crítica, poesia

Do šīmtu ao fātum: sobre poesia, astrologia e noções de destino na antiguidade

Andreas Cellarius - Atlas Coelestis (1660)

Andreas Cellarius – Atlas Coelestis (1660)

…we make guilty of our disasters the sun, the moon, and the stars; as if we were villains on necessity; fools by heavenly compulsion; (…) My father compounded with my mother under the dragon’s tail, and my nativity was under ursa major; so that it follows I am rough and lecherous. —Tut! I should have been that I am, had the maidenliest star in the firmament twinkled on my bastardizing.

– Edmund, o bastardo, em Rei Lear

Este texto vai ser meio estranho, imagino, porque desta vez vou tratar de um tema que não é bem literário em si, que é a astrologia, mas o literário passa por ele, que é o motivo pelo qual eu acredito que ele tenha lugar aqui no escamandro ainda – e basta dar uma olhada nos motivos astrológicos na produção sonetística e dramática de um autor como Shakespeare para ter uma ideia disso, acredito. Não sei ao certo nem por onde começar a falar de algo tão espinhoso como astrologia, então vou partir do que me motivou a escrever isto, que foi ter discutido o assunto recentemente com alguns amigos quando veio à tona da questão de “os astrólogos acreditam mesmo que os planetas influenciam a gente?”. A resposta curta é que a maioria dos astrólogos modernos não acredita mais nisso (a lógica atual parece ser mais próxima da noção esotérica do As above, so below ou de algo como a teoria das correspondências swedenborguiana, algo de uma filosofia de sincronia entre a vida humana e o universo que se manifesta em arquétipos, mas não vai ser esse meu foco aqui), mas a astrologia moderna/contemporânea é o que aconteceu com a astrologia clássica depois de perder o seu estatuto como ciência considerada séria lá pelos meados do Iluminismo (adeus, astrologia, adeus, alquimia!) e ser sujeita a descobertas como as da física newtoniana, da psicologia (difícil imaginar que astrólogos falariam tanto em ego antes de Freud e Jung) e a existência dos planetas além de Saturno, para não falar nada da questão da preocupação da sociedade burguesa com o indivíduo que começa a despontar a partir do XIX.

Mas o interessante mesmo, pelo menos para mim, é observar as origens desses conceitos astrológicos. Todo mundo mais ou menos tem alguma ideia deles, quais são os 12 signos, a simbologia dos planetas, os elementos de cada signo, etc., mas o fato é que, apesar de tudo chegar a nós como algo pronto, é óbvio que nada disso surgiu assim. Áries é considerado um signo de fogo, Touro de terra, Gêmeos de ar, Câncer de água, etc., só que a noção dos quatro elementos clássicos é invenção do filósofo pré-socrático Empédocles (490 – 430 a.C.), o que significa, evidentemente, que antes dele sequer faria sentido falar nos elementos dos signos – e existe uma longa história da astrologia anterior à Grécia clássica. Mesmo o que cada constelação/signo (a diferença entre um e outro é que o signo zodiacal não ocupa o mesmo espaço no céu do que a constelação de fato, mas um espaço que é matematicamente especificado e dividido de forma igual pela eclíptica) representa é algo que variou um pouco até chegarmos nesses 12 signos especificamente: algumas como Escorpião (GIR.TAB, em sumério… o cuneiforme parece de fato um escorpião) permaneceram inalteradas desde muito tempo antes, mas outras tiveram outros nomes, como Áries,girtab que antes de ser um carneiro foi um LU.HUN.GA, i.e. um empregado. Mas, além disso, vários outros conceitos foram se transformando ao longo do caminho (inclusive o de destino), e a minha ideia aqui com este texto é dar uma olhada neles. Para isso vamos ter que voltar um tanto mais ainda no tempo.

