poesia, tradução

Shelley – duas cenas do ato 3 de Prometheus Unbound

percy-shelleyE eis que, por alguma curiosa coincidência, ocorreu que eu acabei, finalmente, defendendo a minha dissertação (que trata de Shelley) nessa última sexta-feira, dia 2, enquanto o aniversário de 221 anos do poeta, nascido em 1792, se deu ontem, dia 4 de agosto. Dada a ocasião, então, parece-me apropriado fazer um post (duplamente) comemorativo.

Eu já tratei da poesia de Shelley aqui no escamandro em dois posts anteriores: primeiro, em um com a “Ode ao Céu”, onde pode-se ler um pouco de sua biografia, e depois em um outro post com os seus dois “Hinos”, de Apolo e de Pã, junto de um breve comentário elucidativo. O poema que gostaria de compartilhar agora, então, é, na verdade, um pedaço de um poema maior, o seu drama lírico de 1820 intitulado Prometheus Unbound, que foi o objeto da minha dissertação.

Prometheus Unbound, que optei por traduzir como Prometeu Desacorrentado, é uma reelaboração romântica da peça perdida de Ésquilo de mesmo nome (Promētheus Lyomenos), que faz parte da trilogia do tragediógrafo sobre o mito de Prometeu. Como se sabe, Prometeu foi o titã punido por Zeus por roubar o fogo dos deuses e dá-lo à humanidade, e a peça esquiliana Prometeu Acorrentado descreve essa punição em detalhes, da crucificação do titã no Cáucaso ao seu lançamento no Tártaro. Há algumas coisas que complicam a situação, porém: Prometeu (do grego pro + metheus, que significa algo como pré-vidente) sabe de coisas acerca do futuro, concernentes à queda de Zeus nas mãos de um filho mais forte do que ele, que seria gerado com Tétis. Zeus, por sua vez, envia Hermes para interrogar Prometeu, que, apesar de resistir na primeira peça, acaba, segundo a narrativa mitológica, entregando o segredo. Zeus dá Tétis em casamento a Peleu, então, que com ela gera Aquiles, e Prometeu é finalmente libertado, nas mãos de Hércules – considerando-se, daí, que ele é acorrentado logo após a Titanomaquia, e Hércules é descendente de Io, que aparece em P.A., passam-se pelo menos 12 gerações humanas ao longo desse ciclo mítico (mais talvez, se considerarmos a possibilidade de o Hércules que o liberta ser o Hércules morto e divinizado).

dirck van baburen - prometeu

Mas Prometeu recebe uma verdadeira veneração pelos poetas românticos tal como não possuía entre os gregos (que, até onde pode-se notar, enxergavam a sua resistência ferrenha como uma falha de caráter). São prova disso os inúmeros poemas dedicados a ele, como o da autoria de Goethe (poema e tradução aqui neste blog), de Byron (já postado e traduzido aqui no escamandro pelo Vinicius Barth), a peça musical de Beethoven (As Criaturas de Prometeu), e o próprio Prometeu Desacorrentado de Shelley, entre outros exemplos que me fogem à memória no momento. Em consonância com esse sentimento romântico, Shelley, conforme expresso em seu prefácio, era “avesso a uma catástrofe [no sentido dramático, de conclusão de uma peça teatral] tão flébil quanto a reconciliação do Campeão com o Opressor da humanidade” e, por isso, altera o final para que a libertação de Prometeu só se dê com a queda de Jove. Há mais coisas em questão, no entanto, que não convém comentar aqui, pelo bem da brevidade, mas Jove representa, na peça de Shelley, toda forma de poder e violência – e, com a sua queda, toda forma de poder e violência é abolida no mundo, humano e natural.

Gostaria, então, de compartilhar a minha tradução de um trechinho importante da peça, que é o começo do ato 3. Prometeu Desacorrentado tem 4 atos: o primeiro se concentra no sofrimento de Prometeu; o segundo tem como foco a viagem de Ásia e Panteia, duas oceânides (em P. A., o coro é composto de oceânides, ninfas filhas de Oceano, que tentam consolar Prometeu), que vão em uma jornada até Demogórgone (a entidade destinada a derrubar Jove: é uma criação de Shelley com base numa invenção mitológica medieval); o terceiro ato, por sua vez, é o que começa com a queda de Jove propriamente dita; e o quarto encerra a peça com uma canção de celebração, em que Demogórgone fornece a fórmula para regenerar o mundo caso ele caia outra vez na tirania de algum novo opressor.

