crítica de tradução, poesia, tradução

Emily Dickinson e suas traduções – Parte II

Emily-Dickinson

[Para as outras postagens deste ciclo: parte I (biografia, introdução, mais uma tradução de P. H. Britto), parte III (sobre a tradução de Isa Mara Lando), parte IV (Augusto de Campos), parte V (José Lira)]

Algumas semanas atrás eu dei início a algo como um esboço de um ciclo aqui no escamandro sobre traduções de Emily Dickinson. Esta agora é a primeira postagem em que daremos uma olhadinha mais detida no primeiro livro da seleção aqui de traduções da Dickinson, o Poemas escolhidos, selecionado e traduzido por Ivo Bender (L&PM Pocket, 2005). Como a Denise Bottmann, sempre muito solícita, me apontou em comentário à postagem anterior, há um projeto da UNESP (clique aqui), dedicado a catalogar as traduções da Dickinson em português (um trabalho inestimável para qualquer um que queira arriscar traduzi-la), mas, como a lista não está 100% atualizada (falta, por exemplo, o volume mais recente de José Lira), acredito que eu ainda assim precise dar continuidade a esse trabalho, o que, como pretendo demonstrar também, inclui dizer algumas palavrinhas sobre o projeto de tradução de cada volume. De qualquer forma, esse link me foi útil para complementar a coleção. Meu plano agora é tratar desses 4 livros que tenho comigo, depois, se possível, dizer algo dos que faltam por enquanto.

Comecemos, portanto, com a seleção. Segundo o tradutor, foi dada preferência a poemas que, em sua maioria ainda não tivessem circulado em tradução, o que explica a ausência de certos hits como “I am nobody” ou “This is my letter to the World”, apesar de contar com outros listados entre os mais traduzidos (para esta lista no site da UNESP, clique aqui) como “I died for beauty”, “Success is counted sweetest” e “There is a certain Slant of light”. Há algumas escolhas particularmente marcantes, no entanto. O dolorosíssimo poema “How the Waters closed above Him” é dos mais peculiares, tendo como tema a morte de um menino afogado, e, ao que podemos averiguar, apenas Lucia Olinto, em sua coletânea 75 Poemas também incluiu este poema em sua seleção. Outro poema dos mais curiosos (sobretudo por demonstrar aquilo que eu, se pudesse batizá-lo, chamaria carinhosamente de “blasfêmia fofa”) é “The Gentian weaves her fingers” que parece ser exclusivo da coletânea de Bender.

EPSON scanner imageEnfim, tal como estão na ordem que aparecem neste volume, os poemas que Bender traduziu foram os seguintes: “The Grass so little has to do”, “There is a June when Corn is cut”, “The morns are meeker than they were”, “Purple – The Color of a Queen, is this -“, “The name – of it – is ‘Autumn'”, “There is an arid Pleasure -“, “Besides the Autumn poets sing”, “The day grew small, surrounded tight”, “It sifts from Leaden Sieves -“, “When Diamonds are a Legend”, “The Spider holds a Silver Ball”, “The butterfly obtains”, “His Feet are shod with Gauze”, “Some such Butterfly be seen”, “A Moth the hue of this”, “Through the Dark Sod – as Education”, “Is little Ether Hood”, “The Red – Blaze – is the Morning -“, “How lonesome the Wind must feel Nights”, “I think that the Root of the Wind is Water”, “The Lightning is a yellow Fork”, “‘Morning’ – means ‘Milking” – to the Farmer”, “I was a Phoebe – nothing more”, “Talk not to me of Summer Trees”, “As if the Sea should part”, “There is a Zone whose even Years, “I dwell in Possibility”, “There is a certain Slant of light”, “Four Trees – upon a solitary Acre”, “Forbidden Fruit a flavor has”, “Many cross the Rhine”, “How good his Lava Bed”, “Morning is due to all”, “The Robin for the Crumb”, “And Everywhere of Silver”, “His Cheek is his Biographer”, “Look back on Time, with kindly eyes”, “Remembrance has a Rear and Front”, “The Props assist the house”, “Alone, I cannot be – “, “One need not be a chamber – to be Haunted -“, “The sacred Closet when you sweep”, “The One denied to drink”, “The Doomed – regard the Sunrise”, “We lose – because we win”, “Success is counted sweetest”, “Drama’s Vitallest Expression is the Common Day”, “You cannot put a Fire out”, “Pain – has an Element of Blank -“, “When One has given up One’s life”, “After great pain, a formal feeling comes -“, “The Heart has narrow Banks”, “The Bee is not afraid of me”, “Long Years apart – can make no”, “A little Snow was here and there”, “I envy Seas, whereon He rides -“, “I had not minded – Walls -“, “I see thee better – in Dark -“, “‘Tis customary as we part”, “All the letters I can write”, “My Life had stood – a Loaded Gun -“, “Whether they have forgotten”, “In Ebon Box, when years have flown”, “Not probable – The barest Chance -“, “Me from Myself – to banish -“, “A shady friend – for Torrid days -“, “Sweet hours have perished here;”, “I felt a Funeral, in my Brain”, “As far from pity, as complaint”, “It came at last but prompter Death”, “Truth – is as old as God -“, “The Soul selects her own Society -“, “All overgrown with cunning moss”, “The Gentian weaves her fingers -“, “The World – feels Dusty”, “On this long storm the Rainbow rose -“, “I never lost as much but twice”, “We cover Thee – Sweet Face -“, “How the Waters closed above Him”, “If I should cease to bring a Rose”, “I died for Beauty – but was scarce”, “Where I have lost, I softer tread”, “I like a look of Agony”, “Dropped into the Ether Acre”, “How soft this Prison is”, “Safe in their Alabaster Chambers”, “The earth has many keys”, totalizando – salvo erro meu – 87 poemas num voluminho de cerca de 120 páginas.