A observação da natureza é um elemento crucial para toda cultura humana. Acho que esse é um ponto pacífico para tomarmos de partida: observar qual flor desabrocha em qual época, quando tal espécie de animal pode ser caçada, quando é o período das cheias, etc. é importante para a sobrevivência da sua tribo, aldeia ou cidade. O céu também não deixa de ser parte do mundo natural, e é provável que a observação do céu seja também um hábito desenvolvido separadamente por todas as culturas que tenham acesso a um céu observável. No entanto, porque foram os primeiros a desenvolver um sistema de escrita que se tem registro (por volta de 4000 a.C.), são os sumérios, na Mesopotâmia, o primeiro povo que nos deu os primeiros indícios de um conhecimento de astronomia/astrologia. Eles tinham já vários conceitos matemáticos (como o de teorema de Pitágoras), uma rica cultura divinatória, e deram nomes aos sete “planetas” conhecidos – de Mercúrio a Saturno, incluindo o Sol e a Lua – e às constelações e várias estrelas, mas esse conhecimento não chegou a se cristalizar num sistema coeso. Temos indícios aqui e ali – alguns portentos relacionados a eclipses lunares, o Cilindro A de Gudeia de Lagaš, o poema “A Bênção de Nisaba”, em que a deusa Nisaba aparece com uma tabuleta de lápis-lazúli, em que consulta “a escrita sacra das estrelas celestiais” –, mas realmente nada de muita substância. A cultura suméria desaparece por volta do segundo milênio, absorvida pela cultura babilônica, que falava acádio (uma língua semítica, diferente do sumério, que é uma língua isolada) e que desenvolveu um sistema de escrita cuneiforme com base num silabário mais abstrato (i.e. os símbolos se referem a sons sem se parecer com um objeto representado) e simplificado (i.e. uma quantidade menor de símbolos) do que o sumério.

Já entre os sumérios havia alguma associação dos astros com os deuses – por exemplo, Utu era o deus do Sol (que se diz ud), e Nana o deus da Lua –, mas é difícil dizer até onde ia essa associação, que na cultura babilônica já é devidamente estabelecida: além dos deuses para o Sol e a Lua (chamados Šamaš e Sin, respectivamente, mas no mais iguais a Utu e Nana), temos ainda Ištar (Inana, entre os sumérios) que é associada ao planeta Vênus (chamado dilbat em acádio), bem como Marduk e Júpiter (MUL.SAG.ME.GAR, no cuneiforme sumério, ou dāpinu em acádio), etc. É entre os babilônios que podemos começar a falar de astrologia como algo como uma disciplina propriamente. Antes disso, porém, precisamos ver como os babilônios entendiam o conceito de destino, porque é inevitável tocar no assunto de predestinação quando se fala de um método de adivinhação, que era então o principal uso da astrologia, visto que a genetlialogia, i.e. a confecção de mapas astrais, foi uma invenção posterior.

kudurru, ou pedra de fronteira, do período cassita na Babilônia

kudurru, ou pedra de fronteira, do período cassita na Babilônia, com motivos astrais: note a presença do disco do sol, a crescente da lua e a estrela de Inana

Para nós hoje falar em destino é complicado, porque herdamos a discussão toda a partir dos gregos e romanos, mas filtrada pelo cristianismo (para o qual a questão predestinação e onisciência divina versus livre-arbítrio é um problema teológico cabeludíssimo) e pela ciência moderna (sociologia, genética, nurture versus nature, etc., que também oferece sérios problemas éticos), mas o que tínhamos na Babilônia era um pouco mais simples. Para a religião suméria (que é herdada pelos babilônios, com modificações, claro, mais ou menos como os romanos herdaram o panteão grego), o destino era decretado pelos deuses. A palavra suméria para “destino” era nam ou nam-tar, cuja etimologia é algo obscura. Como prefixo, nam é utilizado para gerar conceitos abstratos a partir de palavras concretas, de modo que de lugal, “rei”, tira-se nam-lugal, “realeza”, ou de arad, “escravo”, nam-arad, “escravidão”, etc. Poderíamos entender nam-tar então como “decreto”, porque tar significa “cortar”, “decidir”, e então o conceito de nam sozinho como destino seria um encurtamento de nam-tar, mas nam aparece sozinho com mais frequência do que nam-tar e em textos mais antigos. Ou talvez nam-lugal seja “realeza” no sentido de “destino (nam) do rei”. É complicado. Mas, enfim. O que sabemos é que na mitologia suméria tinha algo chamado de “tabuletas do destino”, ou dub-nam-tar, que aparecem no poema “Ninurta e a Tartaruga”, que era um tipo de me (representações de decretos do mundo no formato de artefatos, como vimos em “A descida de Inana ao mundo dos mortos”) e quem quer que possuísse esse artefato decretaria o destino do mundo. Assim lemos em “Ninurta e a Tartaruga”:

dug4-ga-ni-ta ĝištukul-zu hul-a mu-ni-in-tag
me šu-ĝa2 šu ba-ba-ĝu10-de3 me-bi abzu-ce3 ba-an-gi4
ĝiš-hur šu-ĝa2 šu ba-ba-ju10-de3 ĝiš-hur-bi abzu-še3 ba-an-gi4
dub nam-tar-ra-/bi\ abzu-še3 ba-an-gi4 me ab-la2-e-en

 

às suas ordens, tangeu-me tua arma funesta
ao abrir mão do dom em minha mão, o dom voltou a Abzu
ao abrir mão dos desígnios em minha mão, os desígnios voltaram a Abzu
a tabuleta do destino voltou a Abzu e eu me vi sem meu dom

 

Na mitologia babilônica, as tabuletas do destino (com o nome de dup šīmati) aparecem no Enuma Elish, poema cosmogônico em acádio escrito entre 1100 e 700 a.C., onde elas são tomadas das bestas primordiais Tiamat e Abzu por Marduk, principal deus do panteão e um tipo de deus nacional, que através desse ato é elevado acima de todos os outros, inclusive Ilu (Anu em sumério), Ea (Enki) e Enlil. Assim, para um babilônio, o destino – šīmtu, do verbo šâmu, “decretar” – era um decreto divino, e a relação dos deuses com o ser humano espelhava a relação do rei com os seus súditos (mais sobre isso pode ser lido em detalhes no livro da Francesca Rochberg, In the Path of the Moon, que eu listo aqui na bibliografia), mas em nível cosmológico – inclusive a função do ser humano na religião mesopotâmica é unicamente a de servir aos deuses. Eles mandam, o mundo natural obedece.

E o que isso tem a ver com astrologia? Pois bem, a astrologia antiga era uma dentre várias formas de adivinhação. Ao lado da haruspicia (previsão feita com base nas vísceras de animais), a astrologia é considerada uma forma de adivinhação indutiva, i.e. que depende da observação sistematizada de sinais do mundo natural, em oposição ao tipo não-indutivo que é a oneiromancia (visões em sonhos) e a profecia (quando o deus dá uma mensagem diretamente), do qual os exemplos bíblicos são os mais marcantes, como Isaías, Jeremias e Ezequiel, mas que era um fenômeno comum no Oriente Médio (inclusive havia guildas, como uma profissão qualquer), com as tabuletas descobertas na cidade de Mari, na Síria, sendo um indício disso… o que encontra ecos também no mundo grego, com os oráculos. Para um babilônio então, os deuses decretavam o que iria acontecer, mas se você prestasse atenção aos sinais – e cada deus estava relacionado a um planeta, como vimos, ou a uma constelação, que mandam esses sinais – você poderia evitar desgraças ou aproveitar melhor as suas dádivas. Alguns portentos notáveis, como lista Ulla Koch-Westenholz, têm a ver com a posição de Marte, desde sempre um planeta ligado à violência, à guerra e à pestilência (não por acaso o planeta do deus Nergal). Mais de uma vez recomenda-se ao rei que tome cuidado e não se exponha muito enquanto Marte estiver em Escorpião. E é claro que a maioria desses portentos diziam respeito ao rei e à nação e não ao indivíduo, e muito da astrologia babilônica é visivelmente territorializada, na medida em que certos sinais indicavam possíveis invasões vindas de algum dos quatro pontos cardeais, que apontavam para outros povos vizinhos como os assírios ou os persas. Assim, não eram os planetas que causavam os acontecimentos, do mesmo modo como, por exemplo, não é o semáforo que move os carros ou os faz parar nos cruzamentos, mas o motor e o condutor. No entanto, não deixa de ser prudente parar ou seguir conforme as luzes indicarem. Acredito que essa seja a lógica por trás da relação entre o šīmtu babilônico e os astros, ou a “escrita divina” – uma metáfora recorrente na literatura da época e que aponta para esse caráter linguístico e sobretudo letrado do sistema astrológico em desenvolvimento na mesopotâmia.