O trecho abaixo consiste nas duas primeiras cenas do ato 3 e representa o momento em que Demogórgone invade o Olimpo e destrona Júpiter, seguido por um diálogo sereno entre Apolo e Oceano que descreve a queda do tirano e a paz após. Segundo Bloom, esta segunda cena contém alguns dos melhores versos de Shelley, e eu bem que concordo… imagino que talvez fosse mais ilustrativo demonstrar algum outro trecho que contivesse os famosos versos de canção da peça, que apresentam todo o virtuosismo formal do poeta, mas, em parte porque ainda preciso dar mais uma revisadinha no que eu traduzi das canções, em parte pela beleza mesmo desse trecho, que ele acabou sendo escolhido aqui como um aperitivo do poema. E torçamos para que eu consiga publicar o poema inteiro no futuro.

O original, tanto desse trecho, quanto do Prometheus Unbound inteiro, pode ser conferido clicando aqui.

Adriano Scandolara.

                                                     

                                                      PROMETEU DESACORRENTADO

ATO III

Cena 3.1.
Céu.
Júpiter no seu trono; Tétis e as outras deidades em assembleia.

JÚPITER
Congregados poderes do céu, sócios
Da força e glória deste a quem servis,
Regozijai! Onipotente agora
Sou, tudo me é submisso; solitária,
A humana alma, como fogo vivo,
Queima ao céu ainda com feroz censura e dúvida
E lamentos e preces relutantes,
Lançando insurreições, que tornar podem
Nosso império inseguro, embora fixo
Na ancestre fé, e o coevo infernal, medo;
E pelas minhas pragas pelo ar pêndulo,
Qual neve em picos nus, cai floco a floco,
Agarrando-o, na noite da ira minha
Galga as penhas da vida, passo a passo,
Que a fere, como o frio fere o pé nu
Sobre a miséria permanece, excelsa,
Irreprimida, mas ruinosa em breve:
Mesmo agora gerei portento estranho,
A criança fatal, terror da terra,
Que aguarda chegar destinada hora,
Do ermo assento levar, de Demogórgone
Hedionda força em membros sempre-vivos
Trajando o torvo incontemplado espírito,
A redescer e a chama pisotear.
Jorra o vinho celeste, Ganimedes,
Encha qual fogo os cálices dedáleos,
E do solo divino enflorescente
As harmonias vossas todas subam,
Como orvalho da terra sob estrelas:
Bebei! Que o néctar fluindo em vossas veias
Seja a alma da graça, imortais Deuses,
Até a exultação ’stourar em única
Voz, qual canção de elísio vento.
                                                          E tu
Ascenda ao lado meu, velada em luz
Do desejo que faz-te una comigo,
Tétis, da eternidade clara imagem!
Quando gritastes, “Insofrível força!
Deus! Poupai-me! Destroem-me as prestas chamas.
Penetrante presença; é o meu ser
Como aquele em orvalho liquefeito
No veneno da sépis da Numídia,
E afunda em suas bases”, mesmo agora
Dois espíritos fortes um terceiro
Fizeram, mais que os dois, que ora incorpóreo,
Aqui paira, sentido, incontemplado,
Esperando encarnar, e que se eleva
(Ouvis o estrondo de ígneas rodas contra
Os ventos?) de onde senta Demogórgone.
A vitória, a vitória! Não o sentes,
Mundo, o tremor do carro seu a troar
No Olimpo?

         [A carruagem das horas chega
         Demogórgone desce e se move
         em direção ao trono de Júpiter.

Forma horrenda, que és? Fala!

DEMOGÓRGONE
O eterno. Nome mais atroz não peças.
Desce e segue-me até o profundo abismo.
Filho teu sou, como és filho a Saturno;
Mais que ti forte: e juntos de habitar
Hemos nas trevas. Teus trovões não ergas.
Tirania do céu ninguém mais há
De reter, reassumir, manter pós ti:
Mas se quiseres, como o destino é
De pisoteados vermes debaterem-se,
Oponha-me.

JÚPITER
                           Prodígio detestado!
Sob o mais baixo cárcere titânico
Piso-te! Não?

                           Clemência! Ó, clemência!
Sem dó, alívio, livramento! Ó,
Que em juiz meu fizésseis meu imigo,
Preso, crestado por vingança infinda,
No Cáucaso! Menor ruína seria.
Bom, impávido e justo, não é ele
Senhor do mundo? O que és tu, então?
Sem fuga ou rogo!

                                    Pois comigo afunde,
N’ampla vaga da ruína afundaremos,
Como abutre e serpente, que exauridos
Caem, numa inextricável luta envoltos,
Num mar sem praias. Que os infernos soltem
Seus montes de ígneos, árdegos oceanos,
E imersa co’eles ao vazio sem fundo
Eu e tu e esse mundo desolado,
Conquistador e conquistado, e restos
Da razão de enfrentarem-se.

                                                        Ai, Ai!
Elementos rebelam, zonzo afundo
Ao fundo, sempre, sempiterno, ao fundo
E, qual nuvem, o imigo meu acima,
Tolda-me a queda, triunfal! Ai, Ai!

