o poema de termos não traduzidos, eu decidi arriscar uma tradução (meio à moda de Haroldo de Campos, quando verte o nome Qohélet, o Eclesiastes, como O-que-sabe) para eles, de modo que gala-tura se tornou “chora-miúdo” (gala é um tipo de sacerdote de lamentações, tur é pequeno) e kur-ĝara, “deita-abismo” (kur, como dito, é a palavra para “montanha” ou “abismo”, ĝar é mais ou menos o verbo “pôr”, presente em outros verbos compostos como a ĝar, “irrigar” (literalmente pôr água), igi ĝar (deitar os olhos), etc).

O plano de Enki dá certo, mas Inana descobre que não poderá fugir assim tão fácil do submundo e que precisa escolher alguém para morrer em seu lugar. Ela é escoltada por um bando de demônios chamados gala, e eles primeiro querem levar Ninšubur, mas Inana não deixa, porque ela cumpriu suas instruções e seria desleal recompensá-la assim. Depois eles se voltam para Šara e Lulal, mas ela também não quer que eles os levem. Por fim, eles flagram Dumuzid que não só não estava de luto como ainda parecia estar aproveitando que Inana tinha morrido. Dumuzid faz uma prece a Utu para que o transforme numa cobra e possa fugir, e o deus o concede, mas mesmo assim ele acaba capturado (esse trecho está descrito com mais detalhes no poema “O sonho de Dumuzid”). E então o restante da tabuleta está danificado demais para podermos entender direito o que se passa. Vemos que Inana chora a morte do marido, depois conta com a ajuda de uma mosca para reencontrá-lo. Então tem o acordo e o verso final de louvor a Ereškigal. E isso é uma das coisas frustrantes de se trabalhar com poemas dessa época.

A disparidade entre o que se sabe do culto de Tâmuz e a matéria do poema faz com que ele seja um tanto complicado de interpretar. Há algumas leituras junguianas do mito que o interpretam como aquela coisa de morte e renascimento pessoais (simbolizados pela passagem no inferno) e a necessidade de desapego do passado (simbolizada pelo despir-se da deusa), mas essa leitura beirando a auto-ajuda não parece se sustentar diante do texto em si, além de ser problemática por projetar como o “verdadeiro” sentido “por trás” do mito uma mensagem que é essencialmente burguesa, no sentido de que só é possível numa sociedade individualista (que não era o caso dos sumérios). Em vez disso, eu arriscaria dizer, parece que o foco principal do poema é a morte. Antes de partir, Inana explica a Ninšubur os atos adequados do luto (vestir-se como “alguém que nada possui”, carpir-se, bater tambor) e, quando conversa com Neti, comenta os ritos fúnebres de Ereškigal em honra a Gugalana. Quando ela retorna do inferno, consegue impedir que aqueles que estão de luto por ela sejam afligidos pelos demônios, mas não Dumuzid, que não respeitou esses ritos sagrados. As coisas que são levadas a ela para trazê-la de volta à vida são uma comida e água, duas coisas completamente ausentes na concepção suméria de inferno (os mortos só recebem o que comer e beber através das oferendas fúnebres). Até a presença da mosca parece simbólica nesse sentido, por ser um inseto ligado à morte e à putrefação. E, de quebra, podemos enxergar no poema um eco, séculos antes, da noção que virá a aparecer na Eneida (livro VI, v. 126-30) de Virgílio, na boca da Sibila que fala com Eneias, de que ir ao mundo dos mortos é fácil, difícil é sair (e ninguém melhor que Inana aqui para expor isso). O verso final de louvor a Ereškigal também parece corroborar essa possibilidade de leitura.

A minha tradução, como na outra vez com “A canção de amor de Šu-Sin”, se orienta na tradução disponível no Electronic Text Corpus of Sumerian Literature (clique aqui), mas, com o que eu pude aprender até agora de vocabulário e gramática do sumério, prestando atenção no original, também disponível no site, de modo a atentar para a estrutura dos versos e as possíveis nuances das palavras. Porque o final do poema está bastante danificado, eu pulei as partes que seriam difíceis de traduzir de modo satisfatório (as lacunas estão marcadas com (…)), dado o grau de ilegilibilade dos fragmentos, mas o restante está consideravelmente bem conservado e permite uma leitura ininterrupta.