Vamos pular agora uns mil e poucos anos para o início da era cristã. A grande figura da astrologia desse período final da Antiguidade clássica foi o Cláudio Ptolomeu, polímata grego que viveu em Alexandria entre 100 e 170 d.C., à época território romano (sente o tamanho da salada cultural) e que escreveu em grego koiné sobre astronomia, astrologia, música, óptica e geografia. Sua obra mais importante para o nosso assunto aqui foi o Tetrabiblos, a contraparte astrológica do seu tratado de astronomia, o Almagesto. E se você pegar lá o Tetrabiblos para ler, vai achar bem clara a noção de influência. Basta olhar a seção 4, “Dos poderes dos planetas”, que começa com: “O poder ativo da essência natural do Sol se encontra em aquecer e, em certo grau, em secar”, e depois afirma, da Lua, que o seu poder consiste em “umedecer, claramente porque está próxima à Terra e por conta das exalações úmidas que dela emanam”, o que me parece muito próximo daquela noção das avós de que não se deve sair de noite para “não apanhar sereno”. Enfim, pode-se ver que Ptolomeu trabalha com as noções de quente, frio, seco e úmido que também fazem parte da medicina grega clássica e têm a ver com a teoria dos humores, o que pode ajudar a entender porque no período medieval a astrologia foi tão importante para a medicina (felizmente esta é uma fase da cultura ocidental que foi superada, mas se você procurar bem você acha vários tratados astrológicos de medicina, inclusive no mundo árabe-judaico). As outras noções que tiveram vida mais longa na história da astrologia, sobretudo na prática, como a dos elementos nos signos, as casas astrológicas e os aspectos entre planetas, podem ser lidas na obra de um outro astrólogo, contemporâneo de Ptolomeu, mas um pouco mais novo e mais profissional do que ele (Ptolomeu, no fundo, é um matemático preocupado com os mecanismos por trás da operação dos astros), chamado Vétio Valente (120 – 175), autor das Antologias. Em Valente, vemos já não só a regência como já é bem conhecida agora (Marte rege Áries e Escorpião, Vênus rege Touro e Libra, etc), mas também como cada planeta rege cada parte do corpo e objetos inanimados. Daí que o Sol rege o ouro e a Lua a prata, como se pode ver nos símbolos alquímicos, a alquimia sendo na época uma outra disciplina que estava começando a dar seus primeiros passos (apesar de alegar origens bem mais antigas), de modo que os primeiros textos alquímicos seriam escritos por Zósimo de Panópolis, da virada do século III para o IV, mas isso já é tema para outra ocasião. Em todo caso, é fascinante poder observar como isso tudo vai se construindo cronologicamente. Como dito, para nós tudo já chegou pronto, mas observando assim pode-se notar em que ponto vão se dando os diálogos entre as várias áreas do conhecimento humano (mesmo que algumas delas venham a ser desconsideradas no futuro) para formá-las como as conhecemos hoje.