Cena 3.2.
A foz de um grande rio na ilha de Atlântida.
Oceano é descoberto reclinando-se próximo à praia;
Apolo está em pé ao seu lado.

OCEANO
Ele caiu sob seu conquistador?

APOLO
Sim, findando-se a lida que turvou
Meu orbe, e abalou os astros sólidos,
Seu olhar em terror clareou o céu
Com luz sanguínea, pelas grossas franjas
Das trevas vitoriosas, com sua queda:
Como a luz-estertor de um rubro dia,
Que, de um rasgo entre nuvens flamejantes,
Queima em voragens procelissulcadas.

OCEANO
Ao abismo afundou? Ao vazio negro?

APOLO
Um’águia envolta em nuvem carregada,
As atônitas asas, pelo Cáucaso
Embrenhadas nos vendavais, seus olhos
Que o sol miraram sem se ofuscar, cegos
Pelo alvo raio, e a saraiva dura
A faz se debater, e enfim afunda
Prostrada, e gelo aéreo nela prende.

OCEANO
Os campos do celirreflexo mar,
Meu reino, imaculados arfarão,
Ora, sob as correntes, como glebas
Que o ar do estio oscila, fluirão rios
Por populosos continentes, por
Faustosas ilhas; de seu vítreo trono
Azul Proteu, com áqueas ninfas, sombras
De navios marcará, como mortais
Veem o lenho da lua luminosa
Com o alvo astro, a fronte do seu cego
Nauta, no poente de vazante rápida
Não mais seguindo por gemidos, sangue,
Desamparos e a mista voz de mandos
E escravidão; mas pela luz das flores
Que ondas refletem, e os olores aéreos,
E música de brandas, livres vozes,
Mais doce música, a que adoram ’spíritos.

APOLO
E eu feitos mirarei não que escurecem
Minha mente com mágoas, como o eclipse
Tolda a ’sfera que guio; mas ouve, escuto
O argênteo lude límpido do Espírito
Sentado sobre Vésper.

OCEANO
                                             Deves ir;
Teus corcéis pararão à noite, adeus
Até então, chamam-me com fome os pélagos
Da calmaria azul de esmeraldeadas
Urnas, plenas ao lado do meu trono.
Nereidas sob o verde mar contempla,
Membros fluem em correntes como o vento,
Às fluidas comas levam alvos braços
Com diademas de flor astral do mar,
E a pressa de agraciar a grande irmã.
[Ouve-se um som de ondas]
Carece o mar pascer de calmaria,
Paz, monstro; chego já. Adeus.

APOLO
                                                       Adeus.

(poesia de Shelley, tradução de Adriano Scandolara)

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6 comentários sobre “Shelley – duas cenas do ato 3 de Prometheus Unbound

  1. Inês Parolin. disse:

    Oi, Adriano. Agora já vi q vc traduziu o drama completo do Shelley no seu mestrado. Vc já publicou ou a dissertação taria disponível no Domínio Público? Tenho uma aluna da Graduação em Letras q leu UMA DEFESA DA POESIA e agora gostaria de ler PROMETEU DESACORRENTADO, pra pensar uma relação entre as duas obras, a partir do q Shelley teoriza em relação ao Drama. Não localizamos nenhuma tradução completa da peça, em português. Brigada. Abraço.

    • Olá, Inês! Obrigado pelo contato. A minha tradução, no momento, está passando por uma última etapa de revisão antes de eu mandá-la para a editora (estou conversando com o editor da Autêntica, que publicou recentemente o Propércio do Gontijo… planejamos fazer uma edição um pouco mais completa, com outros poemas também e tal). Posso mandar a versão final da minha dissertação (a que eu depositei na biblioteca) por e-mail, se vocês quiserem, mas o arquivo conta só com uma versão parcial da tradução (o primeiro ato e o começo de cada cena seguinte). Um abraço!

  2. Inês Parolin. disse:

    Oi, Adriano. Cê tá bem? Desculpa não ter te retornado antes: primeira vez que posto comentário em blog (ou no que quer que seja, na web) e fiquei esperando a resposta lá no meu email… rsrsrsrsrsrs
    Já vi a edição do Propércio. Curti muito, tá muito cuidada, e pela primeira vez, completa.
    Vc pode enviar a versão final da dissertação no meu email, então? Já vai ser bem legal, pois a aluna só achou a tradução do terceiro ato, e não tá confiável, tá sem notas ecc. Brigadão. Abço.

  3. Pingback: PROMETEU DESACORRENTADO – Reflexões sobre Tecnologia e Colapso Sócio-Ambiental com Hans Jonas (1903 – 1993) | A CASA DE VIDRO.COM

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