Adriano Scandolara

Inana

 A descida de Inana ao mundo dos mortos

 

Do vasto céu, voltou-se à terra vasta.
Do vasto céu, a deusa voltou-se à terra vasta.
Do vasto céu, Inana voltou-se à terra vasta.
Minha senhora precipitou-se do céu e da terra, descendo ao abismo,
Inana precipitou-se do céu e da terra, descendo ao abismo.

Precipitou-se do sacerdócio em En e em Lagar, descendo ao abismo,
precipitou-se de Unug, em E-ana, descendo ao abismo,
precipitou-se de E-muš-kalama, em Bad-tibira, descendo ao abismo,
precipitou-se de Giguna, em Zabalam, descendo ao abismo,
precipitou-se de Barag-dur-ĝara, em Nibru, descendo ao abismo,
precipitou-se de Hursang-kalama, em Kiš, descendo ao abismo,
precipitou-se de E-Ulmaš, em Agade, descendo ao abismo.

Ela atou os sete dons,
uniu os dons e os atou com a mão,
com auspiciosos dons pôs o pé na estrada,
pôs um turbante cobrindo a cabeça ao ar livre,
com a mão ajeitou a cabeleira cobrindo a testa,
ao pescoço atou um pingente de lápis-lazúli.

Carregou o peito com um par de contas,
trajou sobre os ombros a pala, vestes régias,
passou kohl nos olhos, que a todos diz “vem, vem”,
prendeu o alfinete ao peito, que a todos diz “vem, vem”,
pôs na mão um anel de ouro,
empunhou a linha e bastão de lápis-lazúli.

Prosseguiu Inana ao abismo,
seguiu-a sua cortesã Ninšubur.

Divina Inana diz a Ninšubur:
“Vem, cortesã leal de E-ana,
minha cortesã das belas palavras,
minha emissária das fiéis palavras.
Agora devo descer ao abismo,
agora, quando chegar ao abismo,
vai, lança nas ruínas um lamento por mim.
Vai, bate no sacrário o tambor por mim.
Vai, faz na casa dos deuses vigílias por mim.
Carpe teu rosto, carpe o nariz,
carpe, em público, tuas orelhas,
carpe as coxas sem que vejam.
Como quem nada possui, veste um único andrajo,
e sozinha pisa em Ekur, casa de Enlil.

Ao entrares em Ekur, casa de Enlil,
chora diante de Enlil:
‘Pai Enlil, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’

Se então Enlil não for de ajuda, vai para Urim:
em Emudkura, em Urim,
ao entrares em Ekišnuĝal, de Nana,
chora diante de Nana:
‘Pai Nana, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’

Se então Nana não ajudar, vai para Eridug:
ao entrares em Eridug, casa de Enki,
chora diante de Enki:
‘Pai Enki, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!’

O Pai Enki, senhor de largo entendimento,
conhece a erva-da-vida, conhece a água-da-vida.
Que ele à vida me traga.

No que Inana seguiu ao abismo,
Ninšubur, sua cortesã, a seguia atrás.
Diz ela à sua cortesã Ninšubur:
“Vai, Ninšubur, me dá ouvidos,
não te descuides das palavras que eu te disse”.

Quando Inana chega a Ganzir, grão palácio,
golpeia os umbrais, em fúria, frente ao abismo,
grita aos portões, em fúria, do abismo:
“Abre as portas, Ó porteiro, abre as portas!
Abre as portas, Neti, abre as portas! Venho só e quero entrar”.

Neti, grão guardião do abismo,
diz à divina Inana, diz em resposta:
“Tu, quem és?”
“Sou Inana e sigo o rumo do Sol nascente”.
“Se és Inana e segues o rumo do Sol nascente,
o que te trazes ao abismo sem retorno?
por que então puseste no juízo esta via de onde ninguém retorna?”

Divina Inana lhe retorna:
“Morrera o marido de minha irmã mais velha,
divina Ereškigal, o senhor Gugalana.
Dou oferendas de suas honras fúnebres,
e ela tanta cerveja liba em sua honra – é por isso”.