No que diz respeito ao projeto de tradução, Bender deixa claro no prefácio do livro que o seu objetivo não era o rigor formal. Por isso, nota-se uma preferência pela rima toante em vez da rima perfeita (como em “nozes” e “rosas” em “The morns are meeker…”), havendo às vezes até mesmo a sua completa ausência, o que, apesar de parecer extremo em alguns casos, é justificado pelo próprio método de Dickinson que muitas vezes emprega as rimas assim, o que, quando se soma o fato de que ela rima apenas os últimos versos de cada dístico (em esquema x-a-x-a em vez de a-b-a-b), permite concluir que as rimas, ainda que muitas vezes presentes, não eram o seu foco.

Além disso, diferente de Paulo Henriques Britto, que propõe uma forma de “equivalência” métrica entre o ballad meter inglês e a nossa redondilha maior, que lhe serve como base para inserir pequenas irregularidades (de uma ou outra sílaba a mais ou a menos por verso), tal como se vê no ballad meter caracteristicamente dickinsoniano, Bender preferiu uma abordagem mais semântica. Por isso, ao que tudo indica, ele abdica do metro. Quem escandir os versos de sua tradução, no entanto, verá que há uma tendência geral por uma variação em torno das 7 ou 8 sílabas, por vezes 6, por vezes até mais, chegando até 10 ou 12. Em alguns casos há versos curtíssimos, di ou trissilábicos, justificados por construção semelhante no original (quando Dickinson substitui seus trímetos por dímetros, por exemplo), mas vez ou outra sente-se que algo da frouxidão formal acaba fazendo mal ao ritmo do poema. Um exemplo é “I see thee better – in Dark”, cuja solução para a estrofe final, sobretudo o último verso, me parece problemática. Reproduzo abaixo:

Que utilidade há no dia
Para quem, em sua treva,
Um sol possui tão intenso
Fadado a pairar no Meridiano continuamente?

What need of Day
To Those whose Dark  hath so  surpassing sun
It deem it be  Continually
At the Meridian?

A necessidade de manter o sentido parece ter levado a um efeito de bola de neve, de forma que o sol do segundo verso passa para o terceiro, e o “fadado” (It deem it be) e todo o resto acabam no último, encerrando o poema estranhamente num advérbio e com um verso bizarramente longo (ditongando os encontros de vogais, conto 14 sílabas). Quando se pensa que o ballad meter é um verso bastante musical (não por acaso tem esse título), é inevitável e até um pouco engraçado imaginar alguém terminando uma canção com um verso cuja contagem silábica daria o dobro do normal. Enfim, longe de mim maldizer, é claro, a tradução de Bender, até porque esses casos estranhos aqui são raros e no geral o projeto dele é bem sucedido, mas acredito que seja importante frisar que essa abordagem, priorizando a semântica ainda que dentro de um projeto de tradução ostensivelmente poética, não vem lá sem os seus riscos. No entanto, considerando que há uma facilidade maior envolvida nesse método, é provável que ele fosse o único capaz de um dia dar conta de algo que se aproxime de uma possível obra completa (ou quase) de Dickinson.

E, ah, um último detalhe. Bender, apesar de manter cá e lá um travessão ou outro, foi da opinião de que os travessões em Dickinson não são necessários, já que a função deles “ainda está por ser definida pela crítica” (sinto, porém, que teria sido útil ter dado nome aos bois aqui, a declaração é meio polêmica), e o mesmo vale para o seu uso idiossincrático das maiúsculas. Ele, no entanto, dentre os livros que tenho cá comigo (uma coleção que pretendo aumentar em breve) parece estar sozinho nessa opinião (ou pior talvez, mal acompanhado, junto de Grünewald), já que Isa Mara Lando, Augusto de Campos e José Lira todos tendem a manter, em algum grau, os travessões e até as maiúsculas. Talvez pelo fato de ele ter optado por uma tradução mais fluida, menos preocupada, ele mesmo diz, no trabalho (quase) impossível de manter o efeito de fragmentação lacônica de Dickinson, talvez essa limação dos travessões (que dão a impressão de ajudar a cortar graficamente a fluidez da leitura) seja justificada.