shamash

Mas, indo da Idade do Bronze para a era cristã, tivemos um salto temporal imenso aqui, e óbvio que muita coisa aconteceu nesse ínterim. Os grandes astrólogos que deram origem às tradições astrológicas posteriores são gregos e latinos, mas a astrologia não é bem uma prática nativa aos gregos, ou, se foi, certamente se perdeu no meio de caminho. Que eu saiba, não temos informação sobre observação astrológica/astronômica no período anterior ao período homérico (1100-800 a.C.), quando os povos do Mediterrâneo perderam as formas de escrita que tinham (os chamados Linear A, Linear B e os hieroglifos cretenses). Considerando o tanto de matemática envolvida para abstrair o movimento dos astros de modo a prevê-los com precisão para saber suas posições, mesmo quando o céu não é observável, é lógico que ter um sistema de escrita é indispensável para se desenvolver a astronomia e a astrologia, e os gregos só foram ter um alfabeto de novo muito depois, trazido famosamente pelos fenícios e adaptado para a realidade grega por volta do século VIII a.C.. E é do oriente também que vem a astrologia, e, como aponta Barton, há notáveis influências mesopotâmicas nos comentários de Hesíodo sobre a observação dos céus já em Os trabalhos e os dias. inclusive a relação que cada deus estabelece com cada planeta parece ter sido herdada diretamente. Ištar era a deusa do planeta dilbat/Vênus, e ela tem claros paralelos com a deusa Vênus (Afrodite, em grego, que viria a ser seu nome também mais tarde, mas antes do período helenístico o planeta tinha dois nomes: Phosphoros e Hesperos, porque os gregos achavam que eram dois planetas diferentes), inclusive é em seu mito com o deus Tâmuz que se encontra a origem para o mito de Vênus e Adônis. Também é possível encontrar paralelos entre o deus assírio Nabu (que vem a substituir a deusa suméria Nisaba como divindade padroeira da escrita), associado ao planeta Mercúrio, e Hermes, ambos sendo deuses que regem a escrita, mensagens, comunicação, etc. Marduk, associado a Júpiter, tem igualmente óbvias semelhanças com Zeus em seu papel como deus principal, e assim por diante.

No entanto, a falta de tratados ou mapas astrológicos gregos faz com que seja difícil apontar como a disciplina se transformou exatamente nessa viagem, e ela precisou se transformar, inclusive porque o conceito grego de destino – personificado nas três Moiras, chamadas Cloto, Laquesis e Atropos, responsáveis por separar o quinhão que cabe a cada um – difere muito do šīmtu babilônico. Falemos disso agora.

Como vimos, para um babilônico o destino é decidido pelos deuses, e essa decisão dá sinais no mundo natural para que o rei possa evitar se desgraçar e, com ele, toda a nação. Agora, para um grego a noção de que é possível fugir do destino soaria muito estranha, e a história de Édipo é o clássico exemplo disso: seus pais o levam para visitar um oráculo, o oráculo pronuncia que seu destino é matar o pai e casar com a mãe. Então eles tentam se livrar do filho, mas tudo dá errado e o destino é cumprido de qualquer forma. Nem mesmo os deuses são capazes de fugir do seu destino, como esbraveja Prometeu na tragédia Prometeu Acorrentado, a única peça sobrevivente da trilogia de Ésquilo sobre o titã ladrão do fogo. Diz ele sobre o destino funesto de Zeus:

Prometeu
Ainda não chegou a hora prefixada
pelas Parcas para a reconciliação;
somente após haver sofrido neste ermo
milhares de dores pungentes e outras tantas
calamidades, livro-me destas correntes.
O Destino supera minhas aptidões.

Corifeu
E por quem o destino é governado? Dize!

Prometeu
Pelas três Parcas e também pelas três Fúrias,
cuja memória jamais esquece os erros.

Corifeu
Os poderes de Zeus, então, cedem aos delas?

Prometeu
Nem ele mesmo pode fugir ao Destino.

(vv. 659-69, tradução de Mário da Gama Kury)

 

…ou então como podemos ver também, alguns séculos antes, na Teogonia de Hesíodo:

Noite pariu hediondo Lote, Sorte negra
e Morte, pariu Sono e pariu a grei de Sonhos.
A seguir Escárnio e Miséria cheia de dor.
Com nenhum conúbio divina pariu-os Noite trevosa.
As Hespérides que vigiam além do ínclito Oceano
belas maçãs de ouro e as árvores frutiferantes
pariu e as Partes e as Sortes que punem sem dó:
Fiandeira, Distributriz e Inflexível que aos mortais
tão logo nascidos dão os haveres de bem e de mal,
elas perseguem transgressões de homens e Deuses
e jamais repousam as Deusas da terrível cólera
até que dêem com o olho maligno naquele que erra.