Neti, grão guardião do abismo,
diz à divina Inana, diz em resposta:
“Espera, Inana, que direi à minha senhora,
direi à minha senhora Ereškigal, direi a ela tuas palavras”.

Neti, grão guardião do abismo,
vai à sua senhora Ereškigal,
e, ao entrar em sua casa, diz:
“Minha senhora, tem uma jovem aqui.
Tua irmã, Inana, chegou às portas de Ganzir, grão palácio.
Golpeou os umbrais, em fúria, frente ao abismo,
gritou aos portões, em fúria, do abismo,
precipitou-se de E-ana, descendo ao abismo.

“Ela atou os sete dons,
uniu os dons e os atou com a mão,
com auspiciosos dons pôs o pé na estrada,
pôs um turbante cobrindo a cabeça ao ar livre,
com a mão ajeitou a cabeleira cobrindo a testa,
ao pescoço atou um pingente de lápis-lazúli,

“Carregou o peito com um par de contas,
trajou sobre os ombros a pala, vestes régias,
passou kohl nos olhos, que a todos diz ‘vem, vem’,
prendeu o alfinete ao peito, que a todos diz ‘vem, vem’,
pôs na mão um anel de ouro,
empunhou a linha e bastão de lápis-lazúli”.

Nisso, Ereškigal bateu nas próprias coxas,
mordeu os lábios e guardou as palavras no peito,
disse a Neti, grão guardião:
“Vai, Neti, meu grão guardião do abismo,
não te descuides das palavras que te digo,
aldrava os 7 portões do abismo
e abre uma a uma as portas do palácio Ganzir
e então, quando ela entrar,
e agachar-se e despir-se das roupas, alguém irá levá-las”.

Neti, grão guardião do abismo,
dando ouvidos às palavras de sua senhora,
aldrava os 7 portões do abismo
e abre uma a uma as portas do palácio Ganzir
e diz à divina Inana:
“Vem, Inana, e faz tua entrada”.

Quando Inana entrou,
tiraram seu turbante, que cobria a cabeça ao ar livre:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo segundo portão,
tiraram do seu pescoço o pingente de lápis-lazúli:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo terceiro portão,
tiraram do seu peito o par de contas:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo quarto portão,
tiraram o alfinete do peito, que a todos diz “vem, vem”,
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo quarto portão,
tiraram de sua mão o anel de ouro:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo sexto portão,
tiraram de sua mão a linha e bastão de lápis-lazúli:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Quando entrou pelo sétimo portão,
tiraram de seu ombro a pala, as vestes régias:
“O que é isso?”
“Silêncio, Inana, cumpriu-se um dos ritos do abismo.
Inana, nada podes dizer dos dons do abismo”.

Após agachar-se e após despir-se das roupas, alguém as levou.
Quando sua irmã se ergueu do trono,
ela se assentou ao trono dela.
Os Anuna, os 7 juízes, passaram juízo contra sua presença:
deitaram olhos sobre ela: o olhar da morte,
pronunciaram-lhe palavras: as palavras da peste,
pesava nela a voz: a voz do sacrilégio.
Abalada, ela se fez numa carcaça,
e a carcaça foi suspensa num gancho.

3 dias e 3 noites se passaram,
mas sua cortesã Ninšubur
guardava à memória as palavras de sua senhora:
lançou nas ruínas lamento e mais lamento por ela,
por ela bateu no sacrário o tambor,
por ela na casa dos deuses fez vigília e mais vigília,
carpiu o rosto e carpiu o nariz,
carpiu as coxas sem que ninguém visse,
como quem nada possui trajou um só andrajo
e sozinha pisou em Ekur, casa de Enlil.

Ao entrar em Ekur, casa de Enlil,
ela chorou diante de Enlil:
“Pai Enlil, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”

Pai Enlil, de estômago revirado, responde, responde a Ninšubur:
“Minha filha desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Inana desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Dons do abismo não são dons que se deseje: quem os alcança o abismo detém.
Quem, ao chegar lá, desejará subir de volta?”