Então, como é costumeiro aqui no escamandro, com propósitos ilustrativos, selecionei 5 poemas da seleção de Ivo Bender, levando em consideração o seu enfoque nos poemas não traduzidos por outros tradutores, mas também querendo apontar para como ele traduziu um ou outro poema mais famoso (como o “There’s a certain slant of light”, que Britto também traduziu e que expus na postagem anterior) para comparação.

(Adriano Scandolara)

 

Como as águas o engolfaram,
Jamais saberemos;
Como espalmou-nos sua angústia,
Também ficou submerso.

Absorto, o lago estendeu seu lençol de nenúfares
Por sobre o menino;
E seu casaco e chapéu, não reclamados,
Resumem a história.


How the Waters closed above Him
We shall never know —
How He stretched His Anguish to us
That — is covered too —

Spreads the Pond Her Base of Lilies
Bold above the Boy
Whose unclaimed Hat and Jacket
Sum the History —

*

Há uma certa obliquidade
Na luz das tardes hibernais,
Que oprime feito o peso
Dos cânticos, nas catedrais.

Com celeste golpe nos fere
E não lhe achamos a cicatriz,
Apenas uma diferença interna,
Lá, onde jazem os sentidos.

Inalterável, essa luz
É signo de desesperança;
É aflição majestosa
Dos altos ares baixando.

Quando chega, fica atenta a paisagem
E não mais respiram as sombras;
Quando parte, é como a distância
Que no olhar da morte se encontra.

        

There’s a certain Slant of light,
Winter Afternoons —
That oppresses, like the Heft
Of Cathedral Tunes —

Heavenly Hurt, it gives us —
We can find no scar,
But internal difference,
Where the Meanings, are —

None may teach it — Any —
‘Tis the Seal Despair —
An imperial affliction
Sent us of the Air —

When it comes, the Landscape listens —
Shadows — hold their breath —
When it goes, ‘tis like the Distance
On the look of Death —

*

Se o mar, uma vez rasgado,
Outro, mais além, revelar
E esse, ainda outro, e os três
Forem suposição apenas

De mares periódicos
Desapossados de praias,
À beira dos mares do vir-a-ser,
Eis aí a Eternidade.

        

As if the Sea should part
And show a further Sea —
And that — a further — and the Three
But a presumption be —

Of Periods of Seas —
Unvisited of Shores —
Themselves the Verge of Seas to be —
Eternity — is Those —

*

A genciana tece suas franjas,
Rubra está a copa dos bordos;
As flores do meu adeus
Antecipam o cortejo.

Um mal breve, mas paciente;
Os aprestos, rápidos,
E alguém entre nós pela manhã
Com os anjos agora está;
Foi pequena a procissão,
Fez-se presente a narceja,
Uma abelha anciã nos saudou
E então oramos de joelhos;
Confiamos que estivesse pronta,
Para nós, rogamos a graça de estar –
Irmã – estio – arcanjo!
Permite-nos te acompanhar!

Em nome da abelha –
Da borboleta –
E da brisa – Amém!

        

The Gentian weaves her fringes —
The Maple’s loom is red —
My departing blossoms
Obviate parade.

A brief, but patient illness —
An hour to prepare,
And one below this morning
Is where the angels are —
It was a short procession,
The Bobolink was there —
An aged Bee addressed us —
And then we knelt in prayer —
We trust that she was willing —
We ask that we may be.
Summer — Sister — Seraph!
Let us go with thee!

In the name of the Bee —
And of the Butterfly —
And of the Breeze — Amen!

 

*

Os condenados miram a aurora
Com diferenciado prazer –
Pois, quando ao longe tornar a luzir,
Duvidam que possam vê-la.

O homem, que há de morrer amanhã,
Ao rouxinol do prado faz-se atento,
Pois seu trinar comove o machado
Sequioso de sua cabeça.

Feliz daquele, que a enamorada
Aurora precede – o dia!
Feliz aquele para quem
O rouxinol canta, sem cantar elegias.

        
The Doomed — regard the Sunrise
With different Delight —
Because — when next it burns abroad
They doubt to witness it —

The Man — to die — tomorrow —
Harks for the Meadow Bird —
Because its Music stirs the Axe
That clamors for his head —

Joyful — to whom the Sunrise
Precedes Enamored — Day —
Joyful — for whom the Meadow Bird
Has ought but Elegy!

(poemas de Emily Dickinson, tradução de Ivo Bender)

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