(tradução de Jaa Torrano)

 

Fiandeira, Distributriz e Inflexível sendo os nomes traduzidos das três Moiras (Partes). O caso de Prometeu e Zeus é um pouco mais problemático, porque, apesar do que diz Prometeu, o que acontece ao fim da trilogia acaba contradizendo-o, visto que Zeus de fato escapa do destino de ser destronado por um filho mais forte que ele, como Prometeu prevê, justo porque Prometeu acaba revelando o segredo e permitindo que Zeus altere seu destino… mas não convém glosar mais esse caso e, de todo modo, ele serve para indicar que o conceito grego é um pouco mais complexo e traz consigo já uma potencialidade maior para problemas, exceções e contradições. Pois, se o destino é inescapável, para que serviriam os oráculos? para aceitar melhor o destino? ou essa lógica do “aceita que dói menos” seria uma interpretação estoica (posterior, portanto)? ou seriam os oráculos, com seus transes e frenesis, os resquícios de um período mais primitivo da cultura grega? Bem, não vai ser num texto breve e resumido como o meu que alguém vai descobrir a resposta para uma pergunta cabeluda dessas, mas eis algo para se pensar. Talvez a introdução da astrologia nesse outro contexto cultural tenha pesado para que os planetas deixassem de ser vistos como sinais e mais como influências propriamente: menos o caso de procurar previsões do que culpados, sobretudo os planetas chamados de maléficos como Marte e Saturno. Se você comete um crime por causa da influência de Marte, por exemplo, eis um culpado (além de você mesmo), e não deixa de ser o destino operando e te levando a isso através dos astros e/ou dos deuses. Além disso, nesse período pós-homérico temos os primeiros passos dos gregos no desenvolvimento da filosofia e dos princípios da física, como é observado no comentário de Ptolomeu. O sol esquenta e seca, eis aí uma influência observável de um corpo celeste. Seria possível, então, que os outros planetas (lembrando que, para a astrologia, Sol, Lua, Mercúrio, etc. são todos planetas, visto que a palavra vem do verbo planáō, πλανάω, que significa “vagar”, porque eles vagam pelo céu) também tivessem a capacidade de emitir forças e energias invisíveis. Como eu disse, também temos Empédocles desenvolvendo a teoria dos quatro elementos, Hipócrates com os quatro humores, e a cosmologia aristotélica. Por fim, segundo Roger Beck, a disseminação da cultura e língua grega durante o período helenístico permitiu que a astrologia/astronomia se desenvolvesse e fosse divulgada ainda mais, graças à facilidade de comunicação possibilitada entre a Grécia e o Oriente Médio, do Egito até a Pérsia. É perto desse período também, cerca de 100 anos antes, por volta de 410 a.C., que a genetlialogia começa a surgir na Babilônia, e fica claro que o conceito de influência dos astros casa perfeitamente com a ideia do mapa astral – a coisa de se atribuir os maus hábitos a ter nascido sob um astro ruim. Daí que Robert Burton, no século XVII, na Anatomia da Melancolia, comenta a relação entre a sua disposição melancólica e o seu signo zodiacal, Aquário, à época regido por Saturno (porque Urano ainda não havia sido descoberto), o astro dos melancólicos.