Pai Enlil não foi de ajuda, e ela foi a Urim,
em Urim, em Emud-kura,
entrar em Ekišnuĝal, casa de Nana,
chorou diante de Nana:
“Pai Nana, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”

Pai Nana, de estômago revirado, responde, responde a Ninšubur:
“Minha filha desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Inana desejou o vasto céu e desejou a terra vasta.
Dons do abismo não são dons que se deseje: quem os alcança o abismo detém.
Quem, ao chegar lá, desejará subir de volta?”

Pai Nana não foi de ajuda, e ela foi a Eridug,
entrar em Eridug, casa de Enki,
chorou diante de Enki:
“Pai Enki, não deixes ninguém prostrar tua filha no abismo,
nem pó misturar-se ao teu metal precioso,
nem o canteiro com pedregulhos lavrar tua pedra preciosa,
nem o carpinteiro com lenhos serrar tua madeira de lei,
não deixes a jovem Inana prostrar-se no abismo!”

Pai Enki responde, responde a Ninšubur:
“O que fez minha filha? Isto me aflige.
O que fez Inana? Isto me aflige.
O que fez a senhora de toda terra? Isto me aflige.
O que fez a rainha do céu? Isto me aflige”.
Ele apanhou o pó de sob a unha e criou o deita-abismo,
apanhou o pó de sob a outra unha e criou o chora-miúdo,
e ao deita-abismo deu a erva-da-vida,
e ao chora-miúdo deu a água-da-vida.

Diz o Pai Enki ao deita-abismo e ao chora-miúdo:
“Ide, conduzi vossos passos à terra dos que repousam,
voai, voai como moscas pela porta,
passai, passai como espírito pelas dobradiças.
Lá, por seus filhos,
repousa Ereškigal, mãe que dera a luz:
seus ombros sacros nenhum linho cobre,
seus seios não aleitam como um jarro,
seus dedos lhe são como machados,
seus cabelos como alho-poró na cabeça se enroscam.

“Quando ela disser, ‘ui, meu peito’,
dizei, ‘pronto, pronto, senhora, teu peito!’
Quando disser, ‘ui, minha costela’,
dizei, ‘pronto, pronto, senhora, tua costela!’
‘Quem sois?’, ela dirá,
‘Vos falo do peito ao peito, costela à costela,
se sois deuses, deixai-me falar convosco,
se mortais, que um destino por dom vos seja decretado’,
que ela jure pelo alento do céu e o alento da terra.

“Toda a água de um rio vos será ofertada – não aceiteis.
Todo o grão de uma gleba vos será ofertado – não aceiteis.
‘Entrega-nos a carcaça que pende no gancho’, dizei, e ela dirá:
‘esta carcaça é vossa rainha’,
‘seja ela nosso rei, seja nossa rainha, entrega-a’, dizei,
e a carcaça que pende no gancho será entregue.
Dentre vós um sobre ela lançará a erva-da-vida, o outro, a água-da-vida.
E Inana levantará”.

O chora-miúdo e o deita-abismo deram ouvidos às palavras de Enki,
voaram, voaram como moscas pela porta,
passaram, passaram como espírito pelas dobradiças.
Lá, por seus filhos,
repousava Ereškigal, mãe que dera a luz:
seus ombros sacros nenhum linho cobria,
seus seios não aleitavam como um jarro,
seus dedos lhe eram como machados,
seus cabelos como alho-poró na cabeça se enroscavam.

Ela disse, “ui, meu peito”,
e eles disseram, “pronto, pronto, senhora, teu peito!”
Ela disse, “ui, minha costela”,
e eles disseram, “pronto, pronto, senhora, tua costela!”
“Quem sois?”
“Vos falo do peito ao peito, costela à costela,
se sois deuses, deixai-me falar convosco,
se mortais, um destino por dom vos seja decretado”,
jurou pelo alento do céu e o alento da terra. (…)

Toda a água de um rio lhes foi ofertada – não aceitaram.
Todo o grão de uma gleba lhes foi ofertado – não aceitaram.
“Entrega-nos a carcaça que pende no gancho”, disseram.
Divina Ereškigal respondeu ao chora-miúdo e ao deita-abismo:
“Esta carcaça é vossa rainha”,
“seja ela nosso rei, seja nossa rainha, entrega-a”, disseram,
e a carcaça que pende no gancho foi entregue.
Deles um sobre ela lançou a erva-da-vida, o outro, a água-da-vida.
E Inana levantou.