mapa-babilonicoPor fim, vale lembrar também que é essa noção de destino que é passada adiante para a cultura romana, que passa a chamar as Moiras pelo nome de Parcas e o destino por fātum – palavra cuja origem, como šīmtu, vem de fātus, do verbo for, “falar”, e que resulta nos nossos “fado”, “fatal”, “fatídico”, etc. Virgílio nos dá o melhor exemplo disso em sua Eneida, conforme acompanhamos a fuga de Eneias de uma Troia invadida e saqueada rumo a Cartago, um império de origem fenícia onde hoje é a Tunísia, e de lá para a península itálica onde é seu destino fundar Roma. Tanto no mundo grego quanto no latino, o destino oferece um esboço esquemático dos acontecimentos por vir e nos diz o que vai acontecer, mas não como ou quando. Seja o que for, Eneias está fadado a fundar Roma, e o resto é detalhe: Dido, a rainha de Cartago que se apaixona por ele, pode levá-lo a postergar seu destino, e as forças de Turno, na Itália, podem atrasá-lo e causar-lhe graves perdas (como a da vida de seu amigo Palas, morto em combate), mas não podem impedir esse destino de se concretizar – e nem mesmo Juno, que é uma deusa e está contra Eneias, é capaz disso. O próprio Eneias poderia resistir e se debater contra o seu destino, mas, quanto mais resistisse, pior seria – e que ele é uma figura que aceita o seu destino é uma das virtudes do personagem para o seu público romano. Daí que surge a noção do amor fati, amar o próprio destino, não importa qual seja, mesmo que envolva dor e perda. No caso de Eneias, temos a tensão entre esse amor fati e o amor erótico, pois enquanto estava em Cartago, ele se envolve com Dido, mas não pôde ficar, e ela, atormentada pela rejeição e desonra, acaba se suicidando após sua partida, o que nos rende uma cena dolorosíssima quando ele desce ao mundo dos mortos no livro VI e a reencontra lá. Óbvio, no entanto, que mesmo que o destino de Eneias acabe trazendo essas agruras, ele ainda é um destino grandioso. Fica um pouco mais difícil de se falar em amor fati no caso, para voltar no exemplo, de um Édipo da vida, fadado a casar com a mãe e matar o pai. Mas a concepção trágica que sustenta a narrativa de Édipo não é bem um elemento constituinte da visão de mundo latina, pelo visto.

Algo desse tipo também pode ser visto em Horácio. E, sim, perdoem o clichê, mas eu vou citar o poema do carpe diem:

Odes

I.11

Tu nem vás perguntar (ímpio é saber) sobre o que a mim e a ti
que fim deuses darão, Leuconoé, nem babilônios
astros ouses tentar. Antes viver o que vier, sem mais.
Quer invernos sem fim, ou só mais um, ceado Júpiter
que hoje a se debater rasga o rochaz leito em Tirreno mar,
saibas saborear, coa este vinho, eis que num curto chão
poda o longo esperar; nesta conversa, ínvido o tempo já
foge. Colhe este dia, ah!, sem pensar nunca nos amanhãs.

(tradução de Guilherme Gontijo Flores)

 

(ó de novo a menção à Babilônia como referência para a astrologia)

Não precisamos ser extremos como Horácio, no entanto, em desprezar todo aparato divinatório, para sermos bons romanos. A astrologia, no caso, poderia hipoteticamente, dentro dessa mentalidade, servir não tanto para se tentar evitar o destino, mas para descobrir que destino seria esse para que ele possa ser aceito – e este é o tom geral, inclusive, do discurso dos astrólogos modernos quando falam de um elemento do mapa astral chamado de nodo norte, uma abstração matemática que define o ponto em que a Lua cruza a eclíptica e que teria a ver com o nosso destino (na literatura da renascença, o nodo norte é chamado de “a Cauda do Dragão” a que Edmund se refere na epígrafe desta postagem, mas a sua interpretação, à moda renascentista, segue a linha da coisa das influências benéficas ou maléficas de que falamos anteriormente). Horácio parece fazer companhia às outras figuras letradas de sua cultura, como Cícero, que escreveu um tratado sobre o assunto, De Divinatione, em seu desprezo pelas artes divinatórias. E, vale lembrar ainda, o personagem de Trimalquião, a caricatura de um noveau riche e uma das grandes invenções cômicas de Petrônio em seu Satíricon, aparece, entre os seus vários excessos de mau gosto, decorando os pratos de seu banquete com as formas dos 12 signos do zodíaco (cap. 46). A popularidade da prática de astrólogos como Vétio Valente, porém, aponta para a possibilidade de que talvez fosse o caso de haver uma distinção de classe no assunto de se levar a sério a astrologia. Mas estamos apenas especulando, claro.

mosaico de uma sinagoga do século VI em Beit Alpha representando o zodíaco

mosaico de uma sinagoga do século VI em Beit Alpha representando o zodíaco

Tem mais algumas coisas que poderíamos incluir nessa discussão, como a concepção judaica de destino e influência dos astros. Destino, em hebraico bíblico, se diz goral (גורל), que é o termo usado para a prática de se tirar a sorte (tipo tirar a sorte no palitinho), como se observa na Bíblia em Jonas 1:7, mas o conceito é válido também, assim como o das Moiras, para se referir ao nosso quinhão na vida, que é como a palavra aparece em Isaías 17:14. No entanto, o destino é regido por YHWH, porque, para a cosmovisão judaica, absolutamente tudo é regido por YHWH, mas ainda assim há espaço para o conceito grego de influência dos astros (contanto que com o devido consenso de YHWH), considerando como o período helenístico influenciou a cultura judaica (com obras como o livro de Eclesiastes sendo resultado disso), mas também há referências às estrelas como um tipo de escrita ou portento, na medida em que a palavra do hebraico talmúdico mazal (מזל), “sorte”, é derivado do termo bíblico mazalot (מזלות), “constelação”, da onde parte a expressão mazal tov, que, apesar de equivalente ao nosso “parabéns”, significa literalmente “sorte boa” ou “boa estrela”. E claro que a invenção rabínica do HaOlam HaBa (העולם הבא) “O mundo por vir”, complica as coisas também, porque dá uma dimensão extra ao destino, ao conceber uma outra vida após a morte – e eu a chamo aqui de uma invenção rabínica, porque a expressão aparece no Talmude, ao passo que o conceito de existência post-mortem no texto bíblico em si, o Sheol (שאול), é semelhante ao Hades grego ou ao mundo dos mortos mesopotâmico. Mas essas conjecturas todas são difíceis de se fazer, especialmente porque a halakhá, a lei rabínica, proíbe a astrologia, bem como outras formas de adivinhação – só que, para piorar, apesar da proibição, a astrologia foi muito praticada entre os judeus ainda assim, o que serve para dificultar qualquer tentativa de se chegar numa visão unívoca e oficial. Mesmo no período medieval, você vai ter figuras tanto defendendo e praticando a astrologia (Abraham Ibn Ezra) quanto condenando-a (Maimônides). O buraco é bem mais embaixo.

E isso conclui o nosso pequeno tour pela astrologia da Grécia e Babilônia antigas. Essas noções todas podem não lançar muita luz sobre como funciona a astrologia hoje, e talvez tudo acabe trazendo mais dúvidas do que podemos responder, mas creio que ajudam a explicar como ela se tornou o que é, sendo um exemplo dos mais fascinantes da passagem de ideias entre culturas e o seu refinamento ao longo dos séculos. E obviamente essas noções todas sobre destino e adivinhação deixam marcas na literatura dos povos, que seria uma demonstração de miopia literária ignorar.

Adriano Scandolara

 

Bibliografia teórica

BARTON, Tamsyn. Ancient Astrology. Londres: Routledge, 1994
BECK, Roger. A Brief History of Ancient Astrology. Oxford: Blackwell Publishing, 2007.
GRAFTON, Anthony & NEWMAN, William R. (ed.). Secrets of Nature: Astrology and Alchemy in Early Modern Europe. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2001.
KOCH-WESTENHOLZ, Ulla. Mesopotamian Astrology: An Introduction to Babylonian and Assyrian Celestial Divination. Copenhague: Museum Tusculanum Press, 1995.
ROCHBERG, Francesca. In the Path of the Moon: Studies in Ancient Magic and Divination. Leiden: Koninklijke Brill, 2010.
___________________. Heavenly Writing: Divination and Horoscopy, and Astronomy in Mesopotamian Culture. Cambridge: Cambridge UP, 2004

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