(…)
Pelas palavras de Enki, Inana voltava do abismo,
Inana voltava do abismo,
quando os Anuna a detêm:
“Quem já voltou do abismo? voltou vivo do abismo?
se Inana quer voltar do abismo,
que outra cabeça seja dada pela sua”.

Inana voltava do abismo.
À frente alguém, sem ser cortesão, empunhava um cetro,
atrás alguém, sem ser emissário, levava um porrete no cinto,
os demônios pequenos, como uma cerca,
e os grandes demônios, como um matagal, a detinham de todos os lados.

Aqueles que iam com ela,
aqueles que iam com Inana,
desconhecem erva, desconhecem água,
não comem a farinha ofertada,
não bebem a água libada,
não aceitam belas dádivas,
não gozam das belas carícias do amor,
filho nenhum docemente os beija.

Eles separam o marido da esposa,
carregam o filho do colo dos pais,
expulsam a noiva da casa dos sogros.

Voltando Inana do abismo,
nas portas de Ganzir, Ninšubur cai aos pés dela:
vestia andrajos, sentava no pó.
Os demônios dizem à divina Inana:
“Vai para tua cidade, nós a levaremos”.

Divina Inana responde, responde aos demônios:
“Ela é minha cortesã das belas palavras,
minha emissária das fiéis palavras,
ela deu ouvidos aos meus conselhos,
não se descuidou das minhas palavras,
lançou nas ruínas lamento e mais lamento por mim,
por mim bateu no sacrário o tambor,
por mim na casa dos deuses fez vigília e mais vigília,
carpiu o rosto e carpiu o nariz,
carpiu as coxas sem que ninguém visse.

“Na casa de Enlil, em E-kur,
na casa de Nana, em Urim,
na casa de Enki, em Eridug,
ela pisou, sozinha,
e me trouxe à vida:
como poderia entregá-la?
Vamos, vamos a Šeg-kuršaga, em Umma”.

Em Šeg-kuršaga, em Umma,
Šara, em sua cidade, cai aos pés dela:
vestia andrajos, sentava no pó.
Os demônios dizem à divina Inana:
“Vai para tua cidade, nós o levaremos”.

Divina Inana responde, responde aos demônios:
“Šara é quem canta para mim
e faz minhas unhas e meu cabelo:
como poderia entregá-lo?
Vamos, vamos a E-muškalama, em Bad-tibira”.

E-muškalama, em Bad-tibira,
Lulal, em sua cidade, cai aos pés dela:
vestia andrajos, sentava no pó.
Os demônios dizem à divina Inana:
“Vai para tua cidade, nós o levaremos”.

Divina Inana responde, responde aos demônios:
“Lulal me segue aqui e acolá, aonde for:
como poderia entregá-lo?
Vamos, vamos às campinas de Kulaba, onde brota a macieira”.

Eles seguiram seus passos até as campinas de Kulaba, onde brota a macieira.
Lá Dumuzid ostentava vestes majestosas, sentado majestoso sobre o trono.
Os demônios o agarram pelas coxas,
os 7 despejam seu leite do manteigueiro,
(…)

Deitou olhos sobre ele: o olhar da morte,
pronunciou-lhe palavras: as palavras da peste,
pesava nele a voz: a voz do sacrilégio.
“Vós demorais. Levai-no!”
Divina Inana entrega assim Dumuzid nas mãos deles.
(…)

Divina Inana chorou lágrimas aflitas por seu esposo.
(…)

“Você metade do ano, e sua irmã metade do ano:
o dia em que fores convocado é o dia em que ficarás,
o dia em que sua irmã for convocada é o dia em que serás liberto”.
Divina Inana deu Dumuzid em seu lugar.

(…)
Divina Ereškigal,
doce é louvar-te.

(comentário e tradução de Adriano Scandolara)

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